#Entrevista – Cineasta Joel Zito Araújo fala do filme “Meu Amigo Fela” que estreia em Salvador!


Considerado o criador do afrobeat, a vida do músico nigeriano Fela Kuti (1938-1997) chega às telonas no novo trabalho do diretor mineiro Joel Zito Araújo, com o documentário Meu Amigo Fela. A produção é um dos filmes de abertura do XV Panorama Internacional Coisa de Cinema, que começa no dia 30 de outubro. Com exibição gratuita, o lançamento contará com a presença do diretor para um debate após a sessão, que acontecerá às 20h no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha.

Referência na cinematografia negra do Brasil, seja na ficção ou no documentário, Joel Zito Araújo é dono de um currículo premiado. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é o documentário A Negação do Brasil (2000), sobre a trajetória do personagem negro nas novelas brasileiras.

Com a estreia de Meu Amigo Fela, a expectativa é que Joel Zito traga uma nova perspectiva sobre o músico nigeriano, abordando sua militância para além da imagem de ícone pop. Em entrevista, o cineasta explica de onde surgiu a vontade de documentar Fela Kuti, as dificuldades para produzir o longa e o que acha da nova geração de cineastas negros no Brasil. Confira entrevista exclusiva ao Portal Soteropreta:

 

Portal Soteropreta – Como surgiu a vontade de realizar um documentário sobre Fela Kuti?

Joel Zito Araújo: Eu tomei consciência da riqueza da vida de Fela Kuti quando li a biografia escrita por Carlos Moore, “Fela – Essa Vida Puta”. E, em conversa com Carlos, que morava em Salvador na época, ele me disse que, depois de ver meus filmes, achava que eu “era o cara” para fazer um filme mais próximo do que foi Fela Kuti, um militante político pan-africanista, e não apenas um ícone pop pai do afrobeat. Carlos, que um dos maiores conhecedores no mundo da vida de Fela Kuti, expressava muita insatisfação com as outras iniciativas do cinema em retratá-lo.

Portal Soteropreta – Você encontrou dificuldades para produzir este filme? 

Joel Zito Araújo: Sim, encontrei dificuldades do início ao fim. Foi difícil encontrar patrocínio no Brasil para um grande nome da cena musical mundial, mas que sempre foi pouco conhecido no nosso país. Para um diretor brasileiro fazer um filme com tema e assunto internacional, especialmente africano, não é nada fácil. Passei cinco anos buscando até ser aprovado no Edital do BNDES e conseguir os 50% necessários para começar o filme. Depois foi difícil rodar na Nigéria. O governo não me permitiu entrar com minha equipe. Depois de muita negociação, em que precisei até do apoio do prêmio Nobel de literatura Wole Soyinka, o governo me permitiu entrar no país para filmar, mas dirigindo uma equipe nigeriana, com base lá.  E por fim, a negociação de direitos de imagens me tomou mais de um ano. A grana era meio curta, e fui ambicioso em tentar assegurar os 35 minutos de imagens de arquivo e 23 minutos de músicas do Fela. Mas consegui, finalmente, depois de muitas conversas e apoios. Foram 108 negociações de direitos. Quanto aos entrevistados, por serem amigos de Carlos Moore, foi um grande facilitador.

Doc sobre Fela Kuti integra abertura do XV Panorama Coisa de Cinema!

Portal Soteropreta – Você acredita que a obra de Fela, de alguma forma, se comunica com o Brasil de hoje? Se sim, por que?

Joel Zito Araújo: Você vai ver que uma das características do meu filme é ressaltar as letras das músicas de Fela. E parece que ele está falando do Brasil de hoje. Não vou comentar mais para evitar spoiler.

Qual o papel da arte na luta contra o racismo?

Joel Zito Araújo: Eu acho que a arte e a educação são os instrumentos mais poderosos, porque eles questionam convenções e estereótipos, imaginários, constroem novos símbolos e significados.

Portal Soteropreta – Você acredita que esteja surgindo uma nova geração de cineastas negros no Brasil? Se sim, a que se deve esse surgimento? As políticas afirmativas ajudaram de alguma forma?

Joel Zito Araújo: Absolutamente, temos uma nova onda de cinema negro jovem em vários estados do Brasil, e com gente muito talentosa. Creio que este surgimento é, principalmente, decorrente da conquista de cota para jovens negros nas universidades. São filhas e filhos das cotas.

SERVIÇO
Exibição de “Meu Amigo Fela”, de Joel Zito Araújo
Quando: 30/10 (quarta), 20h
Onde: Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha (Praça Castro Alves)
Aberto ao público, sujeito à lotação