Atriz e poetisa Elisa Lucinda traz espetáculo a Salvador este mês!


elisa lucinda

A atriz e poetisa Elisa Lucinda fará uma apresentação beneficente do espetáculo Parem de falar mal da rotina, no dia 14 de agosto às 20h, no teatro Jorge Amado (Pituba). Toda arrecadação será destinada ao projeto social Teatro Escola Jorge Amado, que visa oferecer cursos artísticos e profissionalizantes para jovens de escolas públicas e afrodecendentes em Salvador. O show é por ocasião dos 20 anos de fundação do Teatro.

Elisa Lucinda foi a primeira artista a pisar no palco do Teatro Jorge Amado, em 9 de agosto de 1998. Ela volta ao palco para apresentar o pocket de um dos seus grandes sucessos, monólogo que traz a visão da atriz sobre o modo de vida e sua inquietude na busca interminável da liberdade.

A peça une histórias vividas e ouvidas por Elisa, além dos poemas retirados dos livros “O Semelhante” e “Eu te amo e suas estreias”.

Os ingressos serão disponibilizados com preço popular no valor R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), podendo ser adquiridos AQUI ou na bilheteria do Teatro. Mais informações podem ser obtidas através do telefone 35259720.

Serviço:

Teatro Jorge Amado celebra 20 anos com Elisa Lucinda

Data: 14 de agosto

Horário: 20h

Valor: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (Meia)

Contato: 3525-9720

#Cabaré20Anos – “Será que nem viado negão pode ser?!” – Edleusa, ser pretx, gay e de Candomblé!


cabaré da rraça 20 anos

Há 20 anos, o espetáculo Cabaré da Rrrraça entrava em cartaz no Teatro Vila Velha e entrava pra história do Bando de Teatro Olodum, como o mais popular e que mais tempo ficou em cartaz. Em agosto, quem não viu terá a chance de ver esta obra reconhecida pelo público, casa lotada todas as vezes, e conhecer seus personagens emblemáticos. Dentre eles, Edmilson, ou Edleusa, personagem hoje interpretado por Leno Sacramento.

#Cabaré20Anos – “Já que é questão de costume, se acostume a me chamar de negra!” – Dra. Janaína

Criação do ator, Lázaro Machado, o personagem traz três temáticas em si: a discriminação racial, por ser gay e a discriminação por ser de Candomblé. “Ou seja, uma tríplice discriminação. O nome Edleusa surge como uma forma de dar graça à personagem sem ridicularizar a figura do gay e também quebrar o tom sério da discussão do espetáculo sem se tornar num show de humor e piadas. Edleusa é o tipo gay fechativo, que se veste como hetero masculino e lacra”, explica Lázaro.

cabaré da rraça 20 anos
Foto Giuseppe Roca

Para Leno Sacramento, Edleusa é uma forma de protesto, não só dos gays, mas da diversidade. “Fiz um laboratório, pois a maioria dos meus amigos são gays. Pego tudo deles e coloco no palco, eles assistem e se sentem representados. Uma vez em São Paulo o cara assistiu e falou que a frase mais importante do espetáculo é quando Edleusa diz: “Será que nem viado negão pode ser?!” Foi quando vi como tocamos em pessoas de várias formas diferentes”, diz Leno Sacramento.

#Cabaré20Anos – Jaqueline…“Eu faço 2º ano de Formação Geral…!”

Vinte anos depois….

Para Lázaro, as coisas “continuam como dantes no quartel de Abrantes”, ao se analisar a personagem Edleusa. “Não se parou de discriminar, matar, assassinar gay, não se parou de discriminar quem é negro e nem se parou de discriminar e perseguir quem é de Candomblé. Ainda estamos em processo de aceitação e transformação dessas mudanças. As mudanças ainda são poucas diante dos direitos que foram negados à população negra brasileira no passado. Muitos dos assuntos abordados no cabaré há 20 anos, aconteceram há menos de 20 dias atrás. Por isso o Cabaré ainda é atual, faz história e a ajuda a escrever a nossa história e trajetória”, diz.

#Cabaré20Anos – “Essa galera do Movimento Negro é muito radical!” – Jorge Washington explica Taíde!

#Cabaré20Anos – De volta ao Vila Velha

De 12 a 27 de agosto, Cabaré da Rrrrraça volta ao palco do Vila para mais apresentações – com mais atualidades e com mais polêmica. Até lá, acompanhe a série no Portal Soteropreta sobre alguns de seus personagens!

 

#Cabaré20Anos – Marilda Refly, a estética afro e cabelos crespos no Cabaré!


cabaré da rraça 20 anos

A cabelereira Marilda Refly chegou a uma grande descoberta: o mercado de cosméticos para cabelos crespos é um baú de tesouros! A personagem integra o clã do Cabaré da Rrraça, espetáculo do Bando de Teatro Olodum que celebra, em agosto, 20 anos. São diversos os personagens que, ao longo da peça, vão arrancando risos e provocando reflexões no público.

Marilda é um deles, criado pela atriz Cassia Valle e que já foi interpretado pelas atrizes Eddy Veríssimo, Jamile Alves e pela própria Cassia, que hoje a assume nos palcos. “Me preparei conversando com várias donas de Salões de Beleza, lendo as revistas Raça e buscando representar, não uma dona de salão específica, mas várias mulheres que tiram seu sustento e crescimento profissional através da estética”, conta Cassia.

#Cabaré20Anos – “Já que é questão de costume, se acostume a me chamar de negra!” – Dra. Janaína

Na peça, a personagem afirma algo que hoje é tão certo quanto promissor – pensando-se num futuro muito próximo: “o cabelo é um dos principais avanços de toda a estética negra”. O que confirma a atualidade do espetáculo Cabaré da RRrraça e a identificação do público com seus personagens, o que se vê a cada dia de apresentação: casa lotada.

cabaré da rraça 20 anos

Vinte anos depois….

“Acho esse texto tão atual. É importante por nós negros sabemos o quanto o cabelo é um elemento identitário, e o quanto suas evoluções são importantes e significativas para o fortalecimento e entendimento da nossa identidade. Acho que já naquela época, falar que o cabelo era um avanço, é como se eu tivesse criado um texto com visão total do futuro”, diz a atriz.

#Cabaré20Anos – Jaqueline…“Eu faço 2º ano de Formação Geral…!”

Importante lembrar que as criações de todos os personagens deste espetáculo, como já vimos aqui no Portal Soteropreta, se basearam, em muito, a partir de leituras da Revista Raça Brasil, que àquela época surgia como referência na pauta da estética e da autoestima negra, em combate ao racismo. Marilda, aqui, chega pra refletir isso.

“Acredito ser importante fazer o Cabaré como estamos fazendo, celebrando um texto feito há 20 anos que, por mais triste que seja, é necessário. Temos um espetáculo forte, que já fez viagens internacionais, já visitou boa parte desse Brasil e tem um público fiel e apaixonado”, diz Cassia.

#Cabaré20Anos – “Será que nem viado negão pode ser?!” – Edleusa, ser pretx, gay e de Candomblé!

#Cabaré20Anos – De volta ao Vila Velha

De 12 a 27 de agosto, Cabaré da Rrrrraça volta ao palco do Vila para mais apresentações – com mais atualidades e com mais polêmica. Até lá, acompanhe a série no Portal Soteropreta sobre alguns de seus personagens!

Teatro Escola Jorge Amado abre vagas para Oficinas Culturais!


teatro jorge amado

O projeto social Teatro Escola Jorge Amado abriu suas inscrições para as oficinas culturais do segundo semestre. São 100 vagas gratuitas, destinadas a estudantes da rede pública e jovens afrodescendentes, de 15 a 24 anos. O curso será realizado de 19 de agosto a 30 de novembro de 2017 e as inscrições para os cursos ficarão abertas até o dia 10 de agosto.

O projeto envolve a realização de oficinas de diversas vertentes da estética cultural e visa oportunizar o desenvolvimento artístico, intelectual e a consciência cidadã dos participantes. No ato da matrícula, é importante levar o original do histórico escolar ou atestado escolar atualizado, originais e cópias da cédula de identidade, do CPF e do comprovante de residência.

Haverá, ainda, palestras com artistas locais, nacionais e também com profissionais que atuam nos bastidores culturais, que abordarão os impactos socioculturais da arte e suas subjetividades. O Teatro Escola vai oferecer também matérias interdisciplinares como:  história da arte, comunicação cultural, história afro-brasileira, psicologia social; e incluirá visita técnica aos espaços culturais da cidade, proporcionando o acesso dos jovens a espetáculos diversos.

Aberto para quem quiser também?!

O público em geral também pode participar das oficinas oferecidas, mediante pagamento de uma taxa de inscrição de R$200 apenas. A inscrição para publico em geral pode ser feita AQUI. Os jovens que desejam o direito à gratuidade da inscrição devem enviar um e-mail para [email protected] solicitando o envio do formulário de inscrição, para participar da seletiva. A seleção será através de sorteio eletrônico. Os sorteados serão submetidos a uma entrevista presencial.

Cantora Ivana Paixão apresenta o show “Quatro baianos, uma baianidade”


Lorena Vinturini
Foto: Lorena Vinturini

No próximo dia 03 de agosto (quinta-feira), às 20h, a cantora Ivana Paixão apresenta o show “Quatro baianos, uma baianidade”, no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura), no Salvador Shopping. Dona de uma voz singular, a cantora baiana vai interpretar canções clássicas dos compositores Caetano Veloso, Nelson Rufino, Dorival Caymmi e Gilberto Gil.

Serão aproximadamente duas horas de muita música popular brasileira, sob a direção de Joaquim Pinto Machado. Os músicos que acompanham a cantora no espetáculo são: Joaquim Pinto Machado (violão), Val Alencar (saxofone e flauta), Giba Conceição (percussão) e Isaias Rabelo (piano).

Serviço:

O que: Ivana Paixão apresenta show “Quatro baianos, uma baianidade”

Onde: Teatro Eva Herz – Livraria Cultura, no Salvador Shopping (Av. Tancredo Neves, nº 2915)

Quando: 03 de agosto (quinta-feira), às 20h

Quanto: Inteira: R$ 40,00 e Meia Entrada: R$ 20,00

INGRESSOS AQUI!

Classificação indicativa: Livre

Discurso de Angela Davis em Salvador no Julho das Pretas! – Por Raquel Luciana de Souza


Transcrição da fala de Ângela Davis na Reitoria da Universidade Federal da Bahia no dia 25.7.2017 – Tradução de Raquel Luciana de Souza. 

Eu não tenho nem condições de expressar a vocês o quanto estou emocionada por estar aqui nesta noite. Para mim, é assim que deveria ser a aparência da universidade. Quero agradecer à Ângela Figueiredo, ao Odara. Quero agradecer também ao NEIM pelo convite para homenagear o dia 25 de julho. Essa é minha quarta visita a Bahia e sexta ao Brasil.

Neste momento, me sinto extremamente envergonhada por ainda não ter aprendido português. Esse é o meu próximo projeto. Estou muito feliz por estar aqui celebrando com vocês o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Na Bahia, o Julho das Pretas. Estou muito entusiasmada por estar aqui no Brasil, especialmente porque tenho acompanhado os acontecimentos que vêm se desenvolvendo dentro do movimento das mulheres negras.

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Me parece que, neste momento, o movimento das mulheres negras brasileiras representa o futuro do planeta. As mulheres negras brasileiras têm uma história extensa de envolvimento em lutas pela liberdade. Como tem sido simbolizado, por exemplo, pela Irmandade da Boa Morte. O conceito de Boa Morte nos convida a imaginar a imagem de um futuro melhor. Isso me leva a reconhecer as amplas contribuições das mulheres negras no Brasil e na Bahia no contexto da cultura religiosa.

Durante a minha visita, fui honrada com a possibilidade de atender uma oficina oferecida na Irmandade e também de passar um tempo na Roda de Samba da Dona Dalva. Tive a oportunidade de aprender sobre o trabalho de Dona Dalva na preservação do samba de roda. Recentemente ela recebeu um título de doutora honoris causa pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Também tive a oportunidade de me encontrar e conhecer a Ebomi Nice. Quero também ressaltar que há alguns anos fui honrada com um convite para conhecer o terreiro de Mãe Stella de Oxóssi e me encontrar com ela, que me disse sobre seus esforços a fim de preservar a cultura e a religiosidade dentro das tradições baianas e que as mulheres negras estão no centro dessas tradições.

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Como foi dito por Dulce Pereira, já venho ao Brasil desde 1997. Nunca vou me esquecer do encontro que ocorreu em outubro daquele ano, em São Luís do Maranhão. Tive a oportunidade de encontrar Luiza Bairros pela primeira vez. O espírito de Luiza Bairros continua presente. Também encontrei pela primeira vez Vilma Reis e tantas outras mulheres negras maravilhosas, as quais continuo a me encontrar todas as vezes que venho ao Brasil.

A atual visita, organizada pela professora doutora Ângela Figueiredo, foi um encontro organizado em um contexto mais amplo, um curso em Cachoeira sobre o feminismo negro decolonial. Quero agradecer a Ângela — toda vez que alguém chama por ela, eu também olho — por me convidar para voltar a Bahia várias vezes. As pessoas me perguntam se eu já fui ao Rio de Janeiro, a São Paulo. Não, mas eu venho a Bahia de novo, de novo e de novo.

Menciono essa escola porque ela reuniu estudantes negras do Brasil, América do Sul, África do Sul, Canadá, Estados Unidos e Porto Rico. Ao fazê-lo, produziu concepções importantes que poderiam não ter sido disponibilizadas se esse encontro não tivesse ocorrido. Todas nós, que tivemos a oportunidade de estar aqui, vindouras de outras partes do mundo, temos muita sorte de estar aqui neste momento, onde o ativismo de mulheres negras está em um nível elevado e pungente.

Como já foi dito e reiterado várias vezes, o movimento social liderado por mulheres negras é o movimento social mais importante do Brasil. Após o golpe antidemocrático que resultou na deposição de Dilma Roussef, as mulheres negras criaram a melhor esperança para este país. Muitas de nós, nos Estados Unidos, estamos entusiasmadas acompanhando a Marcha das Mulheres Negras no Brasil desde novembro de 2015. Nós continuamos a sentir as reverberações dessa Marcha. Agora estamos no Julho das Pretas.

angela davis em salvador
Foto: Hieros Vasconcelos

Este é um momento difícil para o nosso planeta por vários motivos, mas, sobretudo, por termos uma guinada à direita na Europa, nos Estados Unidos, na América dos Sul e especialmente no Brasil. Não tenho nem como começar a explicar para vocês qual é o sentimento de morar nos Estados Unidos onde Donald Trump é presidente. Mas não devemos nos esquecer que, um dia após a posse de Trump, o movimento de mulheres levou para Washington três vezes mais pessoas que o número que participou da cerimônia de posse. Estima-se que mais de cinco milhões de pessoas participaram da Marcha das Mulheres contra Trump no mundo, inclusive na Antártida.

A Marcha das Mulheres em Washington foi liderada por mulheres negras, latinas, asiáticas, indígenas, muçulmanas, e também mulheres brancas. Nos encontramos em Washington, por todo o mundo e todos os países, para dizer que nós resistiremos. Todos os dias da presidência de Trump, nós resistiremos. Nós resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero patriarcado. Nós resistiremos ao preconceito contra o Islã, ao preconceito contra as pessoas com deficiência. Nós defenderemos o meio ambiente contra os insistentes ataques predatórios do capital. Aqui em Salvador, no dia 25 de julho, dedicado às mulheres negras na América Latina e no Caribe, afirmamos ainda de forma mais forte: com a força e o poder das mulheres negras dessa região, nós resistiremos.

Sabemos que as transformações históricas sempre começam com as pessoas. Essa é a mensagem do movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter). Quando as vidas negras realmente começarem a ter importância, isso significará que todas as vidas têm importância. E podemos também dizer especificamente que, quando as vidas das mulheres negras importam, então o mundo será transformado e teremos a certeza de que todas as vidas importam.

As lutas das mulheres negras estão conectadas com as lutas de pessoas oprimidas em todas as partes. Com aquees que dizem “não” às políticas anti-imigratórias de Trump e à construção de seu muro. Com aqueles que dizem “não” ao apartheid e ao muro que separa Israel da ocupação Palestina. Com aqueles que dizem “não” ao racismo e à misoginia na Colômbia. Com aqueles que dizem não ao sistema de castas na Índia. Estamos em solidariedade com as mulheres Dalits em suas comunidades. Com aquelas que dizem “não” à violência cotidiana, doméstica e íntima, que incide sobre as mulheres negras e que, geralmente, são impostas a elas por homens negros.

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Finalmente as mulheres negras têm sido reconhecidas pelo trabalho em manter as chamas da liberdade acesas. Não é o tipo de liderança que visa dar visibilidade ou poder a indivíduos, baseada em carisma, o individualismo masculino carismático. Mas é o tipo de liderança que enfatiza as intervenções coletivas e apoia as comunidades que estão em luta. A liderança feminista negra é fundamentalmente coletiva.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, reconhecemos a importância de confrontar a violência de estado. Enquanto o racismo está saturando todas as instituições — nas questões da moradia, do emprego, da saúde e da educação — e pode ser mais dramaticamente reconhecido nos sistemas policiais e punitivos. As mulheres negras têm liderado ações contra a violência do estado, a violência policial e o racismo dentro do sistema carcerário, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

Tenho falado sobre a liderança das mulheres negras, mas eu deveria estar me referindo, na verdade, à liderança feminista negra. É necessário enfatizar a condição da mulher negra na perspectiva de gênero e de raça, reconhecendo que também está implicado nisso classe, sexualidade e gênero, para além da convenção binária. Nosso foco está nas mulheres negras empobrecidas, inclusive as que estão encarceradas, as queer, as trans, as com deficiência. Mas também estamos conscientes que não focamos na mulher negra a partir de um arcabouço separatista, porque as mulheres negras também estão se engajando nas lutas de outros grupos. Às vezes ao ponto de elas serem excluídas desses movimentos.

As mulheres negras estão entre os grupos mais ignorados, mais subjugados e também os mais atacados deste planeta. As mulheres negras estão entre os grupos mais sem liberdade do mundo. Mas, ao mesmo tempo, as mulheres negras têm um trajetória histórica que atravessa fronteiras geográficas e nacionais de sempre manter a esperança da liberdade viva. As mulheres negras representam o que é não ter liberdade sendo, ao mesmo tempo, as mais consistentes na tradição, que não foi rompida, da luta pela liberdade, desde os tempos da colonização e escravidão até o presente.

Lembremo-nos de Rosa Parks, que sempre enfatizou que queria ser lembrada como uma mulher poderia ser livre, de tal forma que todas as pessoas pudessem ser livres. Lembremo-nos de Lilian Ngoyi, líder do movimento anti-apartheid na África do Sul, que disse, em 1956, entre as suas irmãs: “Agora que atingiram as mulheres, vocês acionaram um trator e serão esmagados”.

Carolina Maria de Jesus nos lembrou que a fome deveria nos levar a refletir sobre as crianças e sobre o futuro muito antes de o conceito de interseccionalidade ser utilizado. Lélia Gonzales insistiu que não só deveríamos compreender a complexa inter-relação de raça, classe e gênero, mas que deveríamos ter em mente as conexões entre os povos indígenas e os povos negros. Essa são as lições que nós dos Estados Unidos precisamos aprender com a história do feminismo negro no Brasil.

angela davis em salvador
Raquel Luciana de Souza traduz discurso de Angela Davis

O que me leva a levantar o próximo ponto. Existe, geralmente, a pressuposição de que a forma mais avançada de feminismo negro é encontrada nos Estados Unidos. É verdade que há muitas figuras norte-americanas reconhecidas pelo desenvolvimento do feminismo negro. Isso não deveria se dar pelo entendimento de que nos Estados Unidos estamos mais avançados. Essa é uma visão colonialista e imperialista.

Na verdade, isso ocorre porque as ideias, sejam elas conservadoras ou radicais, circulam com mais facilidade a partir dos Estados Unidos do que as ideias que emanam do Brasil. Não posso me levar tão a sério assim. A meu respeito, gosto sempre de ressaltar que ninguém jamais conheceria meu nome se pessoas de todo o mundo, inclusive do Brasil, não tivessem se organizado para exigir minha liberdade, no princípio dos anos 70.

É verdade que cada uma dessas viagens que fiz ao Brasil têm me trazido novas perspectivas. Desde a primeira conferência de Lélia Gonzales, em 1997, no Maranhão, até a escola do feminismo negro decolonial da qual participei agora. A partir disso, passo a questionar o meu papel em trazer o conhecimento feminista negro para o Brasil. Passei a perceber que nós, nos Estados Unidos, somos aquelas que precisamos aprender com os conhecimentos e as perspectivas que são produzidas pela longa história de luta feminista negra brasileira.

Precisamos aprender sobre o poder feminista negro preservado dentro da tradição do Candomblé. Precisamos aprender sobre os movimentos organizados por mulheres negras trabalhadoras domésticas na Bahia e no Brasil. Tive o privilégio de conhecer Marinalva Barbosa, que é a presidente do sindicato de trabalhadoras domésticas da Bahia. Temos muito a aprender com a atividade dessas mulheres.

Nós ainda não conseguimos nos organizar de uma maneira bem sucedida através de sindicatos dessa categoria nos Estados Unidos, apesar do fato de que mulheres negras, trabalhadoras da limpeza, terem organizado uma greve em 1881, em Atlanta, na Geórgia. Mesmo apesar do fato de que nos anos 20 e 50 tenham havido esforços, que não tiveram sucesso, de organizar sindicatos dessa categoria. Não é uma coincidência que Alicia Garza seja uma das mulheres co-fundadoras do movimento Vidas Negras Importam. Mesmo assim, ainda não temos um sindicato de trabalhadoras domésticas.

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Deixem-me compartilhar com vocês algumas palavras sobre o complexo industrial carcerário. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, estou correta? Sendo a primeira nos Estados Unidos e depois vêm Rússia e China. Os Estados Unidos está aprisionando um quarto da população carcerária de todo o mundo. Se olharmos para a população carcerária feminina, um terço está encarcerada nos Estados Unidos.

Se tivéssemos tempo esta noite, poderíamos falar mais aprofundadamente sobre como essa população carcerária reflete o capitalismo global e como esse sistema negligencia as necessidades humanas. Essas pessoas não tem acesso a moradia, educação, saúde ou qualquer outro serviço que seja necessário para a sobrevivência. A rede carcerária mundial constitui um vasto depósito onde pessoas consideradas desimportantes são descartadas como lixo. Aquelas tidas como as menos importantes são as pessoas negras, do sul global, muçulmanos e muçulmanas, indígenas.

Quando nós trabalhamos e lutamos contra a violência do estado manifestada através de práticas policiais e de encarceramento, afirmamos que as vidas negras importam, que as vidas indígenas importam. A professora Denise Carrascosa, aqui da UFBA, tem liderado um projeto de mulheres dentro do sistema carcerário chamado “Corpos indóceis e mentes livres”, um projeto entusiasmante que reune mulheres encarceradas de tal forma que elas possam dramatizar as suas realidades, as suas vidas.

Esses são os tipos de projeto inovadores que produzem conhecimentos feministas sobre a relação entre a liberdade e a falta de liberdade. Acabei de ser informada que a professora Carrascosa tem sido impedida de entrar no complexo penintenciário feminino porque ela se juntou a outras encarceradas para protestar contra o tratamento punitivo aplicado a uma mulher que foi trancafiada, sendo-lhe negado o uso de medicamentos pós-operatórios.

Em função da professora Carrascosa ter levantado a sua voz, seu projeto, que já dura sete anos, foi barrado. O que vocês farão em relação a essa situação? Quero sugerir que vocês peçam a cada uma das pessoas aqui presentes para assinar uma petição exigindo que esse projeto seja reincorporado. Sabemos que nos últimos dez anos houve um aumento de 500% na taxa de encarceramento de mulheres e que dois terços de todas as mulheres que estão encarceradas no Brasil são negras.

Isso me leva aos meus últimos dois pontos. Um deles é a questão da reprodução da violência. Nós não podemos excluir a violência doméstica e íntima das nossas teorias sobre a violência do estado e institucional. Frequentemente, agimos como se uma não tivesse relação com a outra e que, se as mulheres negras são vítimas dessa violência cotidiana praticada por seus maridos e namorados, isso significa que os homens e garotos negros são violentos. Como podemos refletir sobre isso?

Nós precisamos nos perguntar qual é a fonte dessa violência que prejudica e fere tantas mulheres negras. Qual é a relação dessa violência com a violência policial e do sistema carcerário? Se essa violência do indivíduo está conectada com a violência institucional e do estado, isso significa que não conseguiremos erradicar a violência doméstica enviando aqueles que a praticam ao sistema carcerário. Se desejamos erradicar as formas mais endêmicas de violência do indivíduo da face da Terra, então devemos eliminar também as fontes institucionais de violência. Este é o chamado para a abolição do encarceramento como a forma dominante de punição para pensarmos novas formas de abordagem para aqueles que são violentados. Este é o chamado do feminismo negro para formas de justiça decoloniais.

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Meu último ponto diz respeito aos contantes esforços para conter nossa resistência. Quando nós resistimos, as instituições dominantes e, sobretudo, o estado, tentam conter a nossa resistência. Querem transformar as nossas lutas, em estratégias de consolidação do estado. O movimento pelos direitos civis é agora é reivindicado pelo estado como central em suas narrativas sobre a democracia. Mas o movimento Vidas Negras Importam, principalmente na era Trump, é considerado um insulto.

No Brasil, agora que o mito da democracia racial foi totalmente exposto, a pergunta que se apresenta é se o movimento de resistência das mulheres negras pode ser apropriado. Afirmamos que, na medida em que nos levantamos contra o racismo, nós não reivindicamos ser inclusas numa sociedade racista. Se dizemos não ao hetero-patriarcado, nós não desejamos ser incluídas em uma sociedade que é profundamente misógina e hetero-patriarcal. Se dizemos não à pobreza, nós não queremos ser inseridas dentro de uma estrutura capitalista que valoriza mais o lucro que seres humanos.

Se reconhecermos que aqueles que queriam resolver a questão da escravidão buscavam formas mais humanas de escravização, nós estaremos utilizando a lógica do racismo. Reconhecemos que a reivindicação da reforma do sistema policial e da reforma do sistema carcerário apenas mantêm as estruturas racistas ao mesmo tempo em que finge se importar com as questões raciais.

É por isso que dizemos não ao feminismo carcerário e sim ao feminismo abolicionista. É por isso que nós convocamos essa solidariedade para além das fronteiras nacionais e ressaltamos que o feminismo radical negro decolonial reconhece as nossas profundas conexões, mesmo a medida em que reconhecemos também nossas contradições.

A luta pelo acesso à agua no Quilombo Rio dos Macacos vem sendo rotulada como “terrorista”. Tenho aqui em minhas mãos um apelo que vêm do Quilombo Rio dos Macacos relacionada aos seus direitos humanos de acesso à terra e à água que lerei após o evento. Mas o que eu quero dizer é que as lutas que acontecem dentro dessa comunidade estão conectadas às reivindicações para a proteção da água por populações indígenas contra o veneno trazido pelos dutos de petróleo.

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Essas lutas estão conectadas também aos esforços que ocorrem em Flynn, Michigan, em expor o envenenamento das águas nas comunidades negras. Essas lutas também estão conectadas com as das comunidades palestinas, engajadas em defender as suas reservas de água, alvo constante das forças militares de Israel. Somente através da solidariedade e da luta, nós poderemos preservar o nosso acesso a água.

Quilombolas, presente!

Finalmente, quero salientar a minha alegria em estar aqui com vocês no Brasil, Bahia, Salvador, celebrando o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Mulheres negras representam o futuro. Porque mulheres negras representam uma possibilidade real de esperança na liberdade.

Tradução de Raquel Luciana de Souza. 

Veja na íntegra a cobertura deste dia na TVE:

Cerimônia celebrará os 25 anos do Instituto Steve Biko nesta segunda (31)


Há 25 anos, em Salvador, uma experiência começava para entrar na história da luta antirracista em todo país. Nascia o Instituto Steve Biko, primeiro cursinho pré-vestibular voltado, exclusivamente, para jovens negros e negras. Em 31 de julho de 1992, militantes do Movimento Negro se uniram após compreender que apenas pela Educação é que se poderia fazer a reparação imediata e necessária. Os 25 anos serão celebrados em Cerimônia, na próxima segunda (31), às 19h, no Centro Cultural da Câmara dos Vereadores – Praça Municipal.
Na Cerimônia, que terá como tema “Desafios e Estratégias para os próximos 25 anos”, ex-alunos, professores e militantes que estiveram na fundação da Biko serão homenageados. Para falar da importância do Instituto para a transformação de jovens negros e negras ao longo destes anos, estão confirmadas as presenças da liderança religiosa, Makota Valdina (Terreiro Tanuri Junsara), a socióloga e Ouvidora da Defensoria Pública do Estado, Vilma Reis e a professora e ex-aluna da Biko, Sueli Santana.
 Na ocasião, o Instituto lançará campanha com o objetivo de arrecadar recursos para a continuidade da construção da nova sede do Instituto, no Campo Grande, em Salvador. Com o novo espaço, doado pelo governo do estado em 2011 e que hoje se encontra em obras, a Biko ampliará sua capacidade de atuação, passando a beneficiar mais de 200 estudantes no Pré-Vestibular.

Biko

Atualmente, o Instituto atende a 76 jovens, no Pelourinho. Além disso, a nova sede será também o ponta pé inicial para a instalação da Faculdade Steve Biko, primeira pautada na diversidade e na educação afrocentrada, em Salvador. A campanha será deflagrada nas Redes Sociais do instituto (Facebook, Instagram, Youtube).

 A Cerimônia é aberta ao público e contará com apresentação de poesia de Joyce Melo e Maiara Silva -jovens integrantes do Grupo Ágape e Sarau da Onça, além de música e depoimentos de ex-alunos.

SERVIÇO

Cerimônia Instituto Steve Biko – Desafios e Estratégias para os próximos 25 anos

Quando: 31 de julho de 2017, 19h

Onde: Centro Cultural da Câmara dos Vereadores – Praça Municipal.

Aberto ao público

Espetáculo Condenados leva debate sobre Homofobia ao Centro Cultural Plataforma!


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Com um retorno expressivo do público e mantendo casa cheia em suas primeiras apresentações no Espaço Xisto Bahia, o espetáculo Condenados segue em cartaz no Centro Cultural Plataforma nos dias 29 de julho, 3, 4 e 5 de agosto.

Em sua terceira temporada, Condenados traz como tema a discussão em torno da homofobia em diferentes pontos de vistas: do agressor, da sociedade para quem sofre o ato. Através das vivências em torno da opressão e violência sobre LGBTs pela sociedade em geral, a peça põe em pauta se a única forma de acabar com as agressões, que em muitos casos terminam em assassinato, seria se defender com a mesma violência.

O texto provoca o expectador abordando conflitos familiares, preconceito velado e violência gratuita, em meio à reflexão sobre a responsabilidade da comunidade LGBT em perpetuar a homofobia que ela tanto sofre.

Dirigido e escrito por Filipe Harpo, Condenados traz um conjunto de histórias vividas por 20 personagens interpretados pelo cantor e ator Taric Marins (Grupo musical Banda de Boca; Espetáculos: Bessame Mucho, Mar Morto) e o ator Bruno Roma (Gota D´água, Transmetropolis, A Comida de Nzinga).

A peça faz parte do Projeto Sou Mais, contemplado no Edital Apoio a Grupos e Coletivos Culturais 2016, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

SERVIÇO

O quê: CONDENADOS

Elenco: Bruno Roma e Taric Marins – Direção de Filipe Harpo

Quem: Projeto Sou Mais – SouDessa Companhia de Teatro

Quando/Onde: Centro Cultural Plataforma (Praça São Braz, s/n – Plataforma)

29 de julho (19h)

03 e 04 de agosto (15h)

05 de agosto (19h)

Quanto: R$ 5,00 (meia); 10,00 (inteira)

Classificação: 18 anos

 

 

Projeto Atitude Bahia realiza Mostra Artística de Danças Urbanas no Xisto


Projeto-Atitude-Bahia

Um estudo do corpo feminino que está sobre o salto alto, trabalhando a postura, o equilíbrio e a sensualidade – este é o estilo de dança urbana “stiletto’! No próximo dia 30 de julho (domingo), às 18h, acontece no Espaço Xisto Bahia, a Mostra Artística de danças urbanas, com foco nesta modalidade.  O evento, que é inteiramente gratuito, terá a participação de grupos de dança que pesquisam este estilo e outras modalidades de danças urbanas, além da apresentação da premiada drag queen baiana Yanna Stefens.

A Mostra faz parte do projeto Atitude Bahia, idealizado pelo professor e dançarino Vinícius Nascimento (BA) e é uma ação resultante da oficina ministrada pelo próprio Vinícius e da coreógrafa Juliana Donato (RJ). 

O stiletto em específico é uma dança feminina, sensual, elegante e estética, criada através de um estudo de comportamento feminino e de movimentações e possibilidades no salto alto. Então é uma dança onde homem ou mulher, não importa a sexualidade, ela tem que ser executada com muita feminilidade, sensualidade e elegância”, esclarece Vinicius.

Projeto-Atitude-Bahia

Além das apresentações, o público terá a oportunidade de visitar gratuitamente no foyer do Teatro Xisto Bahia a exposição “Atitude Bahia”, com imagens produzidas pela fotógrafa Shai Andrade, da oficina de waacking / vogue ministrada por Jo Cardoso (PR) e Barbe Zion (RJ) e da oficina de jazz funk, ministrada por Andreza Bastos (BA) e Andrew Lima (SP), assim como das duas Mostras Artísticas já realizadas. A exposição propõe materializar a poética do corpo dançante, com um acervo acerca da produção em dança urbana contemporânea. Visitação aberta, 30 de julho, a partir das 16h.

 

Serviço:

O que: Mostra Artística | Projeto ATITUDE BAHIA

Quando: 30 de julho

Quanto: Gratuito

Informações: http://atitudebahia.com.br

Crédito das fotos: Shai Andadre

Realização: PROJETO ATITUDE Bahia

Apoio financeiro: Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.

Fotos: Shai Andrade

Projeto Pérolas Negras e Coletivo Mais Amor Entre Nós lançam doc “Enrolado na Raiz”


doc enrolado na raiz

O projeto Pérolas Negras e Coletivo Mais Amor Entre Nós lançam, no dia 26 de julho, às 19h, no Teatro Gamboa Nova, em Salvador, o documentário “Enrolado na Raiz”.

Dirigido pela diretora Camila Caracol, o filme traz relatos de mulheres negras distintas que mostram como o racismo atua em diversos aspectos sociais de suas vidas através de suas vivências e da relação com o próprio cabelo.

Vai ter ainda bate-papo com a diretora Caracol e as convidadas Sueide Kintê (Mais Amor Entre Nós), Naira Gomes (Marcha do Empoderamento Crespo), Lorena Ifé (Afrodengo) e Fátima Fróes (Festival Pan Africano de Cinema).

Sobre o filme

Estreando na cena do audiovisual como diretora, a mineira Camila Caracol, que é também roteirista e editora do filme, coletou depoimentos de mais de 20 mulheres dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Bahia. Neles, o público verá relatos de suas questões pessoais de identidade negra. Parte desse resultado foi apresentado no seu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social e transformou-se em seu primeiro filme documentário.

 

Enrolado na raiz doc
Camila Caracol

SERVIÇO

O que: Documentário Enrolados na Raiz,  23’’, 2017

Quando: 26 de julho, quarta-feira

Horário: 19 horas

Onde: Teatro Gamboa Nova, Aflitos, Salvador-BA

Custo: Gratuito (espaço sujeito a lotação)