#NegrasRepresentam – Kenia Aquino, nossa comissária voando o mundo!


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A profissão de comissária de bordo ou aeromoça surgiu em 15 de maio de 1930 por reivindicação de uma mulher. Inicialmente, sua função era cuidar da saúde e da segurança dos passageiros durante o voo. Nos dias de hoje, quando se fala em aviação, a primeira imagem que vem à mente é a do piloto com seu quepe azul e aeromoças brancas e esguias.

Embora essa seja a posição mais conhecida, Kenia Aquino é um destes acalantos que podemos encontrar em nossas idas e vindas pelo Brasil. Ela é uma das poucas mulheres  negras neste espaço. Criada em Porto Alegre, ela lembra que quando decidiu seguir essa carreira – há 12 anos – nem todos a apoiaram.  Vamos conhecer um pouco de sua história:

Portal Soteropreta – O que te fez seguir essa profissão, quais as dificuldades vividas e como você entende esse mercado hoje?

Kenia Aquino – Eu decidi entrar nessa profissão por várias coisas, dentre elas por acreditar que eu poderia voar pelo mundo. As dificuldades que eu tive quando decidi voar foram, principalmente, a falta de informação e de conhecimento sobre a área. Eu não conhecia ninguém. Como eu queria muito, um dia eu simplesmente abri o guia telefônico e comecei a procurar escolas de aviação. Na época, em 2006, eu era auxiliar de serviços gerais e trabalhava na lavanderia de um hospital. Meu salário era pouco e o curso custava quase 50% dele. Mas não vi problema, eu não pensava nisso, só pensava em continuar seguindo em frente.

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“Em 2007, decidi fazer uma rifa pra conseguir verba e pagar as passagens aéreas. Graças aos meus familiares e amigos, que me ajudaram a vender os 600 números da Rifa, eu consegui ir. Fiz seleção em uma grande Cia aérea,  passei por três fases do processo seletivo e obtive aprovação! Só que algumas semanas mais tarde, descobri que na minha vaga entrara uma moça loira e – na turma de 40 novos comissários, apenas pessoas brancas!”

 Portal Soteropreta – E como foi isso pra você, como isso mudou?

Kenia Aquino – Tenho certeza que esse foi o pior momento da minha carreira, mas em fevereiro de 2008 veio meu tão sonhado SIM. Fiz processo seletivo em outra empresa e finalmente fui aprovada. Mudei de “mala e cuia” pra capital paulista. Eu tinha 23 anos e uma mala recheada de expectativas. Morei em pensão (era o que dava pra pagar), dividi quarto com pessoas estranhas, e aprendi muito. Uma nova era, uma nova vida!

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Portal Soteropreta – Quais são seus planos nestes vôos e como é ser negra nesta área?

Kenia Aquino – Meus sonhos sempre foram com viagens. Alguns ainda vou realizar – como ver as pirâmides do Egito e o Taj Mahal. Ao longo dos anos, aprendi a perceber que pouquíssimos passageiros são negros. Menos ainda tripulantes. Quando m muitos negros em um voo, pode ter certeza que é alguma banda, ou grupo de dança. Mas eu creio que as coisas estão melhorando a nosso favor. O mercado pode ter ainda traços preconceituosos, mas a cada ano vamos ganhando espaço. Um exemplo nítido é que há dez anos eu não poderia voar com meu cabelo natural, hoje eu posso. Atuo como chefe de cabine e percebo que quando falo meu nome para os clientes, alguns se surpreendem.  Será que essa surpresa seria igual se eu fosse branca?

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Portal Soteropreta – Qual sua mensagem para mulheres negras que também querem voar?

Kenia Aquino – Tenho hoje duas primas negras formadas no curso de comissária de vôo esperando sua vez ao sol.  E não meço esforços pra fazer com que elas consigam. A todas as mulheres e homens negros que tenham o desejo de voar: SIGAM SEUS SONHOS! Eu era piada em alguns lugares, muitos desacreditaram de mim.  A moça que passava e dobrava centenas de lençóis no porão do hospital,  vestindo um jaleco surrado, hoje está voando o mundo. Pretas: escrevam a história de vocês. Um dia ainda vou escrever um livro contando a história da lavadeira que voou o mundo. E se eu consegui, vocês conseguem.