#GrafiasEletrônicas ressalta poesia em prol da luta antirracista


Foto: Leo Rocha
O edital Grafias Eletrônicas, parceria entre a Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb/SecultBA) e o Instituto de Radiodifusão (Iderb) reforça, a partir da poesia, que vidas negras importam. A população negra tem escrito símbolos que representam sua beleza e resistência para enfrentar os estereótipos que muitas vezes ganham os noticiários. “Vejo a literatura como um relevante espaço de representação e de batalha, no qual busco recontar histórias, principalmente vivências coletivas de um povo que foi cruelmente submetido a um processo violento de desumanização, silenciamento e apagamento”, afirma a jornalista, Donminique Azevedo. 
Para ela, a palavra é uma importante aliada na construção de contra narrativas. Além de jornalista, Donminique desenvolve ações ligadas à cultura digital com foco na educomunicação para pensar colaboração, compartilhamento, acesso e distribuição. “A palavra me permite questionar e visibilizar nossas resistências afirmativas. Participar do Grafias Eletrônicas, ainda que uma pequena amostra, é muito representativo”, diz.
A jornalista define seu texto “Por um Fio Encrespei” como “fragmentos de resistências capilares” em que atravessa histórias de meninas que como ela, na infância adotaram processos quimicamente agressivos para ter um “cabelo bom”. “Experiência como estas atravessam a história de mulheres negras que crescem vítimas de um esquema de negação com base no racismo estrutural, mas, atentas as narrativas de mulheres que conheceram o fio de seu cabelo, aprenderam a cuidar e amá-lo”, enaltece.
Foto: Acervo Pessoal

Outra pauta muito cara para a população negra é a morte cada vez mais precoce de jovens. Jairo Pinto, poeta-residente do Sarau Bem Black, aborda em seu texto “Minha Canção do Exílio” a urgência de brecar o extermínio. “Trato da necessidade de frear a necropolítica que tem matado jovens, negros, moradores da periferia. Os bairros periféricos de Salvador estão nos versos, mas chamo a atenção para este problema onde quer que ele esteja”, reflete.

Jairo já escreveu para oito edições consecutivas da antologia Cadernos Negros, participou também do Projeto Pé de Poesia e teve seus poemas espalhados por diversas árvores da cidade. “Durante muito tempo eu escrevia, mas não me percebia como um artista da palavra. Só mais tarde me ocorreu que eu estava publicando minhas subjetividades”, lembra o artista.

De acordo ao poeta, o Grafias é importante por manter a cultura oral nos diversos meios utilizados. “É importante por levar a literatura, de forma oral, para TV e para o rádio, que ainda são meios de comunicação muito utilizados com a expressão do próprio autor(a), ampliando o acesso do público a arte literária”, conta o poeta.