Instituto Mídia Étnica: 11 anos rompendo as amarras do coronelismo midiático


Luciane Reis
Luciane Reis

No momento em que o Instituto Mídia Étnica (IME) comemora 11 anos na luta pelo direito humano à comunicação, eu não poderia deixar de parabenizá-lo e pensar a importância de mídias negras como o “Geledés”, “Portal SoteroPreta”, “A Lista Negra”, “Flor do Dendê”, dentre outras. De Youtubers e influencers digitais como “Tia Má”, “Frases de Mainha”, “Tá Bom pra Você?”, “Muro pequeno”, “PH Cortes”, “Afro e Afins”, e tanto outros que vem dando destaque a segmentos invisibilizados e que sofrem violações na mídia diariamente.

Falar dos 11 anos do IME, é falar da desconstrução da noção de “democracia racial”, igualdade de oportunidades e participação social nos veículos e meios de comunicação brasileiros. É falar de uma disputa cotidiana com uma mídia majoritariamente branca, hétero, católica ou evangélica que naturaliza o sentimento de que negros, gays e mulheres pertencem a grupos “minoritários”, logo, com direitos e referenciais passíveis de serem violados e invisibilizados pelo racismo midiático que conhecemos.

imeReverenciar e potencializar veículos como o Correio Nagô\ Mídia Étnica, youtuber’s e influenciadores negros, é perceber quão primordial é a existência destes na aglutinação, fortalecimento e visibilidade de vozes e temas caros – porém deslegitimados – por uma representação radicalizada e estigmatizadora de parcela da sociedade.

“Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais.

É preciso repensar nossa forma de se comunicar com a sociedade brasileira e, nesse sentido, as mídias negras são uma grande aliada, uma vez que rompem com a cultura de que para ser válido, precisa ser noticiado em veículos legitimados por uma sociedade não negra e que denunciamos todos os dias como promotoras das diversas opressões que nos atingem. Precisamos ser ousados no fortalecimento dos nossos veículos e, principalmente, na produção de conteúdo para esses sites e blogs.

ime2É urgente que nos tornemos a mídia sobre todos os formatos, seja produzindo conteúdo, em páginas pessoais ou compartilhando personalidades e produtos de intelectuais que falem de nós, do nosso lugar de fala ou temas de nosso interesse ou comunidades. Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais, quando se fala do registro da nossa memória e história nas amplas e diversas redes de mídia.

“Nesse repensar nossa postura com esses veículos, não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós”

ime4É preciso romper com a cultura que vê as mídias negras como uma ação de segunda ou terceira categoria ou, pior ainda, como a alternativa final quando os veículos que legitimamos e reclamamos, não nos aceitam como pauta.

Nesse repensar nossa postura com esses veículos não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós que militamos por um mundo melhor, rompendo assim com parte do ciclo negativo que tanto nos assola. Logo, discutir a ampliação e fortalecimento destes é um desafio a todos aqueles que lutam pela promoção da igualdade – em especial a racial no Brasil.

 

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de desenvolvimento econômico, com foco em afro empreendedorismo e vulnerabilidades periféricas.