Nós e a cultura do “FAZ SOZINHO”! – Por Luciane Reis


negros_empreendedores

Nos idos de 2004 quando professor Jaime Sodré usou esse termo durante atividade do Pompa na Biko, demos risada. Achamos engraçada a forma como ele definiu a relação do estado com os realizadores negros.  Professor Jaime trouxe exemplos de como nossas atividades  muitas vezes até reconhecida como importante pelo país /estado,  não recebia recursos que de fato fizesse essas acontecerem com tranquilidade.

Durante meu período na Casa Civil, um dos conselhos que recebi do professor Sergio São Bernardo, além do de não me deslumbrar com Brasília e pensar minha vida de maneira centrada, foi “FAÇA TODOS OS CURSOS QUE A PRESIDÊNCIA TE OFERECER”. Conselho que me permitiu entender a máquina pública e, acima de tudo as diversas, formas de repasse financeiro. Um dos meus professores de orçamento público, costumava dizer que “ só não pode aquilo não justificado, sabendo explicar a União, pode tudo”. Quem transita pelas gestões pública e política, sabe como isso é verdade.

Então, por que quando os realizadores são negros, os projetos e editais são engessados, complicados, de baixo valor, e nós ainda continuamos tratando esses como aliados? Atuei em vários editais enquanto servidora federal, exatamente por entender esses entraves. Lembro que uma das nossas tarefas, sob a orientação da secretária Severine Macedo, e do Ministro Gilberto Carvalho, era pensar como esses editais deveriam ser menos burocráticos e atender a realizadores de carne e osso. Ou seja, pessoas que tinham projetos de impactos em áreas vulneráveis, por não dominarem o processo destes editais, acabavam não sendo contempladas.

negros_empreendedorismo

Confesso que o Plano Juventude Viva foi uma grande escola no refazer o quebra cabeça excludente do país. Com boa vontade, compromisso, dialogo (via Fompi) e  ajuda dos articuladores que, oriundos do  Enjune, contribuíram e muito para quebrarmos um pouco a cultura do “negro faz muita coisa com pouco dinheiro ou apoio institucional”. Confesso que, diferente de todas as pessoas não negras que chegaram com redes de contato, salários realmente em condição de sobreviver naquela cidade (que amo e sinto falta hoje em dia), eu tive que usar o velho FAZ SOZINHO e os conselhos rápidos de Sergio São Bernardo. Era todo o Networking profissional  que tive naquela cidade.

O faz sozinho para a população negra não é um recurso que usamos somente na hora de realizar eventos e atividades afins. Usamos, principalmente, em nosso caminhar enquanto indivíduo. Recentemente, a BBC fez uma matéria falando como a nossa falta de QUEM INDICA  nos estagna e adoece.

mulher_negra_empreendedora

Temos menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subir ou ter uma carreira, o que acaba por nos fazer questionar a nossa capacidade profissional. Temos dificuldade de dialogar e trabalhar com a diversidade, ainda que tenhamos militado, escrito e façamos discurso falando da importância de trabalhar com o diferente. Em uma sociedade como a nossa, isso é fundamental. Atuar com diversidade de ideias, universos e conhecimento é importante não somente para  indicação a outros  postos de comando,  como afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mas principalmente para que possamos vencer essa concepção de que nossos projetos ou capital profissional é bom, mas 500 reais resolve.

Se em pleno seculo 21 ainda temos o “faz sozinho e o eu apoio se quiser” , de maneira tão latente, é  porque não conseguimos avançar para dentro da disputa ideológica,  de que as politicas de igualdade feita com seriedade,  desenvolve o país. O  impacto disso, é o fortalecimento do olhar sobre nós como amadores, incapazes de lidar com recursos financeiros e que qualquer valor em cima da hora resolve. O fato do nosso  capita social ser escasso,  impede que possamos ser  bem-sucedido nas nossas carreiras e capacidade realizadora.

empreendedorismo_negro

A falta de diálogo sobre dinheiro e seus aspectos de desenvolvimento, acaba por nos deixando sem  uma rede social de recursos para acessar, logo distante das boas oportunidades, como por exemplo  ocupar um cargo de gerência ainda que tenhamos competência e reconhecimento  para isso. Nos condicionaram ao Faz Sozinho e pior, sem nenhum constrangimento de acharem que podem nos colocar para se degladiar por  20, 30 mil reais, quando outros segmentos tem acesso a  valores acima da casa dos milhões em simples almoços, jantares ou telefonemas a exemplo dos colarinhos e corpos brancos da Lava Jato ou gestores  e seus parentes  e amigos dentro dos órgãos públicos.

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Agora somos nós que protegeremos os Orixás! – Por Luciane Reis


candomble_introlerancia_religiosa
Foto Raul Spinassé/A Tarde

A nossa pacificidade diante da não laicidade e da tolerância e aceitação do estado com as posturas evangélicas, é a mola propulsora que sustenta a certeza da permissividade  destes que se consideram os enviados de Deus. A nossa complacência é tanta, que não nos incomodamos com as pregações nos transportes ditos coletivos ou qualquer violabilidade pública provocada por esses e que tem nos passageiros e rodoviários  toda a compreensão com os  “enviados do senhor”.

Nossa tolerância é tanta que de maneira institucionalizada e apoio do estado, a bancada evangélica ocupa quase todos os espaços de governos e dos meios de comunicação diante dos nossos “o que é que tem?”.

O que é que tem se estou no hospital e o único templo religioso tem uma cruz e pessoas entregando a palavra de deus?

O que é que tem se estou sentada em um bar e esses entendem que posso ser invadida com o que eles consideram a palavra do senhor?

O que é que tem a não participação do estado nos eventos de combate à intolerância?

O que é que tem se esses fecham uma rua e impede a passagem de qualquer carro por que estão pregando a palavra de Deus?

O que é que tem? Tem que essa complacência  é o que, junto com a certeza da tolerância e impunidade social, faz com que esses cometam as maiores atrocidades e invasão e isso seja normal.

andomble_introlerancia_religiosa2
Foto Fafá Araújo

O “é só a palavra do senhor” vem cada dia mais  promovendo violência ao  povo de orixá  nos quatro cantos do pais independente da posição social.  Não podemos nos indignar com o ocorrido junto aos  terreiros do Rio de Janeiro,  quando há mais de duas décadas esse mesmo estado  legitima os “trabalhos sociais” de uma única religião junto aos presídios brasileiros.

O sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em suas pesquisas junto às unidades prisionais, averiguou que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento de 61% de evangélicos no país. Metade destes, fruto das “ações sociais” junto ao sistema prisional brasileiro.

Não é problema ter programas sociais e acalanto religioso  para  pessoas que passam anos em meio à solidão, sem saber como será o dia de amanhã. O problema é a aceitação e permissibilidade de uma única fé. Fé essa que não estimula a tolerância e o respeito à diversidade às demais religiões.

candomble_introlerancia_religiosa3
Foto Jornal Awure

Graça Machel, em recente visita ao Brasil, lembrou que colhemos os frutos de certas ações a longo prazo. Eis que chega o momento de colheita do “povo de deus”. Um processo de intolerância que sai das mãos de cidadãos comuns e passa para os que estão à margem da sociedade e sem nenhum parâmetro de diálogo ou controle do estado.

É preciso compreender que os vínculos dos detentos com as atividades religiosas não se restringem apenas à espiritualidade, mas também à mudança de caráter e de comportamento que se estende a todo núcleo familiar. Os ataques aos terreiros no Rio de Janeiro nada mais são que efeitos de visitas sociais evangélicas aos presídios, sob a institucionalização da intolerância religiosa.

Não acho que seja a hora de colocar os orixás ou clamar por sua justiça. Ao contrário, é hora de convocar sua ira e desmontar essa não laicidade que descansa em berço esplêndido. É hora de se cobrar posicionamentos reais e internacional contra o estado brasileiro.

Quando “até Oxalá vai à guerra”, entendemos que chegou a hora de mostrarmos até onde iremos para defender nossa fé. Isso passa pelo entendimento que precisamos nos organizar institucionalmente. Ou elegemos nossos nomes, homens e mulheres de Candomblé que usam firma e não miçangas no pescoço, ou continuaremos sendo esmagados por esse estado intolerante e omisso.

Precisamos buscar a fé que não sucumbiu nem aos navios tumbeiros quando nos tiraram a dignidade e humanidade. Mas precisamos também discutir estratégias, para  desestruturar essa rede que nos violenta de maneira massiva. Sabemos que a resistência às opressões vem da união dos oprimidos, portanto que nos organizemos para a resistência.

Não pedimos guerra,  somos um povo que mesmo com todas as dores  proporcionada por esse país,  continuamos sendo generoso. Mas sabemos guerrear e nossa justiça  é   implacável.

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do MercAfro e Yamorixá de Oxumaré

Ângela Davis: Enquanto houver mulheres negras, NÓS RESISTIREMOS!


angela davis em salvador
Foto: Hieros Vasconcelos

No mês em que se comemora a luta das organizações de mulheres negras e suas estratégias para o enfrentamento ao racismo, sexismo dentre outras opressões, na Bahia, mulheres negras tiveram suas energias renovadas e seus corações reaquecidos pela Pantera negra diaspórica Ângela Davis.

Em um momento de reflexão, sobre a identidade e resistência da mulher negra brasileira, ela nos convidou a pensar sobre como “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, as lutas de mulheres negras vem reconstruindo a dignidade humana como fator de desenvolvimento.

Durante sua palestra, Ângela pontuou como os diversos modelos de opressões vivadas por ser mulher e negra, fazem com que essas, ainda assim, continuem seguindo fortes enquanto protagonistas e espinha dorsal de suas famílias em momentos de perdas de direitos no mundo. Seja enfrentando a pobreza, a marginalidade e a condição de inferioridade a que é submetida ou como bem lembrou a jornalista Maira Azevedo em seu texto “Quero falar de amor”.

angela davis em salvador
Foto: Hieros Vasconcelos

Em seu discurso de denúncia e encorajamento, Ângela foi nos relembrando as diversas situações de negação de direitos, para mulheres que sempre sustentaram o sofrimento de ver entes queridos em situações de vulnerabilidade e como essas ainda hoje lutam para se fazerem presentes em diversos espaços ao longo de sua história, a exemplo da defensora dos direitos das mulheres negras, a produtora cultural e atriz Kenia Maria, que hoje detém essa importante tarefa junto a ONU Mulheres.

angela davis em salvador

Foi um momento único ver a mesma citar como exemplos de poder do feminismo no Brasil: a resistência do Candomblé e a organização de empregadas domésticas como espaços de lutas cotidianas para quem é mulher e negra.

Durante sua fala, me foi surgindo na memória a apresentação do Slam das Minas, a luta cotidiana do Instituto Odara ou de mulheres que tenho um carinho especial como Luana Soares, Sueide Kintê, Ilka Danusa, Yara Santiago, Raquel Luciana – que brilhou divinamente enquanto tradutora da mesma, Jamile Menezes, Urania Muzunzu, minha mãe e tantas outras que são para mim, exemplos cotidianos de que nossas estratégia de continuidade é o que nos torna capazes de resistir como bem lembrou nossa linda pantera.

Mulheres que, constantemente, mostram para a sociedade como suas mãos fortes ajudaram a construir o país que as renegam ou invisibilizam. Que, mesmo sobre todos os modelos de agressividade, vem tirando de sua capacidade de amar e doar, a coragem necessária para romper com elos convencionais e criando vias alternativas de romper com o que há muitos anos está estabelecido como verdade absoluta.

A essas mulheres – que tem a ousadia de pensar, discordar e contestar na luta pela sobrevivência, qualidade de vida e, principalmente igualdade, só posso parabenizar por serem vitoriosas e que continuem esse trator que, se acionado, tem a capacidade de esmagar seus opressores, como bem bradou nossa convidada especial.

Luciane Reis

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Timba o que houve por aqui? Branquitudes e branquidades!


timbalada

A história da vocalista da Timbalada Milane Hora, traz de volta um antigo questionamento feito pelas diversas intelectuais negras. Quais são os privilégios que o branco tem com o racismo? Desde os primeiros sinais de insatisfação com sua presença técnica, em uma das bandas mais disputadas de Salvador, é constante a construção de racismo reverso com a mesma.

Com a confirmação de sua saída – por motivos que não sua tonalidade de pele –  os veículos que noticiam voltam a colocar na história profissional desta, a ideia de  cor. Mas afinal, o que seria esse racismo reverso?  O racismo reverso, ou racismo inverso, debate a existência de um racismo contra brancos, ou seja, que negros exerceriam discriminação contra pessoas brancas.

A grande pergunta é: sabendo que o racismo acontece pelo impedimento de uma pessoa a algo, é possível a população negra, em especial em Salvador, cuja maioria é empregada ou subordinada, cometer racismo reverso?

Lia Vainer Schucman, em seu livro – “Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana”, aponta os privilégios simbólicos e materiais dos brancos. Mesmo falando de São Paulo, é uma leitura interessante para quem quer falar de racismo reverso e, principalmente, entender os privilégios brancos com o racismo.

Mas, voltemos à Timbalada.

É nítida a relutância de quem noticia a saída desta, em dizer que o motivo é a falta de adequação ao público em questão.  Mas, como estamos acostumados a falar por nós, segue um outro olhar:

Desde a chegada de Milane, é visível sua dificuldade em entender a Timbalada e seu público. Mas, ainda assim, é preciso deixar nítido que a qualidade e a vida da banda está para além de Milane. Estamos falando de uma banda que tem hoje, um problema sério de arrogância, truculência e desrespeito com quem a faz dentro e fora por parte de sua diretoria.

timbalada

Preços  absurdos e seguranças despreparados, para os valores cobrados e estrutura oferecida,  refletiu e  muito nos ensaios e shows de 2017. O problema nunca foi a vocalista sozinha (mesmo refletindo as posturas da diretoria) – é importante registrar que não dá para colocar todos os momentos negativos da Timbalada nela.

Ainda que tenha tanta gente a sorrir em seus ensaios, há uma diretoria que precisa ser questionado em suas posturas, uma assessoria que precisa ser melhorada no tratar quem faz e paga a Timbalada. Estamos falando de beldades negras que, mesmo tendo fino traço e o retrato de uma deusa ginga com trança na cabeça, foi considerada, por essa e à mídia soteropolitana como “ feia” e “mal educada”. Ainda que os brancos considerados “bonitos” protagonizassem as cenas mais vergonhosas na existência da banda.

timbalada

Não há de se considerar que a saída de Milane resolve um problema que está para além. O tempo em que ela esteve na banda foi possível conhecer melhor o produto Timbalada, e como ele vê homens e mulheres, que deram sentido à genialidade de seu fundador.

O fracasso à frente da Timbalada se deu pelo modelo histórico de achar que branco pode tudo e jamais será questionado. Se racismo é invisibilidade de determinados segmentos para o benefício de outros, então o que falar da TV baiana 100% branca?

O que falar da indústria cultural soteropolitana que, mesmo usando nossos símbolos, não nos financia ou projeta pra frente e ainda transforma os que burlam as porteiras em algo negativo – a exemplo do pagode? Quem apagou toda a presença negra e vem, evolutivamente, clareando a banda?

E os timbaleiros que reclamaram de uma questão de qualidade é que são racistas? “A estrutura racista brasileira é tão forte a ponto das pessoas acharem que o branco não pode estar naquele lugar, e ajudam. Já para o negro, é natural” as críticas e questionamentos, diz Schucman em seus estudos.

nova vocalista timbalada
Foto: Reprodução/Instagram

 

Que Brown é um grande artista, não temos dúvida. Mas já diz um ditado UBUNTU “Eu sou, por que nós somos”, trazendo para a banda, “A timbalada só é, porque os timbaleiros são”. A lição que fica? Temos uma população negra que está começando a se respeitar enquanto consumidor.

A genialidade da Timbalada tem um complemento, e esse complemento são seus timbaleiros de diversas tonalidades. É essa “gente feia “que a banda tentou riscar do mapa, que a mantém como um produto de genialidade florescida.

O fato de não carregar sua cor de pele quando fracassa, faz com que Milane seja vista  e  blindada pela branquidade, como uma pessoa hostilizada por um segmento primitivo e que não sabe o que é qualidade. Quem é Timbaleiro, nunca a hostilizou. Disseram que, enquanto artista, ela não desempenhava bem aquele papel e provaram isso. A branquidade precisa entender que não é mais tolerável a ideia de que somente sua cor de pele é sinônimo de eficiência. Após o carnaval Milane pode fazer seu trabalho, e mostrou que não era um bom nome para essa ação.

Por isso é importante que saibam que ela sai por incompatibilidade com um público exigente, que conhece muito do produto em si, e é tradicionalista como qualquer outro povo. A história da Timbalada merece que à frente dos seus vocais, tenham pessoas que entendam suas simbologias, e que cante sua historicidade. Se isso ainda não foi entendido pela diretoria, é porque esses não os querem lá. Portanto, é preciso que os que vieram dar, deixar e ser feliz ao fogo dos ancestrais, abale essa fé e repense sua cor como diz diversas das suas músicas.

timbalada

Fotos: Banco de Imagens

Quem produz samba são elas!!!


samba de mulheres
Quinta Do Samba Do Cajueiro – Boca Do Rio.

Kelly Adriano de Oliveira, em sua tese “Deslocamentos Entre o Samba e a Fé”, afirma que as mulheres tiveram um papel importante na preservação e resistência do samba. Pensar seu papel na preservação dos diversos legados negros é reafirmar o protagonismo e visibilizar a importância do empoderamento feminino, que revela sua força em diversos contextos, e em especial no samba.

Estamos falando da construção de novas narrativas, onde elas reivindicam não somente seu protagonismo, mas a participação para além da exposição do corpo, e em uma dimensão bem maior e mais profunda. Para muitas mulheres esse tema pode parecer algo natural, mas nem sempre foi assim. Se pensarmos que o samba naturaliza a presença masculina, enquanto invisibiliza a produção das mulheres, valorizar a figura feminina em um universo musical dominado pelos homens é um momento ímpar a ser comemorado.

Ao falar de “Uma Alvorada para as Mulheres” sua força e protagonismo cultural, o Bloco Alvorada nos convidou a pensar a contribuição destas na produção cultural fora do carnaval, sem a sexualidade que objetifica seu corpo nos espaços de samba. Esse tema mostrou o que vem sendo notado nas rodas de samba em Salvador, o cavaquinho, pandeiro e microfone brilhando nas mãos de realezas como Gal do Beco, Josiane Clímaco, Juliana Ribeiro e Rita Nolasco.

Sem deixar de lembrar mulheres como Camilla França, Carmen do Q’ Felicidade, Dorinha da Feira de São Joaquim – mulheres que vem desnaturalizando o protagonismo masculino nesses espaços. Elas vem mostrando que o samba não é só um gênero musical, mas uma cultura de resistência, visibilidade musical e participação feminina.

samba de mulheres

Ao desfilar pelas rodas de samba, elas mostram que o verdadeiro samba, além de valorizar a tradição, tem que garantir a contação da história de mulheres que foram detentoras da sua resistência. Por isso, ao estarem nestes espaços, elas quebram com o anonimato e mostram que o samba é sim assunto de mulher.

“Uma Alvorada para as mulheres” não conta somente um enredo feminino. Ele questiona as realidades, ameniza dores e festeja alegrias que contrariam as mazelas cotidianas que oprimem a população negra. Por isso, parafraseando a música “Maravilhosa é ela”: Quem tá no samba são elas!!!

 

Luciane ReisLuciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

#OpiniãoPreta – Cultura em Salvador, desafio cotidiano da periferia negra


diamundialdohiphopsalvador-2
Banco de Imagens

A Economia da Cultura é responsável por mais de 5% do PIB no mundo, segundo dados do Banco Mundial. Aqui no Brasil, o IBGE, através de um convênio com o Ministério da Cultura, vem  produzindo indicadores que dão um raio x do PIB brasileiro neste segmento.

Dados iniciais sobre essa economia informam que existe uma média de 320 mil empresas ligadas à produção cultural em todo o país. O que torna esse setor responsável pela geração de 1,6 milhão de empregos formais.

Ou seja, 4% dos postos de trabalho no Brasil se origina nas produções e ações culturais desenvolvidas nos mais diferentes espaços.

MvbilldjbrancofavelasoteropretaSe a cultura tem o poder de gerar emprego e renda, por que será que, mesmo com o acesso aos recursos financeiros dos governos locais, esses incentivos não consegue potencializar a cultura da periferia ou torná-la fonte de renda para seus produtores, como em outros setores?

Por que a cultura e eventos da periferia, ou seja, produção negra, não ocupa espaço nos veículos de comunicação de Salvador com o mesmo destaque que as não negras?

Ao olhar os números em destaque e pensar esses pontos, só me vem à cabeça o imaginário social existente sobre a cultura e eventos de periferia. Há aqui um misto de indignação e desconfiança sobre a população, que acaba por fazer com que haja uma baixa aceitação desta cultura. Isso as coloca, enfim, como “merecedoras” da precarização socioeconômica e da quase nula divulgação.

Ao perceber essa situação, entramos em outro ponto enfrentado, que é a ausência de uma profissionalização na perspectiva negra e periférica. Isso acaba por favorecer um mercado que se baseia na relação pessoal, clientelista e informal. Sem regras claras, igualdade de oportunidades, concorrência e  falta de visão estratégica sobre o papel da cultura periférica.

grupolekandanceocorponacena

Precisamos desenvolver estratégias de empreendedorismo na área da cultura. Em Salvador, é possível olhar as agendas culturais e notar como a cultura não periférica tem espaço e visibilidade nos meios de comunicação.

Essas contam, além da boa vontade dos comunicadores, com a parceria das agências de viagem, hotéis e guias turísticos, que as vendem como o coração da cultura baiana. Distorcem toda a publicidade dos órgãos de turismo. Estes que colocam a cultura negra e seus símbolos como o ponto chave da Bahia para o mundo.

Repensar esta visibilidade, aproveitando as oportunidades oferecidas, é atuar com uma capacidade criativa que atende aos mais diversos gostos. Ainda que não valorizado em seu protagonismo, por só se levar em consideração os “3 P’s” (pobre, preto, periférico).

É perceber que não há escassez de mercado para a cultura periférica e negra, produzida e coordenada por negros e negras.

Som de Crioulas
Som de Crioulas

Mas uma estigmatização e limitação no que se refere ao seu pertencimento étnico cultural, origem e condição socioeconômica.

Há em curso uma rede excludente de promoção da cultura soteropolitana, cuja auto preservação dos privilégios é o fator chave de um mercado cultural seletivo.

Um mercado que não permite, no palco, a presença – enquanto protagonistas – de quem nunca saiu da plateia ou das suas periferias.

lureis2Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Veja aqui artigo de Luciane sobre as Mídias Negras. 

Racismo Reverso com Mila Hora: PAREM!


nova vocalista timbalada
Foto: Banco de Imagens

Quem me conhece sabe da minha impaciência com solidariedade seletiva. Sim, me incomoda essas solidariedades que dependem de quem está sendo agredido, humilhado ou vítima de algo. Racismo é coisa séria, não pode ser usado como se fala “geladinho” ou  “me despache”.

Uma pessoa que sofre racismo, acaba por carregar para a vida toda marcas psíquicas que a coloca em situações de dificuldade constante, distorcendo seus sentimentos e percepções de si mesmo. Portanto, vamos com calma quando se fala de racismo reverso. Algo que para uma branquidade que nunca é barrada ou questionada, justifica os limites ou repressão dados por alguém ou algo que tenha feito.

Parem de banalizar algo tão sério. Assistimos situações de racismo cotidianamente, contra segmentos vulnerabilizados. Sim, vulnerabilizados e não discordantes. Falo isso, pois diante de tantos defensores do tal “racismo reverso” sofrido pela nova vocalista da Timbalada, é preciso – como diz Tia MÁ – ”tirar o sapatinho e colocar o pé no chão”. PAREM!!!

É isso mesmo. Parem de transformar um descontentamento técnico e de referencial cultural sofrido pela nova vocalista, em racismo reverso. Algo impossível de acontecer a pessoas, que tem o Brasil como principal garantidor de seus privilégios sociais e economicos. É desleal, alguém dizer que sofreu racismo por ser branco. Se oriente…Não existe racismo de negros contra brancos ou, como estão chamando reverso.

nova vocalista timbalada
Foto: Reprodução/Instagram

Antes de falar de racismo reverso,  vá ver os conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. Logo a nova vocalista da banda Timbalada, pode até ter recebido a carga de  descontentamento dos  seguidores do bloco, por não se enquadrar no projeto, por situações de abuso e desrespeito que esses julgam que os gestores do bloco vem  promovendo.

Mas racismo, impossível! Se tem uma coisa que Salvador/Bahia tem é  generosidade com a  “branquidade”. Vide Daniela Mercury que, na cidade mais preta, já foi “ a cor desta cidade”, sem o menor remorso. Ou  Cláudia Leitte,  que já se reivindicou “nega lôra”.Ambas muito aplaudidas e reverenciadas, mesmo sem saberem de fato o que é ter “a cor desta cidade” ou “ser uma nega lôra”.

Mile Hora foi vaiada por estar totalmente desconexa das simbologias e linguagens do bloco, por os presentes estarem estressados com os valores abusivos e por uma série de fatores que vem fazendo esses se chatearem. Agora, chamar isso de  racismo? PAREM!!!!

Tanto a Timbalada quanto os blocos afro, fazem parte da construção identitária e referencial de um segmento que tem suas relações de pertença construídas via  familiares ou de amizade. Diferente de Ivete, Cláudia Leitte, Saulo e outros que tem seu público formado por uma atuação midiática e conhecimento técnico de profissionais de comunicação.

nova vocalista timbalada
Banco de Imagens

Blocos como Ilê, Olodum, Filhos de Ghandy e Timbalada tem seu público formado de forma geracional. As pessoas que compõem e se conectam a estes, o fazem por pertencimento emocional e familiar, não comercial como muitos insistem em dizer.

Uma pessoa que vai a um destes ensaios há mais de 10 anos, como é o caso dos Timbaleiros, “Olodúnicos” e associados do Ilê ou Ghandy, não tem somente uma relação comercial ou de consumidores ocasionais.

São indivíduos que tem uma relação de identidade e garantia de valores, zelando, inclusive, pelo que consideram tradição e garantia da perpetuação dos valores encontrados nestes.

Mila Hora foi vaiada por não compreender essas nuances. Ela foi vaiada por – como disse uma Timbaleira – “não resgatar músicas femininas adormecidas e cantar um inglesamento louco e sem nenhuma relação com a banda e público”.

Dizer que a branquidade e a condição de não baiana, foram os fatores que fizeram o público da Timbalada vaiar Mila Hora é distorcer uma série de acontecimentos anteriores, nos quais a cor da pele não foi – e nunca será – o central, afinal Amanda Santiago não era negra.

Perdemos Ninha, Patricia e Xexeu (dores de quem perde um membro da família) e ainda assim, estivemos lá. Timbaleiro não gosta que se cante nada que não seja do repertório da Banda, principalmente no primeiro ensaio. E ela pecou feio ao não pisar miudinho e respeitar quem chegou antes dela. Portanto, vamos parar com esse discurso de branco privilegiado que acha que pode tudo e que quando é chateado ou repreendido por fazer besteira, chama de racismo reverso.

Comparar descontentamento comercial com racismo, é covarde, desleal e, acima de tudo, de profunda ignorância. Como profetizou o cacique Brown ainda nos primórdios da banda “Quem manda na mata é Oxossi, mas na Timbalada é cada Timbaleiro que há mais de 10 anos garante que a Timbalada desfile pelo Axé Music, como beldade central e descendente de Yansã Balé.

Luciane Reis MercAfroLuciane Reis é articulista do PortalSoteroPreta, publicitária, Jornalista, pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos e acima de tudo, TIMBALEIRA há MAIS DE 10 ANOS.

 

Instituto Mídia Étnica: 11 anos rompendo as amarras do coronelismo midiático


Luciane Reis
Luciane Reis

No momento em que o Instituto Mídia Étnica (IME) comemora 11 anos na luta pelo direito humano à comunicação, eu não poderia deixar de parabenizá-lo e pensar a importância de mídias negras como o “Geledés”, “Portal SoteroPreta”, “A Lista Negra”, “Flor do Dendê”, dentre outras. De Youtubers e influencers digitais como “Tia Má”, “Frases de Mainha”, “Tá Bom pra Você?”, “Muro pequeno”, “PH Cortes”, “Afro e Afins”, e tanto outros que vem dando destaque a segmentos invisibilizados e que sofrem violações na mídia diariamente.

Falar dos 11 anos do IME, é falar da desconstrução da noção de “democracia racial”, igualdade de oportunidades e participação social nos veículos e meios de comunicação brasileiros. É falar de uma disputa cotidiana com uma mídia majoritariamente branca, hétero, católica ou evangélica que naturaliza o sentimento de que negros, gays e mulheres pertencem a grupos “minoritários”, logo, com direitos e referenciais passíveis de serem violados e invisibilizados pelo racismo midiático que conhecemos.

imeReverenciar e potencializar veículos como o Correio Nagô\ Mídia Étnica, youtuber’s e influenciadores negros, é perceber quão primordial é a existência destes na aglutinação, fortalecimento e visibilidade de vozes e temas caros – porém deslegitimados – por uma representação radicalizada e estigmatizadora de parcela da sociedade.

“Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais.

É preciso repensar nossa forma de se comunicar com a sociedade brasileira e, nesse sentido, as mídias negras são uma grande aliada, uma vez que rompem com a cultura de que para ser válido, precisa ser noticiado em veículos legitimados por uma sociedade não negra e que denunciamos todos os dias como promotoras das diversas opressões que nos atingem. Precisamos ser ousados no fortalecimento dos nossos veículos e, principalmente, na produção de conteúdo para esses sites e blogs.

ime2É urgente que nos tornemos a mídia sobre todos os formatos, seja produzindo conteúdo, em páginas pessoais ou compartilhando personalidades e produtos de intelectuais que falem de nós, do nosso lugar de fala ou temas de nosso interesse ou comunidades. Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais, quando se fala do registro da nossa memória e história nas amplas e diversas redes de mídia.

“Nesse repensar nossa postura com esses veículos, não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós”

ime4É preciso romper com a cultura que vê as mídias negras como uma ação de segunda ou terceira categoria ou, pior ainda, como a alternativa final quando os veículos que legitimamos e reclamamos, não nos aceitam como pauta.

Nesse repensar nossa postura com esses veículos não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós que militamos por um mundo melhor, rompendo assim com parte do ciclo negativo que tanto nos assola. Logo, discutir a ampliação e fortalecimento destes é um desafio a todos aqueles que lutam pela promoção da igualdade – em especial a racial no Brasil.

 

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de desenvolvimento econômico, com foco em afro empreendedorismo e vulnerabilidades periféricas.