#OpiniãoPreta: Os diversos EUS que vivem dentro de uma mulher negra! – Por Luciane Reis


É interessante como construir nossos legados e memória passa pelo processo de auto aceitação e derrubada da condição de asfixia social que nos colocam. São tantos marcadores determinantes do ser uma mulher negra que aprender a ter inteligência emocional é fator primordial de construção de nossa identidade diária. Aprender a ser feliz sem a presença de um companheiro ou, num contexto de maternidade, como mãe solo, é algo naturalizado na vida feminina negra. Muitas vezes romantizando como força, um sofrimento que muitas vezes é invisibilizado na luta cotidiana. Aprendi a não deixar me retratarem como “a guerreira que suporta tudo”, afinal, ao fazerem isso tiravam de mim a afetividade.

Aprendi a respeitar e não ter vergonha de minha intensidade nos vínculos emocionais. Gosto de gostar de alguém, de contar as horas pra sua chegada, de pensar as grandes perversões que uma relação com afetividade permite. Tenho investido em novas narrativas, nas quais não deixo de ser protagonista e não permito perder de vista minha  voz,  poder e identidade. Sou passional, amo e só faço o que acredito. Não sei ficar entusiasmada com o que não gosto ou admiro.

Tenho construído estratégias de inserção na sociedade, inclusive aprendendo a vibrar com o sucesso de outras mulheres enquanto não chega minha hora. Exercitar a mudita, é uma tarefa hercúlea quando se é uma mulher construindo sua história. Tenho construído narrativas para um mercado distante da minha marca e realidade, e buscado perder a vergonha de ser protagonista. Tenho perdido eo medo d ser chefa. Procuro fazer isso sem explorar o aspecto de “mulher guerreira”, batalhando para sair de condições desprivilegiadas. Armadilha que vai nos levando pra procrastinação e faz com que sejamos vistas como inteligentes emocionais.

Detesto ser representada apenas pelas dificuldades, afinal meus fracassos moldaram quem sou hoje. Busco narrativas positivas sobre essas andadas, acertos e erros por que foram por conta dessas lentes que consigo pensar soluções e cria contextos aspiracionais.  Busco como qualquer outra pessoa ser e me sentir inspirada por histórias de sucesso, e isto tem moldado uma mulher dona de si e de suas vontades sem medo de perder o outro.

São nos desafios de pensar valores globais localmente que venho encontrando vantagens e olhando com generosidade para locais considerados terra arrasada.  Me sinto em vantagem por estar inserida em um ecossistema gigante que gera e troca aprendizados em uma velocidade incrível. Isto pra mim é o ponto chave da minha busca em  promover iniciativas de diversidade e inclusão emocional financeira.

Ninguém é capaz de dar conta de tudo sozinha, esta é uma lição importante a ser aprendida. Não se chega a lugar algum sem envolver parceiros e novas habilidades, não é possível gerar demandas ou se construir, seja no mercado econômico ou afetivo, sem de fato se transformar coletivamente.  Perder o medo de falar, assumir o peso dos resultados, não apenas do que tenho adquirido de conhecimento, é o fator de diversidade necessário que tenho buscado nesta minha caminhada para mover determinados olhares e provocar mudanças. O que fica de lição de um dos meus EUS? Que é preciso fortalecer nosso processo de retratação enquanto mulheres negras importantes para a história e organizações brasileiras e, para isso, é preciso que não tenhamos medo de  assumir  a responsabilidade de ser uma mulher negra que tem voz e sabe o que quer!

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum