#NegrasRepresentam – Eliane Marques, a diversidade feminina nas letras!


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Escritora, poeta, editora e roteirista. Eliane Marques encanta seus leitores com livros como “Relicário” e “E se alguém o pano”, este último vencedor do Prêmio Açoriano de Literatura 2016, na categoria poema. Tradutora de livros como “O Trágico em Psicanálise” (2012), da argentina Marcela Villavella, e inquieta, Eliane vem desenvolvendo a produção executiva e direção do documentário Wole Soyinka – A forja de Ogum. Mestra em Direito Público, especialista em “Constituição, Política e Economia”, ela é a auditora pública que vem resgatando nossa negritude.

Portal Soteropreta – Como a sua experiência como o Direito e a Pedagogia influenciou na hora de escrever seus poemas?

Eliane Marques – A experiência com a Pedagogia e o Direito não são mais determinantes para a minha trajetória no campo da poesia do que as histórias que ouvi da boca das minhas avós em torno do fogão à lenha nos dias de inverno na fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Também não são mais determinantes do que as leituras que realizei, especialmente de poetas e escritorxs de língua espanhola, como Vicente Huidobro, Jorge Luís Borges, Cortázar, AlejandraPitzarnick, e de escritorxs e poetas nascidxs no continente africano como Wole Soyinka, ChinuaAchebe e Chimamanda N. Adichie. Contudo, é o trabalho com o Direito que me permite sustentar financeiramente a minha vida de poeta, de escritora e, mais recentemente, a de produtora, roteirista e diretora de cinema.   Quanto à Pedagogia, eu a abandonei faz muito tempo, mas foi durante esse curso que escrevi e dirigi a minha primeira peça de teatro, apresentada num seminário para professores no Teatro Municipal de Rivera, no Uruguai.

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Portal Soteropreta – Como foi participar de um prêmio literário e vencê-lo?Quais são seus próximos projetos literários?

Eliane Marques – O Açorianos de Literatura é o prêmio mais importante do gênero no Rio Grande do Sul. Eu não o recebi como algo pessoal e exclusivamente meu, por que o livro “e se alguém o pano” é o produto do trabalho de muitas pessoas. Então o recebi como representante das diversas mulheres afro-diaspóricas que me antecederam, pois, como digo num dos poemas do livro, da dinastia das lavadeiras, advenho; da dinastia das planchadeiras, advenho …o destino que me guarda é o ruído das espumas que passou com aquele arroio. Neste momento em que finalizei o trabalho com o documentário Wole Soyinka – A Forja de Ogum e com a edição dos livros de poesia da coleção Adire, em sua homenagem, pretendo me dedicar com mais intensidade à feitura do meu próximo livro de poemas – O poço das Marianas –e, possivelmente, à produção de um outro documentário sobre a rota dos imigrantes senegaleses em Porto Alegre.

Portal Soteropreta – Como sua trajetória pela literatura e cinema contribui para o fortalecimento da história negra?

Eliane Marques –  É muito difícil definir o tipo de contribuição que se possa auferir da minha produção como poeta, editora e documentarista, por que ainda estou lutando para ser reconhecida nesses lugares, especialmente como poeta, tanto na comunidade negra como entre os não-negrxs. Talvez, no futuro, alguém possa estudar e escrever sobre esse tema. Percebo que a minha poesia, assim como a de outras poetas hifenizadas como afro-diaspóricas, ainda é vista menos como arte e mais como objeto de curiosidade da sociologia e de outros campos de um suposto saber. O Prêmio Açorianos de Literatura que recebi em 2016, talvez possa se constituir num marco no processo de reconhecimento dessa poesia como arte. Contudo, ainda não sei se foi uma ruptura com a velha concepção ou apenas exceção que confirma a regra.