#PoesiaSoteropreta – Rilton Júnior, o Poeta com P de Preto!


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Foto Dayse Cardoso

 

Rilton Santos de Santana Junior ou Rilton Junior, também se apresenta como Poeta com P de Preto. Ele é Poeta, Pai, Ator, Agente Cultural, Capoeira Raça, além de intérprete de suas vivências. É poesia em pessoa, mas acha que só começou a escrever poemas na mesma época em que iniciou sua trajetória no Teatro. As temáticas variam de amor, alegrias, saudades, tristezas, anseios, natureza, ancestralidade, enfim, mas hoje encara a questão racial como seu principal foco na escrita.

Todo o seu empenho com as letras tem um propósito:

“Um dos principais desejos é dar protagonismo à juventude e, desde quando cheguei, até agora, tenho visto a grandeza que se tornou o movimento da poética marginal em nossa cidade, (marginal porque foge dessa perspectiva de poesia pra ganhar aplausos, essas poesias querem mais que aplausos, querem reflexão, conscientização, vem pra fazer sair do lugar de conforto!”, diz Rilton Junior. “Eu pretendo apenas expressar um pouco do que há em mim, na minha caminhada, e um pouco do que vivenciei”, conclui o poeta.

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Foto: Fernando_Gomes

Como todo poeta de verdade, o Poeta com P de Preto situa a poesia numa variedade de definições ao ser perguntado sobre o tema. “Olha, eu ainda não sei o que é a poesia, sei que vivencio ela de diversas formas, seja em versos ou nas vivências com a comunidade, também creio que seja algo que modifique, que traga reflexões, que transmita ou crie sentimentos”. E no exercício criativo ele revela:

“Quando estou escrevendo me referencio em tudo que tenho, o contexto do que quero falar no momento, desde o que leio em um Livro a uma conversa que tenho com um amigo, em estatísticas, às vezes vêm frases na mente, aí eu escrevo no celular, e lapido. A intenção vai ser de informar, contextualizar uma ação, instigar os sentimentos dos ouvintes”. Finaliza Junior.

Multiartista e inquieto no criar artístico, Rilton Junior tem como principal vertente o Teatro, mas não se limita: “De lá que eu vim. Mas nessa vida já trilhei alguns poucos caminhos, com a Dança, a Capoeira, Produção cultural, e aos poucos me arrisco na Música no Rap”.

E quem disse que todo poeta é um fingidor, nem sempre. Rilton tem uma personalidade definidamente forte, mas ao mesmo tempo acolhedor. Sinceridade é com o poeta. Sobre poesia e família, ele fala:

“Poesia rima com família, assim como família rima com poesia, acho que a poesia relata ou cria possibilidades de sentimentos, vivências e trocas que na família também existe, digo nas várias lições e estados em que se encontra um laço familiar, seja de sangue ou não”.

E poesia-família é o que Rilton Junior sente, de acordo com esta afirmação: “Família, acho que existem certos laços afetivos que são tão importantes que as vezes são estruturantes em nossa formação, muitas vezes até que involuntariamente, digo isso a partir da minha vivência com o Grupo de Poesia Resistência Poética, que é um alicerce fundamental pra eu me tornar quem sou hoje”.

Tem textos publicados:

Em 2015 teve um poema no Prêmio Literário Galinha Pulando, que foi a poesia “12 Pretos” sobre a Chacina do Cabula.

Tem um Livreto de poesia intitulado “A poesia é o meu trabalho”, que contém 10 poemas autorais, já tem mais de 2.500 exemplares rodando por toda city.

Teve 3 poemas lançados no Antologia Literária Jovem Afro editora Quilombhoje, onde tem 14 poetas do Brasil inteiro e Rilton Junior teve a honra de ser um dos dois poetas representando a Bahia e o único residente de Salvador.

A Minha Poesia

A minha poesia é preta

Crítica, política e racial

Estética

Métrica

Universal

Minha poesia não se comporta em livros

ou na rede

Minha poesia fala

Porque tem sede

De retaliação

Minha poesia assusta e conforta

Incomoda

É quem me livra na hora

do bote dos bota preta

Minha poesia é treta

Pros racistas inculcados na gaveta

Minha poesia é treta

Pro homem machista que a mulher não respeita

Minha poesia é treta

Nossa luta não se assimila à esquerda nem direita

Minha poesia é preta

É alimento pra quem

tem fome de conhecimento

Resistente

Potente

É dedo na ferida de muita gente

Poeta

periférico

Sem diploma de faculdade

em letras

Minha poesia é vivida

Preta!

E eu como preto

Poeta

Faço dos meus versos um

Escudo e espada na mão

Para alertar meu povo faço das tripas coração

Às vezes fico rouco

Por falta de exercícios de respiração

Mas basta eu recitar pra você respeitar!

Minha poesia é preta!

Rilton Junior

 

Valdeck AlmeidaPor Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna.