Negras de Salvador: presenteiem-se com os solos do Grupo NATA!


IYA ILU FOTO ANDREA MAGNONI
FOTO ANDREA MAGNONI

Mesmo em um monólogo, sabemos que o artista nunca está só em cena, pois há sempre uma grande equipe para estruturar a montagem. Quando falamos do Teatro Negro do Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA), o visível e o invisível se fazem presentes.

Quiseram as grandes Mães Ancestrais que o projeto do grupo contemplado no prêmio Myriam Muniz de Teatro 2014 (mas que somente agora pode ser executado) iniciasse e encerrasse sua 1ª temporada no Espaço Cultural da Barroquinha. Local onde, nos fundos do terreno, segundo historiadores e a própria tradição oral, surgiu no fim do século XVIII o primeiro o Candomblé de origem Ketu da Bahia, o candomblé da Barroquinha.

E agora, início de 2017 do século XXI, as nossas Mães Ancestrais são reverenciadas por duas grandes artistas: Sanara Rocha e Fabíola Júlia. A primeira estreou no início de janeiro “Iyá Ilu” (foto ao lado), um solo Afro-futurista que saúda Ayán, orixá do tambor, instrumento que ao ser tocado nas comunidades de matrizes africanas traz à terra os ancestrais.

Por tradição, na grande maioria dos cultos, é tocado por homens, entretanto a artista vem nos lembrar que foi gerado pelas mãos de Ayán, uma mulher. Usando novas tecnologias, reverenciando e fazendo uso de tambores em cena, dialogando com o público presente, saudando e instigando as mulheres da plateia a participar, Sanara Rocha, uma multiartista, convida a todos os presentes a reverenciar Ayán.

I Fórum Negro das Artes Cênicas

A segunda, Fabiola Júlia (agora Fabíola Nansurê) com seu solo “Rosas Negras”, através do seu poder feminino expresso de forma plena em seu potente olhar, voz doce e bailar carregado de leveza, inicia seu espetáculo saudando Iyá Detá, Iyá Kalá, Iyá Nassô, fundadoras do candomblé da Barroquinha, todas as Mães Ancestrais e mulheres de asé. A atriz nos convida a revirar nossas memórias, visitar nossa infância, rir e se emocionar com as memórias dela, que também são nossas.

Nos faz refletir, mas não de forma panfletária ou agressiva, sobre a nossa identidade e afetividade. Usando recursos tecnológicos, a atriz-mulher de axé, renascida, está forte em cena, dialoga com a imagem projetada da fantástica personagem Dandara, dona de um salão de beleza que colabora com a autoestima das mulheres negras. Ela não é doce, ela nos sacode. A diferença de energia entre a atriz em cena e a imagem projetada nos faz perguntar: são a mesma pessoa? NATAS em Solo celebra a união e maturidade do grupo que já caminha para seus 20 anos de trajetória.

Natas em Solo Rosas Negras
Rosas Negras

Escrevo para convidar todas as mulheres negras de Salvador, do Instituto Odara, as mulheres do Bando de Teatro Olodum, o Grupo de Mulheres do Alto das Pombas, as mulheres da Banda Didá, as Mulheres da Filhas de Gandhy, as mulheres e meninas da Marcha do Empoderamento Crespo, as mulheres de todos os blocos Afro, as mulheres poderosas que ministram aulas e são alunas da FUNCEB, as mulheres que nos representam nos espaços políticos, as mulheres que são referências na redes sociais e que tem o poder de mobilizar público que prestigiem os espetáculos de duas grandes mulheres do Grupo NATA, Sanara Rocha e Fabíola Nansurê.

Mas porquê? Serei pontual: sempre que chega novembro batemos na tecla de que não devemos discutir consciência negra somente em novembro, que precisamos de mais espaço para desenvolver nossas atividades intelectuais e artísticas, que nosso teatro deve estar em cartaz o ano todo. Pois bem, o grupo NATA está em cartaz desde 10 de janeiro de 2017 e ontem estreou o seu sexto trabalho solo que integra o projeto NATAS EM SOLO-SEIS OLHARES SOBRE O MUNDO.

Natas em Solo Rosas Negras
Solo Rosas Negras

Dentro deste projeto dois espetáculos potentes idealizados por mulheres negras acontecem em um espaço de grande importância para a memória cultural negra da cidade de Salvador. E, ao olhar para o lado, me pergunto: onde está o nosso público? Este teatro deveria estar lotado! Nossas irmãs precisam ver isto!

Teatro é arte do encontro entre o ator e o espectador, sem público não há teatro. O espetáculo Iyá Ilu fará única apresentação na próxima segunda-feira, dentro da programação do 1º FÓRUM NEGROS DAS ARTES CÊNICAS, no Teatro Martim Gonçalves, às 19h, com entrada franca e o espetáculo Rosas Negras realiza mais duas apresentações, hoje (08/02), e dias 14 e 15 de fevereiro, às 19h, no Espaço Cultural da Barroquinha (ingressos R$20 e 10).

Mulheres: permitam-se serem presenteadas com este teatro feito por nós, sobre nós e para nós.

Evoé! Asé!

Texto especialmente escrito para o Portal Soteropreta por Josi Acosta, atriz, professora de teatro e produtora cultural.