As “liberdades” da soterópolis baiana e os fantasmas da escravização


As fraseologias baianas, principalmente as de Salvador que têm as “bruxas” cotidianas – os apertos de mente do frenesi da soterópolis a compor a comunicação dialetal da cidade – se observadas em sua profundidade – podem nos deixar suspensos da matrix festiva. Podem demonstrar as violências, prisões psicológicas e linguísticas, resquícios ainda dos séculos de escravização e racismo que a população negra da Bahia passou e passa.

Escrevo isso porque, há dois dias, ouvi no ponto de ônibus um homem negro de meia idade falar (em conversa com outros amigos) uma frase que me deixou desperto. Me tirou do comum cotidiano, da dinâmica do calendário festivo – organizada pela branquitude neste verão – para controlar ou usar nossos corpos e mentes, constituindo mais riqueza e poder.

davi nunes população de salvador
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Senti a sua voz em toar tambórico no ouvido, quando ele falou, antes de eu entrar no ônibus: “disse um monte de liberdades pra eles e eles queriam me matar!”. O “dizer liberdades” me afetou e me fez refleti profundamente, pois a necessidade de dizê-las significa que temos a fala aprisionada. E ter a fala aprisionada significa que não somos livres, mesmo quando gritamos.

O grito sai mudo, abafado pelos grilhões. E o grito mudo é a morte da cidadania, a subserviência e a escravização. Pensar que “as liberdades” que aquele homem disse me fizeram imaginar prisão e escravização – isso doeu. Sei que “as liberdades” às quais ele se referia no dialeto baiano foi um desabafo.

davi nunes população de salvador
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Ou alguma ofensa para alguém, mas não era essa a questão. Foi uma frase semântica que, para mim, trouxe uma sensação de aprisionamento da população negra na cidade. Sei que os grilhões estruturais – o racismo – dão uma prisão perpétua a cada negro e negra nesse país. E isso é louco.

Assim, entrei no ônibus, sentei e comecei a pensar quando fomos livres realmente. Livres para dizermos as “nossas liberdades” nessa diáspora que nos sucumbe. Coletivamente, me veio à mente o quilombo, os terreiros em seu princípio fundador.  Individualmente, as ações de libertação, a exemplo do homem ou mulher escravizado que matou seu escravizador(a) em grito de liberdade.

Ou mesmo o homem ou mulher que, depois de anos de prisão, comprou sua alforria e a dos seus em xeque-mate libertador. Depois, senti se fixar – em movimento de viagem – na minha mente, a rainha quilombola Zeferina do Quilombo do Urubu. Ela, em 1826, disse no campo de batalha a “liberdade” mais ousada já proferida na Cidade do Salvador: “Viva os negros, morte aos Brancos!”

Pelourinho
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Saltei do ônibus, andei sobre os paralelepípedos históricos do Pelourinho, escutei o tambor e observei que todos tinham o corpo livre no fluir festivo do verão – e as mentes presas. Situação que me remeteu à época da escravização, quando a lógica era outra: corpo preso e a mente livre, pois o pensamento de libertação acompanhava a vida inteira.

As liberdades, em seu sentido transformador, já quase não são mais ditas. Tem o tilintar dos grilhões em sua fraseologia, mas sei que há também quem queira quebrar os grilhões para proferi-las em sua semântica verdadeira – ancestral, em seu poder.

davinunesTexto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com), especial para o Portal SoteroPreta.