Dois mil e vinte: o ano da justiça e da verdade! Por Luciane Reis


AP Photo/Julio Cortez

O ano de 2020 é da justiça e da verdade para o povo negro. Sob a regência de Xangô, temos cobrado justiça por toda (des) ordem social de pobreza e violência vivida até os dias atuais. A dificuldade de assumir uma identidade de luta em ações cotidianas faz com que os modelos de violência do Estado brasileiro fortaleça o racismo institucionalizado junto à sociedade. Para Maria Rita Kehl, ao se ver como um povo avesso ao ressentimento, ou seja, sempre alegre, festivo e que perdoa com facilidade, deixamos de alimentar uma mágoa necessária à alteração das violências que somente o excesso de memória via o ressentimento tem capacidade de despertar.

Ao valorizar o perdão e ações simbólicas como parte das ferramentas de alteração da realidade negra, deixamos de atuar em uma parte significativa dos agravos vivenciados no âmbito social, político ou econômico e que, na maioria das vezes, são ativados pela memória da dor. O historiador Marcos Rezende, recentemente em suas redes sociais, nos convidou  a  retirar o clima de euforia e desejo de uma resposta à altura ao vermos  as cenas de  reivindicação do direito à vida negra em  Minneapolis (EUA). E pensar as diferentes realidades entre esses dois pólos de debate diante do desejo de agir da mesma maneira que os afro americanos à violência racial.

DAVID JOLES – STAR TRIBUNE

A forma como todos os setores, inclusive brancos, responderam à ação demonstra a importância de os ter como aliados na luta anti-racista, mas não enquanto vozes de alteração de nossa realidade. Uma olhada rápida nos comportamentos  periférico e partidário,  demonstra como não ser os  referenciais de luta e esperança da comunidade negra violentada e vulnerabilizadas dificulta nossa  capacidade de mudança de realidades tão duras e, em especial, do sistema judiciário e economico brasileiro.

Não ser  os homens e mulheres negras que os “líderes comunitários” e representantes negros dentro dos partidos apoiam ou levam para as comunidades na esperança de construir uma realidade melhor,  faz com que  depositemos nossos ideais e visão de mundo na mão de quem nunca vivenciou 1\3 do que passamos diariamente. Ao  revisitar nossa tecnologia de luta de forma tão profunda, trazemos  à tona o ressentimento deste processo de violência e indignidade vivenciada ao longo da história. Necessária à criação de ações concretas de posicionamentos e posturas sem que essa fonte de viabilidade venha de mãos brancas. Precisamos nos apropriar dos ganhos econômicos brasileiros e diaspóricos, afim de construir um ambiente menos hostil para nossa proteção e retaguarda.

Ao fazer o caminho financeiro negro, trazendo para o centro do debate o impacto negativo do pensamento social financeiro brasileiro, rompemos  com o sentimento de gratidão eterna aos segmentos brancos, em especial de esquerda. Devolvemos, então, o protagonismo negro e  quebramos com essa rendição social que nos faz continuar  elegendo vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e presidentes  simpatizantes de nossas lutas. Mas que nos brindam com a uma reparação que não ultrapassa a  antecipação simbólica de que somos iguais perante os outros.

Não podemos continuar acreditando que a antecipação simbólica do reconhecimento de nossas lutas e protagonismo dá conta da inexistência de um processo reparatório concreto da realidade negra por si só. Precisamos, como afirma professor Edson Cardoso, fazer a auto crítica sobre nosso comportamento racial durante um governo de esquerda no que tange a pauta racial e, de praxe, as condições de ocupação dos espaços de poder social, político e econômico. Precisamos ter coragem de reivindicar e debater a participação política negra de forma a fazer a disputa de poder com recorte racial, sem negociar nenhuma pauta. Dar como “brinde”, por sua empatia quanto a nossa causa, a reeleição como herança familiar só tem construído uma resistência civil de aglutinação e passividade que produz Aghatas, Marieles, Joãos Pedros e tantos outros por conta de uma  postura pacífica de cobrança de soluções  a uma  violência física, mental e moral.

A submissão voluntária aos modelos de opressão negociada com os brancos via introjeção dos seus  valores, falas, diferentes  classes dominantes, ordens dos estados e partidos, tem feito com que a elite da esquerda brasileira continue sendo as beneficiadas, enquanto continuamos chorando e vivendo sem dignidade em nossas comunidades. Continuar se submetendo e obedecendo estas orientações, usando como desculpa a “disputa de  pautas  dentro das legendas”, só tem fortalecido o modelo de extermínio institucionalizado. Sem que ocorra uma discussão sobre um modelo de reparação de fato eficaz junto a um país que nunca fez auto critica ao fato de ter sido o último a  encerrar a escravidão e entregar um segmento racial a sua própria sorte. Depois deste povo construir com sangue e suor a riqueza brasileira.  É esse modelo de reparação que nunca chegou, que continua nos matando até os dias de hoje via ausência de pragmatismo quando se pauta o trauma social que foi a escravidão no passado, e a forma como se vive hoje a violência de Estado contra o povo negro.

Até quando abaixo-assinado, hashtag, nota de repúdio, posicionamentos pacíficos e pedidos para que PAREM DE NOS MATAR continuarão sendo usados como ferramentas de luta? Que ação coletiva usaremos para que possamos ser de fato enxergados, escutados, atendidos dentro desta luta pela vida? Precisamos revisitar o trauma social causado pela ausência de humanização, constrangimento e compromisso com a condição de vida da população negra, em especial pelos setores da esquerda. Não podemos continuar louvando uma pseudo igualdade de direito como benevolência por quem aceitou atuar na pauta. Isto faz com que os oprimidos contentem- se com intervenções simbólicas e fragilizadas aos ambientes que vivem.

É preciso que o estado cumpra com sua responsabilidade de forma pragmática e isso não acontece enquanto não soubemos qual a participação política efetiva negra? O que consideramos disputa de poder com recorte racial, e principalmente o que não se negocia nesta pauta numa perspectiva política e financeira.   Precisamos romper com a imagem de país benevolente e reivindicar nosso direito de ter reconhecimento como um povo sério e de luta com pessoas que derramaram sangue por determinados direitos. Precisamos nos reconhecer ao revistar nossa história de revolta, de forma que nosso ressentimento seja a mola de alteração desta realidade.

Que o  machado de dois gumes de  Xangô desça sem pena e complacência contra quem há séculos violenta, mata e desumaniza a população negra.

Kaô Kabecilê, venham todos saudar o rei!!!!

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum

E nossos homens e meninos pretos? – Por Luciane Reis


 

Demétrio Campos

Demétrio Campos foi um homem trans que não suportou a opressão da construção diária da fragilização da potencialidade social e intelectual masculina negra. Tenho a um tempo conversado com meu amigo Durval Azevedo sobre essa ausência de redes de apoio e empoderamento masculino. Falar sobre masculinidade tóxica, estar para além da relação homem X mulher negra. Afinal, não podemos balizar todos sejam homens ou mulheres pela mesma balança. Achar que todos (as) são positivas e sempre vítimas ou algoz quando se fala de afetividade, é tirar destes sua humanidade. É da natureza do ser humano, como bem diz professor Lúcio André as diversas personalidades e interações emocionais.

Precisamos conversar sobre redes de fortalecimento masculino negro, ou perderemos nossos meninos. Sim, meninos.  Sou filha, irmã, amiga e prima de homens negros e acompanho a dura realidade da violência que esses passam no mercado de trabalho, onde só tem acesso a subempregos que matam diariamente seus sonhos e construção de outras realidades. As abordagens sociais e institucionais que cobram destes tudo que não lhes foi dado com um grau extremo de violência, desrespeito, deslegitimação e desqualificação, é o que tem feito muitos homens negros entrar em depressão e em casos extremos cometer o suicídio dentre outros. Costumo dizer que JAMAIS reencarnaria um homem negro, e Demétrio Campos, um homem trans em seu vídeo postado meses antes de tirar a própria vida, relata as dores de estar na pele destes enquanto vinha passando pelo processo de transição de gênero que consolidava a leitura deste enquanto um homem negro pela sociedade.

Assistir o vídeo postado por Tairo Rodrigues sobre as dores que ele vivenciava ao se entender e viver como um homem negro me abriu diversos gatilhos emocionais. Lembrei-me de como meu irmão surtou e passou anos entrando em hospital psiquiátrico, por não consegui dá conta das cobranças de atitudes, posturas e comportamentos sociais da família e estado sem estrutura, rede de apoio ou pessoas que apontassem qual caminho a seguir, de meus alunos homens que me ligam desesperados pedindo ajuda para emprego e relatando as falas dos familiares e violências sofridas por não estarem no patamar que esperam que estejam na idade que tem. De amigos, quase surtando por mesmo que tivesse feito quase tudo que cobravam deles, não ter realizado o ideal de familia ou comportamento e status social.

 

Por “cancelamento”, transfobia e racismo, homem trans Demétrio Campos põe fim à própria vida

Não estou aqui defendendo o machismo, mas falando de como ser visto e lido enquanto homem negro, independente do espaço que esteja é uma dor solitária, desigual e violenta. Afinal, não é fácil falar de “Fracasso” ou lutar por um futuro sendo julgado e acusado de todos os lados. Estou falando de como o empoderamento das mulheres negras, precisa servir de exemplo e case aos homens na construção de frentes e projetos que rompam com a reafirmação das masculinidades negras, construa uma outra realidade para 11, 8 milhões de analfabetos onde segundo o IBGE, 9,9 são homens negros.  Refletir sobre a necessidade de fortalecer os homens negros de forma a permitir uma revisão das posturas machista ao mesmo tempo que constrói um diálogo real com o seu auto desenvolvimento, é permitir a esses a alterar uma realidade, construída em formatos nem sempre saudáveis quando se fala de trabalho bem remunerado.

Aos homens negros, cabe pensar formas de estimular a auto organização, ajuda compartilhada e reflexão sobre o modelo de humanização de seus corpos construídos por uma lógica racista.É caminhando por esse processo de auto organização e redes de apoio que esses podem não somente alterar suas realidade como garantir relações saudáveis, financeiramente confortáveis e compartilhada para eles e para quem o cerca de maneira  que não mais permita a outros Demétrios se construírem sozinhos, lutando contra estado e sociedade sem espaços de trocas de afetividade ou parcerias  pessoal, profissional e educacional. Sei que posso ser trucidada por esse posicionamento, mas tenho ousado olhar esses sobre outra perspectiva.

Sou fruto do Pompa, um projeto de fortalecimento de lideranças mistas do Instituto Steve Biko. Relembrando aqui meus colegas homens do projeto, até onde eu sei nenhum constituiu familia ou relacionamento com mulheres brancas. O que prova que a depender dos modelos de formação e abordagem, é possível ter homens negros estabilizados e com famílias negras sobre outra perspectiva e ambiente. É importante continuar fortalecendo mulheres negras, mas como bem relata Demétrio, existem diversas masculinidades  que nos faz ter que atentar   para o cuidado emocional e humanizado de forma a permitir  esses  construir outros modelos de fortalecimento pessoal e coletivo que permita combater seus algozes.

 Demétrio não suportou as dores de ser lido e visto como um homem negro em um estado e sociedade que mata por cor e destruição diária de sua autoestima e humanidade como desabafado em seu vídeo. Ao ser lido socialmente como mulher, ele relata como o assédio masculino o adoecia, as chamadas “brincadeiras” vivenciadas enquanto lesbica o machucava. Mas ser lido e visto como um homem negro por todos os setores, inclusive feminino, fez ele sentir mais de perto a dor desta leitura e olhar como a encarnação do mal em potencial. Neste momento, mas do que seu emocional violentado, seu físico também passa a ser agredido diariamente sobre diversos aspectos e isso fez com que tirasse a própria vida como muitos tem feito no auge da dor e solidão. Sabemos os impactos da homofobia e do machismo, mas reunido a esses dois, o peso de ser um homem negro (a) não é uma tarefa fácil. Alterar essa realidade não pode ser uma caminhada solitária que nenhum de nós deve trilhar, inclusive nossos homens e meninos negros

Meu irmão, aos 21 anos teve um surto psicótico e perdeu parte de sua história e possibilidade de produção intelectual o que mostra como os impactos do Racismo, homofobia e machismo não pode ser tratado como “mimimi”. Estamos falando de uma dura realidade, sutil, perversa e de várias faces que enfrentamos do dia que nascemos ao dia que morremos. Pra nós, homens e mulheres negras, essa é uma dor que nos acompanha em toda nossa existência e que nos mata de maneira constante e desigual. É preciso pensar redes de apoio para o fortalecimento das potencialidades e competências masculinas, no intuito de alterar crenças e modelos de comportamento fruto de uma subjugação no período da escravidão ao ter sua humanidade descartada. Ter a tão sonhada liberdade construiu hábitos e modelos de irresponsabilidade afetiva e paterna,  que sabemos ser equivocadas e repassada a gerações por mais que seja um  legado negativo sobre a imagem masculina negra. Afetividade e sexualidade sempre será um problema na história de vida negra masculina, mas é preciso ajudar a romper com um processo histórico, que coloca o homem e a mulher negra em um papel inferior por gerações e os faz carregar por toda vida o peso da cor e das mazelas sofridas por seus antepassados.

Que a partida de Demétrio, nos ajude a sermos melhores no olhar para os transexuais e homens negros sob a perspectiva da empatia. Achar que os homens negros podem fazer essa jornada sozinhos, diante de tantos acusadores, não nos torna menos acusadores do que um estado e sociedade que os mata diariamente. Como negros e negras precisamos unir os nossos saberes para mudarmos o curso da nossa história. Em nossa sociedade existem tantos outros Demétrios, mas quantos mais precisaremos perder para acordamos e iniciarmos a nossa corrente de apoio? O sistema é opressor, mas é a nossa tecnologia social e inovativa sobreviver.

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras e mestranda em Gestão Pública na Universidade Federal da Bahia

 

 

Sobre “Minha História” – Por Luciane Reis


Livro “Minha História”

 

Ao assistir “Minha História”, de Michelle Obama, não tem como não notar a importância de  compartilhar e se conectar com  experiências que fizeram com que sejamos quem somos. Durante todo o filme, Michelle nos convida a ser quem queremos ser de verdade. Ela se aproxima ao mostrar o peso de ser quem se quer e seu custo para além das palavras.

Ao relatar o peso de ser uma mulher com personalidade e em evidência ela, como muitos de nós, tem não somente suas falas e posturas deturpadas, como também a imagem sendo transformada no que consideram  “negra raivosa” detentora de uma “escrita violenta”.

Quantas vezes não ouvimos isso? Quantas vezes por motivos diversos, não formos tratadas como  loucas, incapazes e de “ difícil diálogo”,  tendo como base  a  cobrança de direitos e respeito enquanto ser humano detentor de análise crítica e visão de mundo?  Ser quem queremos ser tem um custo muito alto, é por isso que em um processo de autoconhecimento precisamos ser honestos conosco .

É preciso ter coragem de, como bem frisa Michelle Obama, não deixar que as estatísticas sobressaiam a sua história de forma a você esquecer que é ela sua força e alicerce. Lembro como viver para comer na época da universidade, me deixava envergonhada e fazia com que eu ignorasse como minha história construía não somente minha trajetória como o caminho que me traz ate aqui.

Para nós, que nos veem como número, caminhar todas as noites mais de 6 quadras para ir ao pré vestibular é algo que faz parte do nosso cotidiano. Muitas vezes não vemos a força de nossa história, recheada de persistência, resiliência e foco como bem frisa a ex primeira dama.  É exatamente ao revisitar essa caminhada que passamos, não somente a conhecer nosso caminhar, como também  entender a importância de compartilhar e  ser dono destas histórias.

Não  saímos de casa pra sermos independentes, saímos  para dar uma melhor chance a quem fica. Saímos  para construir uma outra parede de momentos e fotografias familiares,  onde nosso senso de empatia  é que nos faz não perder a noção de tempo real. Ao assistir “Minha História”, somos desafiados a  ter coragem de  dizer quem somos, revisitar quem éramos,  repensar nosso comportamento e, acima de tudo, refazer essa  caminhada  sem perder a conexão com o local de onde saímos, para  perseverar diante  da invisibilidade que nos faz perder o medo de ser vulnerável.

 

Fazer a jornada do autoconhecimento é ter coragem de ousar ser vulnerável cercada por pessoas diversas,  revisitar rituais familiares perdidos, a importância das palavras e, acima de tudo, pensar sobre atos simples como estarmos juntos à mesa de jantar. Reconectar com essas memórias e caminhadas, lembrando quem somos, de onde viemos  e como nos  conectamos espiritualmente, é relembrar os conselhos de quem viveu mais.  Minha história não é sobre a mulher mais popular do mundo, e  sim sobre como voltar às raízes, entendendo o poder da sua história, trajetória e importância para o local de onde saiu.

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras e mestranda em Gestão Pública na Universidade Federal da Bahia

 

#OpiniãoPreta – Afro empreendedorismo: Uma relação para além do dinheiro!-Por Luciane Reis


Quando se fala de afro empreendedorismo, está se falando de história econômica negra. Afinal, a construção econômica ou de desenvolvimento brasileiro tem nas relações raciais e de invisibilidade sobre a atuação empreendedora seu grande fator de construção de quem é ou não sujeito econômico de poder. Não por acaso, há poucos intérpretes do lento processo de transição dos trabalhadores negros para livres. Ramatis, Nogueira, Elias Sampaio e Hélio Santos são alguns dos poucos economistas ou pensadores que nos permitem trazer uma outra ótica sobre o processo “empreendedor” brasileiro e mais ainda, o que é ser empreendedor negro quando se fala do pensamento de gestão e administrativo após o dia 14 maio, dia que vivemos até hoje.

Chegamos ao 14 de maio, diferente dos imigrantes, sem nenhum subsídio para sobrevivência. Isto nos fez empreender pela primeira vez, ao subirmos os morros ou ver como sobreviver em um país que simplesmente nos descartou. Pensar sobre o afro empreendedorismo é refletir sobre um modelo econômico e de desenvolvimento de país, onde predomina a ideia de incapacidade empresarial ou de gestão do trabalhador negro sobre a égide das teorias administrativas euro –norte – americanas. Ao não pensar o impacto destas teorias no desenvolvimento econômico negro, se repete o ciclo de olhares, repertórios e debates financeiros onde esses são vistos como “inviáveis ou não lucrativos”.

Entender empreendedorismo como um campo de atuação ampla é pensar como um dos seus eixos centrais – que é o desenvolvimento pessoal e financeiro – tem impacto no fortalecimento de projetos e ideias onde seus protagonistas são homens e mulheres negras. É preciso pensar o desenvolvimento pessoal quando se fala de afro empreendedorismo, afinal o primeiro plano de negócios que se faz na vida ao empreender é o plano de vida e financeiro. Quem você será daqui a 10 anos e por quais meios? Não podemos entender empreendedorismo como algo nato a todos, uma vez que isso tem feito com que muitos não invistam em concursos públicos ou discutam “ Racismo no Mercado de trabalho”.

Ser um empresário ou empreendedor negro está para além das “ferramentas” certas ou rede de profissionais que dê suporte. Estamos falando da ausência de debates sobre o conhecimento da história empresarial e econômica brasileira e a presença negra. Esse silêncio impede a compreensão dos modelos mentais adquiridos por lacunas históricas e teóricas que, ao minimizar a participação e identificação das habilidades e competências destes dentro do ambiente econômico, constrói outros referenciais de sucesso e autoridade dentro do que podemos considerar desenvolvimento econômico brasileiro.

Ao falar de afro empreendedorismo é preciso que se revisite a história econômica e de desenvolvimento brasileiro para que assim possamos discutir as particularidades destes tipos de negócios. É preciso que se conheça as dores econômicas esquecidas no processo escravagista e que nos acompanha todos os dias ao não pensarmos nossos mapas afetivos financeiros ou nossa relação com o dinheiro. Identificar como lidamos com sua presença e ausência, o que faz com que tenhamos ou não, um processo de rompimento com as relações culturais econômicas que nos afetam até hoje e está ,como eu disse, para além da financeira.

Falar sobre dinheiro é romper com a mentalidade de mercadoria construída ao longo da história. História essa que nos faz ter a sensação de não merecimento ou culpabilidade sobre este. Onde se usa o dinheiro? Quanto tempo ele permanece em sua mão? Como ele chega ou qual o impacto que ele causa a partir de onde você gasta? São decisões políticas importantes dentro do debate afro empreendedor. Onde se gastar dinheiro é um ato político que, a depender de onde você o deixa, ele ajuda a construir sua comunidade ou a destroi.

Afro empreendedorismo é isso. É conhecer a história econômica negra a fim de alterar as realidades vividas a partir do fortalecimento da identidade e repertório referencial, para o resgate memorial de pertencimento. Portanto, dialogar sobre uma construção mental que sempre sabotou todo processo de construção econômica é se reposicionar em um mercado que, mesmo sendo de maioria negra, continuam sendo entendidos como de baixa viabilidade financeira e pouca qualificação empresarial por conta da crença de que esses não são capazes de lidar com o universo dos números e da gestão.

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Olodúnica, Publicitária, apresentadora do programa Me Despache na TV Kirumuré e mestranda em Gestão Publica na Universidade Federal da Bahia.

#Artigo – Eleições 2020 e a questão racial, uma pauta menor? – Por Luciane Reis


O economista Elias Sampaio escreveu   sobre a candidatura da “Negona da cidade”, a pedagogo Olivia Santana para a prefeitura de Salvador.  Estamos falando de uma mulher negra com a nossa história e cara legitimada em convenção da sua legenda partidária como pré candidata a prefeita para  dirigir a cidade mais negra fora da África.  Militante histórica das causas negras, Olívia Santana foi titular da Secretaria de Educação e Cultura de Salvador, ganhando destaque pela implantação do Sistema Informatizado de Matrícula e do ensino da História da África e da Cultura Afro brasileira. Em 2012, foi candidata a vice-prefeita de Salvador, na chapa de Nelson Pelegrino (PT) naquele momento o partido entendeu que essa era  a forma de incluir a população negra, nos oferecendo o papel de coadjuvante no processo.

Estamos falando de uma mulher e negra que  se parece conosco e tem nossas histórias e trajetórias como marca de sua caminhada pela vida pública e profissional. Sim! Olivia, assim como uma parcela significativa da cidade é  filha de uma empregada doméstica com um marceneiro. Nascida nas periferias ao lado dos bairros ricos que nos ignora  a exemplo da  comunidade de Ondina, Olivia vem parafraseando Elias Sampaio “ com a tarefa de quebrar a hegemonia colonial intocada desta cidade”. Ouso a ir mais longe e dizer que ela como os demais nomes negros colocados no pleito,  vem como portadora da esperança negra de alteração de uma realidade que vem secularmente produzindo pobreza e dores em relação a uma cidade que nos explora enquanto identidade cultural, mas ignora interferindo em qualquer possibilidade de melhoria de vida ou do que as mulheres negras chamam de “Bem Viver”.

Este 20 de novembro vêm com o sabor e a certeza de “Desobediência racial como afirma a socióloga  e também candidata a prefeitura Vilma Reis. As candidaturas negras colocadas no pleito, traz o recado de que não estamos mais dispostos a ter “ nomes que não os nossos ” como portadores de nossas lutas, histórias e demandas. Não estamos mais dispostos a ter nomes que somente viram aliados  de 4 em 4 anos,  ainda que de  esquerda  e até mesmo de pele escura.  Os critérios mudaram e a  campanha “ EU QUERO ELA ” ,  nascida dentro do   bar de uma das matriarcas negras Alaíde do Feijão, tem uma participação singular sobre a conjuntura que vem   deixando um outro recado para a cidade e  partidos baianos  de alteração do que viemos construindo como parceria negra partidária até os dias de hoje. A campanha traz para o centro do debate do pleito de 2020,  o recado de que nós homens e mulheres negras,  não somos mais parceiras de  projetos políticos onde o protagonismo e o  centro do debate não é a população negra.

Foto Amanda Oliveira

 

 A campanha chega imbuída de apresentar à cidade de Salvador e aos  nascidos nas periferias vulnerabilizadas soteropolitanas que é preciso pensar uma cidade que inclua gente e neste sentido não existe case maior de sucesso do que o do Movimento social negro brasileiro que como bem afirma o vereador e também pré candidato a prefeito Silvio Humberto, é especialista em administrar gente. São as organizações negras que ao longo da história vem alterando a vulnerabilidade social, cidadã e econômica negra.

É neste cenário de lutas e experiência em potencializar o que as pessoas sabem fazer que, que Olivia como um dos primeiros nomes para a prefeitura com capacidade de  construir  “envolvimento”  e não desenvolvimento  social e econômico para  80% de uma população desrespeitada, violada e ignorada por um  aristocracia  branca, patriarcal e racista que governa o lugar mais negro fora do continente africano,  com toda sua arrogância por mais de 470 ininterruptos e longos anos.

Não será uma tarefa fácil seja para Olivia ou os demais nomes no pleito, mas, em princípio, Olivia que é o primeiro nome posto  não estará só como ressalta Elias.  E neste sentido fica como tarefa para cada pessoa que circula por essa cidade e  ver todas as gerações negras (crianças, jovens, adultos e idosos), circulando como farrapos humanos descartáveis,  a tarefa  de tornar cada espaço seu  digital ou não   espaço de reverberação dos nomes e história destes que temos certeza seja como candidato a prefeito ou vereador, ser  comprometidos com  nossa luta cotidiana.  Cabe a nós que não suportamos mais ver a população negra vivendo nas piores situações, fazer esses nomes  adentrar os bairros de Salvador,  como fio de esperança e possibilidade de construção de uma cidade humanizada onde os netos, filhos, sobrinhos, amigos e amantes destes que sempre nos exploraram acharam que podem governar não sejam os protagonistas e vencedores deste pleito.

 Olivia da mesma forma que os demais nomes posto,  surge com a  capacidade real de como debatemos no bar Mestiços, durante o dialogo puxado pelo mandato do vereador Silvio Humberto, mostrar que “ nos importamos com essa cidade e temos outro modelo de gestão que presa por  fazer o  “ mundo da branquitude que conta muito em Salvador ainda que seja minoria, se encontrar com o mundo negro ignorado” de uma maioria.

As campanhas negras para prefeito e em especial para vereador, traz para o centro do debate a possibilidade real de se construir desenvolvimento incluindo e compartilhando. Não estou aqui divagando sobre um mundo mítico, tenho plena consciência de que ela da mesma forma que os demais, caso tenha sucesso no pleito continuará sendo uma pessoa negra em qualquer movimento que faça enquanto gestora de uma cidade onde os brancos sempre enriqueceram  com os negros. Sei que consolidando sua vitória e de nossos vereadores e vereadoras presentes nas trincheiras de luta diária, virá a tona todos os problemas raciais invisibilizados até os dias de hoje quando se fala de pessoas  negra nesta cidade e neste sentido “ Querer Ela “ é romper com uma hegemonia que ousa nos ignorar dentro e fora dos partidos.

Querer ela está muito além da prefeitura! – Por Luciane Reis


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Fto Enderson Araújo

 

Falar sobre a política baiana é falar sobre um processo e modelo de gestão que nunca enxergou Salvador para além do aquário, ou seja, seu entorno. Salvador é uma cidade complexa e de serviços, com uma baixa qualificação profissional e um déficit habitacional de pelo menos 106.415 unidades.

Ainda que tenha construído em média 2.458 imóveis populares por ano desde 2013,  isto não a faz  chegar nem perto de sua meta estabelecida em 2008 de zerar o déficit habitacional até 2030.

Não se desenvolve Salvador sem  racializá-la. É preciso que se enxergue uma população que é criativa, pulsante e que mesmo dentro deste processo de estagnação de sua criatividade financeira – feita via impostos da prefeitura – ou violência policial financiada pelo Estado, consegue gerar microempregos e rendas. Racializar Salvador é incluir em seu crescimento econômico uma parcela da população urbana mais vulnerável e que habita áreas insalubres e de risco desde o nascimento desta e que ainda assim  gera  renda em uma cidade que os  persegue e ignora.

O que a urbanização da cidade tem a ver com o pleito eleitoral e suas nuances? Possuir cerca de 600 áreas de risco localizadas em encostas e 80% dos imóveis irregulares, segundo a prefeitura, faz com que as pessoas nesta situação sofram diversas conseqüências que vão para além do que conhecemos. Sem o título de propriedade, a ameaça de despejo é constante.

E sem o documento, os moradores reduzem seu acesso ao crédito, motivação para melhorias das casas e vizinhanças, dentre outros. Sem falar que a grande maioria das localidades empobrecidas não são mapeadas, pouco se sabe sobre a demografia, capacidade de mão de obra, de geração de emprego e renda exatamente pelo uso “irregular”  espacial do território que faz com que o ecossistema de gestão invisibilize a chegada de condições de crescimento para essas localidades.

Então, como se pensar um projeto de cidade em um local onde o direito básico que é o de moradia não é levado a sério? É preciso mobilizar outras ideologias e pessoas para intervir neste cenário para além da eleição. É que se volte a ousar sonhar e acreditar em pessoas que nem sabem do que são capazes, como fez o Instituto Steve Biko, Ilê Aiye, Olodum, Ceao, CEN e tantas outras organizações de promoção de igualdade no passado.

Pensar um projeto de cidade mais igualitário e de impulsionamento econômico criativo é amparar as pessoas com respeito a sua dignidade como os terreiros de candomblé fazem no dia a dia. Debater a humanização de Salvador, entendendo que o diferente é sua maior fonte de construção de crescimento e desenvolvimento se faz central.

Querer “ELA” é pensar como romper com o pensamento racista que acredita que se pode cuidar desta cidade e suas especificidades, da mesma forma que se geri um clube esportivo que ganha visibilidade ao dar notoriedade a quem o sustenta, ou seja, a população de uma cidade de maioria negra.

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É entender que Salvador não é  um banco imobiliário que você gesta como brincadeira entre amigos. É romper com a continuidade de uma Câmara de Vereadores cujos membros, em sua maioria, trata essa como sua varanda de casa, ignorando as  especificidades e complexidade populacional. Salvador é uma cidade de carne e osso, feminina e que sofre diariamente o impacto da omissão de seus gestores e demais nomes em espaços de decisão.

Eleger nomes  que  assumam a responsabilidade de estarem “à frente da batalha pelo desenvolvimento sustentável desta é um desafio posto no próximo pleito eleitoral em uma cidade que invisibiliza a participação negra.

Ousar querer Salvador, é perceber seu potencial estagnado em uma rede de pensamentos coloniais, conservadores e subservientes, que não permite que sua rebeldia de crescimento torne essa uma cidade potente em sua capacidade de produzir, em seus mais de 160 bairros, sobre diversas perspectiva e sentidos.  Querer Salvador é ousar pensar um projeto de cidade onde cada bairro é um aglomerado econômico social imprensado na especulação imobiliária, racismo institucional e omissão de gestores  municipais e estaduais e um projeto de segurança  que impulsiona ainda mais a violência ao invés de combatê-la.

É mudar o  paradigma,  de uma cidade que até os dias de hoje pensa seu crescimento de fora ( turismo) pra dentro ( subserviência de quem recebe),  sem  levar em conta necessidades,  condições de existência e características de cenários para quem vive e promove desenvolvimento aqui.  Salvador é uma cidade que precisa ser cuidada de forma humanizada, empática e igualitária. Quem ousa querer esse projeto de cidade?

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial. Apresenta o programa Me Despache, na TV Kirimurê. 

 

Luciane Reis

#OpiniãoPreta – Sobre Salvador, Estatuto da Igualdade e população negra! – Por Luciane Reis


Tem um videozinho que circula na internet de uma garotinha nas manifestações do pato da Fiesp ,que eu adoro. A repórter toda simpática pergunta sobre a manifestação. Lá pelas tantas, quando questionada sobre o que ela acha das pessoas ali, a menina dá a resposta do século. ” Uma perda de tempo, não vai resolver nada”, responde com desdém no auge dos seus aparentes 8 anos. 

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Essa resposta  para mim é  emblemática, pois não tenho dúvidas que qualquer ativista negro com um mínimo de conhecimento político e de gestão pública, daria a mesma resposta se perguntado sobre o Estatuto da Igualdade aprovado ontem (29/5/19) pela Câmara de Vereadores de Salvador, uma vez que esse – da mesma forma que o Estadual – pouco altera a realidade de vida da população negra, por ausência de recursos para operacionalizar as ações.

Então por que  foi preciso que os vereadores Moisés Rocha (PT), Silvio Humberto (PSB), Edvaldo Brito (PDT), e tantos outros, trouxessem a todo o instante as idas e vindas do Estatuto na Casa Legislativa, se para a população negra de Salvador ele pouco tem poder de atuação prática?

A grande questão é que, do ponto de vista de norteamento do que essa cidade precisa, ele tem um peso extremo (quem me conhece sabe o que acho de políticas de igualdade simbólica). Mas sua aprovação ontem nos mostrou pontos importantes sobre como acontece a movimentação de poder em Salvador. O primeiro ponto diz respeito ao convencimento e conhecimento sobre a vida desumana da população negra nesta cidade pelos vereadores. Durante a votação, além do clichê de invocar todos os parentes, amantes e filhos negros esses mostravam (salvo algumas aberrações), pleno conhecimento  das mazelas e níveis de desigualdade de Salvador por conta – não das pessoas serem humanas -, mas negras. Tanto que a resistência à aprovação do Estatuto não passava pelas orientações de como enfrentá-las, mas referentes aos itens que pautavam as religiões de Matrizes Africanas, era a intolerância religiosa que impedia a pauta de avançar.

O impedimento à participação de militantes históricos na considerada Casa do Povo, usando para isso o direito de coesão em nome da coletividade (ainda que fôssemos os maiores interessados e maioria nesta cidade), foi uma aberração a parte diante das tantas evidenciadas. Deliberar que esses militantes não podiam acompanhar, desprezando todo seu processo acadêmico, de representação e participação na construção do documento fruto da referida votação, deixou um recado muito claro de que modelo de ” igualdade” essa cidade entende como importante. 

Precisamos mais do que nunca discutir quem queremos como representantes na Câmara de Vereadores e órgãos administrativos, quando se fala de população negra. Se faz necessário, enquanto ativistas negros, pensar formas de acesso e  diálogo com as comunidades de periferia e parceiros negros “esclarecidos”,  sobre como eleger  quem de fato nos representa nestes espaços que deliberam sobre que modelo de cidade teremos.

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É preciso pensar seriamente em formas de igualar a proporção de parlamentares com ideologias religiosas. Não podemos continuar reféns  de fundamentalistas, que entendem o gerir a cidade como concepção pessoal. Faz-se necessário uma grande reflexão coletiva sobre um projeto político, ações coletivas de desenvolvimento, representatividade e responsabilidade racial nos espaços de poder de nosso estado e município.

É preciso refletir ainda sobre qual é de fato o papel dos  parlamentares estaduais e federais ” brancos e pretos  bons”, eleitos  sobre a alegação de solidariedade `à realidade vivida pela população negra, o papel dos setores raciais nos agrupamentos políticos e, em especial, de nossos representantes negros em conselhos, ouvidorias e demais instituições de suporte à luta negra.  Para mim que pude acompanhar de fora,  ficou ainda mais claro que – ou elegemos pessoas cuja única prioridade em sua plataforma de luta sejam nossas pautas, ou lutaremos sozinhos como os nossos valorosos vereadores que ontem enfrentaram as ideologias presentes na cidade de Salvador.

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A ausência das instituições de governo raciais legitimadas pela luta negra brasileira  (Semur, Sepromi), foi algo também bastante emblemático neste processo de votação. Não estou aqui fazendo juízo de valores, mas do entendimento do que estamos chamando de militância e luta por igualdade racial e  sobre o que de fato  entendemos como ocupação de espaços de decisão política e de poder para construção de outra realidade para a população negra.

Norberto  Bobbio em sua obra Estado, governo e sociedade,  afirma que uma ação política atua com o objetivo de  conquistar, manter, defender, ampliar, reforçar, abater ou derrubar o poder estatal. Logo, não é justificável instituições que existem para assegurar a articulação e monitoramento de qualquer política ou ação que interfira na vida negra, não se fazerem presentes na votação de um documento que reforça pautas negras  em um município com todas as especificidades como Salvador.

Se política é a ciência de governar as coisas da cidade (uma associação de homens livres) com soberania num determinado território (a cidade, Estado), estamos falando de um espaço que cumpre o papel de legislar e gerenciar os recursos comuns desta cidade, Estado. A votação do Estatuto Municipal ontem deixou claro a importância de repensarmos nossa forma – não apenas de agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. Precisamos  distinguir  o poder político e social que queremos das demais formas de poder expressas nas relações entre os indivíduos  na sociedade.

Cabe aos movimentos sociais e suas diversas vozes, como bem provoca professor Edson Cardoso,  a auto critica sobre o  fatiamento da luta de desenvolvimento da vida negra. Uma vez que, como afirmei acima, não estava em pauta concordar ou discordar do documento, mas nossa capacidade de articular e demonstrar  poder nesta cidade. Neste sentido, só posso parabenizar aos nossos poucos e valorosos vereadores  que com sua capacidade de intervenção e articulação, conseguiram atuar sobre as  relações de poder e interesses  presentes na câmara.

Saio deste processo com o entendimento de que repensar nossas ações é fundamental, pois como diz a música “Evangelização” do  Olodum,  ” A gente fala,  fala,  fala e  não resolve nada não. A gente reinvidica  e nada é nada. Eles nem se sensibilizam, não nos estabilizam e  dizem que não podem fazer nada não” ou seja, continuamos por nossa própria conta.

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial.

Nós e a cultura do “FAZ SOZINHO”! – Por Luciane Reis


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Nos idos de 2004 quando professor Jaime Sodré usou esse termo durante atividade do Pompa na Biko, demos risada. Achamos engraçada a forma como ele definiu a relação do estado com os realizadores negros.  Professor Jaime trouxe exemplos de como nossas atividades  muitas vezes até reconhecida como importante pelo país /estado,  não recebia recursos que de fato fizesse essas acontecerem com tranquilidade.

Durante meu período na Casa Civil, um dos conselhos que recebi do professor Sergio São Bernardo, além do de não me deslumbrar com Brasília e pensar minha vida de maneira centrada, foi “FAÇA TODOS OS CURSOS QUE A PRESIDÊNCIA TE OFERECER”. Conselho que me permitiu entender a máquina pública e, acima de tudo as diversas, formas de repasse financeiro. Um dos meus professores de orçamento público, costumava dizer que “ só não pode aquilo não justificado, sabendo explicar a União, pode tudo”. Quem transita pelas gestões pública e política, sabe como isso é verdade.

Então, por que quando os realizadores são negros, os projetos e editais são engessados, complicados, de baixo valor, e nós ainda continuamos tratando esses como aliados? Atuei em vários editais enquanto servidora federal, exatamente por entender esses entraves. Lembro que uma das nossas tarefas, sob a orientação da secretária Severine Macedo, e do Ministro Gilberto Carvalho, era pensar como esses editais deveriam ser menos burocráticos e atender a realizadores de carne e osso. Ou seja, pessoas que tinham projetos de impactos em áreas vulneráveis, por não dominarem o processo destes editais, acabavam não sendo contempladas.

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Confesso que o Plano Juventude Viva foi uma grande escola no refazer o quebra cabeça excludente do país. Com boa vontade, compromisso, dialogo (via Fompi) e  ajuda dos articuladores que, oriundos do  Enjune, contribuíram e muito para quebrarmos um pouco a cultura do “negro faz muita coisa com pouco dinheiro ou apoio institucional”. Confesso que, diferente de todas as pessoas não negras que chegaram com redes de contato, salários realmente em condição de sobreviver naquela cidade (que amo e sinto falta hoje em dia), eu tive que usar o velho FAZ SOZINHO e os conselhos rápidos de Sergio São Bernardo. Era todo o Networking profissional  que tive naquela cidade.

O faz sozinho para a população negra não é um recurso que usamos somente na hora de realizar eventos e atividades afins. Usamos, principalmente, em nosso caminhar enquanto indivíduo. Recentemente, a BBC fez uma matéria falando como a nossa falta de QUEM INDICA  nos estagna e adoece.

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Temos menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subir ou ter uma carreira, o que acaba por nos fazer questionar a nossa capacidade profissional. Temos dificuldade de dialogar e trabalhar com a diversidade, ainda que tenhamos militado, escrito e façamos discurso falando da importância de trabalhar com o diferente. Em uma sociedade como a nossa, isso é fundamental. Atuar com diversidade de ideias, universos e conhecimento é importante não somente para  indicação a outros  postos de comando,  como afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mas principalmente para que possamos vencer essa concepção de que nossos projetos ou capital profissional é bom, mas 500 reais resolve.

Se em pleno seculo 21 ainda temos o “faz sozinho e o eu apoio se quiser” , de maneira tão latente, é  porque não conseguimos avançar para dentro da disputa ideológica,  de que as politicas de igualdade feita com seriedade,  desenvolve o país. O  impacto disso, é o fortalecimento do olhar sobre nós como amadores, incapazes de lidar com recursos financeiros e que qualquer valor em cima da hora resolve. O fato do nosso  capita social ser escasso,  impede que possamos ser  bem-sucedido nas nossas carreiras e capacidade realizadora.

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A falta de diálogo sobre dinheiro e seus aspectos de desenvolvimento, acaba por nos deixando sem  uma rede social de recursos para acessar, logo distante das boas oportunidades, como por exemplo  ocupar um cargo de gerência ainda que tenhamos competência e reconhecimento  para isso. Nos condicionaram ao Faz Sozinho e pior, sem nenhum constrangimento de acharem que podem nos colocar para se degladiar por  20, 30 mil reais, quando outros segmentos tem acesso a  valores acima da casa dos milhões em simples almoços, jantares ou telefonemas a exemplo dos colarinhos e corpos brancos da Lava Jato ou gestores  e seus parentes  e amigos dentro dos órgãos públicos.

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Agora somos nós que protegeremos os Orixás! – Por Luciane Reis


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Foto Raul Spinassé/A Tarde

A nossa pacificidade diante da não laicidade e da tolerância e aceitação do estado com as posturas evangélicas, é a mola propulsora que sustenta a certeza da permissividade  destes que se consideram os enviados de Deus. A nossa complacência é tanta, que não nos incomodamos com as pregações nos transportes ditos coletivos ou qualquer violabilidade pública provocada por esses e que tem nos passageiros e rodoviários  toda a compreensão com os  “enviados do senhor”.

Nossa tolerância é tanta que de maneira institucionalizada e apoio do estado, a bancada evangélica ocupa quase todos os espaços de governos e dos meios de comunicação diante dos nossos “o que é que tem?”.

O que é que tem se estou no hospital e o único templo religioso tem uma cruz e pessoas entregando a palavra de deus?

O que é que tem se estou sentada em um bar e esses entendem que posso ser invadida com o que eles consideram a palavra do senhor?

O que é que tem a não participação do estado nos eventos de combate à intolerância?

O que é que tem se esses fecham uma rua e impede a passagem de qualquer carro por que estão pregando a palavra de Deus?

O que é que tem? Tem que essa complacência  é o que, junto com a certeza da tolerância e impunidade social, faz com que esses cometam as maiores atrocidades e invasão e isso seja normal.

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Foto Fafá Araújo

O “é só a palavra do senhor” vem cada dia mais  promovendo violência ao  povo de orixá  nos quatro cantos do pais independente da posição social.  Não podemos nos indignar com o ocorrido junto aos  terreiros do Rio de Janeiro,  quando há mais de duas décadas esse mesmo estado  legitima os “trabalhos sociais” de uma única religião junto aos presídios brasileiros.

O sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em suas pesquisas junto às unidades prisionais, averiguou que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento de 61% de evangélicos no país. Metade destes, fruto das “ações sociais” junto ao sistema prisional brasileiro.

Não é problema ter programas sociais e acalanto religioso  para  pessoas que passam anos em meio à solidão, sem saber como será o dia de amanhã. O problema é a aceitação e permissibilidade de uma única fé. Fé essa que não estimula a tolerância e o respeito à diversidade às demais religiões.

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Foto Jornal Awure

Graça Machel, em recente visita ao Brasil, lembrou que colhemos os frutos de certas ações a longo prazo. Eis que chega o momento de colheita do “povo de deus”. Um processo de intolerância que sai das mãos de cidadãos comuns e passa para os que estão à margem da sociedade e sem nenhum parâmetro de diálogo ou controle do estado.

É preciso compreender que os vínculos dos detentos com as atividades religiosas não se restringem apenas à espiritualidade, mas também à mudança de caráter e de comportamento que se estende a todo núcleo familiar. Os ataques aos terreiros no Rio de Janeiro nada mais são que efeitos de visitas sociais evangélicas aos presídios, sob a institucionalização da intolerância religiosa.

Não acho que seja a hora de colocar os orixás ou clamar por sua justiça. Ao contrário, é hora de convocar sua ira e desmontar essa não laicidade que descansa em berço esplêndido. É hora de se cobrar posicionamentos reais e internacional contra o estado brasileiro.

Quando “até Oxalá vai à guerra”, entendemos que chegou a hora de mostrarmos até onde iremos para defender nossa fé. Isso passa pelo entendimento que precisamos nos organizar institucionalmente. Ou elegemos nossos nomes, homens e mulheres de Candomblé que usam firma e não miçangas no pescoço, ou continuaremos sendo esmagados por esse estado intolerante e omisso.

Precisamos buscar a fé que não sucumbiu nem aos navios tumbeiros quando nos tiraram a dignidade e humanidade. Mas precisamos também discutir estratégias, para  desestruturar essa rede que nos violenta de maneira massiva. Sabemos que a resistência às opressões vem da união dos oprimidos, portanto que nos organizemos para a resistência.

Não pedimos guerra,  somos um povo que mesmo com todas as dores  proporcionada por esse país,  continuamos sendo generoso. Mas sabemos guerrear e nossa justiça  é   implacável.

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do MercAfro e Yamorixá de Oxumaré

Ângela Davis: Enquanto houver mulheres negras, NÓS RESISTIREMOS!


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Foto: Hieros Vasconcelos

No mês em que se comemora a luta das organizações de mulheres negras e suas estratégias para o enfrentamento ao racismo, sexismo dentre outras opressões, na Bahia, mulheres negras tiveram suas energias renovadas e seus corações reaquecidos pela Pantera negra diaspórica Ângela Davis.

Em um momento de reflexão, sobre a identidade e resistência da mulher negra brasileira, ela nos convidou a pensar sobre como “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, as lutas de mulheres negras vem reconstruindo a dignidade humana como fator de desenvolvimento.

Durante sua palestra, Ângela pontuou como os diversos modelos de opressões vivadas por ser mulher e negra, fazem com que essas, ainda assim, continuem seguindo fortes enquanto protagonistas e espinha dorsal de suas famílias em momentos de perdas de direitos no mundo. Seja enfrentando a pobreza, a marginalidade e a condição de inferioridade a que é submetida ou como bem lembrou a jornalista Maira Azevedo em seu texto “Quero falar de amor”.

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Foto: Hieros Vasconcelos

Em seu discurso de denúncia e encorajamento, Ângela foi nos relembrando as diversas situações de negação de direitos, para mulheres que sempre sustentaram o sofrimento de ver entes queridos em situações de vulnerabilidade e como essas ainda hoje lutam para se fazerem presentes em diversos espaços ao longo de sua história, a exemplo da defensora dos direitos das mulheres negras, a produtora cultural e atriz Kenia Maria, que hoje detém essa importante tarefa junto a ONU Mulheres.

angela davis em salvador

Foi um momento único ver a mesma citar como exemplos de poder do feminismo no Brasil: a resistência do Candomblé e a organização de empregadas domésticas como espaços de lutas cotidianas para quem é mulher e negra.

Durante sua fala, me foi surgindo na memória a apresentação do Slam das Minas, a luta cotidiana do Instituto Odara ou de mulheres que tenho um carinho especial como Luana Soares, Sueide Kintê, Ilka Danusa, Yara Santiago, Raquel Luciana – que brilhou divinamente enquanto tradutora da mesma, Jamile Menezes, Urania Muzunzu, minha mãe e tantas outras que são para mim, exemplos cotidianos de que nossas estratégia de continuidade é o que nos torna capazes de resistir como bem lembrou nossa linda pantera.

Mulheres que, constantemente, mostram para a sociedade como suas mãos fortes ajudaram a construir o país que as renegam ou invisibilizam. Que, mesmo sobre todos os modelos de agressividade, vem tirando de sua capacidade de amar e doar, a coragem necessária para romper com elos convencionais e criando vias alternativas de romper com o que há muitos anos está estabelecido como verdade absoluta.

A essas mulheres – que tem a ousadia de pensar, discordar e contestar na luta pela sobrevivência, qualidade de vida e, principalmente igualdade, só posso parabenizar por serem vitoriosas e que continuem esse trator que, se acionado, tem a capacidade de esmagar seus opressores, como bem bradou nossa convidada especial.

Luciane Reis

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis.