A palavra não é senzala, é quilombo! – Por Davi Nunes


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As palavras de origem africana que foram usadas ou apropriadas pela branquitude durante esses séculos de escravização e racismo no Brasil para nomear as suas instituições – encharco de atrocidades históricas – ou mesmo às suas ações de violência estruturada contra a nossa humanidade, de certa forma perderam o sentido originalmente africano. Tornou-se um signo torto, uma palavra agrilhoada de acepções para nos aprisionar no campo semântico de representações negativas que nos liga ainda de forma sistemática à escravização.

A palavra senzala, assim, é o arquétipo perfeito disso, é o signo cujo uso nos enclausura, nos coloca dentro de um alojamento, presos(as) a correntes de desespero e terror  seculares.

Senzala se depreende de uma palavra que vem do Quimbundo, língua do tronco linguístico banto, sanzala. A sanzala na África, nas regiões que se localizavam os povos bantos, principalmente em Angola onde se encontrava o grupo étnico quimbundo, era lugar de habitação de pessoas de uma família.

Sanzala
Sanzala

Observa-se aí que o sentido de sanzala se perdeu em [senzala] no Brasil, visto que aqui, como sabemos, era uma instituição do sistema escravagista, um alojamento (normalmente não muito distante da casa grande) onde homens e mulheres negros eram aprisionados, acorrentados, açoitados depois de jornadas extenuantes de trabalhos forçados.

Nesse sentido, senzala não pode ser tomada como símbolo de resistência, não pode ser propagada como o tiro, o estopim para a libertação, que não era. Era como existe hoje os presídios, o local físico, estrutural do nosso cárcere e escravização.

A palavra que dá conta da nossa força, de nossa liberdade nesse país, é outra advinda da Língua Quimbundo também – QUILOMBO – signo poderoso de nossa engenharia civilizacional.

O quilombo foi o primeiro espaço onde nós negrxs, nessa diáspora americana, fomos de fato livres. Foi onde plantamos axé, criamos mocambos, lar onde podemos assentar livremente o nosso corpo e sonhar com algum porvir, onde nos armamos e também nos dengamos criando nossas famílias, edificamos fortalezas para lutar contra a escravidão, onde erigimos modelos civilizatórios africanos que estruturarão com liberdades as nossas existências nesse país.

O quilombo foi e acredito que seja ainda o verdadeiro poder paralelo negro que fez e faz a branquitude pirar desde Palmares, no século XVI, até hoje. Haja vista a resistência dos Quilombolas dos Rios dos Macacos, na região metropolitana de Salvador, para manter seu território que vem sendo assaltado pela Marinha, como também dos quilombolas que, nas quebradas do Cabula, resistem ao genocídio impetrado pelo Estado baiano.

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Penso que os Movimentos Negros urbanos baseados nos modelos de militância dos negros de EUA vêm, atualmente, negligenciando essa acepção. Delimitando-a a uma identidade suspensa, arcaica, ou só de negros que estão nos recônditos do Brasil, lutando pelas suas terras.

Quando na verdade as nomenclaturas quilombo, quilombola e as identidades revestidas nelas são a nossa história positivada nesse país. Foi e é o nosso libelo de libertação e criação real de paradigmas e modelos civilizatórios negros.

Penso que a desunião do povo negro, ocasionado pelo racismo estrutural e todas as mazelas impostas, vem também da dissolução da identidade quilombola nos centros urbanos. Temos que entender que nessa conjuntura em que nascemos – imposta pela branquitude – renascer para negritude é renascer para o quilombo e renascer para o quilombo é saber que sempre tivemos terras e riquezas, tanto em África como aqui, e que fomos duplamente assaltados.

O quilombo, ou como escrito em Quimbundo, Kilombo, é o reatar fraterno e pragmático de um saber poderoso que nos fez e faz sobreviver nessas terras, que é o “nós por nós”. De maneira que penso que temos que voltar às vistas para o quilombo e para as vivências quilombolas, pois é o horizonte mais livre onde podemos nos espelhar.

Davi NunesTexto de Davi Nunes –  Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.