#PoesiaSoteropreta – Andrei Williams, o poeta incubado do Rede ao Redor! – Por Valdeck Almeida


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Andrei Williams Santos Rocha, ou Andrei Williams, é um jovem poeta negro de 21 anos que vive na cidade de Salvador. Cursa o Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na UFBA, onde conheceu e entrou no grupo de pesquisa e extensão Rede ao Redor, que considera fundamental para a sua formação.

A escrita de poesia começou aos 16-17 anos e hoje, aos 21, já tem uns cinco anos de exercício. No início não tinha um bom ritmo e os temas se limitavam ao amor e abandono. Após o Rede ao Redor e as visitas aos saraus da cidade, “o que prevalece é a questão racial, mergulhando no racismo, na desigualdade e na violência policial”, ressalta Andei Williams.

Mas seus versos continuam dando o tom na métrica, na forma, nas rimas. São versos rebeldes: “tento impor uma métrica nos versos, entretanto, na maioria das vezes, eles preferem romper com essa forma. A meu ver, a métrica consegue dar ritmo à poesia e isso envolve o ouvinte/leitor além do próprio conteúdo. Mas ando falhando nisso (risos)”. 

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O nome artístico surgiu numa apresentação de poetas, em que este colunista do Portal SoteroPreta – e também participante do grupo de pesquisas no Rede ao Redor-IHAC-UFBA -, lhe apresentou, e Andrei reagiu com o bom humor que lhe é peculiar: “Valdeck me anunciou outro dia como “Andrei Williams, o poeta incubado do Rede ao Redor (kkkk) e, como uso muito pouco as redes sociais para postar poemas e não os tenho divulgados em outras plataformas, acho que sou um poeta incubado mesmo”, brinca Williams.

Poesia pra Andrei é coisa séria e deve ser pautada na reflexão acerca das transformações necessárias na nossa sociedade, para que alcancemos um estado de coisa de valoração da dignidade humana.

“Poesia é intimidade e ferramenta para quebrar barreiras: através dela busco tocar o campo mais íntimo das pessoas, me conectar a elas. Atualmente as pessoas, ou por segurança, ou por medo, ou por qualquer outra coisa, acabam isolando seus espíritos para com as outras e também para a realidade, como se envolvessem de várias camadas, igual uma cebola. A poesia tem essa potência de transpassar as camadas e se conectar com os espíritos”.

Sobre a relação da poesia com família “eu nunca havia pensado e estou reflexivo agora. Mas, caso se pense família como uma relação íntima e forte entre seres, então, talvez, quando se está diante de uma poesia e seu espírito está todo voltado para ela, nesse momento pode haver um nível de relação suficiente a ponto de se falar em família”.

Ainda segundo o poeta Andrei, cada poesia pode querer alguma coisa. Algumas podem incentivar, outras podem alertar, outras podem pedir socorro; já outras podem criticar, denunciar, chorar, se expressar, mas sempre em conexão com o que há de mais íntimo de cada pessoa. A relação muda quando entra a intervenção do poeta: “então, eu pretendo com a poesia construir essa relação íntima com as pessoas quando recito, mas também desabafar e organizar no papel os sentimentos que eu trago comigo”.

O poeta e o cidadão estão juntos na luta por afirmação e por conquista de poder. E o ingresso no BI da UFBA foi apenas o primeiro passo no mundo acadêmico. A curto prazo ele pretende ingressar no curso de Direito da UFBA. Já a médio e longo prazo ele busca alcançar postos de poder dentro do cenário baiano. “Quanto mais pretos no poder, melhor será a nossa realidade frente a esse sistema esdrúxulo”, decreta. 

Fotos Divulgação

Preto no Poder

Veja a minha indignação

De quem está eternamente na mira do seu Estado de Exceção

Olha porra! Veja o ódio, mas também veja a paixão

De quem está disposto a dar a vida pra matar esse seu sistema de opressão

E não, não olhe pra lá

As correntes vão cair e sua hora vai chegar

E, caralho, como vai ser difícil de quitar

Se a cada segundo uma gota de sangue negro corre a me atormentar

Porque foi o seu racismo que fez a nossa desigualdade

Mas não dá mais para viver essa sina covarde

De todo dia ter que provar a porra da minha humanidade

De estupro e violência a miscigenação se fez

Quem sabe um dia toda essa maldade volte procês

Porque meu corpo do crime já é freguês

Vida espancada, arma na cara, hoje pode ser a minha vez

E quem foi que disse que eu sou o ladrão?

Esquivando do seu chicote eu busco todo dia a minha redenção

Mas eu vou dar um papo, apesar de ser censurado

Que tem várias famílias na Vitória que fizeram fortuna traficando escravo

E isso parceiro… não vai passar

Vamos tomar de assalto sua fortuna secular

Mas, calma, branco!

Não deixe que seu racismo venha te iludir

Porque meus punhos contra você… eu não vou dirigir

Você vai presenciar mais um feito da geração tombamento

Pra fazer burguês chorar em canto de lamento

Na cidade fora da África mais preta

Que nunca viu um prefeito, preto, eleito

Vamos invadir todos os espaços e exigir o seu respeito

Se é verdade que uns preferem morrer a ver o preto vencer

Então amarra a corda e se joga

Porque nós vamos tomar todos os postos de PODER!!!

Andrei Williams

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – O amor e a liberdade na poesia de Nádia Ventura!


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Nádia Ventura escreve há 51 anos sobre o amor em suas várias vertentes, com a pretensão de se libertar.  poesia é sua essência e, através desta arte, Nádia viaja. Na sua escrita, não tem horizonte impossível: sonhos, imaginação, lembranças, dores, frustrações, desencanto, cenas do cotidiano… Com intenção de dividir, canalizar sentimentos, fazendo com que o leitor se identifique e sinta que a poesia faz parte da sua vida desde a hora que acorda, até quando dorme e sonha. “Todos nós somos poetas, vivemos a poesia que a vida nos dá, amarga ou doce… Alguns sabem como externá-las, outros apenas a sentem…”, segundo a poetisa!

Nádia se inventa e reinventa na poesia. “A minha arte é puramente literária. Dentro da literatura eu me reinvento e me realizo nos Romances, Contos, Crônicas e em Artigos políticos…”.

Poesia e família. “Para a poesia rimar com Família, depende muito do momento do autor. Pode rimar de uma forma boa ou má. Nenhuma Família é perfeita fora dos porta-retratos, fora da imagem que cada um pretende mostrar à sociedade”, diz Nádia. E ela afirma que a família é como a vida, cheia de altos e baixos, de amor e ódio, de tristeza, alegrias e decepções… E segue o raciocínio: “A família tradicional para mim já não existe. A Ancestralidade Comum, também já não conta. Outras formas, outros valores tomaram lugar, porque evoluímos”.

Nadia_Ventura

E Nádia não para por aí.

“Então, esse grupo familiar já não divide necessariamente o mesmo teto, expandiu-se aos amigos. Mãe é pai e pai é Mãe, avó, tias(os) são pais e mães. Casais sem filhos adotam; casais brancos adotam crianças de outras raças; assim como homossexuais, lésbicas, travestis e trans, também adotam, formando assim uma nova família contemporânea. Portanto, hoje, a consanguinidade não quer dizer Família. Família hoje são escolhas… Temos o direito inquestionável de criar a nossa própria Família, amá-la sem a obrigatoriedade parental… E essa diversidade é MARAVILHOSA e EVOLUTIVA…”… Essa é a trama da poesia de Nádia Ventura, que não tem limites ou receitas prontas. Tudo é poesia, e poesia é tudo na vida a poeta.

E a poeta iniciou bem cedo seus exercícios de poesia. Começaram a ser escritos desde a infância, mais ou menos aos oito anos de idade. O primeiro poema, entretanto, só foi publicado na idade adulta, em uma antologia organizada pelo jornalista Valdeck Almeida de Jesus. “Eu sou muita grata ao poeta por isto. Depois desta publicação vieram vários convites e estou em treze Antologias no Brasil, Europa e países de língua portuguesa”, enumera Nádia.

Onde estão os textos de Nádia Ventura: Prêmio Literário Galinha Pulando 2012, Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus 2014, Era das Palavras – Antologia Internacional Multiacadêmica BRASIL/SUÍÇA, Palavra é Arte – Antologia Poética, COGITO – Antologia Internacional II, COGITO – Antologia Internacional III, Incertezas e Suas Fragilidades, Antologia SOLILÓQUIO, Antologia MEMÓRIAS, Antologia PARADIGMA (Editado em Portugal e países de língua portuguesa), Mulher Poesia – Antologia Poética vol. 2, Doce Poesia Doce, KAMA – Poesia e Contos Eróticos. E não para por aí. Tem outros textos no prelo, que sairão nas publicações: Focus – Antologia Poética XII, Antologia Memórias 2, Perdida – Romance (Solo), Contos que te Conto em Versos e Prosas (SOLO)”.

Nádia por Nádia: “Sou uma pessoa apaixonada pela vida, apesar da dor. Sou apaixonada pela minha família, meus amigos, pela natureza, pelos animais, pelas crianças, pela ciência, pela minha religião e por todas as expressões artísticas, principalmente pela literatura…”

 

A Moça e o Menino
(Para Fátima Celeste Nascimento)

Era um segredo de amor
Só para dois,
Cheios de expectativas
Na noite escura
Ou na madrugada calada…
Um dia o segredo tomou corpo,
Criou coragem,
Ganhou o dia, 
Chegou ás ruas,
E sem pressa 
Entrou no quarto.
Primeiro lutaram contra o estranhamento.
Depois o acasalamento.
Ela, tranquila,
Sabia todos os passos daquela dança…
Ele, nervoso, 
Admirava o ritmo tranquilo daquela moça.
E Colados, dançaram por horas, 
Até adormecerem…
Quando dia chegou
O desencanto se fez real
Cada qual seguiu calado a sua via.
E a noite quando veio
Nunca mais foi a mesma… 
O segredo se desfez,
Quando a expectativa fugiu.
Mas o menino guardou na memória, a voz rouca e sensual
Que lhe falava delícias, 
Na penumbra do quarto
Que cheirava a óleo de sândalo. 
A moça por sua vez,
Chorou o desencanto e partiu
Levando consigo toda a dor
De um amor impossível
Numa tarde fria 
De um dia qualquer… (Nádia Ventura)

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Rilton Júnior, o Poeta com P de Preto!


Rilton_Junior
Foto Dayse Cardoso

 

Rilton Santos de Santana Junior ou Rilton Junior, também se apresenta como Poeta com P de Preto. Ele é Poeta, Pai, Ator, Agente Cultural, Capoeira Raça, além de intérprete de suas vivências. É poesia em pessoa, mas acha que só começou a escrever poemas na mesma época em que iniciou sua trajetória no Teatro. As temáticas variam de amor, alegrias, saudades, tristezas, anseios, natureza, ancestralidade, enfim, mas hoje encara a questão racial como seu principal foco na escrita.

Todo o seu empenho com as letras tem um propósito:

“Um dos principais desejos é dar protagonismo à juventude e, desde quando cheguei, até agora, tenho visto a grandeza que se tornou o movimento da poética marginal em nossa cidade, (marginal porque foge dessa perspectiva de poesia pra ganhar aplausos, essas poesias querem mais que aplausos, querem reflexão, conscientização, vem pra fazer sair do lugar de conforto!”, diz Rilton Junior. “Eu pretendo apenas expressar um pouco do que há em mim, na minha caminhada, e um pouco do que vivenciei”, conclui o poeta.

Poeta com P de Preto lança CD sobre resistência negra

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Foto: Fernando_Gomes

Como todo poeta de verdade, o Poeta com P de Preto situa a poesia numa variedade de definições ao ser perguntado sobre o tema. “Olha, eu ainda não sei o que é a poesia, sei que vivencio ela de diversas formas, seja em versos ou nas vivências com a comunidade, também creio que seja algo que modifique, que traga reflexões, que transmita ou crie sentimentos”. E no exercício criativo ele revela:

“Quando estou escrevendo me referencio em tudo que tenho, o contexto do que quero falar no momento, desde o que leio em um Livro a uma conversa que tenho com um amigo, em estatísticas, às vezes vêm frases na mente, aí eu escrevo no celular, e lapido. A intenção vai ser de informar, contextualizar uma ação, instigar os sentimentos dos ouvintes”. Finaliza Junior.

Multiartista e inquieto no criar artístico, Rilton Junior tem como principal vertente o Teatro, mas não se limita: “De lá que eu vim. Mas nessa vida já trilhei alguns poucos caminhos, com a Dança, a Capoeira, Produção cultural, e aos poucos me arrisco na Música no Rap”.

E quem disse que todo poeta é um fingidor, nem sempre. Rilton tem uma personalidade definidamente forte, mas ao mesmo tempo acolhedor. Sinceridade é com o poeta. Sobre poesia e família, ele fala:

“Poesia rima com família, assim como família rima com poesia, acho que a poesia relata ou cria possibilidades de sentimentos, vivências e trocas que na família também existe, digo nas várias lições e estados em que se encontra um laço familiar, seja de sangue ou não”.

E poesia-família é o que Rilton Junior sente, de acordo com esta afirmação: “Família, acho que existem certos laços afetivos que são tão importantes que as vezes são estruturantes em nossa formação, muitas vezes até que involuntariamente, digo isso a partir da minha vivência com o Grupo de Poesia Resistência Poética, que é um alicerce fundamental pra eu me tornar quem sou hoje”.

Tem textos publicados:

Em 2015 teve um poema no Prêmio Literário Galinha Pulando, que foi a poesia “12 Pretos” sobre a Chacina do Cabula.

Tem um Livreto de poesia intitulado “A poesia é o meu trabalho”, que contém 10 poemas autorais, já tem mais de 2.500 exemplares rodando por toda city.

Teve 3 poemas lançados no Antologia Literária Jovem Afro editora Quilombhoje, onde tem 14 poetas do Brasil inteiro e Rilton Junior teve a honra de ser um dos dois poetas representando a Bahia e o único residente de Salvador.

A Minha Poesia

A minha poesia é preta

Crítica, política e racial

Estética

Métrica

Universal

Minha poesia não se comporta em livros

ou na rede

Minha poesia fala

Porque tem sede

De retaliação

Minha poesia assusta e conforta

Incomoda

É quem me livra na hora

do bote dos bota preta

Minha poesia é treta

Pros racistas inculcados na gaveta

Minha poesia é treta

Pro homem machista que a mulher não respeita

Minha poesia é treta

Nossa luta não se assimila à esquerda nem direita

Minha poesia é preta

É alimento pra quem

tem fome de conhecimento

Resistente

Potente

É dedo na ferida de muita gente

Poeta

periférico

Sem diploma de faculdade

em letras

Minha poesia é vivida

Preta!

E eu como preto

Poeta

Faço dos meus versos um

Escudo e espada na mão

Para alertar meu povo faço das tripas coração

Às vezes fico rouco

Por falta de exercícios de respiração

Mas basta eu recitar pra você respeitar!

Minha poesia é preta!

Rilton Junior

 

Valdeck AlmeidaPor Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Gonesa Gonçalves nasceu Poesia!


Gonesa_Goncalves

Gonesa Gonçalves é o nome artístico de Gonesa Souza Moreira Gonçalves, que escreve desde quando não se lembra… nasceu poesia! “Fui a primeira vez na escola aos nove anos, mas aprendi a ler e escrever muito rápido, porque tinha que ajudar minha mãe, que foi letrada fora desses moldes ocidentalizados que não reconhecem as diversas habilidades de uma pessoa que não escreve”.

E a prática, o exercício de Gonesa começou muito cedo com um diário. A mãe, uma mulher muito inteligente, lhe ensinou primeiro a recontar as coisas belas do mundo com a boca, “porque ela considerava que conseguir falar era uma ferramenta muito potente de liberdade”, relembra. “Então antes de escrever qualquer coisa no papel, eu aprendi a bordar esse tecido pálido e gigantesco que é o mundo com as linhas contadas das histórias coloridas da minha mãe”.

gonesa

Gonesa escreve, escreve, de tudo: poesia, conto, crônicas, mas deixa que o leitor ou o pesquisador analise sua produção. Pra ela, o mais importante é tecer o mundo em letras e versos. Uma coisa é certa: a comparação entre a natureza e o ser humano é latente na sua escrita, além da poesia homoerótica, homoafetiva…

Em relação a inspiração e performance poético, ela se pergunta e já emenda a resposta: “Meu corpo é artístico? Eu acho. Eu gosto de usar meu corpo, minha voz. Eu sou preta, gorda e me considero um delito as imagens que “regem” a ordem da sociedade atual. Eu gosto de ocupar todos os espaços, Eu sei que meu corpo, da maneira como se comporta é artístico, é político, porque incomoda. Então meus contos, meus poemas, meu corpo, minha voz são linguagens que eu utilizo”.

Na escrita Gonesa quebra regras e linearidades, inventa as próprias setas, caminhos, padrões, para, depois, quebrar tudo. Sua pretensão com a poesia? Ficar rica! E ela confessa que não deu! Então, faz outros corres para sobreviver.

E por falar em quebrar regras, a poesia de Gonesa rima com família divergente, com rasuras. A família possível e a família do afeto, é a que rima com os textos desta poetisa:

“O sentimento de afeto não deveria ser invadido por uma ideologia invasiva de achar que família é um modelo papai, mamãe e filhos, até porque a gente sabe que o que mais existe na sociedade brasileira são famílias compostas por mulheres negras e seus filhos. Minha família era eu, minha mãe, uma irmã, um irmão mais velho que foi para São Paulo trabalhar e meu irmão mais novo, que minha mãe adotou de uma outra mulher que se relacionou com meu pai. Meu pai foi embora e ficamos uma família de irmãos e mãe e agora somos uma família de irmãos porque minha mãe morreu”.

 

Tem oito poemas publicados na Coletânea Literária Enegrescencia, dois poemas no Diferencial da Favela e Um conto publicado no Diferencial da Favela 2. E posta também nas páginas do Enegrescência e no Colcha de Retalhos, no facebook.

Gonesa Gonçalves é graduanda de Letras pela Universidade Federal da Bahia, membro do PET Conexões Comunidades Populares, vice-presidente do Enegrescência e pesquisadora no Grupo de Pesquisa Rasuras da Ufba.

 

Súdito

Se veio aqui

Seja meu, inteiro

Sou dona da noite

Faça o que peço

 

Sem algemas,

Meu quarto

Cárcere

De conter você

 

Meus olhos

A imobilizar

seu corpo

Não farei esforço

Para que seja meu

 

Minhas mãos

Acolhem

Como terras

a segurar raízes

De árvores troncosas

 

Minha boca:

Recipiente

De conter os rios

Que transbordam

Do seu corpo.

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Indemar Nascimento, poesia de carne, osso e pulsação!


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Indemar Nascimento escreve desde 2011, pretende levar mensagem e virar espelho pra sua comunidade e todas as perifas, e declara: “minha escrita não é a que seja preferida, mas necessária, racial e social”. Indemar se identifica tanto com a poesia, que se enxerga como uma poesia, de carne, osso e pulsação:

“Eu costumo dizer que eu sou a poesia; então, ela não é o que pra mim e sim eu sou ela”. As referências para escrever vêm de filmes, escritores, pessoas que são referências pessoais e para a humanidade. Seus textos trazem a intenção de conscientizar e fazer a perifa entender e passar a questionar sobre tudo que acontece ao redor: racismo, homofobia, machismo, genocídio.

A poesia de Indemar Nascimento não se escreve somente nos papéis, nas folhas de caderno, na tela de um celular ou computador. Ele encarna poemas em seu próprio viver diário, como dito anteriormente: Ele é a poesia.

indemar_nascimentoE essa poesia também se revela na capoeira, luta ancestral que dá início a todos os seus questionamentos. É através da capoeira, também, que Indemar tira exemplos e passa aos alunos: recortes, história, ancestralidade sobre de onde eles vieram, os porquês de onde eles estão.

Poesia são pessoas e pessoas formam a família real de Indemar.

“Na real, família pra mim foram pessoas que encontrei no andar da minha vida. Poesias que se modificam; algumas dessas pessoas/poesias não estão mais aqui, mas continuam poesias, virando poesias”. E exemplifica: “Sant em uma música diz “no rap prega família, mas a nossa de sangue nem existe”. Família pra mim são pessoas que te fortalece e muitas das vezes não significa que será encontrada em casa”.

A música é outro espaço que abriga o poeta. Suas incursões no universo do RAP estão nas redes sociais, em CD, EP etc, plataformas que funcionam como braços e pernas do jovem artista da palavra. Na caminhada cultural e poética, Indemar marca seu espaço na cena da poesia, e emociona quem o conhece. A potência de sua palavra está em todas as quebradas, desde a Baixa da Soronha, onde vive, no bairro Itapuã, a Sussuarana, Vila Verde (Estrada Velha do Aeroporto), Olaria, (Nordeste de Amaralina), enfim, por toda a cidade.

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Nos Slams e saraus de Salvador, ele é marca registrada e, em uma batalha emocionante no Slam BA realizado em Sussuarana, Indemar ficou classificado, juntamente com Juh França (Coletivo Zeferinas), como representante da Bahia para disputar o Slam BR em São Paulo – entre os dias 14 e 17/12.

Na literatura, foi classificado e teve um poema publicado pelo “Prêmio Galinha Pulando de Literatura – 2015”. Estas conquistas servem de incentivo para continuar: “me fazem sentir que isso não é em vão. Tento buscar o que possa ser melhor pra nós”, resume.

Pior que não sei…

Hoje olho pra minha velha, me sinto um merda, quantas quedas
planos, a geladeira vazia e eu me fudendo aos 23 anos
sentado no canto, pranto, pratos quebrados
aprendi que esse ditado não é pra peri: “colhemos o que plantamos”
eu sei que não sou desse mundo, meu coração anda podre demais mesmo sendo puro
olhar vendo pessoas não enxergando a dor do outro. Onde chegamos ? me diz…!
na diáspora, campo de pólvora. Os do lado de cá chora
escondem a neblina de dentro sorrindo pra fora
mãe África implora, vários tirados do ventre, do berço
o barranco desliza, fé, lágrimas recomeço
Se Deus existe será que ele não erra? A divisão foi injusta. Desculpa esses gritos
os suspiro de  um filho que nem sabe se tá sendo ouvido
carrego o peso do mundo nas costas, isso me fode literalmente
uma chance de frustrar literalmente em mim quem aposta
vivemos no inverno, constante
será que tudo mudou, ou apenas que cresci e não via a beleza como via antes?
daqui pra frente carrego o meu próprio peso. Sem machucar mais ninguém pelo que me tornei
toda vez que eu caí, foi pros braços seu que retornei
quantos questionamentos, quantos momentos
das minhas dores?? Só sei que tudo sei!
será que até nisso errei?

Indemar Nascimento

Texto de Valdeck Almeida para a coluna #PoesiaSoteropreta. Confira mais aqui!

 

#PoesiaSoteropreta – A transcendente poesia de CR Moska! – Por Valdeck Almeida


CR_Moska

CR Moska escreve desde o início da década de 90, quando começou misturando temas sociais com existenciais mas, hoje, diz: “cada vez mais amplio e agrego novas possibilidades poéticas sem perder as abordagens anteriores”.

O poeta foi o criador do extinto grupo poético musical “Prazer Atômico”, que fez dezenas de apresentações em recitais poéticos. Através deste coletivo, ele publicou seu primeiro zine poético literário em 1997, homônimo. Desde então participa, organiza e colabora com recitais poéticos do universo poético/literário soteropolitano.

Em 2009, iniciou mais um projeto poético intitulado “Páginas de Concreto”, que levou às ruas de Salvador pequenos poemas, no estilo haikai, com objetivo de estabelecer uma relação direta com as pessoas no ambiente urbano. Também participou do projeto “Poesia em Trânsito” como poeta, fotógrafo e vídeomaker. Atualmente, trabalha na finalização como diretor e editor do DVD “Poesia em Trânsito”. Em 2015, CR Moska recebeu o  prêmio de melhor vídeo-poema com o trabalho “Aqui Começam Minhas Palavras”, no Festival FENAPO 2015.

Em 2010, começou a produzir, dirigir e atuar em vídeos-poemas que estão disponíveis na internet. Possui um blog que agrega toda a diversidade das suas criações, como poemas, foto-poema, música, poesia e vídeo-poema.

Mesmo com uma atuação diversificada na cena artística de Salvador, CR Moska considera a poesia, “antes de tudo, para mim, uma forma de transcendência, ou seja, eu a uso como uma forma de desabafo, conforto, de prazer, de brincar com as palavras, de reagir e protestar contra as coisas que incomodam, frustram…”

A poesia é algo indefinível para CR Moska: “Nunca soube bem definir o que é poesia, mas fiquei satisfeito com alguém – que já não recordo quem -, que a definiu como uma forma de resumir tudo…”.

CR Moska deixa bem claro sua maneira de poetizar: “Eu nunca fui um poeta metódico, nunca medi ou pensei a poesia como algo que se pode meticulosamente planejar, ter métrica, versos rígidos, sentido combinado ou qualquer interpretação confabulada; portanto, não uso recurso, escrevo de forma intuitiva e sem nenhuma pretensão de sofisticação literária, tampouco domino a gramática…”

Mas é consciente do papel deste gênero literário em sua vida. Segundo Moska, a poesia está em todas as áreas de sua vida e, materialmente, não o levou a lugar algum, mas o cercou de amigos, cúmplices e companheiros das palavras. “Me tirou a solidão, as dores do mundo, os infortúnios e as coisas que transcendo quando escrevo…”, confessa.

Um Pequeno Saldo Positivo na Bolsa de Valores Emocional

O mundo se move com cifras milionárias.
Quantias e números que fazem brilhar.
Os olhos frios da opulência.
E os que fazem de sua conta bancária.
Uma forte razão para existir.

Eu com meus pequenos pormenores sentimentais.
Com uma insignificante quantia de moedas no bolso.
Sou obrigado a aprender tirar “leite de pedra”.

Foi um dia tão monótono e desastroso.
Faltavam flores e algo que me resgatasse.
Daquela sensação impiedosa de derrota.
Mas o destino não é tão desumano, cruel e avarento.
Às vezes, em meio a tantos infortúnios significativos, ele me presenteia.
Com pequenos e sutis gestos de misericórdia sentimental.
E me favorece na bolsa de valores emocional.
Com um ridículo e positivo saldo de alegria.

Eu preciso de pouco.
Ou quase nada material para viver sossegado no meu canto.
Conformo-me com uma aparição repentina.
De alguém especial e cativante…
E não há nada mais relevante e gratificante.
Que ganhar de bom grado um largo sorriso sincero…
Para ter alegria, alegria, alegria.

CR Moska

#PoesiaSoteropreta – ThiZion é o poeta da literatura social e existencial!


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Thiago Ribeiro é graduado em Comunicação Social pela UNEB e participa atualmente do Coletivo de Arte/Cultura popular ATUAR e da Associação Cultural Comunitária Odeart, sediada no Cabula. Mais conhecido como Thiago Zion, ou ThiZion, ele escreve desde muito novo: “lembro que por volta dos 13 anos já arriscava as primeiras linhas.

Bebi desde cedo de literatura brasileira e americana e isso foi um fator aditivo pra me auto expressar através dos versos”. E ele se pergunta: “o que será que ela (poesia) pretende comigo?”, e já engata uma resposta: “A poesia para mim é uma forma de dar flores e gritos ao mesmo tom. Pretender algo no sentido teleológico, soa limitante pra tratar a desmesura do fazer poético. Mas o que todo poeta quer, é se expressar, traduzir em signos verbais essa complexidade, esse espanto que é existir”, filosofa.

O compromisso de ThiZion como escritor é trabalhar para ver mudanças, mesmo que mínimas. Afinal, “são 517 anos de saques e anulação, não veremos a coisa mudar da noite pro dia, mas já notamos diferenças nessa geração. Minha bandeira é a da literatura social e existencial. Sou um grão que acredita que podemos nos humanizar mais, denunciar as mazelas sociais e anunciar o novo mundo de maior igualdade entre os(as) sujeito(a)s e respeito às diferenças individuais”, comenta.

Zion, tem a poesia como ritmo, sonoridade, sem necessidade de rimar, com um tom musical ao ser falada, declamada. Em suas apresentações, o poeta usa recursos internos para ‘ritmizar’ o texto, como palavras da mesma família sintática, com morfologia semelhante.

Mas quem pensa que isso significa hermetismo, preciosismo, está enganado, pois o poeta desliza como muita facilidade em sua inspiração e trabalho poético: “sou fã do verso livre, já vivemos em muitas micro-celas sociais (ideologias, carências materiais, opressões) pôr o verso em mais uma gaiola é limitar sua força e possibilidade de expressão. E como já dito, a poesia é uma ferramenta, um meio para a modificação de consciências”.

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Para além da estética e da prática da arte, ThiZion tem muita consciência de seu papel social. Para ele, “a poesia é uma ferramenta para emissão de mensagens e eu a uso de forma a passar mensagens reflexivas, sobretudo em questões sociais”. Para ele, “um verso pode fazer uma pessoa mudar de rota, mudar a condução de sua própria vida e a arte tem esse poder de chacoalhar as pessoas em vários níveis (mental, emocional, energético, etc)”.

Tem textos publicados em papel: em 2012, publicou numa antologia poética da editora VIVARA, a nível nacional;E começou a fazer o exercício da auto publicação em livretos autorais. Já publicou umas quatro edições, sempre com temas específicos como as “Outonais”, com textos mais existencialistas.

Thi Zion acredita que o mercado editorial é muito fechado à poesia periférica, e defende que a produção autônoma é bem cara. “É caro editar uma obra do próprio bolso, por isso nos reinventamos e produzimos do nosso jeito popular”. Mesmo sabendo das dificuldades de publicação, ele prefere não explorar muito as redes sociais por preferir espaços menos turbulentos. Publicou no Recanto das Letras mas deixou de lado. Prefere o face-to-face mesmo!

Sonhos redivivos

Matam-se sonhos feito formigas.

Nós somos os primos pobres da “evolução”,

repletos de nãos, dias medonhos

e barrigas vazias.

Matam-se sonhos na caneta, na promessa,

na escopeta de dias de melhores.

E os preços dos pães, arroz e feijão

a cada dia maiores.

E os sonhos mortos, vão embora sem expressão.

E as noites piores nos avisam que não há amanhã…

A não ser pela união, irmã, irmão, de nós, dos nossos,

fechando os poços abertos pela polícia, pela política,

por essa espúria pátria homicida.

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa!

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa…

Mas não vamos chorar, vamos lutar até a última gota

de dor, suor… e Amor.

Thi Zion

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Carlos Leleco: o poeta dos muros grafitados e das redes sociais!


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Desde 2013, Carlos Leandro Pinheiro de Souza, o Carlos Leleco, é o corpo que transmite a língua do povo, aqueles poemas, causos, escritos populares, com o sotaque próprio de quem nasce e vive uma vida simples. A atuação de Leleco, para além da propagação da poética roceira, tem a arte da performance e da escrita como meio para alimentar a alma e propiciar o seu crescimento como escritor, com vários objetivos, dentre eles “passar mensagens contra qualquer tipo de discriminação, preconceito e abuso de gêneros e a valorização da autoestima negra”, diz o poeta.

Para Carlos Leleco a poesia é uma das armas mais eficientes para a reflexão das questões raciais que nos rodeiam. E não é à toa que o poeta sai por aí, como um cavaleiro andante, com a espada-poesia em uma mão e a rima certeira na outra. Suas atuações são marcantes e marcadas pela cadência do verso, do movimento, da expressão séria e sisuda, se a poesia assim exige, mas, também, de um jeito maroto, quando o texto é mais faceiro e despretensioso.

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Mas não só de poesia vive o poeta. O grafite também é outra arte que ele carrega na tinta, só Deus sabe por onde ele anda, sobe, desce, para conseguir uma boa tela para expor seus talentos. Além das paredes e muros, onde deixa sua marca de spray, Carlos Leleco se equilibra, também, nas redes sócias (com a linguagem do matuto prosador), postando poemas sem rima, por escolha e licença poética. O fato de não rimar, por opção, não significa descompromisso ou desconhecimento, é pura escolha, mesmo. As escritas, no entanto, se situam num espaço, tempo e intencionalidade, como ele frisa:

“Nas intenções, existe sempre o cuidado e cumplicidade entre aquelas pessoas que se gostam. É aquela que se cuida e que mesmo magoando, exorta sua irmã ou seu irmão para uma melhor conduta social”. Numa autocrítica, o poeta não poupa sinceridade:

“Sou uma pessoa agradável, inquieto e um tanto cuidadoso(chato) para as questões raciais. Não aturo tudo, nem concordo com tudo o que o próprio povo negro tem como verdade. Afinal de contas, quem escreve ou divulga algo precisa ter o cuidado com o seu ponto de vista, algumas pessoas têm determinadas ideias como verdades”.

Jardim da Vida

No jardim da vida
Topamo um monte de flor
A deixar seus aroma ao vento
Quando por uma dessas fragrâncias somos atingidos
Ficamo tingido
Ao ponto de, mermo distante,
Sinti o exalar da vida
Invadir nossos pensamento
Aí então,
Nesse momento nos encontramos regozijados
A saborear desse tal perfume
Essas essências
Afirmo
Jamais sairão de nossas mentes.

(Carlos Leleco)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteroPreta – Julianx França Lima: A Poeta das quebradas!


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Julianx França Lima: A Poeta das quebradas, conhecida como Juh França, escreve desde que se entende por gente. Em tenra idade, a menina já tateava nas letras, e foi evoluindo, chegou a incluir nos textos análises sobre fatos históricos e, a partir daí, a poesia marginal cruzou seu caminho. A descoberta de um novo horizonte na arte de escrever. A própria Juh reconhece a força do gênero na sua atividade literária:

“Desde então não me separei mais” (da poesia marginal), assume!. E continua: “A poesia é a minha forma de transcender os meus; quando recito, levo comigo uma legião. A minha escrita blasfêmica é pra apontar e denunciar toda a opressão e sofrimento vividos principalmente por mim e pelos meus”, conclui!Juh_França

Juh carrega em si o significado de viver por si e pelo coletivo. Segundo ela, as lutas diárias, suas e de seus pares, principalmente da galera esquecida pela “cultura”, é que dá o tom e a inspiração para sua resistência na poesia. E é por meio da arte que ela demonstra, claramente, que a luta poética é persistência, e que jamais haverá desistência.

Para a poetisa, a poesia é a própria essência de sua vida, sem a qual ela declara não ser ninguém. “Sem poesia eu não sou nada nem ninguém, poesia é vida”, resume Juh França. A luta pela sobrevivência é a prática da poesia, na carne e na alma, por isso Juh se define como arte por inteiro. A escrita é sua melhor e mais poderosa arma.

“Quando recito e canto ecoam comigo gritos de amor e dor, não só meus, mas de todos que me permitiram estar aqui”, declama, em forma de verso livre.

A poeta declara seu amor pela vida, pela família, o “nós por nós” e observa que a poesia não é para ser compreendida, mas, sim, sentida, na pele, na emoção. Ainda sem texto publicado, a poetisa trilha os caminhos dos registros formais antes de se aventurar pelos papeis. Entretanto, nas formas virtuais, Juh França tem o seu fã-clube nas redes sociais, nos saraus e nas apresentações que faz por esta cidade do Salvador.

Sou Poeta!

Sou arte

Sou face

Sou heresia

Sou canto

Encanto

Sou poesia

Sou imoral

Sou Real

Sou inventor

Nas letras me faço eterno

Sou marginal versador (Juh França)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Veja aqui outros artigos dele!

#PoesiaSoteroPreta – Yuretta e sua Trans-Poesia! – Valdeck Almeida


Yuretta Santanna

No começo, jogos de RPG online foram inspirações, pois era necessário narrar, em forma de contos, coletivamente e online, histórias e ações de personagens. Isso foi em 2005. O gosto pela escrita veio daí e Yuretta deu início a seus próprios romances e fanfictions, depois contos, crônicas e, por fim, poemas, que lhe fascinaram e lhe conquistaram por inteira. Num outro universo paralelo, compunha letras de música.

Atualmente a temática que prevalece são provocações de gênero e sexualidade, e a poesia é a ferramenta pela qual a trans-poetisa dá voz às coisas que não conseguiria dizer de outra forma senão pela poesia!

Para Yuretta, poesia é “pulsão de vida. É beleza. É fôlego. E também seus avessos. É intenção. Aquilo que nos move, nos ostraciona, nos provoca e nos afeta. É a mensagem transmitida de maneira sensível. Ou, ainda, o sensível transmitido através de mensagens”, declama, lindamente!

Com estilo transgressor, Yuretta diz que, em seus textos, “o uso de alguns recursos linguísticos não são intencionais nem com a pretensão de enquadrar obras em determinados modelos por considerá-los superiores a outros menos criteriosos”.

Mas a poetiza investe em burilar suas criações, e diz que “abusa de figuras de linguagem como aliteração, metáfora, prosopopeia” e completa, já pensando como musicista: “metrifico alguns poemas, especialmente na forma de soneto, minha paixão. Gosto de valorizar o ritmo e a musicalidade do texto, acho que são as palavras chaves de uma boa poesia”.

Como a música e a poesia são indissociáveis para esta menina sapeca, ela se expressa também através do canto, da performance e, com menos frequência, dança e teatro. Transita pelas artes.

Suas músicas-poemas rimam com família sempre, pois “família é sinônimo de amor e respeito. Família é o sentimento de pertencimento a um núcleo de afeto e também o grupo unido por esse sentimento. Que poesia maior poderíamos ter?”, questiona Yuretta.

Se você quiser conferir mais das criações poéticas de Yuretta, procure a página Vale dos Alfarrábios, no Facebook, onde tem poemas publicados do livreto do Coletivo Atuar, da revista eletrônica do CEPA e de antologias poéticas como Várvara e Liberdade. Vai lá!

Yuretta Sant’Anna é cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

 

Transfiguração

Se me percebo, me questiono.
Se me questiono, me perco.
Se me perco, me acho.
Se me acho, me toco.
Se me toco, me percebo.
E tudo recomeça.
E tudo é vã conversa.
Ou vil engano,
ou grã acerto,
mas sempre um firme acordo
de fins e recomeços,
onde cada tempo é O Tempo
e todo T maiúsculo é uno,
verdadeiro,
dispensando a obrigação
de servir ao lado A
ou ao lado B
pois no alfabeto do ser
nasceu entre o fim e o meio,
no seio do início de um anseio
marcado por
trans
figura
ação.

Yuretta

 

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador.