Afoxés: Por diferentes pontos de vista, os primeiros passos!


afoxés carnaval de salvador
Foto Fafá Araújo

Falar sobre a presença do Afoxé no carnaval é pensar sobre a relação entre os toques de matriz africana e a sociedade de Salvador. É entender a expressão musical a partir das cantigas e instrumentos das religiões de matriz africana, orientados pela fé e pelo culto. E compreender estas entidades carnavalescas como extensões dos Terreiros que levam ao carnaval, suas cores, letras, crenças e promovendo um verdadeiro “candomblé de rua”.

Do ponto de vista carnavalesco, o Afoxé é uma manifestação derivada do ijexá – toque nagô/iorubá presente em parte significativa dos candomblés da Bahia e produzida a partir dos sons dos atabaques, agogôs e xequerês. Do ponto de vista etimológico, dos vários entendimentos, seguiremos o professor Antônio Godi que apresenta o “Afoxé”, a partir da fusão de expressões de origem nagô e sendo, (sopro) e axé (poder de realização).

afoxés carnaval de salvador
Embaixada Africana – Banco de Imagens

Já pelo olhar histórico e carnavalesco, posso sintetizar com o pioneirismo de duas entidades que se adequaram aos padrões do período, conservando valores e tradições negras.

Elas consolidaram-se enquanto as primeiras entidades carnavalescas negras (os clubes negros) que desenvolveram visibilidade na história do carnaval.

Primeiramente, o Embaixada Africana que, surgido em 1885, foi considerado por Nina Rodrigues como ‘negro de alma branca’ e ficou conhecido por um manifesto, no qual questionava ao governo brasileiro indenização pelos africanos castigados na Revolta do Malês.

afoxés carnaval de salvador
Mercadores de Bagdá – Banco de Imagens

E o clube “Os Pândegos da África” nascido no ano seguinte, que desfilou com alegorias e carros, levando negros às ruas vestidos de reis, gurus e feiticeiros africanos, cantando em iorubá.

Estas entidades fizeram das ruas um espaço de contestação, indicando que carnaval não seria espaço exclusivo “dos brancos”. E não estavam sozinhas. Seus caminhos deixaram o legado para o surgimento de outras entidades, como “Nagôs em Folia”, “Lembranças da África”, “Mercadores de Bagdá”, “Cavalheiros de Bagdá”, “Filhos de Obá”, “Filhos de Odé”, “Chegada Africana” e “Ideal Africano”.

Os primeiros toques dos Afoxés no carnaval foram os primeiros passos da sociedade no combate à intolerância religiosa, ocupando as ruas e reverenciando a herança religiosa.

Com roupas de candomblé, cantigas de candomblé, ‘ginga’ de candomblé e é claro, a fé no candomblé, o desfile de um Afoxé – muito mais do que integrar o carnaval – levava e ainda leva o interesse de uma entidade, de uma casa ou de uma liderança em ocupar a rua e reverenciar sua religião publicamente. Isso é enfrentamento. Isso é empoderamento da cultura afro. Isso é reparação!

afoxés carnaval de salvador
Korin Efan – Banco de Imagens

Sabemos que as maiores transformações negras foram construídas através do campo cultural e o entendimento da religião não foi diferente.

Se hoje falamos de orixás, inquisses e voduns, usamos contreguns, contas e saudamos publicamente às divindades, parte do espaço foi aberto pelas entidades de afoxé, que levam o xirê ao Carnaval de Salvador.

Estas entidades permitiram o começo de uma longa caminhada dos filhos, filhas, mães, pais e irmãos do candomblé na luta contra a criminalização da religião e o ódio contra a mesma. E são estes os foliões que todos os anos levam dezenas de entidades e suas reverências ao carnaval de Salvador, principalmente no circuito Batatinha.

afoxés carnaval de salvador
Filhos de Gandhy – Arquivo Roosewelt Pinheiro

O desfile das entidades de afoxé é – portanto – um objeto concreto de enfrentamento e combate ao racismo. E não é pretensioso afirmar que: falar da presença dos afoxés no carnaval de Salvador também é falar de umas das primeiras formas de resistência negra na Bahia.

camilla-francaCamilla França, jornalista, mestranda em Cultura e Sociedade, com pesquisa sobre a participação de entidades negras no Carnaval de Salvador, sob orientação de Paulo Miguez . Este é o segundo artigo da série “Carnaval de Ouro & Negro”, que o Portal SoteroPreta trará até a folia, resgatando a história negra no Carnaval soteropolitano.