Querer ela está muito além da prefeitura! – Por Luciane Reis


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Fto Enderson Araújo

 

Falar sobre a política baiana é falar sobre um processo e modelo de gestão que nunca enxergou Salvador para além do aquário, ou seja, seu entorno. Salvador é uma cidade complexa e de serviços, com uma baixa qualificação profissional e um déficit habitacional de pelo menos 106.415 unidades.

Ainda que tenha construído em média 2.458 imóveis populares por ano desde 2013,  isto não a faz  chegar nem perto de sua meta estabelecida em 2008 de zerar o déficit habitacional até 2030.

Não se desenvolve Salvador sem  racializá-la. É preciso que se enxergue uma população que é criativa, pulsante e que mesmo dentro deste processo de estagnação de sua criatividade financeira – feita via impostos da prefeitura – ou violência policial financiada pelo Estado, consegue gerar microempregos e rendas. Racializar Salvador é incluir em seu crescimento econômico uma parcela da população urbana mais vulnerável e que habita áreas insalubres e de risco desde o nascimento desta e que ainda assim  gera  renda em uma cidade que os  persegue e ignora.

O que a urbanização da cidade tem a ver com o pleito eleitoral e suas nuances? Possuir cerca de 600 áreas de risco localizadas em encostas e 80% dos imóveis irregulares, segundo a prefeitura, faz com que as pessoas nesta situação sofram diversas conseqüências que vão para além do que conhecemos. Sem o título de propriedade, a ameaça de despejo é constante.

E sem o documento, os moradores reduzem seu acesso ao crédito, motivação para melhorias das casas e vizinhanças, dentre outros. Sem falar que a grande maioria das localidades empobrecidas não são mapeadas, pouco se sabe sobre a demografia, capacidade de mão de obra, de geração de emprego e renda exatamente pelo uso “irregular”  espacial do território que faz com que o ecossistema de gestão invisibilize a chegada de condições de crescimento para essas localidades.

Então, como se pensar um projeto de cidade em um local onde o direito básico que é o de moradia não é levado a sério? É preciso mobilizar outras ideologias e pessoas para intervir neste cenário para além da eleição. É que se volte a ousar sonhar e acreditar em pessoas que nem sabem do que são capazes, como fez o Instituto Steve Biko, Ilê Aiye, Olodum, Ceao, CEN e tantas outras organizações de promoção de igualdade no passado.

Pensar um projeto de cidade mais igualitário e de impulsionamento econômico criativo é amparar as pessoas com respeito a sua dignidade como os terreiros de candomblé fazem no dia a dia. Debater a humanização de Salvador, entendendo que o diferente é sua maior fonte de construção de crescimento e desenvolvimento se faz central.

Querer “ELA” é pensar como romper com o pensamento racista que acredita que se pode cuidar desta cidade e suas especificidades, da mesma forma que se geri um clube esportivo que ganha visibilidade ao dar notoriedade a quem o sustenta, ou seja, a população de uma cidade de maioria negra.

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É entender que Salvador não é  um banco imobiliário que você gesta como brincadeira entre amigos. É romper com a continuidade de uma Câmara de Vereadores cujos membros, em sua maioria, trata essa como sua varanda de casa, ignorando as  especificidades e complexidade populacional. Salvador é uma cidade de carne e osso, feminina e que sofre diariamente o impacto da omissão de seus gestores e demais nomes em espaços de decisão.

Eleger nomes  que  assumam a responsabilidade de estarem “à frente da batalha pelo desenvolvimento sustentável desta é um desafio posto no próximo pleito eleitoral em uma cidade que invisibiliza a participação negra.

Ousar querer Salvador, é perceber seu potencial estagnado em uma rede de pensamentos coloniais, conservadores e subservientes, que não permite que sua rebeldia de crescimento torne essa uma cidade potente em sua capacidade de produzir, em seus mais de 160 bairros, sobre diversas perspectiva e sentidos.  Querer Salvador é ousar pensar um projeto de cidade onde cada bairro é um aglomerado econômico social imprensado na especulação imobiliária, racismo institucional e omissão de gestores  municipais e estaduais e um projeto de segurança  que impulsiona ainda mais a violência ao invés de combatê-la.

É mudar o  paradigma,  de uma cidade que até os dias de hoje pensa seu crescimento de fora ( turismo) pra dentro ( subserviência de quem recebe),  sem  levar em conta necessidades,  condições de existência e características de cenários para quem vive e promove desenvolvimento aqui.  Salvador é uma cidade que precisa ser cuidada de forma humanizada, empática e igualitária. Quem ousa querer esse projeto de cidade?

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial. Apresenta o programa Me Despache, na TV Kirimurê. 

 

Luciane Reis