#PoesiaSoteropreta – Rafael Pugas e a poesia da estética da requenguela!


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Rafael Muniz David Pugas, ou simplesmente Rafael Pugas, é psicólogo formado pela UFBA em 1997. A poesia está presente em sua vida desde jovem, e sua inspiração sempre foi as injustiças. Bastante sensível, muito mais que seus irmãos, Rafael não colava com a turma dos “bambambans”. Preferia a defesa de quem sofresse qualquer tipo de discriminação. Poesia em família é o tom de Rafael Pugas. Casado com uma poeta, ele tem dois filhos-poesias e o casal escreve, cada um a seu turno, sobre temas diversificados. A matriarca dedica seus textos ao poeta e esposo.

Sempre foi baixinho mas não deixou essa característica lhe diminuir. E para lutar em pé de igualdade, fez judô até a faixa preta e também boxe, mas somente para impor respeito e manter a autoestima em alta. Desde então suas lutas e desafios foram para o campo da poesia. A inspiração vem de tudo que rima com revolução, amor, injustiça.

Quando entrou pra faculdade passou a escrever na agenda vazia de compromissos, ideia de um amigo. Isso aumentou seu fluxo poético, andava com a agenda em mãos e, se não tinha nada pra fazer, escrevia…Ainda no curso universitário conheceu um poeta que declamava de improviso, mas não com rimas, era influenciado por Pessoa. A estreita amizade fez os dois desenvolverem projetos juntos. Aí Rafael descobriu a Psicologia Social, mergulhou no curso e, inclusive, realizou o III Encontro Nordestino de Psicologia Comunitária na Bahia.

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O À TU AR surgiu após uma temporada em Lençóis e Saúde em 1998, onde conheceu um grupo de artistas autodidatas: dirigiam, encenavam, iluminavam e construíam tudo em seus espetáculos. Se juntou ao coletivo e propôs um projeto que nunca recebeu respostas da prefeitura. Em 2001, em Salvador, botou o À TU AR em cena…, coletivo baseado na estética da requenguela, proposta por Alvinho. Na capital produziu o espetáculo Pintando o Sete de Setembro no sertão, encenado por Isaías Oliveira no Teatro Gamboa.

O declamador nasceu em 2002, quando alugou uma casa no Rio Vermelho com amigos, onde passaram 18 meses. Se sentiu impelido a declamar, pois todos o faziam e ele não seria diferente…

“Em relação à Poesia, pretendo ser poeta profissional, viver dela. Mas, sinceramente, não sei o que a poesia é pra mim, uma válvula de expressão, uma possibilidade de mudar o mundo, como a Psicologia Social já foi um dia, ainda é, de alguma forma”.

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Passeia por outras artes: a música como forma de expressão, “mas diante de tantos bons músicos com quem convivi, nunca esperei da música nada mais do que ser músico pra mim, como era poeta antes do À TU AR, não era pra mostrar, se não fosse o À TU AR o mundo não conheceria meus escritos. Gosto da escultura, da pintura, da dança, mas a título de expressão livre, sem pretensões profissionais”.

Não dá a mínima para publicações: “desde cedo publiquei os meus livros, não participo de concursos, não acho válido comparar poemas, acho terrível qualquer disputa em arte, não somos galos de rinha”.

Posta profissionalmente no Facebook pela possibilidade de ser lido em qualquer lugar do mundo. Aceita todos os pedidos de amizade virtual, pelas infinitas possibilidades de leituras. Além disso, mantém o canal Rafael Pugas no Youtube, onde divulga poemas declamados.

 

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador.

 

 

#PoesiaSoteropreta – Ana Fátima e a poesia-martelada para adolescer!


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Foto: Leo Ornelas

Licenciada em Letras Vernáculas e Mestra em Crítica Cultural (UNEB), Ana Fátima Cruz dos Santos escreve desde os oito anos, uma poetisa precoce. Ou melhor dizendo, já nasceu com o dom. Mais conhecida como Ana Fátima, ela é ativista do movimento negro, filha do Ilê Axé Iboro Odé, educadora e consultora de beleza.

Estuda e analisa a formação de professores(as) em educação para as relações etnicorraciais e, atualmente, desenvolve pesquisa sobre produção de materiais didáticos para Educação Escolar Quilombola e educação antirracista sob a ótica da Linguística Aplicada.

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Foto: Leo Ornelas

Além de poemas, Ana romanceia para adolescer. E se joga mesmo nas letras: conto e literatura infanto-juvenil e literatura acadêmica (artigos, resenhas), com o sonho de libertar seus sonhos e fazer outras pessoas negras creem em seu potencial. E pra quem pensa que escrever é um ato complicado, para Ana Fátima é como respirar. Para ela, a “poesia é vida. Brota, vinga, cresce e floresce. Uso muitas aliterações e frases curtas como marteladas, lembretes da memória”.

Para além da escrita, uma arte da solidão, ou que requer um certo isolamento na sua produção, a produção literária de Ana “rima coletividade… uma voz ampliada, as várias famílias que nem sabemos que temos e as que temos também”. Esta é a forma mais coletiva de se pensar e viver a arte, em que a criação sai por aí, sem pedir licença, para vingar em mentes-quintais alheios.

Em tempos de redes sociais, Ana Fátima não fica de fora do Facebook e alimenta o Blog Sangue de Barro, onde planta sementes de poesias, mas tem participação em produtos tradicionais como as famosas antologias.

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Seus textos podem ser encontrados no site da Fundação Palmares (2010); Projeto Escritoras da Bahia (2015), na Revista Entrelinhas (2015) e Projeto Pé de Poesia (Salvador, 2016). Poemas e contos pela Antologia Cadernos Negros (Quilombhoje, vol. 37, 38 e 39, 2014-2016) e  Mulher Poesia I e II (Cogito, 2016-2017). Recebeu prêmio de melhor poesia pelo 2º Festival de Literatura São Francisco Xavier (2014), no 5º Concurso das Farmácias Pague Menos (2016) e no 2º Concurso do Sarau da Onça (“O diferencial da favela: poesias e contos de quebrada”, 2017, Editora Galinha Pulando).

Confere:

A cartilha da autora século XXI

De mim, muito algo a desenrolar…

Ser mulher é cheirar a ferida aberta

Pulsar a flecha certeira

Palmatória do mundo a acabar.

Profissão escolhi,

Estudos cumpri,

Casa vigiei e arrumei.

 

Mas meu deleite é outro:

Letras a bailar

Em papéis, telas e folhas;

Perpetuar nas cabeças

A alma de minhas histórias.

Carregar pedras

Para traduzir sentimentos e desejos:

Mandamentos de autora!

Pedras escritas e relidas

 

Compromisso em ser mulher

É reler e desdobrar

A hélice das tramas de meus ancestrais

Sem beber o amargor

Do chicote malfeitor.

 (publicado no Mulher Poesia. Editora Cogito, 2016)

 

Valdeck Almeida

 

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Veja aqui outros artigos dele!

#PoesiaSoteroPreta – A poesia problemática de Geilson de Andrade!


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Poesia marginal e problemática é como o poeta Geilson de Andrade define sua produção artística, que inclui, ainda, peças de teatro e contos. Mas é na escrita e na récita que ele se encontra, se entrega.

De corpo e alma, em busca de atingir o psicológico de quem lhe ouve, ele faz um bombardeio de rimas, expressões corporais e faciais. É impossível vê-lo em atividade e não arrepiar, não sentir os olhos apertarem e o coração se angustiar. A verdade dói! Os primeiros versos tratavam de amor, questões existenciais e sobrenaturais, conflito entre vida e morte, durante a infância e adolescência, lá pelos 13 e os 15 anos de idade. Em 2010, já pesquisador de História, o veio de protesto e afirmação lhe tomou.

Os textos passam a expressar esta identidade que lhe acompanha desde então. Questões sócio raciais e referentes à opressão institucional assomam sua produção textual, toda escrita na tela de um computador. “Não lembro a última vez que usei papel e caneta”, assume Geilson.

Para além de válvula de escape, a poesia é, para Geilson de Andrade, “uma forma de conscientizar as pessoas, uma espécie de mecanismo educacional que desperte o pensamento e o sentimento das pessoas”. E complementa: “A poesia para mim é um veículo pedagógico e de resistência, utilizo o contexto histórico para situar o sujeito psicologicamente enquanto pessoa importante dentro da sua própria existência e resgate de valores”.

A fonte de inspiração é a família, tanto a biológica, normativa, mas, também, aquela que acolhe e abriga no seio da comunidade, seja a vizinhança ou a comunidade dos saraus, dos slams de poesia, os que pensam e defendem os direitos humanos. Este é o poeta, humano, Geilson Andrade.

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Sistema Nazista

Perdeu-se o brilho daquela esteira de estrelas

Que se estendia a caminhar tranquilamente sobre o asfalto

Os brotos morreram, as flores murcharam

Vidas foram ceifadas a flor da idade

Pela foice que corta, na frieza da morte

Por displicência da carne

Foi-se a juventude da alma

E perdeu-se o brilho e ofuscaram o asfalto

Mancharam de sangue coração dilaceraram

Caminhos tortuosos e destinos cruéis

Em meio a frágeis e poderosos

Injustiças entre vítimas e réus

Tenho que parar

Tenho que parar porque não cabe no poema

Esse triste cenário pobre miserável

De mentes estúpidas e corações insensatos

Me tirem desse sistema nazista

Sem perspectiva otimista

Sem que me tirem a vida

Sem que massacrem minhas crianças

Sem que prostituam as minhas meninas

Me tirem desse sistema tão ego

Me tirem desse sistema tão ísta

Por favor, favela

Me tirem desse sistema nazista

 

#PoesiaSoteroPreta – O jardim imaginário de poesias de Marcos Paulo (Sarau do Jaca)


 

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Marcos Paulo é um dos coordenadores do Sarau do Jaca – Juventude Ativista de Cajazeiras e escreve desde 2005 sobre temas variados. O foco, no entanto, é o racismo. Com a arma nos dentes, a palavra, o poeta usa a poesia para combater o sistema opressor.

Seus textos são recheados de metáforas, não utiliza muitas rimas e emposta a voz quando declama, para viver outros personagens. Além da palavra, tem outras paixões com teatro, música e artes visuais. Desenha poesias nas paredes, em quadros, cartolinas, onde houver uma superfície.

Sua poesia rima com guerrilha, “porque o espírito da poesia se manifesta insurrecta contra a ordem”, assegura Marcos, mas não deixa de falar de poemas como elo entre familiares, sejam de sangue ou de afeto, porque “a família é uma invenção nossa”, decreta.

Poeta de gaveta, sem textos publicados em livros, Marcos Paulo se espalha mesmo é nas redes sociais e em um blog antigo que ele não revela o link pra ninguém. No mais, ele se expõe em saraus e encontros de poetas, com uma presença peculiar. Quem o vê declamando, além de ouvir sua voz possante tomando conta do texto, o percebe como performer, pois a poesia lhe toma inteiro, cada dread, cada gesto com braços, pernas, o corpo todo.

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Fruto de trabalhos sociais vivenciados durante toda a vida, o poeta, sensível e meticuloso, é, também, arte educador e usa a palavra poética para libertar a si e aqueles que lhe rodeiam, incentivando a todos e todas a experiências que mesclem arte e educação. E, assim, Marcos Paulo sai por aí, semeando poemas e cultivando poetas e artistas no seu jardim imaginário.

Lombra

Da satisfação obtida com o unguento

À tortura praticada por seu experimento.

Da calma recebida no uso do ópio

À campanha feita para nos mantermos sóbrios.

Dos amigos em roda trocando um baseado

À política de drogas que engendra o tráfico.

Do mito construído sobre o crack

À falta de sentido que encontramos na sociedade.

Da perspectiva de mundo obtida pelo ácido

À cegueira preconceituosa de quem o torna inválido.

Da teogonia transcendental do peiote

Ao ateísmo inerte e torpe.

Da oração muda degustada na ayahuasca

À descrença num mundo de plantas sagradas.

Dos debates incessantes sob goles de cervejas

Ao carro que te atropela onde quer que você esteja.

Da fragrância de um loló em pano úmido

Ao odor hipócrita encontrado no mundo.

Do êxtase que transborda de comprimidos

À apatia de uma ciência que não os tem reconhecido.

Dos duendes mágicos que dançam sobre cogumelos

À negação absoluta dos universos paralelos.

Das ilusões provindas no ato de cheirar cola

À necessidade daquele que sobrevive de esmola.

Da maldita heroína injetada na veia

Às doenças e males que a medicina semeia.

Do verde absinto que convida às fadas

À angustia de uma geração que vive acuada.

Das carreiras brancas de cocaína

À falta de coragem para enfrentar a vida.

 

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A tudo o que nos faz viajar

A tudo que nos faz pensar

A tudo que nos faz amar

A tudo que nos faz gozar

A tudo que nos faz sentir

A tudo que nos agrega e lança

A tudo que nos dá uma sensação de poder

A tudo que nos aproxima da verdade

A todas as coisas que nos levam a Deus

 

Eu agradeço.

A realidade é uma melodia

Nós somos os músicos.

 

 

 

#Soteropoesia – Alex Bruno, de repente nasce um texto!


Poesia preta

Leo escreve desde a infância, entre os 10 e 12 anos, e revela que tinha a mania de relatar os seus afazeres em “diários”, por apenas algum tempo, mas que os textos foram logo perdidos…

Aos 18 anos ele diz que começou a compor uma obra que considera realmente literária, com uma compilação de textos de onde nasceu um romance, hoje, já esquecido. A partir de então, a escrita lhe acompanha, o que tem desenvolvido o hábito da leitura e que, com uma pausa aqui outra ali, escreve poemas, crônicas, resenhas filosóficas e atualmente, voltou à escrita dos diários.

Leo não tem preferência por uma temática específica. Segundo ele, “de repente nasce um texto, porém, hoje tenho dado prioridade aos textos que analisem a minha existência Homem – Artista – Criador – Cidadão de um meio conflituoso e complexo como o mundo moderno”.

Sua pretensão na poesia é “Apenas dizer… Dizer o que no geral, as pessoas fecham os ouvidos. Trazer à tona tudo que é dissimulado. A poesia é uma forma de dizer para mim mesmo, em primeiro lugar, o que acontece ao meu redor, contemporâneo a minha existência”.

Poesia preta

O sentido da poesia para Leo é a catarse, desabafo, na mesma linha do que Freud definiu na Psicanálise. Uma forma de terapia, nos moldes em que os gregos faziam quando levavam para os palcos as grandes tragédias que relatavam os anseios e as adversidades da vida. Como a vida do poeta é repleta desses questionamentos, a fonte de inspiração não termina nunca!

A atuação de Leo não se limita à escrita, apesar de ter livro solo e textos divulgados em sites e blogs, o que ele considera “passado”, um lugar onde ele não pode mais alcançar. Na atualidade, ele transita pelo teatro, música, dança e segue filosofando, poetizando, como na descrição sobre si.

Leo por ele mesmo:

Estranho escrever sobre si. Eu poderia escrever sobre tantas coisas. Sobre o mar, o vento, os sonhos que não existem mais. Acho que todo o ser é latente. Move-se o tempo inteiro. Está acima dos gêneros, das raças, da conta bancária, da roupa que veste ou do corte do cabelo. Todo ser é antes ser. 

Posso dizer que ainda estou numa descoberta, que se abre a cada dia. Surpreso pelas ironias da vida, não devia, mas é difícil não surpreender.

Daí penso, Aristóteles estava certo quando disse que a filosofia nasce do espanto – surpresa. Então nasce a filosofia. Hoje, posso dizer que sou um ser filosófico, tenho mil questões ainda, sem respostas, mas a cada dia, sinto que construo um degrau. E sinto que é preciso continuar, mesmo que um tsunami de caos e desilusões venha se abatendo sobre mim, é preciso continuar, implacavelmente deve-se continuar, afinal, é para isso que estamos aqui.

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador.

jovem negro vivo
Banco de Imagens

CABULA

“Pela decisão dos anjos, e julgamentos dos santos. Excomungamos, expulsamos, execramos e mal dizemos” (Baruch de Espinosa). Verdadeiramente maldito é o homem detido em sua arte diante do poder e do Estado. As suas fábricas infestam os nossos céus com suas cores artificiais. A vitrola em seu gabinete, toca uma melódica de mentiras.

Tupi, índio guarani, Angola, Guiné, Negros Bantos e seus orixás, AXÉ! A câmara de gás engolindo os olhos no holocausto. A ciência desenvolve armas para conter as mentes mais exacerbadas, a cura? Está na moeda! O governo recruta uma polícia especializada em disseminar uma doença racista.

Bala! E Fogo, comem carne preta!

Adriano de Souza Guimarães, Agenor Vitalino dos Santos Neto, Bruno Pires do Nascimento, Caíque Bastos dos Santos, Évison Pereira dos Santos, Jeferson Pereira dos Santos, João Luís Pereira Rodrigues, Natanael de Jesus Costa, Ricardo Vilas Boas Silva, Rodrigo Martins Oliveira, Tiago Gomes das Virgens, Vitor Amorim de Araújo

Aos 12 mortos do Cabula! E por mais que vocês nos matem, eu renasço!

Vejam nossas maternidades agora, estão cheias do choro da vida. Martin Luther King, Malcom X!

Meus heróis tombaram pela intolerância de seus Estados! O desatino da sucessão de novidades vazias, não varrerá da história o que foi escrito com sangue…

#PoesiaSoteroPreta – Teimosia é o nome dessa menina-poesia-preta, Fabrícia de Jesus!


Fabricia de Jesus

O poema “Dor” foi o debut, a estreia de Fabrícia de Jesus. Escondido no final do caderno, estripulia de quem ainda não sabia que é poeta. Poeta de poesia preta, escrita em 2003 durante o cursinho pré vestibular no Instituto Cultural Steve Biko. A cumplicidade foi com a professora de Português, que lhe batizou poetisa, em 2013. Até então Fabrícia não se sabia escritora nem se compreendia negra. Foram duas descobertas fascinantes, libertadoras!

Este recorte racial, agora consciente, atravessa toda a sua produção, carrega as vivências, que é molhada de suor, labutas, abstratos expressos, cotidianos de quem sente a negritude em pele.

Na escrita, Fabrícia fala da alma, estampa a retina do seu terceiro olho, evoca os alvoroços de suas dúvidas, a complexidade das verdades questionáveis. A poesia desta menina-poeta é linha de partida; seus meios, seu chegar, seu fio de alta tensão, a arritmia do seu apanhador, do seu carrega-dor, do pulsante afagador que lhe guia. A poesia é sua fuga, sua busca; é ela mesma, poeta, empurrando as portas, as normas; se traduz em seus caminhos, os passos, os laços, os nós, a própria voz.

“A poesia tem o poder de unir gente, neste aspecto faz rima com família, já que nos fortalece, integra, identifica, nos torna pertencentes e usuários de mesmo corpo – língua”, afirma Fabrícia de Jesus.

Além de escrever nos ônibus, ela publicou no Sarau Brasil, Revista Quilombo e na coletânea “O Diferencial da Favela: Poesias e Contos de Quebrada” (Sarau da Onça, Editora Galinha Pulando), além de postar no Facebook.

E sobre a publicação, Fabrícia viaja: “acho que tenho mais escritos no busu do que publicados (rsrs), embora reconheça a importância de estar nestes impressos, visto que precisamos sair da posição de “estudados” para sermos sujeitos contadores e protagonistas de nossa própria história. Mas confesso que gosto de pensar que no coletivo, entre um destino e outro vários ‘eus’, viajam nas minhas curvas e linhas, em trânsito está a subjetividade das minhas poesias”.

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A Menina-Poesia Soteropreta

Fabrícia de Jesus, mãe de uma linda e moleca menina, preta, suburbana, filha de uma família dominada por mulheres valentes, foi gerada por amor e criada nele. Já vendeu quiabos, já vestiu robalos, já passou maus bocados, e teve um período que sofria escondida, fase brusca da vida, outros tempos…

É estudante de Serviço Social, poetisa, ativista, parte do coletivo Sarau do Cabrito (pelo qual carrega uma enorme gratidão), membro do Coletivo de Entidades Negras–CEN, é feliz e desenvolve um trabalho na ONG E². É atravessante de mar para amar de perto, é o próprio verso, seja ele cortante em protesto ou doce feito riso rio. É uma errante encabulada que pede suco de acerola no bar e se embriaga sem nem sentir o pecado na boca.

É teimosa, às vezes engraçada, segundo os amigos. É desenfreada e fascinada pelos detalhes mais baratos, e repete pra si: “já que a vida é indefinida eu prefiro sentir”.

 

A Solidão é Preta

Como se não bastassem as mazelas excludentes erguidas pelas dimensões de direitos sociais negados, resguardados a nós diversos crivos psicoemocional. Somos perpassantes em construções machistas racistas. Somos assassinos e vítimas desta sociedade perversa.

A dor lateja, maltrata e adoece o corpo… Somos frutos da história. A poesia de raça única não declama-se diante um povo brutalmente violentado. Quanto mais negroide nossos traços quanto mais preta nossa pele, mais preterimento mais exclusão mais dor mais solidão.

Fomos sentenciadas ao celibato definitivo. A invisibilidade. Ao prazer momentâneo. Ao esquecimento. Aos danos. Aos danos.

Somos seres sem sermos, pedaços… Sobreviventes nestes 128 anos de alforria desencontrada, marginalizada. Fomos as estupradas para o nascimento do Brasil mestiço. Somos desumanizadas, confinadas ao encolhimento do corpo, ao silêncio da sala. Na frieza do colorismo, nos índices dos feminicídios, as tristezas não ficaram nas senzalas. 

Na falácia que o amor não tem cor, a conta nunca bate exata, sobram as pretas, multiplicam-se as mágoas. Proclamaram que status é loira ao lado. Que peso. Que fardo… Gosto é construção social e o homem preto também fora submetido aos padrões eurocêntricos. Subjetividades agredidas. A solidão tem cor. Desconstruir é preciso. Se o amor faz bem… nós queremos também. Ficar só é normal… quando opcional. (Fabrícia de Jesus)

Valdeck Almeida

Poesia Soteropreta

Texto inaugural de Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. O Espaço será alimentado semanalmente pelo escritor, pautando novos e novas [email protected] que despontam na Poesia negra da cidade. Valdeck é escritor, poeta, jornalista, ativista cultural. Membro-fundador da União Baiana de Escritoress – UBESC e do Fala Escritor (2009).