#PoesiaSoteroPreta – O jardim imaginário de poesias de Marcos Paulo (Sarau do Jaca)


 

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Marcos Paulo é um dos coordenadores do Sarau do Jaca – Juventude Ativista de Cajazeiras e escreve desde 2005 sobre temas variados. O foco, no entanto, é o racismo. Com a arma nos dentes, a palavra, o poeta usa a poesia para combater o sistema opressor.

Seus textos são recheados de metáforas, não utiliza muitas rimas e emposta a voz quando declama, para viver outros personagens. Além da palavra, tem outras paixões com teatro, música e artes visuais. Desenha poesias nas paredes, em quadros, cartolinas, onde houver uma superfície.

Sua poesia rima com guerrilha, “porque o espírito da poesia se manifesta insurrecta contra a ordem”, assegura Marcos, mas não deixa de falar de poemas como elo entre familiares, sejam de sangue ou de afeto, porque “a família é uma invenção nossa”, decreta.

Poeta de gaveta, sem textos publicados em livros, Marcos Paulo se espalha mesmo é nas redes sociais e em um blog antigo que ele não revela o link pra ninguém. No mais, ele se expõe em saraus e encontros de poetas, com uma presença peculiar. Quem o vê declamando, além de ouvir sua voz possante tomando conta do texto, o percebe como performer, pois a poesia lhe toma inteiro, cada dread, cada gesto com braços, pernas, o corpo todo.

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Fruto de trabalhos sociais vivenciados durante toda a vida, o poeta, sensível e meticuloso, é, também, arte educador e usa a palavra poética para libertar a si e aqueles que lhe rodeiam, incentivando a todos e todas a experiências que mesclem arte e educação. E, assim, Marcos Paulo sai por aí, semeando poemas e cultivando poetas e artistas no seu jardim imaginário.

Lombra

Da satisfação obtida com o unguento

À tortura praticada por seu experimento.

Da calma recebida no uso do ópio

À campanha feita para nos mantermos sóbrios.

Dos amigos em roda trocando um baseado

À política de drogas que engendra o tráfico.

Do mito construído sobre o crack

À falta de sentido que encontramos na sociedade.

Da perspectiva de mundo obtida pelo ácido

À cegueira preconceituosa de quem o torna inválido.

Da teogonia transcendental do peiote

Ao ateísmo inerte e torpe.

Da oração muda degustada na ayahuasca

À descrença num mundo de plantas sagradas.

Dos debates incessantes sob goles de cervejas

Ao carro que te atropela onde quer que você esteja.

Da fragrância de um loló em pano úmido

Ao odor hipócrita encontrado no mundo.

Do êxtase que transborda de comprimidos

À apatia de uma ciência que não os tem reconhecido.

Dos duendes mágicos que dançam sobre cogumelos

À negação absoluta dos universos paralelos.

Das ilusões provindas no ato de cheirar cola

À necessidade daquele que sobrevive de esmola.

Da maldita heroína injetada na veia

Às doenças e males que a medicina semeia.

Do verde absinto que convida às fadas

À angustia de uma geração que vive acuada.

Das carreiras brancas de cocaína

À falta de coragem para enfrentar a vida.

 

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A tudo o que nos faz viajar

A tudo que nos faz pensar

A tudo que nos faz amar

A tudo que nos faz gozar

A tudo que nos faz sentir

A tudo que nos agrega e lança

A tudo que nos dá uma sensação de poder

A tudo que nos aproxima da verdade

A todas as coisas que nos levam a Deus

 

Eu agradeço.

A realidade é uma melodia

Nós somos os músicos.