Dois mil e vinte: o ano da justiça e da verdade! Por Luciane Reis


AP Photo/Julio Cortez

O ano de 2020 é da justiça e da verdade para o povo negro. Sob a regência de Xangô, temos cobrado justiça por toda (des) ordem social de pobreza e violência vivida até os dias atuais. A dificuldade de assumir uma identidade de luta em ações cotidianas faz com que os modelos de violência do Estado brasileiro fortaleça o racismo institucionalizado junto à sociedade. Para Maria Rita Kehl, ao se ver como um povo avesso ao ressentimento, ou seja, sempre alegre, festivo e que perdoa com facilidade, deixamos de alimentar uma mágoa necessária à alteração das violências que somente o excesso de memória via o ressentimento tem capacidade de despertar.

Ao valorizar o perdão e ações simbólicas como parte das ferramentas de alteração da realidade negra, deixamos de atuar em uma parte significativa dos agravos vivenciados no âmbito social, político ou econômico e que, na maioria das vezes, são ativados pela memória da dor. O historiador Marcos Rezende, recentemente em suas redes sociais, nos convidou  a  retirar o clima de euforia e desejo de uma resposta à altura ao vermos  as cenas de  reivindicação do direito à vida negra em  Minneapolis (EUA). E pensar as diferentes realidades entre esses dois pólos de debate diante do desejo de agir da mesma maneira que os afro americanos à violência racial.

DAVID JOLES – STAR TRIBUNE

A forma como todos os setores, inclusive brancos, responderam à ação demonstra a importância de os ter como aliados na luta anti-racista, mas não enquanto vozes de alteração de nossa realidade. Uma olhada rápida nos comportamentos  periférico e partidário,  demonstra como não ser os  referenciais de luta e esperança da comunidade negra violentada e vulnerabilizadas dificulta nossa  capacidade de mudança de realidades tão duras e, em especial, do sistema judiciário e economico brasileiro.

Não ser  os homens e mulheres negras que os “líderes comunitários” e representantes negros dentro dos partidos apoiam ou levam para as comunidades na esperança de construir uma realidade melhor,  faz com que  depositemos nossos ideais e visão de mundo na mão de quem nunca vivenciou 1\3 do que passamos diariamente. Ao  revisitar nossa tecnologia de luta de forma tão profunda, trazemos  à tona o ressentimento deste processo de violência e indignidade vivenciada ao longo da história. Necessária à criação de ações concretas de posicionamentos e posturas sem que essa fonte de viabilidade venha de mãos brancas. Precisamos nos apropriar dos ganhos econômicos brasileiros e diaspóricos, afim de construir um ambiente menos hostil para nossa proteção e retaguarda.

Ao fazer o caminho financeiro negro, trazendo para o centro do debate o impacto negativo do pensamento social financeiro brasileiro, rompemos  com o sentimento de gratidão eterna aos segmentos brancos, em especial de esquerda. Devolvemos, então, o protagonismo negro e  quebramos com essa rendição social que nos faz continuar  elegendo vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e presidentes  simpatizantes de nossas lutas. Mas que nos brindam com a uma reparação que não ultrapassa a  antecipação simbólica de que somos iguais perante os outros.

Não podemos continuar acreditando que a antecipação simbólica do reconhecimento de nossas lutas e protagonismo dá conta da inexistência de um processo reparatório concreto da realidade negra por si só. Precisamos, como afirma professor Edson Cardoso, fazer a auto crítica sobre nosso comportamento racial durante um governo de esquerda no que tange a pauta racial e, de praxe, as condições de ocupação dos espaços de poder social, político e econômico. Precisamos ter coragem de reivindicar e debater a participação política negra de forma a fazer a disputa de poder com recorte racial, sem negociar nenhuma pauta. Dar como “brinde”, por sua empatia quanto a nossa causa, a reeleição como herança familiar só tem construído uma resistência civil de aglutinação e passividade que produz Aghatas, Marieles, Joãos Pedros e tantos outros por conta de uma  postura pacífica de cobrança de soluções  a uma  violência física, mental e moral.

A submissão voluntária aos modelos de opressão negociada com os brancos via introjeção dos seus  valores, falas, diferentes  classes dominantes, ordens dos estados e partidos, tem feito com que a elite da esquerda brasileira continue sendo as beneficiadas, enquanto continuamos chorando e vivendo sem dignidade em nossas comunidades. Continuar se submetendo e obedecendo estas orientações, usando como desculpa a “disputa de  pautas  dentro das legendas”, só tem fortalecido o modelo de extermínio institucionalizado. Sem que ocorra uma discussão sobre um modelo de reparação de fato eficaz junto a um país que nunca fez auto critica ao fato de ter sido o último a  encerrar a escravidão e entregar um segmento racial a sua própria sorte. Depois deste povo construir com sangue e suor a riqueza brasileira.  É esse modelo de reparação que nunca chegou, que continua nos matando até os dias de hoje via ausência de pragmatismo quando se pauta o trauma social que foi a escravidão no passado, e a forma como se vive hoje a violência de Estado contra o povo negro.

Até quando abaixo-assinado, hashtag, nota de repúdio, posicionamentos pacíficos e pedidos para que PAREM DE NOS MATAR continuarão sendo usados como ferramentas de luta? Que ação coletiva usaremos para que possamos ser de fato enxergados, escutados, atendidos dentro desta luta pela vida? Precisamos revisitar o trauma social causado pela ausência de humanização, constrangimento e compromisso com a condição de vida da população negra, em especial pelos setores da esquerda. Não podemos continuar louvando uma pseudo igualdade de direito como benevolência por quem aceitou atuar na pauta. Isto faz com que os oprimidos contentem- se com intervenções simbólicas e fragilizadas aos ambientes que vivem.

É preciso que o estado cumpra com sua responsabilidade de forma pragmática e isso não acontece enquanto não soubemos qual a participação política efetiva negra? O que consideramos disputa de poder com recorte racial, e principalmente o que não se negocia nesta pauta numa perspectiva política e financeira.   Precisamos romper com a imagem de país benevolente e reivindicar nosso direito de ter reconhecimento como um povo sério e de luta com pessoas que derramaram sangue por determinados direitos. Precisamos nos reconhecer ao revistar nossa história de revolta, de forma que nosso ressentimento seja a mola de alteração desta realidade.

Que o  machado de dois gumes de  Xangô desça sem pena e complacência contra quem há séculos violenta, mata e desumaniza a população negra.

Kaô Kabecilê, venham todos saudar o rei!!!!

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum