#OpiniãoPreta – Afro empreendedorismo: Uma relação para além do dinheiro!-Por Luciane Reis


Quando se fala de afro empreendedorismo, está se falando de história econômica negra. Afinal, a construção econômica ou de desenvolvimento brasileiro tem nas relações raciais e de invisibilidade sobre a atuação empreendedora seu grande fator de construção de quem é ou não sujeito econômico de poder. Não por acaso, há poucos intérpretes do lento processo de transição dos trabalhadores negros para livres. Ramatis, Nogueira, Elias Sampaio e Hélio Santos são alguns dos poucos economistas ou pensadores que nos permitem trazer uma outra ótica sobre o processo “empreendedor” brasileiro e mais ainda, o que é ser empreendedor negro quando se fala do pensamento de gestão e administrativo após o dia 14 maio, dia que vivemos até hoje.

Chegamos ao 14 de maio, diferente dos imigrantes, sem nenhum subsídio para sobrevivência. Isto nos fez empreender pela primeira vez, ao subirmos os morros ou ver como sobreviver em um país que simplesmente nos descartou. Pensar sobre o afro empreendedorismo é refletir sobre um modelo econômico e de desenvolvimento de país, onde predomina a ideia de incapacidade empresarial ou de gestão do trabalhador negro sobre a égide das teorias administrativas euro –norte – americanas. Ao não pensar o impacto destas teorias no desenvolvimento econômico negro, se repete o ciclo de olhares, repertórios e debates financeiros onde esses são vistos como “inviáveis ou não lucrativos”.

Entender empreendedorismo como um campo de atuação ampla é pensar como um dos seus eixos centrais – que é o desenvolvimento pessoal e financeiro – tem impacto no fortalecimento de projetos e ideias onde seus protagonistas são homens e mulheres negras. É preciso pensar o desenvolvimento pessoal quando se fala de afro empreendedorismo, afinal o primeiro plano de negócios que se faz na vida ao empreender é o plano de vida e financeiro. Quem você será daqui a 10 anos e por quais meios? Não podemos entender empreendedorismo como algo nato a todos, uma vez que isso tem feito com que muitos não invistam em concursos públicos ou discutam “ Racismo no Mercado de trabalho”.

Ser um empresário ou empreendedor negro está para além das “ferramentas” certas ou rede de profissionais que dê suporte. Estamos falando da ausência de debates sobre o conhecimento da história empresarial e econômica brasileira e a presença negra. Esse silêncio impede a compreensão dos modelos mentais adquiridos por lacunas históricas e teóricas que, ao minimizar a participação e identificação das habilidades e competências destes dentro do ambiente econômico, constrói outros referenciais de sucesso e autoridade dentro do que podemos considerar desenvolvimento econômico brasileiro.

Ao falar de afro empreendedorismo é preciso que se revisite a história econômica e de desenvolvimento brasileiro para que assim possamos discutir as particularidades destes tipos de negócios. É preciso que se conheça as dores econômicas esquecidas no processo escravagista e que nos acompanha todos os dias ao não pensarmos nossos mapas afetivos financeiros ou nossa relação com o dinheiro. Identificar como lidamos com sua presença e ausência, o que faz com que tenhamos ou não, um processo de rompimento com as relações culturais econômicas que nos afetam até hoje e está ,como eu disse, para além da financeira.

Falar sobre dinheiro é romper com a mentalidade de mercadoria construída ao longo da história. História essa que nos faz ter a sensação de não merecimento ou culpabilidade sobre este. Onde se usa o dinheiro? Quanto tempo ele permanece em sua mão? Como ele chega ou qual o impacto que ele causa a partir de onde você gasta? São decisões políticas importantes dentro do debate afro empreendedor. Onde se gastar dinheiro é um ato político que, a depender de onde você o deixa, ele ajuda a construir sua comunidade ou a destroi.

Afro empreendedorismo é isso. É conhecer a história econômica negra a fim de alterar as realidades vividas a partir do fortalecimento da identidade e repertório referencial, para o resgate memorial de pertencimento. Portanto, dialogar sobre uma construção mental que sempre sabotou todo processo de construção econômica é se reposicionar em um mercado que, mesmo sendo de maioria negra, continuam sendo entendidos como de baixa viabilidade financeira e pouca qualificação empresarial por conta da crença de que esses não são capazes de lidar com o universo dos números e da gestão.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Olodúnica, Publicitária, apresentadora do programa Me Despache na TV Kirumuré e mestranda em Gestão Publica na Universidade Federal da Bahia.

#Artigo – Eleições 2020 e a questão racial, uma pauta menor? – Por Luciane Reis


O economista Elias Sampaio escreveu   sobre a candidatura da “Negona da cidade”, a pedagogo Olivia Santana para a prefeitura de Salvador.  Estamos falando de uma mulher negra com a nossa história e cara legitimada em convenção da sua legenda partidária como pré candidata a prefeita para  dirigir a cidade mais negra fora da África.  Militante histórica das causas negras, Olívia Santana foi titular da Secretaria de Educação e Cultura de Salvador, ganhando destaque pela implantação do Sistema Informatizado de Matrícula e do ensino da História da África e da Cultura Afro brasileira. Em 2012, foi candidata a vice-prefeita de Salvador, na chapa de Nelson Pelegrino (PT) naquele momento o partido entendeu que essa era  a forma de incluir a população negra, nos oferecendo o papel de coadjuvante no processo.

Estamos falando de uma mulher e negra que  se parece conosco e tem nossas histórias e trajetórias como marca de sua caminhada pela vida pública e profissional. Sim! Olivia, assim como uma parcela significativa da cidade é  filha de uma empregada doméstica com um marceneiro. Nascida nas periferias ao lado dos bairros ricos que nos ignora  a exemplo da  comunidade de Ondina, Olivia vem parafraseando Elias Sampaio “ com a tarefa de quebrar a hegemonia colonial intocada desta cidade”. Ouso a ir mais longe e dizer que ela como os demais nomes negros colocados no pleito,  vem como portadora da esperança negra de alteração de uma realidade que vem secularmente produzindo pobreza e dores em relação a uma cidade que nos explora enquanto identidade cultural, mas ignora interferindo em qualquer possibilidade de melhoria de vida ou do que as mulheres negras chamam de “Bem Viver”.

Este 20 de novembro vêm com o sabor e a certeza de “Desobediência racial como afirma a socióloga  e também candidata a prefeitura Vilma Reis. As candidaturas negras colocadas no pleito, traz o recado de que não estamos mais dispostos a ter “ nomes que não os nossos ” como portadores de nossas lutas, histórias e demandas. Não estamos mais dispostos a ter nomes que somente viram aliados  de 4 em 4 anos,  ainda que de  esquerda  e até mesmo de pele escura.  Os critérios mudaram e a  campanha “ EU QUERO ELA ” ,  nascida dentro do   bar de uma das matriarcas negras Alaíde do Feijão, tem uma participação singular sobre a conjuntura que vem   deixando um outro recado para a cidade e  partidos baianos  de alteração do que viemos construindo como parceria negra partidária até os dias de hoje. A campanha traz para o centro do debate do pleito de 2020,  o recado de que nós homens e mulheres negras,  não somos mais parceiras de  projetos políticos onde o protagonismo e o  centro do debate não é a população negra.

Foto Amanda Oliveira

 

 A campanha chega imbuída de apresentar à cidade de Salvador e aos  nascidos nas periferias vulnerabilizadas soteropolitanas que é preciso pensar uma cidade que inclua gente e neste sentido não existe case maior de sucesso do que o do Movimento social negro brasileiro que como bem afirma o vereador e também pré candidato a prefeito Silvio Humberto, é especialista em administrar gente. São as organizações negras que ao longo da história vem alterando a vulnerabilidade social, cidadã e econômica negra.

É neste cenário de lutas e experiência em potencializar o que as pessoas sabem fazer que, que Olivia como um dos primeiros nomes para a prefeitura com capacidade de  construir  “envolvimento”  e não desenvolvimento  social e econômico para  80% de uma população desrespeitada, violada e ignorada por um  aristocracia  branca, patriarcal e racista que governa o lugar mais negro fora do continente africano,  com toda sua arrogância por mais de 470 ininterruptos e longos anos.

Não será uma tarefa fácil seja para Olivia ou os demais nomes no pleito, mas, em princípio, Olivia que é o primeiro nome posto  não estará só como ressalta Elias.  E neste sentido fica como tarefa para cada pessoa que circula por essa cidade e  ver todas as gerações negras (crianças, jovens, adultos e idosos), circulando como farrapos humanos descartáveis,  a tarefa  de tornar cada espaço seu  digital ou não   espaço de reverberação dos nomes e história destes que temos certeza seja como candidato a prefeito ou vereador, ser  comprometidos com  nossa luta cotidiana.  Cabe a nós que não suportamos mais ver a população negra vivendo nas piores situações, fazer esses nomes  adentrar os bairros de Salvador,  como fio de esperança e possibilidade de construção de uma cidade humanizada onde os netos, filhos, sobrinhos, amigos e amantes destes que sempre nos exploraram acharam que podem governar não sejam os protagonistas e vencedores deste pleito.

 Olivia da mesma forma que os demais nomes posto,  surge com a  capacidade real de como debatemos no bar Mestiços, durante o dialogo puxado pelo mandato do vereador Silvio Humberto, mostrar que “ nos importamos com essa cidade e temos outro modelo de gestão que presa por  fazer o  “ mundo da branquitude que conta muito em Salvador ainda que seja minoria, se encontrar com o mundo negro ignorado” de uma maioria.

As campanhas negras para prefeito e em especial para vereador, traz para o centro do debate a possibilidade real de se construir desenvolvimento incluindo e compartilhando. Não estou aqui divagando sobre um mundo mítico, tenho plena consciência de que ela da mesma forma que os demais, caso tenha sucesso no pleito continuará sendo uma pessoa negra em qualquer movimento que faça enquanto gestora de uma cidade onde os brancos sempre enriqueceram  com os negros. Sei que consolidando sua vitória e de nossos vereadores e vereadoras presentes nas trincheiras de luta diária, virá a tona todos os problemas raciais invisibilizados até os dias de hoje quando se fala de pessoas  negra nesta cidade e neste sentido “ Querer Ela “ é romper com uma hegemonia que ousa nos ignorar dentro e fora dos partidos.

“Sorrir também é resistir!” – Por Luciane Reis


olodum
Foto Alexandra Martins/Divulgação SecultBAa

 

Escrever  sobre o Olodum é sempre um desafio. Primeiro por dialogar com uma diversidade de pessoas e olhares,  que faz com que o mesmo tenha que ser  visto sobre diversas perspectivas. Segundo por que escrever para uma instituição com as trajetórias e lutas como o Olodum;  trazer para o centro do debate o sorriso e a  cultura negra como forma de resistência e luta. Cultura como educação e preservação de memória, dores e alegrias.

Sim, dores porque estamos falando de parte de um público marginalizado, oprimido e que vê nas músicas e ensaios um momento de ser valorizado em sua essência. Pessoas que o estado e os próprios movimentos sociais não querem dialogar, os famosos NEM NEM  que encontram no Olodum, ainda que marginalizados e julgados, o direito de exercer sua cidadania violentada no cotidiano.

Ruy José Braga Duarte,  em seu artigo entitulado “Olodum Da Bahia Uma Inclusão Histórico Cultural “, lembra que o Olodum – ao nascer em 79 – buscou  garantir o direito dos moradores do Maciel \ Pelourinho de brincarem o carnaval em um bloco  de forma organizada. Algo que se mantém até os dias de hoje, afinal não podemos esquecer os diversos momentos de dificuldade que o Bloco – do mesmo modo que seu público mas intenso – enfrenta ou já enfrentou. Essa luta constante pela humanização e valorização negra antes, durante e após o carnaval, é o que traz para pessoas como nós, Olodúnicas, a ansiedade de esperar o carnaval -momento em que as atenções se voltam com mais intensidade, para  dialogar com essa cidade sobre inclusão e humanidade de um legado invisibilizado.

olodum
Fotos: Alexandra Martins / Divulgação SecultBA

É através da alegria de estar desfilando no bloco, distribuindo sorriso e orgulho na forma de temas, alegorias e o próprio abadá, ou por meio de seus dançarinos, que o Olodum rompe com uma história única e traz de maneira latente a identidade negra que distribuímos em forma de sorrisos na avenida, mostrando  nossa resistência com autenticidade. É transformando o rufar do tambor em um instrumento de luta política que o Olodum atravessa o circuito festivo, mostrando a realidade negra  através da arte e da música, fazendo análises do contexto em que vivem e  se relacionam os homens e mulheres negras na cidade mais africana fora do continente mãe.

É com as suas cores, danças e sorrisos que vamos enquanto corpos negros mostrando nossas tensões sociais cotidianas em uma cidade que nos invisibiliza e que – exatamente por isso – resignificamos através de um sorriso  que não pode e deve ser entendido como cordialidade. É a capacidade de sorrir diante da adversidade que nos permite transformar nossas lutas constantes em resistência, apesar de – como nos lembra Lazzo Matumbi – “Toda dor que nos invade”.

Somos a alegria desta cidade, ainda que ignorados, marginalizados  e violentados  pelo estado e município cotidianamente. É o sorriso que o Olodum tira do rosto de cada seguidor enquanto expressão de origem, história e cotidiano da população negra, que transforma o sorriso no produto básico de resistência  e resgate da auto-estima e das tradições da população negra. Temos um modelo de luta e resistência que não passa pela maneira bélica, transformamos diariamente nosso sorriso em uma arma para continuarmos vivos e orgulhosos diante de um cenário de desigualdade e invisibilidade que nos desumaniza em uma cidade como Salvador, capital da Bahia.

É o sorriso negro, que faz com que consigamos sobreviver diariamente à ausência de moradia digna, educação de qualidade, desrespeito enquanto corpo negro dentre outros. É esse sorriso tirado das nossas lutas, que não permite que desapareçamos  e aprendamos a nos resignificar e reconstruir diariamente neste estado e município, ainda que naturalizem nossas três gerações (crianças, jovens e idosos) em situação de vulnerabilidade humana e social. Somos o elemento agregador da economia desta cidade, afinal ninguém vem à Bahia para ver homens e mulheres brancos. É a nossa capacidade de se resignificar na dor que nos torna disruptivos diante das mazelas cotidianas.

É a capacidade de nossa juventude negra, vitima de genocídio diário, de ressurgir e criar alternativas de sobrevivência engajadas e criativas que tornam o carnaval e o Olodum o maior revolução negra desta cidade. Precisamos repensar nossos públicos, entendendo que o não diálogo do Estado e sociedade é o que torna a tecnologia musical diante das mazelas ferramenta de transformação que ajuda no crescimento social e econômico  desta  grande metrópole chamada Salvador.

Não podemos ignorar o poder de mobilização do tambor, que reúne pessoas de toda a cidade em busca de momentos de confraternização e alegria. Estamos nos becos e vielas, calçadas e favelas e ainda assim conseguimos continuar sorrindo e resistindo. Portanto cabe a nós – dentro e fora – a tarefa de fortalecer o que temos de mais caro: nosso sorriso como arma de resistência; nossa capacidade de tirar alegria das dores, enquanto ferramenta de resistência negra.

É nosso sorriso que mantém nossa solidariedade e humanidade. Logo, arma mais poderosa contra um colonizador que consegue se modernizar nos modelos de opressão e perpetuação de força. É nosso sorriso o combustível cotidiano que torna a tarefa deles de nos matar, a blindagem que nos faz resistir. Portanto, viva o Olodum, maior bloco percussivo do pais!

Eu sou Olodum, quem tu és?

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Olodúnica, Publicitária, apresentadora do programa Me Despache na TV Kirumuré e mestranda em Gestão Publica na Universidade Federal da Bahia.

Artigo publicado no Jornal do Olodum

Querer ela está muito além da prefeitura! – Por Luciane Reis


eu_quero_ela
Fto Enderson Araújo

 

Falar sobre a política baiana é falar sobre um processo e modelo de gestão que nunca enxergou Salvador para além do aquário, ou seja, seu entorno. Salvador é uma cidade complexa e de serviços, com uma baixa qualificação profissional e um déficit habitacional de pelo menos 106.415 unidades.

Ainda que tenha construído em média 2.458 imóveis populares por ano desde 2013,  isto não a faz  chegar nem perto de sua meta estabelecida em 2008 de zerar o déficit habitacional até 2030.

Não se desenvolve Salvador sem  racializá-la. É preciso que se enxergue uma população que é criativa, pulsante e que mesmo dentro deste processo de estagnação de sua criatividade financeira – feita via impostos da prefeitura – ou violência policial financiada pelo Estado, consegue gerar microempregos e rendas. Racializar Salvador é incluir em seu crescimento econômico uma parcela da população urbana mais vulnerável e que habita áreas insalubres e de risco desde o nascimento desta e que ainda assim  gera  renda em uma cidade que os  persegue e ignora.

O que a urbanização da cidade tem a ver com o pleito eleitoral e suas nuances? Possuir cerca de 600 áreas de risco localizadas em encostas e 80% dos imóveis irregulares, segundo a prefeitura, faz com que as pessoas nesta situação sofram diversas conseqüências que vão para além do que conhecemos. Sem o título de propriedade, a ameaça de despejo é constante.

E sem o documento, os moradores reduzem seu acesso ao crédito, motivação para melhorias das casas e vizinhanças, dentre outros. Sem falar que a grande maioria das localidades empobrecidas não são mapeadas, pouco se sabe sobre a demografia, capacidade de mão de obra, de geração de emprego e renda exatamente pelo uso “irregular”  espacial do território que faz com que o ecossistema de gestão invisibilize a chegada de condições de crescimento para essas localidades.

Então, como se pensar um projeto de cidade em um local onde o direito básico que é o de moradia não é levado a sério? É preciso mobilizar outras ideologias e pessoas para intervir neste cenário para além da eleição. É que se volte a ousar sonhar e acreditar em pessoas que nem sabem do que são capazes, como fez o Instituto Steve Biko, Ilê Aiye, Olodum, Ceao, CEN e tantas outras organizações de promoção de igualdade no passado.

Pensar um projeto de cidade mais igualitário e de impulsionamento econômico criativo é amparar as pessoas com respeito a sua dignidade como os terreiros de candomblé fazem no dia a dia. Debater a humanização de Salvador, entendendo que o diferente é sua maior fonte de construção de crescimento e desenvolvimento se faz central.

Querer “ELA” é pensar como romper com o pensamento racista que acredita que se pode cuidar desta cidade e suas especificidades, da mesma forma que se geri um clube esportivo que ganha visibilidade ao dar notoriedade a quem o sustenta, ou seja, a população de uma cidade de maioria negra.

eu_quero_ela

É entender que Salvador não é  um banco imobiliário que você gesta como brincadeira entre amigos. É romper com a continuidade de uma Câmara de Vereadores cujos membros, em sua maioria, trata essa como sua varanda de casa, ignorando as  especificidades e complexidade populacional. Salvador é uma cidade de carne e osso, feminina e que sofre diariamente o impacto da omissão de seus gestores e demais nomes em espaços de decisão.

Eleger nomes  que  assumam a responsabilidade de estarem “à frente da batalha pelo desenvolvimento sustentável desta é um desafio posto no próximo pleito eleitoral em uma cidade que invisibiliza a participação negra.

Ousar querer Salvador, é perceber seu potencial estagnado em uma rede de pensamentos coloniais, conservadores e subservientes, que não permite que sua rebeldia de crescimento torne essa uma cidade potente em sua capacidade de produzir, em seus mais de 160 bairros, sobre diversas perspectiva e sentidos.  Querer Salvador é ousar pensar um projeto de cidade onde cada bairro é um aglomerado econômico social imprensado na especulação imobiliária, racismo institucional e omissão de gestores  municipais e estaduais e um projeto de segurança  que impulsiona ainda mais a violência ao invés de combatê-la.

É mudar o  paradigma,  de uma cidade que até os dias de hoje pensa seu crescimento de fora ( turismo) pra dentro ( subserviência de quem recebe),  sem  levar em conta necessidades,  condições de existência e características de cenários para quem vive e promove desenvolvimento aqui.  Salvador é uma cidade que precisa ser cuidada de forma humanizada, empática e igualitária. Quem ousa querer esse projeto de cidade?

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial. Apresenta o programa Me Despache, na TV Kirimurê. 

 

Luciane Reis

#OpiniãoPreta – Sobre Salvador, Estatuto da Igualdade e população negra! – Por Luciane Reis


Tem um videozinho que circula na internet de uma garotinha nas manifestações do pato da Fiesp ,que eu adoro. A repórter toda simpática pergunta sobre a manifestação. Lá pelas tantas, quando questionada sobre o que ela acha das pessoas ali, a menina dá a resposta do século. ” Uma perda de tempo, não vai resolver nada”, responde com desdém no auge dos seus aparentes 8 anos. 

estatuto_da_igualdade

Essa resposta  para mim é  emblemática, pois não tenho dúvidas que qualquer ativista negro com um mínimo de conhecimento político e de gestão pública, daria a mesma resposta se perguntado sobre o Estatuto da Igualdade aprovado ontem (29/5/19) pela Câmara de Vereadores de Salvador, uma vez que esse – da mesma forma que o Estadual – pouco altera a realidade de vida da população negra, por ausência de recursos para operacionalizar as ações.

Então por que  foi preciso que os vereadores Moisés Rocha (PT), Silvio Humberto (PSB), Edvaldo Brito (PDT), e tantos outros, trouxessem a todo o instante as idas e vindas do Estatuto na Casa Legislativa, se para a população negra de Salvador ele pouco tem poder de atuação prática?

A grande questão é que, do ponto de vista de norteamento do que essa cidade precisa, ele tem um peso extremo (quem me conhece sabe o que acho de políticas de igualdade simbólica). Mas sua aprovação ontem nos mostrou pontos importantes sobre como acontece a movimentação de poder em Salvador. O primeiro ponto diz respeito ao convencimento e conhecimento sobre a vida desumana da população negra nesta cidade pelos vereadores. Durante a votação, além do clichê de invocar todos os parentes, amantes e filhos negros esses mostravam (salvo algumas aberrações), pleno conhecimento  das mazelas e níveis de desigualdade de Salvador por conta – não das pessoas serem humanas -, mas negras. Tanto que a resistência à aprovação do Estatuto não passava pelas orientações de como enfrentá-las, mas referentes aos itens que pautavam as religiões de Matrizes Africanas, era a intolerância religiosa que impedia a pauta de avançar.

O impedimento à participação de militantes históricos na considerada Casa do Povo, usando para isso o direito de coesão em nome da coletividade (ainda que fôssemos os maiores interessados e maioria nesta cidade), foi uma aberração a parte diante das tantas evidenciadas. Deliberar que esses militantes não podiam acompanhar, desprezando todo seu processo acadêmico, de representação e participação na construção do documento fruto da referida votação, deixou um recado muito claro de que modelo de ” igualdade” essa cidade entende como importante. 

Precisamos mais do que nunca discutir quem queremos como representantes na Câmara de Vereadores e órgãos administrativos, quando se fala de população negra. Se faz necessário, enquanto ativistas negros, pensar formas de acesso e  diálogo com as comunidades de periferia e parceiros negros “esclarecidos”,  sobre como eleger  quem de fato nos representa nestes espaços que deliberam sobre que modelo de cidade teremos.

estatuto_da-iguadade-racial

É preciso pensar seriamente em formas de igualar a proporção de parlamentares com ideologias religiosas. Não podemos continuar reféns  de fundamentalistas, que entendem o gerir a cidade como concepção pessoal. Faz-se necessário uma grande reflexão coletiva sobre um projeto político, ações coletivas de desenvolvimento, representatividade e responsabilidade racial nos espaços de poder de nosso estado e município.

É preciso refletir ainda sobre qual é de fato o papel dos  parlamentares estaduais e federais ” brancos e pretos  bons”, eleitos  sobre a alegação de solidariedade `à realidade vivida pela população negra, o papel dos setores raciais nos agrupamentos políticos e, em especial, de nossos representantes negros em conselhos, ouvidorias e demais instituições de suporte à luta negra.  Para mim que pude acompanhar de fora,  ficou ainda mais claro que – ou elegemos pessoas cuja única prioridade em sua plataforma de luta sejam nossas pautas, ou lutaremos sozinhos como os nossos valorosos vereadores que ontem enfrentaram as ideologias presentes na cidade de Salvador.

silvio_humberto

A ausência das instituições de governo raciais legitimadas pela luta negra brasileira  (Semur, Sepromi), foi algo também bastante emblemático neste processo de votação. Não estou aqui fazendo juízo de valores, mas do entendimento do que estamos chamando de militância e luta por igualdade racial e  sobre o que de fato  entendemos como ocupação de espaços de decisão política e de poder para construção de outra realidade para a população negra.

Norberto  Bobbio em sua obra Estado, governo e sociedade,  afirma que uma ação política atua com o objetivo de  conquistar, manter, defender, ampliar, reforçar, abater ou derrubar o poder estatal. Logo, não é justificável instituições que existem para assegurar a articulação e monitoramento de qualquer política ou ação que interfira na vida negra, não se fazerem presentes na votação de um documento que reforça pautas negras  em um município com todas as especificidades como Salvador.

Se política é a ciência de governar as coisas da cidade (uma associação de homens livres) com soberania num determinado território (a cidade, Estado), estamos falando de um espaço que cumpre o papel de legislar e gerenciar os recursos comuns desta cidade, Estado. A votação do Estatuto Municipal ontem deixou claro a importância de repensarmos nossa forma – não apenas de agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. Precisamos  distinguir  o poder político e social que queremos das demais formas de poder expressas nas relações entre os indivíduos  na sociedade.

Cabe aos movimentos sociais e suas diversas vozes, como bem provoca professor Edson Cardoso,  a auto critica sobre o  fatiamento da luta de desenvolvimento da vida negra. Uma vez que, como afirmei acima, não estava em pauta concordar ou discordar do documento, mas nossa capacidade de articular e demonstrar  poder nesta cidade. Neste sentido, só posso parabenizar aos nossos poucos e valorosos vereadores  que com sua capacidade de intervenção e articulação, conseguiram atuar sobre as  relações de poder e interesses  presentes na câmara.

Saio deste processo com o entendimento de que repensar nossas ações é fundamental, pois como diz a música “Evangelização” do  Olodum,  ” A gente fala,  fala,  fala e  não resolve nada não. A gente reinvidica  e nada é nada. Eles nem se sensibilizam, não nos estabilizam e  dizem que não podem fazer nada não” ou seja, continuamos por nossa própria conta.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial.

Black Money – Luciane Reis estreia programa “Me Despache” na TV Kirimurê!


Me_despache
Luciane Reis

Quilombos, irmandades religiosas e as sociedades negras, passando pelas iniciativas de inserção no comercial informal, por meio do trabalho de ganhos nas ruas das cidades, até chegarmos ao que hoje se chama de Black Money. 

Para dar visibilidade a essas iniciativas de organização econômica da população negra, promover negócios focado na superação do racismo institucional e provocar a reflexão sobre a nossa relação com o dinheiro, estará no ar, na TV Kirimurê, o programa Me Despache, uma iniciativa da agência de Fomento a Negócios Locais e Étnicos Mercafro, liderado pela comunicadora e presidenta da agência, Luciane Reis, que apresenta o programa.

“Nosso objetivo é trazer para o cotidiano das nossas famílias a conversa sobre planejamento financeiro, organização de carreiras, empreendedorismo e consumo consciente, tornando a aquisição e uso do dinheiro um ato político de afirmação negra. Traremos convidados que com suas histórias pessoais ou com suas pesquisas dedicadas à temática dos negócios contribuam para estimular a você e sua família a pensarem como anda sua relação com a Economia” – Luciane Reis

O programa estreia nesta terça-feira, dia 19 de março, às 21h na TV Kirimurê, canal 10.2 – TV Aberta. Tem reprise às quintas, às 10h.

 

Ficha Técnica
Apresentacao: Luciane Reis
Direção: André Santana e Gustavo Pereira
Produção: Gustavo Pereira e Luciane Reis
Direcao de arte: Lunnah Santos
Fotografia: Gustavo Pereira e Lucas Cerqueira
Maquiagem: Ana Andrade
Figurinista: Cáren Cruz

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Por Luciane Reis!


Tem muito tempo que não escrevo. Seja pela falta de tempo, erros da escrita  que nos acompanham neste processo de dizimação da nossa gente, ou pelas palavras de desencorajamento ou desestímulo que tenho ouvido em alguns espaços. Aconteceu uma situação muito emblemática na Câmara de Vereadores esta semana. Eu que venho de espaços de discordância, mas nunca de violação extrema de direitos; vi um filho do que se existe de mais conservador em Salvador autorizar o uso de spray de pimenta em servidores do município – pelo simples motivo dele e de seus “comparsas” não serem ouvidos.

Fico imaginando se nossa reação para cada vez que não somos ouvidos pelo prefeito ou governador, fosse o que eles autorizam seu braço armado fazer conosco?  O despreparo para estar como presidente, as birras e gritos de menino branco de prédio de luxo que só sabe o que é periferia de 4 em 4 anos e que – pasmem – tem nos nossos a legitimidade para adentrar as comunidades. Seja pelos brancos, ou pelos ombros de alguns ditos “líderes comunitários”, ou por nós mesmos, que não conseguimos compreender que se importar com o outro passa por se ver.

Temos um processo real de desumanização dos nossos. Esse é o maior legado brasileiro à comunidade negra. A animalização e normatização das nossas dores. Ver o sempre calado “príncipe do gueto”, só se pronunciar quando é para nos destruir, ou ver filhos, netos e amigos de quem sempre nos fez mal, nos destruindo,  me faz invocar King – com quem nem tenho tanta afinidade: “O que me preocupa não é o barulho dos maus, e sim o silêncio dos bons”.

 

É Leno, aqui do nosso lado. É uma capa de Jornal que teria causado rebuliço em qualquer país sério, e que por muito menos se tornaria notícia internacional com condolências em todo o mundo. É garoto sendo arrastado de Shopping, ainda que alguém tente  garantir a máxima do MST que diz: “ordem é todo cidadão não passar fome e progresso é ter sua dignidade garantida”. Não foi real aquele grau de brutalidade assistida na Câmara. Não pode ser real!

Os gritos histéricos de Leo Prates, seus posicionamentos autoritários e, por fim, sua autorização para que a Polícia fizesse o que sabe fazer bem, não pode ser real.  Não é possível que pessoas negras de Salvador tenham eleito nomes como o dele. Não pode ser normal o silêncio do Estado diante de 30 mortes registradas em menos de 24h, e dos números que só aumentam: 66, desde a morte de 1 (um) policial – ainda que de forma desumana.  

Não pode ser normal que o governador deste Estado, junto com seu secretário de segurança, ache que a cor da pele é o que menos importa e vamos eleger uma lista de homens brancos com instintos militarizados para continuar nos massacrando. É cultural no Brasil, e em especial na Bahia, a invisibilidade das mortes  e violências sobre peles negras – independente da idade – pela governabilidade. Como dormir ao ver a quantidade de bebês encostando a cabeça naqueles bancos frios da Piedade, com sono?

Moramos em um estado de políticas sociais insignificantes, onde o entendimento de humanização negra, para ambos os governantes, é munição e spray de pimenta.  Precisamos fazer outras escolhas. Não podemos mais eleger “príncipes” que se tornam algozes, centroavantes que entendem que é possível fazer gol de bicicleta com nossas vidas. E, acima de tudo, continuar votando em “aliados” que se silenciam na defesa de um governo de coisas, que quer ser o mais algoz combatente de outro que se espelha neste, mas é considerado inimigo.  

genocídio da juventude negra

Não precisamos de representantes de coisas. Precisamos fazer outras escolhas políticas, que passam por eleger candidaturas negras e femininas de forma coletiva. Não podemos  morrer como insetos no braço deste Estado que nos desumaniza o tempo todo, e achar que quatro homens brancos, com séria simpatia e casamento, com a postura truculenta da Polícia, sejam eleitos.  Não existe projeto coletivo quando o corpo negro é o único que tomba. Não pode existir projeto de crescimento deste estado, quando não somos envolvidos nos processos e ações.

Leo Prates e parte da Câmara de Vereadores – eleita pelo voto negro da  periferia – disse de qual lado estão e quais escolhas farão. E nós continuaremos os elegendo? Rui Costa diz em seu silêncio dos “bons”, qual o lado que ele defende quando a família de campanha de Margarina dele é mostrada e se silencia diante do esfacelamento das nossas. O que ainda achamos que podemos esperar de pessoas que não se parecem conosco e dizem nos representar? Ser morador do bairro da Liberdade não coloca todos que ali residem ou residiram na mira do Estado.  O que esperar de candidatos negros que nenhuma linha dizem sobre situações como essas, por que acreditar que eles são o nosso futuro?

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Provérbio Africano.

Como essas aldeias, travestidas de município e Estado, vem – de fato – educando nossas crianças? Como nomes negros que saem candidatos esse ano vem se posicionando para que essa aldeia de fato eduque os nossos?  Temos um secretário de Educação evangélico, que pluralidade ele defende? O que nós, homens e mulheres negras, achamos que pessoas que não sentem o que sentimos podem mudar nossa realidade?

Não morremos porque estamos nas drogas, mas por termos um estado que, conjuntamente, seja de esquerda ou de direita. Nunca levou de forma séria outros braços para as comunidades que não a Polícia. Como diz o economista Silvio Humberto, as coisas se degradam. Temos governos que querem deixar como legado coisas, ao invés de conhecimento. Coisas sempre tem uma capacidade máxima,   pessoas não. A brutalidade da morte do policial, é o reflexo de um país que constrói na cabeça das pessoas a certeza de que elas não valem nada. Se elas sabem que não são nada, porque vão achar que alguém que se pareça com ela terá algum valor?

Luciane Reis
Luciane Reis

A não reflexão sobre nossos princípios de representatividade, de humanidade e compromisso com o que nos é caro tem feito com que também homens e mulheres se silenciam em situações como essas. Não existem seminários, falas públicas exaltadas a serem feitas. Há um governo a ser confrontado e esse governo foi eleito e será reeleito com votos de homens e mulheres negras que ainda se iludem achando que fazem parte deste projeto. Outras escolhas políticas passam, inclusive, por voltarmos a ser militantes da pauta racial  e lembrar que, como diz a socióloga Vilma Reis, “nossos títulos acadêmicos só fazem sentido se estiverem à serviço da luta. Eles precisam ser a arma que desmonta a casa grande”. Isso é o que precisa nos mover e ser nossa governabilidade.

 

Luciane Reis é publicitária, Especialista em Gestão Pública e produção de conteúdo digital,  coordenou o Plano Juventude Viva na Gestão Dilma Rouseff e foi membro do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência enquanto assessora de Juventude no Governo Camilo Santana.

Nós e a cultura do “FAZ SOZINHO”! – Por Luciane Reis


negros_empreendedores

Nos idos de 2004 quando professor Jaime Sodré usou esse termo durante atividade do Pompa na Biko, demos risada. Achamos engraçada a forma como ele definiu a relação do estado com os realizadores negros.  Professor Jaime trouxe exemplos de como nossas atividades  muitas vezes até reconhecida como importante pelo país /estado,  não recebia recursos que de fato fizesse essas acontecerem com tranquilidade.

Durante meu período na Casa Civil, um dos conselhos que recebi do professor Sergio São Bernardo, além do de não me deslumbrar com Brasília e pensar minha vida de maneira centrada, foi “FAÇA TODOS OS CURSOS QUE A PRESIDÊNCIA TE OFERECER”. Conselho que me permitiu entender a máquina pública e, acima de tudo as diversas, formas de repasse financeiro. Um dos meus professores de orçamento público, costumava dizer que “ só não pode aquilo não justificado, sabendo explicar a União, pode tudo”. Quem transita pelas gestões pública e política, sabe como isso é verdade.

Então, por que quando os realizadores são negros, os projetos e editais são engessados, complicados, de baixo valor, e nós ainda continuamos tratando esses como aliados? Atuei em vários editais enquanto servidora federal, exatamente por entender esses entraves. Lembro que uma das nossas tarefas, sob a orientação da secretária Severine Macedo, e do Ministro Gilberto Carvalho, era pensar como esses editais deveriam ser menos burocráticos e atender a realizadores de carne e osso. Ou seja, pessoas que tinham projetos de impactos em áreas vulneráveis, por não dominarem o processo destes editais, acabavam não sendo contempladas.

negros_empreendedorismo

Confesso que o Plano Juventude Viva foi uma grande escola no refazer o quebra cabeça excludente do país. Com boa vontade, compromisso, dialogo (via Fompi) e  ajuda dos articuladores que, oriundos do  Enjune, contribuíram e muito para quebrarmos um pouco a cultura do “negro faz muita coisa com pouco dinheiro ou apoio institucional”. Confesso que, diferente de todas as pessoas não negras que chegaram com redes de contato, salários realmente em condição de sobreviver naquela cidade (que amo e sinto falta hoje em dia), eu tive que usar o velho FAZ SOZINHO e os conselhos rápidos de Sergio São Bernardo. Era todo o Networking profissional  que tive naquela cidade.

O faz sozinho para a população negra não é um recurso que usamos somente na hora de realizar eventos e atividades afins. Usamos, principalmente, em nosso caminhar enquanto indivíduo. Recentemente, a BBC fez uma matéria falando como a nossa falta de QUEM INDICA  nos estagna e adoece.

mulher_negra_empreendedora

Temos menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subir ou ter uma carreira, o que acaba por nos fazer questionar a nossa capacidade profissional. Temos dificuldade de dialogar e trabalhar com a diversidade, ainda que tenhamos militado, escrito e façamos discurso falando da importância de trabalhar com o diferente. Em uma sociedade como a nossa, isso é fundamental. Atuar com diversidade de ideias, universos e conhecimento é importante não somente para  indicação a outros  postos de comando,  como afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mas principalmente para que possamos vencer essa concepção de que nossos projetos ou capital profissional é bom, mas 500 reais resolve.

Se em pleno seculo 21 ainda temos o “faz sozinho e o eu apoio se quiser” , de maneira tão latente, é  porque não conseguimos avançar para dentro da disputa ideológica,  de que as politicas de igualdade feita com seriedade,  desenvolve o país. O  impacto disso, é o fortalecimento do olhar sobre nós como amadores, incapazes de lidar com recursos financeiros e que qualquer valor em cima da hora resolve. O fato do nosso  capita social ser escasso,  impede que possamos ser  bem-sucedido nas nossas carreiras e capacidade realizadora.

empreendedorismo_negro

A falta de diálogo sobre dinheiro e seus aspectos de desenvolvimento, acaba por nos deixando sem  uma rede social de recursos para acessar, logo distante das boas oportunidades, como por exemplo  ocupar um cargo de gerência ainda que tenhamos competência e reconhecimento  para isso. Nos condicionaram ao Faz Sozinho e pior, sem nenhum constrangimento de acharem que podem nos colocar para se degladiar por  20, 30 mil reais, quando outros segmentos tem acesso a  valores acima da casa dos milhões em simples almoços, jantares ou telefonemas a exemplo dos colarinhos e corpos brancos da Lava Jato ou gestores  e seus parentes  e amigos dentro dos órgãos públicos.

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Agora somos nós que protegeremos os Orixás! – Por Luciane Reis


candomble_introlerancia_religiosa
Foto Raul Spinassé/A Tarde

A nossa pacificidade diante da não laicidade e da tolerância e aceitação do estado com as posturas evangélicas, é a mola propulsora que sustenta a certeza da permissividade  destes que se consideram os enviados de Deus. A nossa complacência é tanta, que não nos incomodamos com as pregações nos transportes ditos coletivos ou qualquer violabilidade pública provocada por esses e que tem nos passageiros e rodoviários  toda a compreensão com os  “enviados do senhor”.

Nossa tolerância é tanta que de maneira institucionalizada e apoio do estado, a bancada evangélica ocupa quase todos os espaços de governos e dos meios de comunicação diante dos nossos “o que é que tem?”.

O que é que tem se estou no hospital e o único templo religioso tem uma cruz e pessoas entregando a palavra de deus?

O que é que tem se estou sentada em um bar e esses entendem que posso ser invadida com o que eles consideram a palavra do senhor?

O que é que tem a não participação do estado nos eventos de combate à intolerância?

O que é que tem se esses fecham uma rua e impede a passagem de qualquer carro por que estão pregando a palavra de Deus?

O que é que tem? Tem que essa complacência  é o que, junto com a certeza da tolerância e impunidade social, faz com que esses cometam as maiores atrocidades e invasão e isso seja normal.

andomble_introlerancia_religiosa2
Foto Fafá Araújo

O “é só a palavra do senhor” vem cada dia mais  promovendo violência ao  povo de orixá  nos quatro cantos do pais independente da posição social.  Não podemos nos indignar com o ocorrido junto aos  terreiros do Rio de Janeiro,  quando há mais de duas décadas esse mesmo estado  legitima os “trabalhos sociais” de uma única religião junto aos presídios brasileiros.

O sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em suas pesquisas junto às unidades prisionais, averiguou que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento de 61% de evangélicos no país. Metade destes, fruto das “ações sociais” junto ao sistema prisional brasileiro.

Não é problema ter programas sociais e acalanto religioso  para  pessoas que passam anos em meio à solidão, sem saber como será o dia de amanhã. O problema é a aceitação e permissibilidade de uma única fé. Fé essa que não estimula a tolerância e o respeito à diversidade às demais religiões.

candomble_introlerancia_religiosa3
Foto Jornal Awure

Graça Machel, em recente visita ao Brasil, lembrou que colhemos os frutos de certas ações a longo prazo. Eis que chega o momento de colheita do “povo de deus”. Um processo de intolerância que sai das mãos de cidadãos comuns e passa para os que estão à margem da sociedade e sem nenhum parâmetro de diálogo ou controle do estado.

É preciso compreender que os vínculos dos detentos com as atividades religiosas não se restringem apenas à espiritualidade, mas também à mudança de caráter e de comportamento que se estende a todo núcleo familiar. Os ataques aos terreiros no Rio de Janeiro nada mais são que efeitos de visitas sociais evangélicas aos presídios, sob a institucionalização da intolerância religiosa.

Não acho que seja a hora de colocar os orixás ou clamar por sua justiça. Ao contrário, é hora de convocar sua ira e desmontar essa não laicidade que descansa em berço esplêndido. É hora de se cobrar posicionamentos reais e internacional contra o estado brasileiro.

Quando “até Oxalá vai à guerra”, entendemos que chegou a hora de mostrarmos até onde iremos para defender nossa fé. Isso passa pelo entendimento que precisamos nos organizar institucionalmente. Ou elegemos nossos nomes, homens e mulheres de Candomblé que usam firma e não miçangas no pescoço, ou continuaremos sendo esmagados por esse estado intolerante e omisso.

Precisamos buscar a fé que não sucumbiu nem aos navios tumbeiros quando nos tiraram a dignidade e humanidade. Mas precisamos também discutir estratégias, para  desestruturar essa rede que nos violenta de maneira massiva. Sabemos que a resistência às opressões vem da união dos oprimidos, portanto que nos organizemos para a resistência.

Não pedimos guerra,  somos um povo que mesmo com todas as dores  proporcionada por esse país,  continuamos sendo generoso. Mas sabemos guerrear e nossa justiça  é   implacável.

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do MercAfro e Yamorixá de Oxumaré

Articulista d Portal Soteropreta paricipa do SerNEGRA 2019!


Me_despache
Luciane Reis

No dia 27 de novembro, a colunista do Portal Soteropreta, Luciane Reis, participa do  SerNegra -2019, no GT  Olhares Insurgentes: Gênero, Raça e Subjetividades. Será das  8h30 às 10h, no Campus do IFBA Salvador, R. Emídio dos Santos, s/n – Barbalho.

A discussão girará em torno do seu artigo intitulado “Os Caminhos da Dan: Mulheres no Axé, Mulheres de Oxumaré”, no qual a autora faz uma reflexão sobre o olhar feminino dessa energia, tendo como fonte de pesquisa o Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó, conhecido como Casa de Òsùmàrè, e a vivência das mulheres iniciadas para esse orixá.

O GT integra a programação do  VIII Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça com debates que tratam desde a violência sistemática sobre os corpos negros, às estratégias e subversões engendradas pelas mulheres negras no acesso ao mundo científico, tecnológico e ao conjunto de questões relacionadas à representação política.

Confira programação.