#Ouro&Negro – Um resgate ascendente do Samba em Salvador, Por Camilla França


samba carnaval salvador

Em meio às discussões sobre se nasceu na Bahia ou no Rio de Janeiro, o Samba vem protagonizando a história dos dois maiores carnavais do Brasil. É impossível ter memória do carnaval carioca, sem falar da presença do ritmo nas rodas de samba ou esquinas da cidade. Aqui na Bahia, não é diferente. Desde os primeiros registros carnavalescos, o toque do samba embalou as fanfarras e as marchinhas.

Ao final do século XIX, os tradicionais clubes como Cruz Vermelha e Fantoches da Euterpe desfilavam com glamorosos carros alegóricos, reunindo a elite baiana com todo luxo da época.

Na virada do século XX, o samba se firmou como gênero musical popular dominante nos subúrbios, onde a comunidade negra promovia festas, a partir da base do samba, seja com os Cordões Carnavalescos ou com as Batucadas.

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Também, o ritmo esteve presente nos blocos das classes operárias como Cordão das Costureiras e As Cozinheiras; nos sons das entidades afro e de índios; nas Escolas de Samba e nos dias atuais, com os blocos de Samba.

Associada a outros elementos sociais, esta presença cultural inspira a reflexão da dualidade cultural entre o espaço negro e o poder branco, inclusive, no carnaval de Salvador. E, assim como outros ritmos de matriz africana, o samba sempre foi alvo de discriminação racial. Ancorado na desvalorização da cultura do negro, marginalizado ou associado apenas a grupos de menor poder aquisitivo.

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Foto: Rosilda Cruz

Isso porque é um som oriundo das senzalas, vindo do canto de negros escravizados; em seguida, associado aos descendentes destes, que promoviam festas nas ruas (julgadas como arruaças) e no começo do século XX, pelos negros que exerciam as funções serviçais como faxineira, cozinheira, lavadeira e postos como baianas.

O samba é uma construção e uma produção coletiva e, neste contexto histórico carnavalesco, destaca-se a forte articulação nas celebrações nos bairros populares – através das Escolas de Samba ou entre os muros dos colégios públicos.

Pautavam e demarcavam, assim, o espaço do negro na sociedade, através dos grupos culturais colegiais. Esta geração surfou na onda do processo de reafricanização do carnaval – ocorrido na década de 70 -, tornando a sonoridade do samba mais evidente através das percussões, marchinhas, blocos de índios ou travestidos.

Além disto, esta juventude negra se fortaleceu a partir das movimentações nacionais no campo da estética e da cultura negra e dava sinais da busca por melhores condições de vida.

blocos de samba em salvador
Foto: Edgar de Souza/G1

Estes fatores, concomitante com o fortalecimento financeiro das classes média e baixa, impulsionou o surgimento de entidades que abrigassem um público preterido pelas entidades de trio. Inclusive, esta foi a porta de entrada para o fortalecimento do samba no carnaval: o samba reggae, influenciado pelo samba de roda.

A essa altura já ecoado pelo grupo Gera Samba (atual É O Tchan) e o fortalecimento midiático e fonográfico do samba.

E é justamente neste nicho do mercado que as entidades de samba se fortalecem e se multiplicam, dando nome e demarcando o espaço no carnaval. Estreitam, portanto, as relações entre os blocos, artistas do Sul/Sudeste e o público de Salvador. Este elo foi essencial na missão da ruptura da monocultura do carnaval baiano, em torno da estrutura do trio elétrico e do ritmo axé music.

Isso porque, a partir dos anos 2000, identificamos um aumento significativo de entidades que se firmam como exclusivas de samba, e em sua grande parte, promovidas na quinta e sexta-feira de carnaval.

Uma política que reafirma o compromisso das entidades de apenas trabalhar e fortalecer um ritmo. Também um objeto de demonstração do empoderamento da comunidade negra, que é a maioria do público presente nestas entidades.

blocos de samba em salvador
Foto: Max Haack/Ag Haack

Esta é a lógica de fortalecimento de uma classe social que ocupa um espaço que muitas vezes lhe é negado pelos “blocos de branco”; um movimento que reforça o potencial comercial e midiático das entidades perante a hegemonia da relação entre o axé e o trio elétrico.

Este movimento ainda é tímido, mas expressa o potencial da relação com o público consumidor (embora, as empresas continuem negligenciando e discriminando as entidades negras, financeiramente). Mas ainda assim é um avanço. A história já aponta os sinais de interferências e transformações possíveis a partir do carnaval e hoje marca presença a partir das dezenas de entidades de samba na folia.

Uma presença aportada em grandes estruturas, com trios povoados, em grande parte, de atrações renomadas nacionalmente, com carro de apoio, cordeiros, segurança. Toda estrutura similar às dos maiores blocos. E, que infelizmente, ainda luta para marcar no carnaval a relevância e o potencial econômico do samba e dos sambistas, como já é feito no Rio de Janeiro.

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Camilla França – Foto Fernanda Campos

Camilla França, jornalista, mestranda em Cultura e Sociedade, com pesquisa sobre a participação de entidades negras no Carnaval de Salvador, sob orientação de Paulo Miguez . Este é o primeiro artigo da série “Carnaval de Ouro & Negro”, que o Portal SoteroPreta trará até a folia, resgatando a história negra no Carnaval soteropolitano.