“Os ricos na pandemia: ações de solidariedade que enriquecem” – Por Luciane Reis


 

A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo, de Niall Ferguson é uma importante fonte de inspiração para entender o momento atual do Brasil e do mundo quando se fala da pandemia da Convid -19. Os dados da pandemia mostram que os bilionários estão ficando ainda mais ricos, enquanto parte significativa da população sofre com as enormes disparidades econômicas oriundas desta.

Enquanto mais de 19 milhões de pessoas serão submetidas à pobreza extrema, culminando em décadas de retrocesso no que diz respeito ao combate à desigualdade social e racial, nomes como Jeff Bezos da Amazon, Stéphane Bancel da Moderna, primeira empresa a buscar a vacina, Jorge Paulo Lemann,  Luiza Trajano,  dentre outros, sobem o topo dos intitulados “ Milionários da Saúde”, ou seja, pessoas que tiveram seus patrimônios multiplicados por conta da pandemia e que através de suas “ações de solidariedade”, o triplicaram.

 

O interessante é que analisando essas “ações de solidariedade”, é possível perceber que essas em nada dialogam com o que podemos chamar de solidariedade em tempos de pandemia, como alguns veículos buscam anunciar ao fim de suas programações. A Rede Trajano por exemplo, tem como “ação de solidariedade” oferecer condições especiais para auxiliar na prevenção do coronavírus em uma campanha de estímulo ao consumo cujo frete é grátis para todo o país em compras realizadas em seu aplicativo e com valor acima de R$ 99 reais.

Vendo esses modelos de “auxílio no combate à pandemia”, percebemos a importância de Nial aos nos fazer entender os fatos  históricos que mostram a ascensão e declínio do dinheiro, explicando como ele passa  a desempenhar um papel  dominante na  vida humana em picos  extremos de pandemia e colapsos, como o vivido em 2008. Quando a  sociedade moderna se tornou dependente de sistemas financeiros, e nos dias atuais.

Em tempos de pandemia, é preciso ter visão crítica para  entender a  dinâmica do desenvolvimento histórico das finanças como pano de fundo principal desta crise, uma vez que os  ricos viram suas fortunas se recuperarem nas últimas semanas; Ajudados, principalmente, pelo impulso dado sem precedentes por parte de governos e banqueiros centrais, que disponibilizaram cerca  de R$ 1,216 trilhão para os bancos brasileiros, cifra equivalente  a 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Esses números nos permitem repensar o que está sendo considerado apoiadores e benevolentes, em uma crise na qual mais de 42 milhões de invisíveis serão afetados, em especial pelo fator desemprego dos menos escolarizados – logo negros e periféricos.  Sabemos que em situações de crise é preciso viajar através do tempo e lugares para entender a formação do mercado de crédito, de títulos de dívida pública, de ações, de seguros e imobiliário e, em especial, como a variação dos ciclos econômicos impacta nos indicadores sociais, especialmente os que mensuram a pobreza. A nova recessão que vem por aí vai agravar a pobreza e nos fazer refletir sobre a natureza do dinheiro e sua engenharia de acesso que passa despercebido por muitos.

Por fim, fica evidente a necessidade de ver as inovações financeiras, benevolências econômicas  e  globalização como uma história permeada pelo uso da intermediação financeira e surgimento dos produtos financeiros que se transformam em  produtos financeiros de  proteção de outros produtos financeiros e do próprio dinheiro. Como mercadoria que, ao longo da história, fez com que determinados setores ficassem  mais ricos e que, desde do início da pandemia, repete seu ciclo de empobrecer muitos e enriquecer poucos, graças aos seus laços com empresas que lutam contra a Covid-19.

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum