#PoesiaSoteropreta – Gonesa Gonçalves nasceu Poesia!


Gonesa_Goncalves

Gonesa Gonçalves é o nome artístico de Gonesa Souza Moreira Gonçalves, que escreve desde quando não se lembra… nasceu poesia! “Fui a primeira vez na escola aos nove anos, mas aprendi a ler e escrever muito rápido, porque tinha que ajudar minha mãe, que foi letrada fora desses moldes ocidentalizados que não reconhecem as diversas habilidades de uma pessoa que não escreve”.

E a prática, o exercício de Gonesa começou muito cedo com um diário. A mãe, uma mulher muito inteligente, lhe ensinou primeiro a recontar as coisas belas do mundo com a boca, “porque ela considerava que conseguir falar era uma ferramenta muito potente de liberdade”, relembra. “Então antes de escrever qualquer coisa no papel, eu aprendi a bordar esse tecido pálido e gigantesco que é o mundo com as linhas contadas das histórias coloridas da minha mãe”.

gonesa

Gonesa escreve, escreve, de tudo: poesia, conto, crônicas, mas deixa que o leitor ou o pesquisador analise sua produção. Pra ela, o mais importante é tecer o mundo em letras e versos. Uma coisa é certa: a comparação entre a natureza e o ser humano é latente na sua escrita, além da poesia homoerótica, homoafetiva…

Em relação a inspiração e performance poético, ela se pergunta e já emenda a resposta: “Meu corpo é artístico? Eu acho. Eu gosto de usar meu corpo, minha voz. Eu sou preta, gorda e me considero um delito as imagens que “regem” a ordem da sociedade atual. Eu gosto de ocupar todos os espaços, Eu sei que meu corpo, da maneira como se comporta é artístico, é político, porque incomoda. Então meus contos, meus poemas, meu corpo, minha voz são linguagens que eu utilizo”.

Na escrita Gonesa quebra regras e linearidades, inventa as próprias setas, caminhos, padrões, para, depois, quebrar tudo. Sua pretensão com a poesia? Ficar rica! E ela confessa que não deu! Então, faz outros corres para sobreviver.

E por falar em quebrar regras, a poesia de Gonesa rima com família divergente, com rasuras. A família possível e a família do afeto, é a que rima com os textos desta poetisa:

“O sentimento de afeto não deveria ser invadido por uma ideologia invasiva de achar que família é um modelo papai, mamãe e filhos, até porque a gente sabe que o que mais existe na sociedade brasileira são famílias compostas por mulheres negras e seus filhos. Minha família era eu, minha mãe, uma irmã, um irmão mais velho que foi para São Paulo trabalhar e meu irmão mais novo, que minha mãe adotou de uma outra mulher que se relacionou com meu pai. Meu pai foi embora e ficamos uma família de irmãos e mãe e agora somos uma família de irmãos porque minha mãe morreu”.

 

Tem oito poemas publicados na Coletânea Literária Enegrescencia, dois poemas no Diferencial da Favela e Um conto publicado no Diferencial da Favela 2. E posta também nas páginas do Enegrescência e no Colcha de Retalhos, no facebook.

Gonesa Gonçalves é graduanda de Letras pela Universidade Federal da Bahia, membro do PET Conexões Comunidades Populares, vice-presidente do Enegrescência e pesquisadora no Grupo de Pesquisa Rasuras da Ufba.

 

Súdito

Se veio aqui

Seja meu, inteiro

Sou dona da noite

Faça o que peço

 

Sem algemas,

Meu quarto

Cárcere

De conter você

 

Meus olhos

A imobilizar

seu corpo

Não farei esforço

Para que seja meu

 

Minhas mãos

Acolhem

Como terras

a segurar raízes

De árvores troncosas

 

Minha boca:

Recipiente

De conter os rios

Que transbordam

Do seu corpo.

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna.