Quadrinista Hugo Canuto relê clássicos da Marvel e apresenta heróis como Orixás


14470883_1375723279128124_933828248_n

O artista e co-criador da Marvel, Jack Kirby, jamais imaginaria que clássicas capas de HQs tivessem, anos depois, uma releitura tão inusitada: ao invés do Capitão América, Thor, Homem de Ferro, por exemplo, divindades como Iansã, Ossain, Ogum, Xangô e Oxaguiã. Essa foi a ideia do quadrinista baiano Hugo Canuto (30), que em agosto lançou nas redes uma releitura da clássica revista The Avengers (ao lado), na qual estes Orixás estão representados. A inovação e ousadia gerou tamanha repercussão que Hugo já pensa em uma HQ, de fato, com esta criação, que ele intitula: Orixás.

Apaixonado por mitos e influenciado por Kirby, Canuto começou a desenhar aos dois anos e nunca mais parou. Autodidata, tinha sua inspiração em quadrinhos como Conan, Thor e os trabalhos do artista francês Moebius. “Em Salvador ainda falta uma boa formação nesta área, os artistas produzem de forma muito empírica pois há poucas escolas. Foi só ao final do curso de arquitetura na UFBA que entendi que era possível levar meu trabalho de forma profissional, participando dos cursos na Quanta Academia de Artes”, diz. Há dois anos, saiu de Salvador e foi para São Paulo, abandonando a estabilidade de um cargo público para seguir novos caminhos, se identificando como – segundo o mesmo – “um nômade em constante aprendizado”. Hoje atua em projetos diversos como storyboards, murais na parede, capa de livros, revistas, Dvds e Concept Art.

14527620_1375718419128610_1683885118_nHugo Canuto vem conquistando muitos likes, compartilhamentos e emoções nas redes sociais com sua nova criação, a série Orixás, resultado de dois aspectos distintos que fundamentam seus traços: a tradição e a modernidade. “De um lado, a mitologia e a história dos povos, que desde criança me influenciaram. Do outro, a cultura pop, o quadrinho e o cinema, que formaram parte do meu repertório”, explica. Até então foram apenas três artes e já há diversos pedidos para criar as demais entidades das religiões de matriz africana.  “Tendo permissão, farei, pois ainda há outros para serem homenageados, sempre respeitando suas características”, afirma.

“Como candomblecista, ao ver seu trabalho, fiquei muito feliz por ser mais um artista a se preocupar em não deixar perder a essência do Orisá. É sublime saber que no amanhã meus filhos terão em mãos um gibi em pintura de Oyá, Ogun, Sango, Osala e todo o xirê” – Rogéria da Matamba Ateliê (RJ) 

“A repercussão tem sido intensa, todos os dias recebo mensagens do público sobre representatividade a partir dos símbolos abordados, muitos deles professores, músicos, estudantes, adeptos ou não das religiões de matriz africana, mas que reconheceram nesse trabalho o quanto precisamos de diversidade na mídia”, diz o quadrinista, que não teve qualquer pretensão além de homenagear duas paixões, quadrinhos e mitologia, segundo conta.

Mas ele foi além da homenagem: ultrapassou as mil curtidas em quatro dias com a pinup de um Xangô de armadura vermelha, agitando seu machado (“Oxê”) sobre um fundo de galáxias e sois (ao lado). Para atender aos pedidos, Hugo passou a produzir a série de pôsteres com estas criações e a primeira tiragem, de 100 exemplares, esgotou em duas semanas. Segundo o quadrinista, os valores adquiridos serão revertidos a instituições ligadas à promoção da cultura afro-brasileira em Salvador. A primeira a ser contemplada será o Ilê Aiyê. E não pára por aí.

14468466_1375327445834374_4989510270861115395_oHugo Canuto começou a produzir uma série em quadrinhos inspirada na mitologia Yorubá que, segundo ele, será lançada em 2017. Agora ele é só pesquisas. Mas quem já quer saber mais sobre o artista, suas produções e planos, já pode conferir a fanpage oficial deste projeto “Contos de Òrun Àiyè”. Lá, todas as artes estarão disponíveis, além de outros itens. Para Salvador, sua terra natal, Hugo Canuto já anuncia: junto a outros artistas locais, ele vai realizar oficinas de HQs para jovens de comunidades carentes, de modo incentivá-los a criar suas próprias histórias.

“Durante a minha infância, isso não era tão frequente. Tive dezenas de bonecos de super-heróis, quase todos brancos. Minha infância não foi ruim por isso, mas é lógico que poderia ter sido melhor, me ajudaria a me conhecer melhor e me aceitar desde cedo. Não importa o que digam, é gratificante ser associado a uma coisa boa, isso fortalece a autoestima”. – Gilson Nguni, professor de História (Salvador/BA).