Galeria de Heróis – Luiz Gama! – Por Jaime Sodré


Durante o período do colégio, na juventude, era normal o registro e memorização de figuras consideradas importantes segundo alguns historiadores. Hoje, noto a ausência de nomes exemplares que com certeza servem de inspiração e merecem resgate, reconhecimento e homenagens.

Em tom recreativo, colegas perguntavam: quem descobriu o Brasil? Respondíamos: PEDRO ÁLVARES CABRAL! Alguém retrucava: UM CASCUDO NÃO FAZ MAL! Estavam memorizados o saber e o bullying. Recorro a este espaço para homenagear um dos nossos esquecidos heróis. Ao menos não lembrado no mínimo como merece. Tento banir aqui a ingratidão, trazendo à cena esta personalidade nascida na Bahia em 21 de junho de 1830. É com jubilo que apresento “O BODERRADA”.

“Em verdade vos digo, … afrontando a lei, que todos os escravos que assassinam o seu senhor, pratica ato de legítima defesa”. “Quem sou eu? Sou negro sou bode, pouco importa o que isto pode? Bode há em toda casta. Pois que a espécie é muito vasta…, há cinzentos, há rajados, baios, pampas, malhados, bodes negros, bodes brancos e, sejamos muito francos uns plebeus e outros nobres(…).

Ex-escravo, ex-soldado,  copista, poeta, autor do livro  “Primeiras Trovas Burlescas”; jornalista e advogado, artífice da libertação de mais de 500 escravos, autodidata em todas as funções. Senhoras e senhores: LUIZ GONZAGA PINTO DA GAMA.

Perdeu a mãe, Luiza Mahin, muito cedo. Atuante na Revolução Malê na Bahia de 1835, e na Sabinada, Luiza fugiu para o Rio deixando o filho com o pai branco, que o vendeu com a idade de 10 anos a um negociante de São Paulo. Este não conseguiu vendê-lo, permanecendo como escravo e fugindo aos 18 anos.

Alistou-se na Guarda Municipal, casou-se em 1850, tendo um filho, que se tornou Comandante do Corpo de Bombeiros em São Paulo.

Gama tornou-se copista de documentos oficiais por meio do Conselheiro Furtado, seu amigo. Aproxima-se do professor de Direito, José Bonifacio,“o moço”, na Faculdade do São Fancisco; Gama torna-se conhecedor das Letras brasileiras e jurídicas, devorador das bibliotecas de seus amigos.

Em 1859, publica “Pequenas Trovas Burlescas”, que o tornara conhecido entre intelectuais e leitores, destacando-se o poema “Bodarradas”. Ele exercia um humor escatológico, lírico e romântico. Perdera o emprego para os “Conservadores”, que o consideravam liberal e “inimigo público”. Foi trabalhar no jornal, fazendo amizade com Castro Alves, Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa, abolicionistas. Como jornalista, torna-se atuante e combativo, defende o ensino gratuito para as crianças pobres, liberdade para todos os escravos, a criação de bibliotecas comunitárias e defesa da república.

Luiz Gonzaga Pinto da Gama cria o primeiro jornal cômico de São Paulo: “O Diabo Coxo”, em 1864. Gama chamava-se “o Orfeu de carapinha”; atuou como rábula e arrecadador de fundos para alforria. Ao seu enterro, de comoção,  compareceram jornalistas, advogados professores, escritores, muitos negros, ex escravos, e até senhores de escravos.

LUIZ GAMA, abolicionista baiano, cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras, um nome a ser lembrado. “Ah, quem descobriu o Brasil foi o negro” (Caetano Veloso).

 

Prof. Dr.Jaime Sodré,  historiador.

Black Lives Matter! – Por Jaime Sodré


FOTO: CHANDAN KHANNA/AFP

 

Amai-vos uns aos outros, que dificuldade extrema para aplicarmos esta máxima, e o racismo é o descompromisso atrevido e doloroso a esta máxima. A morte do segurança negro George Floyd por um policial branco gerou uma indignação global, provocando a maior manifestação antirracista desde da década de 60.

A passeata de caráter pacifico, em alguma oportunidade resultou em conflitos fruto, segundo manifestantes, da infiltração de baderneiros, distantes da finalidade da manifestação, que objetivava demonstrar as autoridades americanas e ao mundo que precisamos mudar esta visão de inferioridade do povo negro, submetido a agressões de toda ordem, culminando com o assassinato do cidadão norte americano, negro.

Em função da ação dos manifestantes, num protesto que unem negros e brancos, com gestos simbólicos e pacíficos, a ação policial tronou-se agressiva, com toque de recolher, e o presidente Trump prometeu usar o exército, quando momento pedia diálogo.

O Chefe de Polícia do Texas dissera que se o presidente não tinha nada para falar o melhor era ficar calado, e completara “AQUI NÃO É ´HOLLYWOOD, ISTO É VIDA REAL”. O Presidente foi até uma igreja e exibiu uma Bíblia aos manifestantes, estes jogaram-se no chão entoando a frase dita por Floyd antes da sua morte – “não consigo respirar”. Em vários locais esta postura era repetida, colocando-se um joelho ao chão. O irmão de Floyd, presente à manifestação, emocionado, dissera que sempre há manifestações, mas o problema de assassinato de negros continuam ocorrendo, cobrando mudanças. BLACK LIVES MATTER diziam os cartazes soando, para todo o mundo, e o nosso racismo de todo dia? Que faremos ou o que estamos fazendo?

Amamos uns aos outros? O racismo, a sua extinção, é o compromisso de todos nós.

À frente das manifestações americanas estavam jovens negros e brancos, pedindo um outro mundo, quando será? Estamos ávidos para o dia em que a cor da pele seja apenas uma questão de detalhe desprezível, pois o que importa é o caráter.

Prof. Dr.Jaime Sodré,  historiador.