#PoesiaSoteropreta – Lidiane Ferreira: poesias desenhadas na imaginação! – Por Valdeck Almeida


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Lidiane do Espírito Santo Ferreira de Jesus, ou Lidiane Ferreira, não escolheu escrever sobre a temática negra. A Literatura que lhe escolheu, inclusive a forma, o gênero e o assunto, fruto, inclusive, das discussões que seus textos suscitavam. Desde sempre! A infância lhe traz lembranças dos diários cheios de ficção e dos desenhos “com vida”, fruto de muita imaginação.

O lugar de mulher negra é a vertente de sua produção atual, fruto de seu ingresso na Universidade Federal da Bahia – UFBA, e, consequentemente, depois do contato com as literaturas afro-brasileiras e africanas de língua portuguesa; e, em especial, com a sua construção identitária. Segundo Lidiane Ferreira, sua escrita foi, por muito tempo, “uma rota de fuga do racismo. Hoje, ela é o símbolo da minha luta contra o racismo, o machismo, o sexismo, dentre outros fatores discriminatórios de nossa sociedade. A minha escrita resiste a tudo isso, mas também serve de seta, apontando novos caminhos”.

Esta sua descoberta e militância literária, entretanto, não afloraram tão facilmente. Para Lidiane, “O racismo fez com que, por muito tempo, eu escondesse a minha escrita. Faz cerca de dois anos que eu os divulgo. Tenho poemas publicados na Antologia Poética do Servidor Público Estadual (2015) e no livro Enegrescência Coletânea Poética, publicado pela Editora Ogum’s Toques Negros (2016)”.

Lidiane se considera uma poetisa que escreve a partir do silêncio, do isolamento. Além de poemas, escreve contos e tem um romance em construção, e se declara amante de teatro, com planos de fazer um curso, mesmo que amador. Com temática diversificada, o que escrevia durante a infância era o cotidiano e o universo familiar. “Lembro que eu utilizava muito as características da minha irmã mais velha, Paloma, nos personagens.

Durante a adolescência, consigo perceber os reflexos do racismo em minha escrita, pois a maioria dos poemas continha temas como a morte, a solidão e a perda”. Com a entrada na Steve Biko, a inspiração se redirecionou. “O meu ingresso no Instituto Cultural Steve Biko não apenas me preparou para o vestibular, mas para a superação e o enfrentamento ao racismo. A Biko pôde me mostrar que há outras possibilidades para uma mulher negra e pobre como eu”.

Lidiane Ferreira sempre usou a Literatura como refúgio, não para se esconder, mas para explorar e expor tudo o que lhe consome, intriga, incomoda. Ela versa sobre o lugar da mulher negra na sociedade, sobretudo no que tange às várias sexualidades. Para além de aconchego, ela se utiliza da produção artística como arma, intencionalmente, como ato político, para retratar as vivências do povo negro mas, principalmente, para influenciar mudança social.

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Isso resultou no coletivo Enegrescência, criado com amigos, cuja busca é apresentar e divulgar as literaturas afro-brasileiras e africanas, de forma não hierarquizada. Lidiane acredita que “a literatura é um fator relevante para a mudança social”. Fruto deste trabalho em conjunto, nasceu uma coletânea poética, da qual Lidiane Ferreira participa, também, como escritora.

A poetisa Lidiane Ferreira se auto define: mulher negra, bikuda do ano de 2010, periférica, feminista, graduada em Letras Vernáculas, e pós-graduanda em Educação em Gênero e Direitos Humanos, ambos pela Universidade Federal da Bahia – UFBA; uma jovem escritora de literatura preta.

 

 

 

 

 

Desenlace

No emaranhado dos fios o tempo,

pentes desembaraçam nós.

E eu rio

escorrendo maçãs

abaixo

Estiagem: trinco nunca mais aberto.

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna.