#OuriçadAs! – Opiniões pessoais e racismo velado!


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Benny e Jaxyn Harlem (EUA)

Recentemente, em uma postagem dentro do coletivo ‘Cacheadas e crespas de Salvador’ algumas falas nos inquietaram. Um dos membros postou uma foto de um pai com a filha, ambos com o cabelo crespo bem volumoso. O que se viu em seguida foi uma enxurrada de depreciações em relação ao volume do cabelo deles.

Muitas falas nos chamaram a atenção. Mas outras nos incomodaram profundamente. Não pela depreciação em si, mas sim pelo que aquele comentário representava.

Falas como: “ridículo”, “não gostei, é feio”, “Deus me livre de um cabelo desses” etc, nos fizeram pensar como é a relação dessas pessoas com seu cabelo, e, consequentemente, com seu próprio corpo.

O cabelo é, sem dúvida, o elemento mais forte da identidade negra. Mas ele não é a única representação da negritude. O corpo negro é, em sua completude, um símbolo de resistência e também de obstinação. Entender-se negro é conhecer a história.

E mergulhando na história, constatamos que os negros africanos que foram traficados e escravizados no Brasil eram “coisificados” e submetidos às mais diversas formas de castigo; Ainda assim, os negros utilizavam o corpo para diversas formas de rebelião e busca pela liberdade. Esse corpo negro era contestador em sua totalidade: o nariz, a boca, a cor da pele, o tipo de cabelo.

Esses fatores serviram como um parâmetro, o qual o colonizador utilizava para impor padrões de beleza e fealdade que, obviamente, primavam pela brancura. Esses padrões estéticos são reproduzidos até hoje.

Assim, utilizar adjetivos que desqualifiquem o cabelo crespo não é simplesmente expressar a sua opinião. É reproduzir, implicitamente, um discurso racista. O discurso do branco europeu colonizador, do regime escravista. É classificar o bonito como branco, e o feio como negro.

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Benny e Jaxyn Harlem (EUA)

A cor da pele e o cabelo são componentes reveladores do pertencimento étnico e racial do sujeito, pressupostos no combate ao racismo e aumento ou diminuição da autoestima das pessoas.

A batalha contra o preconceito deve começar por nós, em policiar os nossos discursos. Nessa perspectiva destaco com veemência a palavra aceitação. Mas de um modo geral, consigo mesmo e com o outro. A autoestima se constrói no contato e com a validação com o outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

coletivo cacheadas e crespas salvadorO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.