#OpiniãoPreta – Sobre Salvador, Estatuto da Igualdade e população negra! – Por Luciane Reis


Tem um videozinho que circula na internet de uma garotinha nas manifestações do pato da Fiesp ,que eu adoro. A repórter toda simpática pergunta sobre a manifestação. Lá pelas tantas, quando questionada sobre o que ela acha das pessoas ali, a menina dá a resposta do século. ” Uma perda de tempo, não vai resolver nada”, responde com desdém no auge dos seus aparentes 8 anos. 

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Essa resposta  para mim é  emblemática, pois não tenho dúvidas que qualquer ativista negro com um mínimo de conhecimento político e de gestão pública, daria a mesma resposta se perguntado sobre o Estatuto da Igualdade aprovado ontem (29/5/19) pela Câmara de Vereadores de Salvador, uma vez que esse – da mesma forma que o Estadual – pouco altera a realidade de vida da população negra, por ausência de recursos para operacionalizar as ações.

Então por que  foi preciso que os vereadores Moisés Rocha (PT), Silvio Humberto (PSB), Edvaldo Brito (PDT), e tantos outros, trouxessem a todo o instante as idas e vindas do Estatuto na Casa Legislativa, se para a população negra de Salvador ele pouco tem poder de atuação prática?

A grande questão é que, do ponto de vista de norteamento do que essa cidade precisa, ele tem um peso extremo (quem me conhece sabe o que acho de políticas de igualdade simbólica). Mas sua aprovação ontem nos mostrou pontos importantes sobre como acontece a movimentação de poder em Salvador. O primeiro ponto diz respeito ao convencimento e conhecimento sobre a vida desumana da população negra nesta cidade pelos vereadores. Durante a votação, além do clichê de invocar todos os parentes, amantes e filhos negros esses mostravam (salvo algumas aberrações), pleno conhecimento  das mazelas e níveis de desigualdade de Salvador por conta – não das pessoas serem humanas -, mas negras. Tanto que a resistência à aprovação do Estatuto não passava pelas orientações de como enfrentá-las, mas referentes aos itens que pautavam as religiões de Matrizes Africanas, era a intolerância religiosa que impedia a pauta de avançar.

O impedimento à participação de militantes históricos na considerada Casa do Povo, usando para isso o direito de coesão em nome da coletividade (ainda que fôssemos os maiores interessados e maioria nesta cidade), foi uma aberração a parte diante das tantas evidenciadas. Deliberar que esses militantes não podiam acompanhar, desprezando todo seu processo acadêmico, de representação e participação na construção do documento fruto da referida votação, deixou um recado muito claro de que modelo de ” igualdade” essa cidade entende como importante. 

Precisamos mais do que nunca discutir quem queremos como representantes na Câmara de Vereadores e órgãos administrativos, quando se fala de população negra. Se faz necessário, enquanto ativistas negros, pensar formas de acesso e  diálogo com as comunidades de periferia e parceiros negros “esclarecidos”,  sobre como eleger  quem de fato nos representa nestes espaços que deliberam sobre que modelo de cidade teremos.

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É preciso pensar seriamente em formas de igualar a proporção de parlamentares com ideologias religiosas. Não podemos continuar reféns  de fundamentalistas, que entendem o gerir a cidade como concepção pessoal. Faz-se necessário uma grande reflexão coletiva sobre um projeto político, ações coletivas de desenvolvimento, representatividade e responsabilidade racial nos espaços de poder de nosso estado e município.

É preciso refletir ainda sobre qual é de fato o papel dos  parlamentares estaduais e federais ” brancos e pretos  bons”, eleitos  sobre a alegação de solidariedade `à realidade vivida pela população negra, o papel dos setores raciais nos agrupamentos políticos e, em especial, de nossos representantes negros em conselhos, ouvidorias e demais instituições de suporte à luta negra.  Para mim que pude acompanhar de fora,  ficou ainda mais claro que – ou elegemos pessoas cuja única prioridade em sua plataforma de luta sejam nossas pautas, ou lutaremos sozinhos como os nossos valorosos vereadores que ontem enfrentaram as ideologias presentes na cidade de Salvador.

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A ausência das instituições de governo raciais legitimadas pela luta negra brasileira  (Semur, Sepromi), foi algo também bastante emblemático neste processo de votação. Não estou aqui fazendo juízo de valores, mas do entendimento do que estamos chamando de militância e luta por igualdade racial e  sobre o que de fato  entendemos como ocupação de espaços de decisão política e de poder para construção de outra realidade para a população negra.

Norberto  Bobbio em sua obra Estado, governo e sociedade,  afirma que uma ação política atua com o objetivo de  conquistar, manter, defender, ampliar, reforçar, abater ou derrubar o poder estatal. Logo, não é justificável instituições que existem para assegurar a articulação e monitoramento de qualquer política ou ação que interfira na vida negra, não se fazerem presentes na votação de um documento que reforça pautas negras  em um município com todas as especificidades como Salvador.

Se política é a ciência de governar as coisas da cidade (uma associação de homens livres) com soberania num determinado território (a cidade, Estado), estamos falando de um espaço que cumpre o papel de legislar e gerenciar os recursos comuns desta cidade, Estado. A votação do Estatuto Municipal ontem deixou claro a importância de repensarmos nossa forma – não apenas de agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. Precisamos  distinguir  o poder político e social que queremos das demais formas de poder expressas nas relações entre os indivíduos  na sociedade.

Cabe aos movimentos sociais e suas diversas vozes, como bem provoca professor Edson Cardoso,  a auto critica sobre o  fatiamento da luta de desenvolvimento da vida negra. Uma vez que, como afirmei acima, não estava em pauta concordar ou discordar do documento, mas nossa capacidade de articular e demonstrar  poder nesta cidade. Neste sentido, só posso parabenizar aos nossos poucos e valorosos vereadores  que com sua capacidade de intervenção e articulação, conseguiram atuar sobre as  relações de poder e interesses  presentes na câmara.

Saio deste processo com o entendimento de que repensar nossas ações é fundamental, pois como diz a música “Evangelização” do  Olodum,  ” A gente fala,  fala,  fala e  não resolve nada não. A gente reinvidica  e nada é nada. Eles nem se sensibilizam, não nos estabilizam e  dizem que não podem fazer nada não” ou seja, continuamos por nossa própria conta.

 

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Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial.

Black Money – Luciane Reis estreia programa “Me Despache” na TV Kirimurê!


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Luciane Reis

Quilombos, irmandades religiosas e as sociedades negras, passando pelas iniciativas de inserção no comercial informal, por meio do trabalho de ganhos nas ruas das cidades, até chegarmos ao que hoje se chama de Black Money. 

Para dar visibilidade a essas iniciativas de organização econômica da população negra, promover negócios focado na superação do racismo institucional e provocar a reflexão sobre a nossa relação com o dinheiro, estará no ar, na TV Kirimurê, o programa Me Despache, uma iniciativa da agência de Fomento a Negócios Locais e Étnicos Mercafro, liderado pela comunicadora e presidenta da agência, Luciane Reis, que apresenta o programa.

“Nosso objetivo é trazer para o cotidiano das nossas famílias a conversa sobre planejamento financeiro, organização de carreiras, empreendedorismo e consumo consciente, tornando a aquisição e uso do dinheiro um ato político de afirmação negra. Traremos convidados que com suas histórias pessoais ou com suas pesquisas dedicadas à temática dos negócios contribuam para estimular a você e sua família a pensarem como anda sua relação com a Economia” – Luciane Reis

O programa estreia nesta terça-feira, dia 19 de março, às 21h na TV Kirimurê, canal 10.2 – TV Aberta. Tem reprise às quintas, às 10h.

 

Ficha Técnica
Apresentacao: Luciane Reis
Direção: André Santana e Gustavo Pereira
Produção: Gustavo Pereira e Luciane Reis
Direcao de arte: Lunnah Santos
Fotografia: Gustavo Pereira e Lucas Cerqueira
Maquiagem: Ana Andrade
Figurinista: Cáren Cruz

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Por Luciane Reis!


Tem muito tempo que não escrevo. Seja pela falta de tempo, erros da escrita  que nos acompanham neste processo de dizimação da nossa gente, ou pelas palavras de desencorajamento ou desestímulo que tenho ouvido em alguns espaços. Aconteceu uma situação muito emblemática na Câmara de Vereadores esta semana. Eu que venho de espaços de discordância, mas nunca de violação extrema de direitos; vi um filho do que se existe de mais conservador em Salvador autorizar o uso de spray de pimenta em servidores do município – pelo simples motivo dele e de seus “comparsas” não serem ouvidos.

Fico imaginando se nossa reação para cada vez que não somos ouvidos pelo prefeito ou governador, fosse o que eles autorizam seu braço armado fazer conosco?  O despreparo para estar como presidente, as birras e gritos de menino branco de prédio de luxo que só sabe o que é periferia de 4 em 4 anos e que – pasmem – tem nos nossos a legitimidade para adentrar as comunidades. Seja pelos brancos, ou pelos ombros de alguns ditos “líderes comunitários”, ou por nós mesmos, que não conseguimos compreender que se importar com o outro passa por se ver.

Temos um processo real de desumanização dos nossos. Esse é o maior legado brasileiro à comunidade negra. A animalização e normatização das nossas dores. Ver o sempre calado “príncipe do gueto”, só se pronunciar quando é para nos destruir, ou ver filhos, netos e amigos de quem sempre nos fez mal, nos destruindo,  me faz invocar King – com quem nem tenho tanta afinidade: “O que me preocupa não é o barulho dos maus, e sim o silêncio dos bons”.

 

É Leno, aqui do nosso lado. É uma capa de Jornal que teria causado rebuliço em qualquer país sério, e que por muito menos se tornaria notícia internacional com condolências em todo o mundo. É garoto sendo arrastado de Shopping, ainda que alguém tente  garantir a máxima do MST que diz: “ordem é todo cidadão não passar fome e progresso é ter sua dignidade garantida”. Não foi real aquele grau de brutalidade assistida na Câmara. Não pode ser real!

Os gritos histéricos de Leo Prates, seus posicionamentos autoritários e, por fim, sua autorização para que a Polícia fizesse o que sabe fazer bem, não pode ser real.  Não é possível que pessoas negras de Salvador tenham eleito nomes como o dele. Não pode ser normal o silêncio do Estado diante de 30 mortes registradas em menos de 24h, e dos números que só aumentam: 66, desde a morte de 1 (um) policial – ainda que de forma desumana.  

Não pode ser normal que o governador deste Estado, junto com seu secretário de segurança, ache que a cor da pele é o que menos importa e vamos eleger uma lista de homens brancos com instintos militarizados para continuar nos massacrando. É cultural no Brasil, e em especial na Bahia, a invisibilidade das mortes  e violências sobre peles negras – independente da idade – pela governabilidade. Como dormir ao ver a quantidade de bebês encostando a cabeça naqueles bancos frios da Piedade, com sono?

Moramos em um estado de políticas sociais insignificantes, onde o entendimento de humanização negra, para ambos os governantes, é munição e spray de pimenta.  Precisamos fazer outras escolhas. Não podemos mais eleger “príncipes” que se tornam algozes, centroavantes que entendem que é possível fazer gol de bicicleta com nossas vidas. E, acima de tudo, continuar votando em “aliados” que se silenciam na defesa de um governo de coisas, que quer ser o mais algoz combatente de outro que se espelha neste, mas é considerado inimigo.  

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Não precisamos de representantes de coisas. Precisamos fazer outras escolhas políticas, que passam por eleger candidaturas negras e femininas de forma coletiva. Não podemos  morrer como insetos no braço deste Estado que nos desumaniza o tempo todo, e achar que quatro homens brancos, com séria simpatia e casamento, com a postura truculenta da Polícia, sejam eleitos.  Não existe projeto coletivo quando o corpo negro é o único que tomba. Não pode existir projeto de crescimento deste estado, quando não somos envolvidos nos processos e ações.

Leo Prates e parte da Câmara de Vereadores – eleita pelo voto negro da  periferia – disse de qual lado estão e quais escolhas farão. E nós continuaremos os elegendo? Rui Costa diz em seu silêncio dos “bons”, qual o lado que ele defende quando a família de campanha de Margarina dele é mostrada e se silencia diante do esfacelamento das nossas. O que ainda achamos que podemos esperar de pessoas que não se parecem conosco e dizem nos representar? Ser morador do bairro da Liberdade não coloca todos que ali residem ou residiram na mira do Estado.  O que esperar de candidatos negros que nenhuma linha dizem sobre situações como essas, por que acreditar que eles são o nosso futuro?

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Provérbio Africano.

Como essas aldeias, travestidas de município e Estado, vem – de fato – educando nossas crianças? Como nomes negros que saem candidatos esse ano vem se posicionando para que essa aldeia de fato eduque os nossos?  Temos um secretário de Educação evangélico, que pluralidade ele defende? O que nós, homens e mulheres negras, achamos que pessoas que não sentem o que sentimos podem mudar nossa realidade?

Não morremos porque estamos nas drogas, mas por termos um estado que, conjuntamente, seja de esquerda ou de direita. Nunca levou de forma séria outros braços para as comunidades que não a Polícia. Como diz o economista Silvio Humberto, as coisas se degradam. Temos governos que querem deixar como legado coisas, ao invés de conhecimento. Coisas sempre tem uma capacidade máxima,   pessoas não. A brutalidade da morte do policial, é o reflexo de um país que constrói na cabeça das pessoas a certeza de que elas não valem nada. Se elas sabem que não são nada, porque vão achar que alguém que se pareça com ela terá algum valor?

Luciane Reis
Luciane Reis

A não reflexão sobre nossos princípios de representatividade, de humanidade e compromisso com o que nos é caro tem feito com que também homens e mulheres se silenciam em situações como essas. Não existem seminários, falas públicas exaltadas a serem feitas. Há um governo a ser confrontado e esse governo foi eleito e será reeleito com votos de homens e mulheres negras que ainda se iludem achando que fazem parte deste projeto. Outras escolhas políticas passam, inclusive, por voltarmos a ser militantes da pauta racial  e lembrar que, como diz a socióloga Vilma Reis, “nossos títulos acadêmicos só fazem sentido se estiverem à serviço da luta. Eles precisam ser a arma que desmonta a casa grande”. Isso é o que precisa nos mover e ser nossa governabilidade.

 

Luciane Reis é publicitária, Especialista em Gestão Pública e produção de conteúdo digital,  coordenou o Plano Juventude Viva na Gestão Dilma Rouseff e foi membro do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência enquanto assessora de Juventude no Governo Camilo Santana.

Nós e a cultura do “FAZ SOZINHO”! – Por Luciane Reis


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Nos idos de 2004 quando professor Jaime Sodré usou esse termo durante atividade do Pompa na Biko, demos risada. Achamos engraçada a forma como ele definiu a relação do estado com os realizadores negros.  Professor Jaime trouxe exemplos de como nossas atividades  muitas vezes até reconhecida como importante pelo país /estado,  não recebia recursos que de fato fizesse essas acontecerem com tranquilidade.

Durante meu período na Casa Civil, um dos conselhos que recebi do professor Sergio São Bernardo, além do de não me deslumbrar com Brasília e pensar minha vida de maneira centrada, foi “FAÇA TODOS OS CURSOS QUE A PRESIDÊNCIA TE OFERECER”. Conselho que me permitiu entender a máquina pública e, acima de tudo as diversas, formas de repasse financeiro. Um dos meus professores de orçamento público, costumava dizer que “ só não pode aquilo não justificado, sabendo explicar a União, pode tudo”. Quem transita pelas gestões pública e política, sabe como isso é verdade.

Então, por que quando os realizadores são negros, os projetos e editais são engessados, complicados, de baixo valor, e nós ainda continuamos tratando esses como aliados? Atuei em vários editais enquanto servidora federal, exatamente por entender esses entraves. Lembro que uma das nossas tarefas, sob a orientação da secretária Severine Macedo, e do Ministro Gilberto Carvalho, era pensar como esses editais deveriam ser menos burocráticos e atender a realizadores de carne e osso. Ou seja, pessoas que tinham projetos de impactos em áreas vulneráveis, por não dominarem o processo destes editais, acabavam não sendo contempladas.

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Confesso que o Plano Juventude Viva foi uma grande escola no refazer o quebra cabeça excludente do país. Com boa vontade, compromisso, dialogo (via Fompi) e  ajuda dos articuladores que, oriundos do  Enjune, contribuíram e muito para quebrarmos um pouco a cultura do “negro faz muita coisa com pouco dinheiro ou apoio institucional”. Confesso que, diferente de todas as pessoas não negras que chegaram com redes de contato, salários realmente em condição de sobreviver naquela cidade (que amo e sinto falta hoje em dia), eu tive que usar o velho FAZ SOZINHO e os conselhos rápidos de Sergio São Bernardo. Era todo o Networking profissional  que tive naquela cidade.

O faz sozinho para a população negra não é um recurso que usamos somente na hora de realizar eventos e atividades afins. Usamos, principalmente, em nosso caminhar enquanto indivíduo. Recentemente, a BBC fez uma matéria falando como a nossa falta de QUEM INDICA  nos estagna e adoece.

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Temos menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subir ou ter uma carreira, o que acaba por nos fazer questionar a nossa capacidade profissional. Temos dificuldade de dialogar e trabalhar com a diversidade, ainda que tenhamos militado, escrito e façamos discurso falando da importância de trabalhar com o diferente. Em uma sociedade como a nossa, isso é fundamental. Atuar com diversidade de ideias, universos e conhecimento é importante não somente para  indicação a outros  postos de comando,  como afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mas principalmente para que possamos vencer essa concepção de que nossos projetos ou capital profissional é bom, mas 500 reais resolve.

Se em pleno seculo 21 ainda temos o “faz sozinho e o eu apoio se quiser” , de maneira tão latente, é  porque não conseguimos avançar para dentro da disputa ideológica,  de que as politicas de igualdade feita com seriedade,  desenvolve o país. O  impacto disso, é o fortalecimento do olhar sobre nós como amadores, incapazes de lidar com recursos financeiros e que qualquer valor em cima da hora resolve. O fato do nosso  capita social ser escasso,  impede que possamos ser  bem-sucedido nas nossas carreiras e capacidade realizadora.

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A falta de diálogo sobre dinheiro e seus aspectos de desenvolvimento, acaba por nos deixando sem  uma rede social de recursos para acessar, logo distante das boas oportunidades, como por exemplo  ocupar um cargo de gerência ainda que tenhamos competência e reconhecimento  para isso. Nos condicionaram ao Faz Sozinho e pior, sem nenhum constrangimento de acharem que podem nos colocar para se degladiar por  20, 30 mil reais, quando outros segmentos tem acesso a  valores acima da casa dos milhões em simples almoços, jantares ou telefonemas a exemplo dos colarinhos e corpos brancos da Lava Jato ou gestores  e seus parentes  e amigos dentro dos órgãos públicos.

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Agora somos nós que protegeremos os Orixás! – Por Luciane Reis


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Foto Raul Spinassé/A Tarde

A nossa pacificidade diante da não laicidade e da tolerância e aceitação do estado com as posturas evangélicas, é a mola propulsora que sustenta a certeza da permissividade  destes que se consideram os enviados de Deus. A nossa complacência é tanta, que não nos incomodamos com as pregações nos transportes ditos coletivos ou qualquer violabilidade pública provocada por esses e que tem nos passageiros e rodoviários  toda a compreensão com os  “enviados do senhor”.

Nossa tolerância é tanta que de maneira institucionalizada e apoio do estado, a bancada evangélica ocupa quase todos os espaços de governos e dos meios de comunicação diante dos nossos “o que é que tem?”.

O que é que tem se estou no hospital e o único templo religioso tem uma cruz e pessoas entregando a palavra de deus?

O que é que tem se estou sentada em um bar e esses entendem que posso ser invadida com o que eles consideram a palavra do senhor?

O que é que tem a não participação do estado nos eventos de combate à intolerância?

O que é que tem se esses fecham uma rua e impede a passagem de qualquer carro por que estão pregando a palavra de Deus?

O que é que tem? Tem que essa complacência  é o que, junto com a certeza da tolerância e impunidade social, faz com que esses cometam as maiores atrocidades e invasão e isso seja normal.

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Foto Fafá Araújo

O “é só a palavra do senhor” vem cada dia mais  promovendo violência ao  povo de orixá  nos quatro cantos do pais independente da posição social.  Não podemos nos indignar com o ocorrido junto aos  terreiros do Rio de Janeiro,  quando há mais de duas décadas esse mesmo estado  legitima os “trabalhos sociais” de uma única religião junto aos presídios brasileiros.

O sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em suas pesquisas junto às unidades prisionais, averiguou que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento de 61% de evangélicos no país. Metade destes, fruto das “ações sociais” junto ao sistema prisional brasileiro.

Não é problema ter programas sociais e acalanto religioso  para  pessoas que passam anos em meio à solidão, sem saber como será o dia de amanhã. O problema é a aceitação e permissibilidade de uma única fé. Fé essa que não estimula a tolerância e o respeito à diversidade às demais religiões.

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Foto Jornal Awure

Graça Machel, em recente visita ao Brasil, lembrou que colhemos os frutos de certas ações a longo prazo. Eis que chega o momento de colheita do “povo de deus”. Um processo de intolerância que sai das mãos de cidadãos comuns e passa para os que estão à margem da sociedade e sem nenhum parâmetro de diálogo ou controle do estado.

É preciso compreender que os vínculos dos detentos com as atividades religiosas não se restringem apenas à espiritualidade, mas também à mudança de caráter e de comportamento que se estende a todo núcleo familiar. Os ataques aos terreiros no Rio de Janeiro nada mais são que efeitos de visitas sociais evangélicas aos presídios, sob a institucionalização da intolerância religiosa.

Não acho que seja a hora de colocar os orixás ou clamar por sua justiça. Ao contrário, é hora de convocar sua ira e desmontar essa não laicidade que descansa em berço esplêndido. É hora de se cobrar posicionamentos reais e internacional contra o estado brasileiro.

Quando “até Oxalá vai à guerra”, entendemos que chegou a hora de mostrarmos até onde iremos para defender nossa fé. Isso passa pelo entendimento que precisamos nos organizar institucionalmente. Ou elegemos nossos nomes, homens e mulheres de Candomblé que usam firma e não miçangas no pescoço, ou continuaremos sendo esmagados por esse estado intolerante e omisso.

Precisamos buscar a fé que não sucumbiu nem aos navios tumbeiros quando nos tiraram a dignidade e humanidade. Mas precisamos também discutir estratégias, para  desestruturar essa rede que nos violenta de maneira massiva. Sabemos que a resistência às opressões vem da união dos oprimidos, portanto que nos organizemos para a resistência.

Não pedimos guerra,  somos um povo que mesmo com todas as dores  proporcionada por esse país,  continuamos sendo generoso. Mas sabemos guerrear e nossa justiça  é   implacável.

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do MercAfro e Yamorixá de Oxumaré

Agência Mercafro convida Aquataluxe Rodrigues para debater modelos econômicos inclusivos!


Aquataluxe Rodrigues
Aquataluxe Rodrigues

A agência de Fomento a Negócios Locais e Étnicos Mercafro, liderado pela publicitária Luciane Reis, realiza no próximo dia 8 de agosto, o Círculo de debates Ajé Owo, uma iniciativa que visa compartilhar informações e reflexões sobre economia negra através da conexão de pessoas com opiniões diversas.

Com esse objetivo a ação reunirá – durante as quartas feiras do Agosto da igualdade – convidados diversos para tocar experiências pessoais e profissionais sobre perspectivas econômicas e população negra. A cada encontro, o evento debaterá as diferenças atreladas à produção de atividades econômicas por grupos tidos como “vulneráveis” e outras modelos de construção financeiras, tendo a econômica negra como ponto central. O evento trará durante todas as quartas de agosto provocadores que dialogarão sobre os processos rotulados como “empreendedorismo étnico e racial” sobre diversas óticas.

Neste primeiro encontro a provocadora convidada é Aquataluxe Rodrigues, formada em Administração de empresas com MBA em Gestão de Projetos. Produtora Cultural, é Conselheira do Bloco Afro Olodum e ativista social na pauta de mulheres. Aquataluxe estimulará o debate tendo as “Mulheres e empreendedorismo: Contribuições aos modelos econômicos inclusivos” como ponto a ser dialogado.

 

SERVIÇO

O que: Círculos de Debates Ajé Owo: Investindo no hábito de ter dinheiro
Quando: 08 de Agosto (quinta-feira), 18h
Onde: Bar Mestiços – Praça da Sé
Aberto ao público

‘Elas na Roda’ debate sobre Mulher e Cultura no Centro Histórico


As possibilidades de atuação, os desafios e as perspectivas para a atuação da mulher na produção cultural. Estes são alguns dos assuntos que serão debatidos no ‘Elas na Roda: Mulher e Cultura – Produzindo Novos Lugares’. A proposta do evento é ser um bate-papo conduzido por mulheres que atuam na área, regado à cerveja e petiscos.

 

A ideia, segundo a idealizadora do evento, a publicitária Luciane Reis, é juntar num ambiente de informalidade, mulheres de diferentes posições na cadeia da cultura, para debater um assunto sério num formato de discussão que propicie mais interação e trocas. O objetivo, além da apresentação de um panorama do setor, sob a ótica feminina, é apontar caminhos para a criação de “novos lugares” para as mulheres na produção cultural.

A roda de conversa será realizada no Bar Mestiços (Praça da Sé), nesta quarta-feira (28/03), às 19h e contará com a participação da bailarina e cantora, Nara Couto; da escritora, dramaturga e produtora cultural, Cacilda Povoas; da antropóloga Naira Gomes; dentre outras mulheres do meio cultural.

 

Fale mais sobre?

O que: ‘Elas na Roda: Mulher e Cultura – Produzindo Novos Lugares’;

Quando: Quarta-feira (28/03), às 19h;

Onde: Bar Mestiços – Praça da Sé, nº 398 – Condomínio Edifício Themis – Centro;

#OpinãoPreta – Os tambores rufaram, salve o furacão da Bahia!!


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Foto: Sepromi/BA

Domingo, voltando do trabalho, alguém no metrô puxou algumas cantigas do Olodum. Qual não foi minha surpresa, ver todo metrô respondendo aos hits desse furação que toma nossa vida de maneira única. Estava aqui pensando o que para cada olodúnico significa esse “se tornar patrimônio imaterial” e, acima de tudo, ter seu festival de música institucionalizado?

Construir o projeto Olodum, é uma batalha constante de conscientização, não somente de quem não o conhece, mas acima de tudo de quem o curte. Não falamos somente de um bloco, mas de uma filosofia de vida com seus ritos, acordos e  religiosidade africana, que se mostram presentes a cada tema trabalhado.

Só quem vai ao Olodum domingo ou sai às sextas de Carnaval, sabe do que estou falando. O Olodum é uma banda que se escuta tanto nos grandes prédios onde a população negra habita, como nas periferias violentadas cotidianamente. Estamos falando de uma banda que – diferente do imaginário social – possui uma relação muito forte de compromisso e respeito com o combate às opressões. 

Estamos falando de patrimônio social constituído em torno de um amor único, o Bloco Afro Olodum, e possui uma relação de irmandade medida no monitoramento um do outro para saber se chegou bem após cada ensaio e não foi abatido pelo racismo institucional  cotidiano em nossa vida.

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Crédito: Globo/ Luiz C. Ribeiro

“Pular” corda do Olodum na sexta, por exemplo, é um destes momentos ímpares do bloco. É na sexta de carnaval que o “furacão da Bahia”  se encontra com aqueles cujos momentos de celebração não fazem sentido se na trilha sonora não tocar “nossa porra”,  forma como se  referem à banda. Tornar o Olodum imaterial é reconhecer uma instituição que não é  somente um bloco, mas que de maneira política e cultural faz a  transformação através da Escola Olodum, de eventos de formação de professores para uso da 10. 639, dentre outros.

Estamos falando da imaterialidade de uma instituição, que combate a escravidão mental e o racismo institucional que nos atinge diariamente. Ele é imaterial porque agrega um público que, historicamente, carrega o estigma de criminoso, ainda que faça seus “corres”  honestos durante todo o ano.

Portando, esse reconhecimento é o primeiro passo para construção de um respeito perdido. O Olodum  vem resignificando seus passos a duras penas e, como dizia Germano, “Não somos mais aqueles”. Mudamos. Somos historiadores, publicitários, advogados, empresários. Somos pedreiros, carpinteiros, ambulantes, empregadas domésticas, marginalizados e excluídos. Agradeço todos os dias ao meu amigo amado, Marcelo Gentil, por me fazer voltar a beber desta energia que emana de forma única sua resistência e existência. Graças a ele, pude voltar a ver o Olodum que muitos se recusam a ver.

A institucionalização do festival é a valorização dos tambores, seus vocalistas e, acima de tudo, da história africana – que vem em cada letra puxada e respondida por vozes sintonizadas – como uma veia sanguínea. É a proteção do pulsar negro que se faz presente em cada ensaio, junto a pessoas que o estado não dialoga e que consolida o mesmo como um  espaço de agregação independente de como se chega. Damos nós em madeira e levantamos poeira, já dizia nosso poeta Lazinho. Vida longa ao furação da Bahia.

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Luciane Reis é publicitária, pesquisadora de etno desenvolvimento e negócios inclusivos, idealizadora do Merc’Afro e acima de tudo OLODÚNICA.

#NegrasRepresentam – Campanha homenageia mulheres no Novembro Negro


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Zaika dos Santos     Fotógrafo: Maxwell Vilella 

Ao longo do Novembro Negro, o MercAfro, o Portal Soteropreta e a produtora Três Tons se unirão em torno de homenagens a mulheres negras que tem um trabalho significativo em diversos segmentos. Por meio de perfis, a campanha #NegrasRepresentam tem o objetivo de apresentar os pensamentos de mulheres negras em diversas esferas sociais e como suas ações vem propondo mudanças na realidade racial do país.

“Estamos acostumados a ver mulheres negras desenvolvendo atividades diversas, mas poucas são as vezes em que damos os créditos e principalmente nomeamos seu capital intelectual ou técnico para que aquela ação se tornasse possível. Essa homenagem cumpre então esse papel, mostrar como a contribuição feminina altera e enriquece não somente os espaços onde essas são parte, mas principalmente quais os ganhos desses com a presença delas”, reforça Luciane Reis, uma das coordenadoras da campanha e idealizadora do MercAfro.

Para Caroline Moreira, co-criadora da produtora Três Tons e também coordenadora da campanha “ela mostra, não somente as conquistas destas, mas acima de tudo mostrar as diferentes protagonistas desta batalha diária”, diz.

Conheça as homenageadas aqui!

#NegrasRepresentam – Major Denice Santiago, a segurança das mulheres, sua escolha de vida!

#NegrasRepresentam – Luana Soares, feminista, militante e incentivadora!

#NegrasRepresentam – Dione Silva, a juventude Negra Kalunga e o combate ao racismo!

Merc’Afro promove visita de empreendedoras negras à Fapesb!


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Uma comitiva integrada por mulheres negras de diversos segmentos empresariais, visitou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB . O grupo foi recepcionado pelas coordenações de ciência e inovação e seu Diretor-Presidente, Lázaro Cunha. A comitiva ouviu informações sobre economia criativa, desenvolvimento de ideias, modelos e formas que a instituição vem desenvolvendo a produtividade e competitividade empresarial e, principalmente, como funciona o apoio a empreendimentos comunitários.

As presentes puderam desmitificar o olhar sobre a Fapesb e suas linhas de atuação, entender modos de ter suas empresas atendidas pela mesma, além de abrir um canal de diálogo, através do Merc’Afro para se pensar formas conjuntas de qualificar empreendimentos étnicos femininos para a competitividade empresarial. Para Luciane Reis, idealizadora do Merc’Afro- Agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos e que, em 2016, foi um dos projetos finalistas do “Ideias inovadoras”, a visita abre um canal de diálogo para além do fazer.

“Estamos construindo a cultura empresarial étnica de informação, precisamos pensar nossos negócios na prática. Se, no passado, ter elementos negros em seus produtos era um problema, hoje pode ser uma solução se conseguirmos entender que existe uma disputa que – além de prática – é ideológica”, disse.

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A falta de produção de dados ou de referencial empresarial na perspectiva étnica, vem permitindo que no diálogo de “diversidade'”, o componente racial seja invisibilizado. “Ao abrir esse canal com a Fapesb e as demais instâncias de fomento empresarial do estado, começamos ser protagonista não somente enquanto empreendedor que faz, mas, acima de tudo, que reflete eproduz conteúdo provocativo sobre o que é o chamado caminho do dinheiro negro”, enfatiza Luciane.

Para Renata Matos, diretora científica da Fapesb, a visita fortalece o olhar da Fapesb como um órgão que constroi, não somente Ciência, mas – acima de tudo- o desenvolvimento social sustentável. “Esses momentos de escuta e trocas de saberes e demandas, é o que contribui para desmitificar a Fapesb para o micro empresariado.É preciso desconstruir esse olhar de inovação enquanto coisa de impacto macro, ele acontece exatamente nas pequenas ideias”, salientou.

 

 

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Sobre Merc ‘Afro

Fundada em Salvador, em outubro de 2014, é uma Agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos, cujo objetivo é a produção de conteúdo e serviços educacionais e de formação, propiciar benefício social transformando soluções digitais em desenvolvimento econômico para empreendedores e consumidores de economia vulnerável.

“Trabalhamos com materiais e metodologias de educação e formação empreendedora, voltada para criação de empresas e negócios inclusivos alicerçados em saberes culturais e identitários para assim desenvolver e formular temas, cursos e metodologias de formação e criação para negócios em pequena escala. Enquanto negócio social, o Merc’Afro tem como base de desenvolvimento econômico a construção de um capital formacional e educacional que através do fomento, pesquisa e análise da economia local, conecta globalmente empreendedores e consumidores étnicos em novas perspectivas de negócio”, explica Luciane.

 

Imagens: Gustavo Pereira (Photossíntese Fotos e Videos)