Machado de Assis: a voz de um Ancestral


MachadodeAssisSempre li Machado de Assis desde a adolescência. De certa forma ele foi meu professor de Literatura, visto que o bruxo escrevia seus contos e romances, ensinando-nos como fazê-los – metalinguagem chamam alguns – eu chamo de toque de mestre para a posteridade.

No meu caso, um escritor de gênio ambicioso, um “cabeça de Eternit” das periferias de Salvador, ao lê-lo sempre perguntava diretamente a ele, como se indagasse um ancestral griot: é assim mesmo, mestre? E escutava, depreendendo de suas sentenças sagradas e estéticas milagrosas: “é, e mais um pouco”.

De certa forma tive Machado como um amigo imaginário que assoprava técnicas ao meu ouvido, ou mesmo, oníricas sensações que venho entendendo no decorrer da vida. Talvez tenha ocorrido uma conversa mais longa numa digressão de ayahuasca. Não sei. Só tenho apenas a sensação fincada no peito.

Mas não é isso que importa agora. Na verdade, pela primeira vez entendi o pessimismo machadiano, não como os pálidos críticos canônicos; para mim o pessimismo dele foi algo que nós, pretos (alguns com profundidade maior do que outros) sempre sentimos com nomeação africana, ou seja, através das palavras banzo e zanga.

Mas não é algo conceitual, pois compreendi isso nos ossos, está na minha circulação sanguínea, saca? Como o verme do suicídio que estanco a cada dia com pinça heroica e enfadonha, o banzo. Ou com o franzir do rosto ao monstro conjectural que quer nos diminuir a zero sempre, zanga. Percebo agora a célebre frase de Machado, aquela que está escrita no final do romance Memórias Póstumas de Brás Cuba: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Esta frase fora muito tocante quando eu li na primeira leitura do livro, ainda saindo da adolescência, mas só de fato fremiu os meus ossos e (em borbulhas de angústias) ferveu o meu sangue nas veias, agora. É uma espécie de eureca atroz me fazendo depreender a ideia de que o pessimismo que se desnuda das camadas semânticas dessa frase está relacionado ao pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país.

Digo isso porque Machado de Assis era um homem negro, convivendo numa conjuntura racial, social e econômica aterrorizadora e ele tinha plena consciência disso. Haja vista o conto “Pai contra mãe” e os seus romances que, através da ironia e sarcasmos, sempre criticava – por via de sua tática de caramujo dissimulado – a elite do país, os políticos e as idiossincrasias medíocres dos profissionais liberais médios da época. Por outro lado, ele também não conseguiu se depreender, como exposto na frase em Brás Cuba, do pessimismo, a zanga e o banzo.

O legado de miséria seria o lastro humano seu, um filho, que ele teria que deixar nessa conjuntura que despersonaliza e oprime a mulher e o homem negro. Não quis produzir um ser para passar as agruras raciais as quais teve que enfrentar. Ao mesmo tempo em que via o seu povo, como nos diz Cruz e Souza, [emparedado] e numa situação, como nos afirma Fanon, de “Os condenados da terra.”

Após 136 anos da publicação em livro de Memórias Póstumas de Brás Cuba (1881) percebo – imerso numa conjuntura racial, social e econômica não menos aterrorizadora – que a zanga e o banzo, o pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país é atual. Verdade. Ainda estamos controlados pela branquitude, existe uma escravização mental profunda que nos bestializa e aliena em nossos costumes e ações no cotidiano.

E a resistência feita pelo Movimento Negro, que tinha inicialmente o objetivo de tomar o poder e melhorar o status quo da maioria da população – que ainda se resvala nos esgotos nas periferias, no genocídio e racismo – vem, agora, se enveredando numa retórica culturalista (aviltar estético de turbantes, tambores e cabelos) que do ponto de vista simbólico causa um frisson identitário, mas que estruturalmente não muda muito a realidade conjectural e objetiva dos negros e negras neste país.

O nosso legado de miséria posso dizer que seja a escravização, o racismo e a desgraça que Machado de Assis via envolta do povo preto e, consequentemente, refletida nele. Mesmo com toda glória e sucesso que alcançou em vida, o nosso legado de miséria são todas essas ignomínias construídas pela branquitude historicamente para se manter no poder.

Óbvio que esta é a tônica da história deste país, que obliterou e oblitera o caminho de muitos gênios negrxs, mas que não conseguiu, mesmo tentando o tempo todo, escamotear a negritude do maior escritor brasileiro, que para mim desde a primeira leitura é uma voz escritural de um sábio ancestral que ainda convivo: Machado de Assis.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

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