“Em Kaiala tem um ator que resolveu falar sobre o extermínio da população negra”


ricardogonzagakaialaSabe aquele instante que a gente dá uma sacada no Instagram para dar umas curtidas aleatórias? Tenho me dedicado a isso agora bastante! Foi conselho de minha sobrinha:

– Meu tio, você não curte nada, maior grosseria!

– É?

Amo ver fotografias e charges no Instagram, mas já sei que precisa curtir foto de gente no espelho da academia fazendo um legal com o polegar. Precisa? Uma charge me para: O desenho mostrava um mar revoltado, destroços de embarcações e no meio de tudo isso, uma criança negra tentando sobreviver em cima de uma tábua. Discussão pra um milênio, né? Mas ainda tinha a frase embaixo: “Ninguém é Haiti”.

Vixe, verdade, já fomos até Charlie! Silêncio! Mas já se conta mais de mil mortos pelo furacão Matthew no Haiti. Silêncio. Nem fama Matthew teve! Quem é Matthew? A morte de mulheres, homens, idosos e até crianças do Haiti não nos causa identificação, comoção e interesse a esse ponto, Matthew!

kaialasulivabispoSilêncio nas redes sociais e grande mídia! Não falamos desse assunto nas grandes rodas também, óbvio. Silêncio! E foi esse silêncio que me levou a ver Kaiala, no Teatro da Barroquinha.

Em Kaiala tem um ator, que resolveu falar sobre o extermínio da população negra em nosso país, Sulivã Bispo.

Ele se utiliza das memórias de uma avó, de um adolescente irmão de candomblé e uma evangélica para recontar a vida e morte de uma garota de 10 anos que foi morta durante uma invasão ao seu terreiro. Motivo: intolerância religiosa.

Silêncio! O extermínio da população negra brasileira, nas grandes e pequenas cidades não nos comove, ainda que aconteça aqui ao nosso lado. Silêncio!

É desse ponto que o espetáculo Kaiala parte para sua narrativa metalinguística-poética. O espetáculo aconteceu no Teatro da Barroquinha, na antiga Igreja da Barroquinha, local que remete aos fundamentos das religiões de matriz africana no Brasil. Discussão pra um século e meio se não tiver paradas pro café e banheiro.

Acompanhado por toques de percussão, Sulivã Bispo, vestido predominantemente de branco, entra pelas portas da igreja-teatro iniciando o espetáculo embalado numa paz de Oxalá.

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Já tá dito, né? Não. Sulivã diz mais, sem economias e sem excessos, ele percorre fácil pelos três personagens completamente distintos, mas que estão ligados intimamente por questões afetivas e espiritual (a avó e o adolescente) mas também por conflitos pessoais e étnico-religiosas (a evangélica). Assim como o ator, que é negro e praticante de religião de matriz africana, também está muito próximo dessas pessoas.

Sulivã está em casa e empresta e remonta trejeitos, frases, formas de falar e ser bem típicas do povo negro e de terreiro de Salvador.

Tudo é narrado de uma forma muito familiar, simples e envolta nas relações cotidianas, buscando essa identificação do público com essas personagens, com a vida dessa menina assinada de uma maneira tão violenta e estúpida.

sulivabisbokaialaÉ um recado bem dado, uma intervenção necessária, muito necessária. Sabe um diálogo bom? É bacana ver um artista dando seu recado e dando bem dado, principalmente no teatro, que é tão penoso para se produzir. Saí contente da apresentação!

O artista tem essa função, arte é esse veículo! Sulivã tem identidade. E essa identidade está na expressão dele! Obrigado pelo encontro da noite!

Pontos para a direção precisa de Thiago Romero, texto, cenografia, luz, figurino, trilha sonora, executada ao vivo, tudo redondinho!

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E no mais, é poético, está dito pelo todo! Pelo local, pelo cenário, pelos corpos, pelos gestos, pelos cheiros, pelas luzes, pelas aguás, pelos espelhos, pelos olhares, pelos trejeitos, pelos risos, pelo amor, pela violência, pelo diálogo, pela narrativa inteligente, pela magia… Rolou mágia! Muita! É um solo-performance curtinho e ótimo de ver! E necessário! “O Haiti não é aqui”, mas… “pense do Haiti”!

Tem mais apresentações: dias 3 a 6 de novembro, às 19 horas,

no Teatro Gregório de Matos agora.

Crítica de Ricardo Gonzaga para o Portal SoteroPreta.

Fotos: Andréa Magnoni