#OpiniãoPreta: Os diversos EUS que vivem dentro de uma mulher negra! – Por Luciane Reis


É interessante como construir nossos legados e memória passa pelo processo de auto aceitação e derrubada da condição de asfixia social que nos colocam. São tantos marcadores determinantes do ser uma mulher negra que aprender a ter inteligência emocional é fator primordial de construção de nossa identidade diária. Aprender a ser feliz sem a presença de um companheiro ou, num contexto de maternidade, como mãe solo, é algo naturalizado na vida feminina negra. Muitas vezes romantizando como força, um sofrimento que muitas vezes é invisibilizado na luta cotidiana. Aprendi a não deixar me retratarem como “a guerreira que suporta tudo”, afinal, ao fazerem isso tiravam de mim a afetividade.

Aprendi a respeitar e não ter vergonha de minha intensidade nos vínculos emocionais. Gosto de gostar de alguém, de contar as horas pra sua chegada, de pensar as grandes perversões que uma relação com afetividade permite. Tenho investido em novas narrativas, nas quais não deixo de ser protagonista e não permito perder de vista minha  voz,  poder e identidade. Sou passional, amo e só faço o que acredito. Não sei ficar entusiasmada com o que não gosto ou admiro.

Tenho construído estratégias de inserção na sociedade, inclusive aprendendo a vibrar com o sucesso de outras mulheres enquanto não chega minha hora. Exercitar a mudita, é uma tarefa hercúlea quando se é uma mulher construindo sua história. Tenho construído narrativas para um mercado distante da minha marca e realidade, e buscado perder a vergonha de ser protagonista. Tenho perdido eo medo d ser chefa. Procuro fazer isso sem explorar o aspecto de “mulher guerreira”, batalhando para sair de condições desprivilegiadas. Armadilha que vai nos levando pra procrastinação e faz com que sejamos vistas como inteligentes emocionais.

Detesto ser representada apenas pelas dificuldades, afinal meus fracassos moldaram quem sou hoje. Busco narrativas positivas sobre essas andadas, acertos e erros por que foram por conta dessas lentes que consigo pensar soluções e cria contextos aspiracionais.  Busco como qualquer outra pessoa ser e me sentir inspirada por histórias de sucesso, e isto tem moldado uma mulher dona de si e de suas vontades sem medo de perder o outro.

São nos desafios de pensar valores globais localmente que venho encontrando vantagens e olhando com generosidade para locais considerados terra arrasada.  Me sinto em vantagem por estar inserida em um ecossistema gigante que gera e troca aprendizados em uma velocidade incrível. Isto pra mim é o ponto chave da minha busca em  promover iniciativas de diversidade e inclusão emocional financeira.

Ninguém é capaz de dar conta de tudo sozinha, esta é uma lição importante a ser aprendida. Não se chega a lugar algum sem envolver parceiros e novas habilidades, não é possível gerar demandas ou se construir, seja no mercado econômico ou afetivo, sem de fato se transformar coletivamente.  Perder o medo de falar, assumir o peso dos resultados, não apenas do que tenho adquirido de conhecimento, é o fator de diversidade necessário que tenho buscado nesta minha caminhada para mover determinados olhares e provocar mudanças. O que fica de lição de um dos meus EUS? Que é preciso fortalecer nosso processo de retratação enquanto mulheres negras importantes para a história e organizações brasileiras e, para isso, é preciso que não tenhamos medo de  assumir  a responsabilidade de ser uma mulher negra que tem voz e sabe o que quer!

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum

 

 

 

 

 

 

Julho das pretas: uma agenda inovadora! – Por Luciane Reis!


Salvador tem crescido de maneira desordenada e desigual há mais de 470 anos. Seu modelo de desenvolvimento não leva em conta a adoção de tecnologias que minimizem os efeitos de séculos de invisibilidade financeira. Estes que impactam tanto na capacitação, como em parcerias com corpos técnicos detentores de tecnologia capazes de resgatar a cidadania e auto estima afro empreendedora negra.

Precisamos reconstruir o olhar sobre um segmento desacreditado e com baixa autoestima, que ao longo de gerações tem perpetuado de maneira involuntária os modelos de sustentação social opressora. Ao valorizar e empoderar comunidades endividadas e desorganizadas administrativamente, o debate feminista negro nos dá a chance de pensar ações que possam mitigar os sérios problemas que as áreas de crescimento econômico e social enfrentam no Brasil e em uma cidade como Salvador.

Quando o Julho das Pretas traz para o centro do debate nacional uma agenda conjunta e propositiva sob a organização do movimento de mulheres negras,  essas  além de  envolver pessoas, organizações sociais, pesquisadores e profissionais ligados ao tema, criam  um agenda de  estímulo não somente ao debate, pesquisa e desenvolvimento sustentável com viés racial, como também olhares sobre como as políticas públicas precisam ser pensadas na ótica das mulheres negras.

Ao envolver empresas, empreendedoras, pesquisadoras, inventoras, estudantes e startups  em  seu  debate feminino de maneira plural, o Julho das Pretas dialoga com  o desenvolvimento inclusivo e criação de metodologias  de  aperfeiçoamento do ecossistema afro empreendedor feminino. E os modelos de investimentos estratégicos  e soluções que vem  minimizando os  problemas históricos enfrentados por  mulheres  e jovens negras que impede seu bem viver.

A população negra ainda é maioria em geografias acidentadas e ocupação irregular, onde planos e políticas públicas não dão conta de um elemento estruturante de   desenvolvimento econômico e modernização das cidades, que é o racial feminino e infanto juvenil. Em 2020, a Campanha Julho das Pretas trouxe para o centro das discussões feministas “A vida de meninas e mulheres negras importam”, nos convidando a pensar a realidade vivida pelas mulheres e em especial meninas negras nas cidades e periferias brasileiras.  Estamos falando de pessoas em desenvolvimento que vivem em situações que corrompem e prejudicam sua infância e adolescência, como denuncia o projeto “Hoje meninas, amanhã mulher”. Este que tem cumprido um papel central na defesa desta infância e adolescência que convivem com situações de  abusos sexuais, domésticos  e gravidez precoce ainda em seu desenvolvimento.

A atuação deste projeto no combate à situação de vulnerabilidade social de crianças e adolescentes do sexo feminino – principalmente no Subúrbio Ferroviário de Salvador – tem contribuído para mapear e evidenciar o tamanho do problema invisibilizado  quando se pauta infância feminina negra. Permitindo-nos, inclusive, refletir sobre a  naturalização de falas que as sexualiza, chamando-as, por exemplo, de “novinhas” e naturalizada pela sociedade em músicas diversas a exemplo do pagode, funk e sertanejo. O que nos faz esquecer que a “novinha” tratada como mulher não passa de uma criança ou adolescente.

Ao colocar em evidência o debate sobre as políticas públicas de enfrentamento ao racismo, aos preconceitos e todas as formas de violação de direitos femininos, reafirmando o protagonismo e a participação das mulheres negras nos espaços políticos, a campanha Julho das Pretas pauta não somente a realidade feminina negra, como também problemas que envolvem danos ambientais, segurança, educação, mobilidade, a falta de emprego e a renda feminina.

É preciso pensar um reordenamento administrativo e de investimento em áreas econômicas prioritárias, tendo as discussões sobre os meios para superar a opressão histórica feminina negra como elemento estruturante. Ao utilizar a produção de dados tangíveis e intangíveis produzidos ao longo do tempo por essas mulheres, é possível  atuar sobre a autoestima e  construção de  redes  institucionais que valorizem  a capacidade de resiliência destas mulheres no  lidar com problemas históricos herdados  em virtude da  “invisibilidade feminina negra” na formulação econômica  e social brasileira.

As situações evidenciadas pelo conjunto de mulheres que concentram no Julho das Pretas o momento de cobrar   da sociedade a criação e compartilhamento de soluções inovadoras, tem permitido a empreendedoras negras em diversos setores atuar de forma assertiva no enfrentamento à realidade que as cerca ao longo do tempo. É através da visibilidade e  valorização das iniciativas e conteúdos transversais produzido por um conjunto amplo de mulheres negras que tem sido possível mexer na realidade desta população. É esse conjunto de mulheres que vem possibilitando que diversas outras assumam lideranças de forma global, reforçando o compromisso com uma agenda contemporânea de desenvolvimento sustentável e resiliência onde a participação da sociedade civil feminina é conceito chave quando se fala de gestão,  inovação afro empreendedora  e mulheres negras.

Mais que um momento de celebração e evidências das lutas negras, o Julho das Pretas vem a cada ano se consolidado como um espaço de construção, formulação e apresentação de políticas públicas com capacidade real de construção de um país mais igual para homens e mulheres negras.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Os ricos na pandemia: ações de solidariedade que enriquecem” – Por Luciane Reis


 

A ascensão do dinheiro: a história financeira do mundo, de Niall Ferguson é uma importante fonte de inspiração para entender o momento atual do Brasil e do mundo quando se fala da pandemia da Convid -19. Os dados da pandemia mostram que os bilionários estão ficando ainda mais ricos, enquanto parte significativa da população sofre com as enormes disparidades econômicas oriundas desta.

Enquanto mais de 19 milhões de pessoas serão submetidas à pobreza extrema, culminando em décadas de retrocesso no que diz respeito ao combate à desigualdade social e racial, nomes como Jeff Bezos da Amazon, Stéphane Bancel da Moderna, primeira empresa a buscar a vacina, Jorge Paulo Lemann,  Luiza Trajano,  dentre outros, sobem o topo dos intitulados “ Milionários da Saúde”, ou seja, pessoas que tiveram seus patrimônios multiplicados por conta da pandemia e que através de suas “ações de solidariedade”, o triplicaram.

 

O interessante é que analisando essas “ações de solidariedade”, é possível perceber que essas em nada dialogam com o que podemos chamar de solidariedade em tempos de pandemia, como alguns veículos buscam anunciar ao fim de suas programações. A Rede Trajano por exemplo, tem como “ação de solidariedade” oferecer condições especiais para auxiliar na prevenção do coronavírus em uma campanha de estímulo ao consumo cujo frete é grátis para todo o país em compras realizadas em seu aplicativo e com valor acima de R$ 99 reais.

Vendo esses modelos de “auxílio no combate à pandemia”, percebemos a importância de Nial aos nos fazer entender os fatos  históricos que mostram a ascensão e declínio do dinheiro, explicando como ele passa  a desempenhar um papel  dominante na  vida humana em picos  extremos de pandemia e colapsos, como o vivido em 2008. Quando a  sociedade moderna se tornou dependente de sistemas financeiros, e nos dias atuais.

Em tempos de pandemia, é preciso ter visão crítica para  entender a  dinâmica do desenvolvimento histórico das finanças como pano de fundo principal desta crise, uma vez que os  ricos viram suas fortunas se recuperarem nas últimas semanas; Ajudados, principalmente, pelo impulso dado sem precedentes por parte de governos e banqueiros centrais, que disponibilizaram cerca  de R$ 1,216 trilhão para os bancos brasileiros, cifra equivalente  a 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Esses números nos permitem repensar o que está sendo considerado apoiadores e benevolentes, em uma crise na qual mais de 42 milhões de invisíveis serão afetados, em especial pelo fator desemprego dos menos escolarizados – logo negros e periféricos.  Sabemos que em situações de crise é preciso viajar através do tempo e lugares para entender a formação do mercado de crédito, de títulos de dívida pública, de ações, de seguros e imobiliário e, em especial, como a variação dos ciclos econômicos impacta nos indicadores sociais, especialmente os que mensuram a pobreza. A nova recessão que vem por aí vai agravar a pobreza e nos fazer refletir sobre a natureza do dinheiro e sua engenharia de acesso que passa despercebido por muitos.

Por fim, fica evidente a necessidade de ver as inovações financeiras, benevolências econômicas  e  globalização como uma história permeada pelo uso da intermediação financeira e surgimento dos produtos financeiros que se transformam em  produtos financeiros de  proteção de outros produtos financeiros e do próprio dinheiro. Como mercadoria que, ao longo da história, fez com que determinados setores ficassem  mais ricos e que, desde do início da pandemia, repete seu ciclo de empobrecer muitos e enriquecer poucos, graças aos seus laços com empresas que lutam contra a Covid-19.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum

 

Dois mil e vinte: o ano da justiça e da verdade! Por Luciane Reis


AP Photo/Julio Cortez

O ano de 2020 é da justiça e da verdade para o povo negro. Sob a regência de Xangô, temos cobrado justiça por toda (des) ordem social de pobreza e violência vivida até os dias atuais. A dificuldade de assumir uma identidade de luta em ações cotidianas faz com que os modelos de violência do Estado brasileiro fortaleça o racismo institucionalizado junto à sociedade. Para Maria Rita Kehl, ao se ver como um povo avesso ao ressentimento, ou seja, sempre alegre, festivo e que perdoa com facilidade, deixamos de alimentar uma mágoa necessária à alteração das violências que somente o excesso de memória via o ressentimento tem capacidade de despertar.

Ao valorizar o perdão e ações simbólicas como parte das ferramentas de alteração da realidade negra, deixamos de atuar em uma parte significativa dos agravos vivenciados no âmbito social, político ou econômico e que, na maioria das vezes, são ativados pela memória da dor. O historiador Marcos Rezende, recentemente em suas redes sociais, nos convidou  a  retirar o clima de euforia e desejo de uma resposta à altura ao vermos  as cenas de  reivindicação do direito à vida negra em  Minneapolis (EUA). E pensar as diferentes realidades entre esses dois pólos de debate diante do desejo de agir da mesma maneira que os afro americanos à violência racial.

DAVID JOLES – STAR TRIBUNE

A forma como todos os setores, inclusive brancos, responderam à ação demonstra a importância de os ter como aliados na luta anti-racista, mas não enquanto vozes de alteração de nossa realidade. Uma olhada rápida nos comportamentos  periférico e partidário,  demonstra como não ser os  referenciais de luta e esperança da comunidade negra violentada e vulnerabilizadas dificulta nossa  capacidade de mudança de realidades tão duras e, em especial, do sistema judiciário e economico brasileiro.

Não ser  os homens e mulheres negras que os “líderes comunitários” e representantes negros dentro dos partidos apoiam ou levam para as comunidades na esperança de construir uma realidade melhor,  faz com que  depositemos nossos ideais e visão de mundo na mão de quem nunca vivenciou 1\3 do que passamos diariamente. Ao  revisitar nossa tecnologia de luta de forma tão profunda, trazemos  à tona o ressentimento deste processo de violência e indignidade vivenciada ao longo da história. Necessária à criação de ações concretas de posicionamentos e posturas sem que essa fonte de viabilidade venha de mãos brancas. Precisamos nos apropriar dos ganhos econômicos brasileiros e diaspóricos, afim de construir um ambiente menos hostil para nossa proteção e retaguarda.

Ao fazer o caminho financeiro negro, trazendo para o centro do debate o impacto negativo do pensamento social financeiro brasileiro, rompemos  com o sentimento de gratidão eterna aos segmentos brancos, em especial de esquerda. Devolvemos, então, o protagonismo negro e  quebramos com essa rendição social que nos faz continuar  elegendo vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores e presidentes  simpatizantes de nossas lutas. Mas que nos brindam com a uma reparação que não ultrapassa a  antecipação simbólica de que somos iguais perante os outros.

Não podemos continuar acreditando que a antecipação simbólica do reconhecimento de nossas lutas e protagonismo dá conta da inexistência de um processo reparatório concreto da realidade negra por si só. Precisamos, como afirma professor Edson Cardoso, fazer a auto crítica sobre nosso comportamento racial durante um governo de esquerda no que tange a pauta racial e, de praxe, as condições de ocupação dos espaços de poder social, político e econômico. Precisamos ter coragem de reivindicar e debater a participação política negra de forma a fazer a disputa de poder com recorte racial, sem negociar nenhuma pauta. Dar como “brinde”, por sua empatia quanto a nossa causa, a reeleição como herança familiar só tem construído uma resistência civil de aglutinação e passividade que produz Aghatas, Marieles, Joãos Pedros e tantos outros por conta de uma  postura pacífica de cobrança de soluções  a uma  violência física, mental e moral.

A submissão voluntária aos modelos de opressão negociada com os brancos via introjeção dos seus  valores, falas, diferentes  classes dominantes, ordens dos estados e partidos, tem feito com que a elite da esquerda brasileira continue sendo as beneficiadas, enquanto continuamos chorando e vivendo sem dignidade em nossas comunidades. Continuar se submetendo e obedecendo estas orientações, usando como desculpa a “disputa de  pautas  dentro das legendas”, só tem fortalecido o modelo de extermínio institucionalizado. Sem que ocorra uma discussão sobre um modelo de reparação de fato eficaz junto a um país que nunca fez auto critica ao fato de ter sido o último a  encerrar a escravidão e entregar um segmento racial a sua própria sorte. Depois deste povo construir com sangue e suor a riqueza brasileira.  É esse modelo de reparação que nunca chegou, que continua nos matando até os dias de hoje via ausência de pragmatismo quando se pauta o trauma social que foi a escravidão no passado, e a forma como se vive hoje a violência de Estado contra o povo negro.

Até quando abaixo-assinado, hashtag, nota de repúdio, posicionamentos pacíficos e pedidos para que PAREM DE NOS MATAR continuarão sendo usados como ferramentas de luta? Que ação coletiva usaremos para que possamos ser de fato enxergados, escutados, atendidos dentro desta luta pela vida? Precisamos revisitar o trauma social causado pela ausência de humanização, constrangimento e compromisso com a condição de vida da população negra, em especial pelos setores da esquerda. Não podemos continuar louvando uma pseudo igualdade de direito como benevolência por quem aceitou atuar na pauta. Isto faz com que os oprimidos contentem- se com intervenções simbólicas e fragilizadas aos ambientes que vivem.

É preciso que o estado cumpra com sua responsabilidade de forma pragmática e isso não acontece enquanto não soubemos qual a participação política efetiva negra? O que consideramos disputa de poder com recorte racial, e principalmente o que não se negocia nesta pauta numa perspectiva política e financeira.   Precisamos romper com a imagem de país benevolente e reivindicar nosso direito de ter reconhecimento como um povo sério e de luta com pessoas que derramaram sangue por determinados direitos. Precisamos nos reconhecer ao revistar nossa história de revolta, de forma que nosso ressentimento seja a mola de alteração desta realidade.

Que o  machado de dois gumes de  Xangô desça sem pena e complacência contra quem há séculos violenta, mata e desumaniza a população negra.

Kaô Kabecilê, venham todos saudar o rei!!!!

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum

E nossos homens e meninos pretos? – Por Luciane Reis


 

Demétrio Campos

Demétrio Campos foi um homem trans que não suportou a opressão da construção diária da fragilização da potencialidade social e intelectual masculina negra. Tenho a um tempo conversado com meu amigo Durval Azevedo sobre essa ausência de redes de apoio e empoderamento masculino. Falar sobre masculinidade tóxica, estar para além da relação homem X mulher negra. Afinal, não podemos balizar todos sejam homens ou mulheres pela mesma balança. Achar que todos (as) são positivas e sempre vítimas ou algoz quando se fala de afetividade, é tirar destes sua humanidade. É da natureza do ser humano, como bem diz professor Lúcio André as diversas personalidades e interações emocionais.

Precisamos conversar sobre redes de fortalecimento masculino negro, ou perderemos nossos meninos. Sim, meninos.  Sou filha, irmã, amiga e prima de homens negros e acompanho a dura realidade da violência que esses passam no mercado de trabalho, onde só tem acesso a subempregos que matam diariamente seus sonhos e construção de outras realidades. As abordagens sociais e institucionais que cobram destes tudo que não lhes foi dado com um grau extremo de violência, desrespeito, deslegitimação e desqualificação, é o que tem feito muitos homens negros entrar em depressão e em casos extremos cometer o suicídio dentre outros. Costumo dizer que JAMAIS reencarnaria um homem negro, e Demétrio Campos, um homem trans em seu vídeo postado meses antes de tirar a própria vida, relata as dores de estar na pele destes enquanto vinha passando pelo processo de transição de gênero que consolidava a leitura deste enquanto um homem negro pela sociedade.

Assistir o vídeo postado por Tairo Rodrigues sobre as dores que ele vivenciava ao se entender e viver como um homem negro me abriu diversos gatilhos emocionais. Lembrei-me de como meu irmão surtou e passou anos entrando em hospital psiquiátrico, por não consegui dá conta das cobranças de atitudes, posturas e comportamentos sociais da família e estado sem estrutura, rede de apoio ou pessoas que apontassem qual caminho a seguir, de meus alunos homens que me ligam desesperados pedindo ajuda para emprego e relatando as falas dos familiares e violências sofridas por não estarem no patamar que esperam que estejam na idade que tem. De amigos, quase surtando por mesmo que tivesse feito quase tudo que cobravam deles, não ter realizado o ideal de familia ou comportamento e status social.

 

Por “cancelamento”, transfobia e racismo, homem trans Demétrio Campos põe fim à própria vida

Não estou aqui defendendo o machismo, mas falando de como ser visto e lido enquanto homem negro, independente do espaço que esteja é uma dor solitária, desigual e violenta. Afinal, não é fácil falar de “Fracasso” ou lutar por um futuro sendo julgado e acusado de todos os lados. Estou falando de como o empoderamento das mulheres negras, precisa servir de exemplo e case aos homens na construção de frentes e projetos que rompam com a reafirmação das masculinidades negras, construa uma outra realidade para 11, 8 milhões de analfabetos onde segundo o IBGE, 9,9 são homens negros.  Refletir sobre a necessidade de fortalecer os homens negros de forma a permitir uma revisão das posturas machista ao mesmo tempo que constrói um diálogo real com o seu auto desenvolvimento, é permitir a esses a alterar uma realidade, construída em formatos nem sempre saudáveis quando se fala de trabalho bem remunerado.

Aos homens negros, cabe pensar formas de estimular a auto organização, ajuda compartilhada e reflexão sobre o modelo de humanização de seus corpos construídos por uma lógica racista.É caminhando por esse processo de auto organização e redes de apoio que esses podem não somente alterar suas realidade como garantir relações saudáveis, financeiramente confortáveis e compartilhada para eles e para quem o cerca de maneira  que não mais permita a outros Demétrios se construírem sozinhos, lutando contra estado e sociedade sem espaços de trocas de afetividade ou parcerias  pessoal, profissional e educacional. Sei que posso ser trucidada por esse posicionamento, mas tenho ousado olhar esses sobre outra perspectiva.

Sou fruto do Pompa, um projeto de fortalecimento de lideranças mistas do Instituto Steve Biko. Relembrando aqui meus colegas homens do projeto, até onde eu sei nenhum constituiu familia ou relacionamento com mulheres brancas. O que prova que a depender dos modelos de formação e abordagem, é possível ter homens negros estabilizados e com famílias negras sobre outra perspectiva e ambiente. É importante continuar fortalecendo mulheres negras, mas como bem relata Demétrio, existem diversas masculinidades  que nos faz ter que atentar   para o cuidado emocional e humanizado de forma a permitir  esses  construir outros modelos de fortalecimento pessoal e coletivo que permita combater seus algozes.

 Demétrio não suportou as dores de ser lido e visto como um homem negro em um estado e sociedade que mata por cor e destruição diária de sua autoestima e humanidade como desabafado em seu vídeo. Ao ser lido socialmente como mulher, ele relata como o assédio masculino o adoecia, as chamadas “brincadeiras” vivenciadas enquanto lesbica o machucava. Mas ser lido e visto como um homem negro por todos os setores, inclusive feminino, fez ele sentir mais de perto a dor desta leitura e olhar como a encarnação do mal em potencial. Neste momento, mas do que seu emocional violentado, seu físico também passa a ser agredido diariamente sobre diversos aspectos e isso fez com que tirasse a própria vida como muitos tem feito no auge da dor e solidão. Sabemos os impactos da homofobia e do machismo, mas reunido a esses dois, o peso de ser um homem negro (a) não é uma tarefa fácil. Alterar essa realidade não pode ser uma caminhada solitária que nenhum de nós deve trilhar, inclusive nossos homens e meninos negros

Meu irmão, aos 21 anos teve um surto psicótico e perdeu parte de sua história e possibilidade de produção intelectual o que mostra como os impactos do Racismo, homofobia e machismo não pode ser tratado como “mimimi”. Estamos falando de uma dura realidade, sutil, perversa e de várias faces que enfrentamos do dia que nascemos ao dia que morremos. Pra nós, homens e mulheres negras, essa é uma dor que nos acompanha em toda nossa existência e que nos mata de maneira constante e desigual. É preciso pensar redes de apoio para o fortalecimento das potencialidades e competências masculinas, no intuito de alterar crenças e modelos de comportamento fruto de uma subjugação no período da escravidão ao ter sua humanidade descartada. Ter a tão sonhada liberdade construiu hábitos e modelos de irresponsabilidade afetiva e paterna,  que sabemos ser equivocadas e repassada a gerações por mais que seja um  legado negativo sobre a imagem masculina negra. Afetividade e sexualidade sempre será um problema na história de vida negra masculina, mas é preciso ajudar a romper com um processo histórico, que coloca o homem e a mulher negra em um papel inferior por gerações e os faz carregar por toda vida o peso da cor e das mazelas sofridas por seus antepassados.

Que a partida de Demétrio, nos ajude a sermos melhores no olhar para os transexuais e homens negros sob a perspectiva da empatia. Achar que os homens negros podem fazer essa jornada sozinhos, diante de tantos acusadores, não nos torna menos acusadores do que um estado e sociedade que os mata diariamente. Como negros e negras precisamos unir os nossos saberes para mudarmos o curso da nossa história. Em nossa sociedade existem tantos outros Demétrios, mas quantos mais precisaremos perder para acordamos e iniciarmos a nossa corrente de apoio? O sistema é opressor, mas é a nossa tecnologia social e inovativa sobreviver.

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras e mestranda em Gestão Pública na Universidade Federal da Bahia

 

 

Sobre “Minha História” – Por Luciane Reis


Livro “Minha História”

 

Ao assistir “Minha História”, de Michelle Obama, não tem como não notar a importância de  compartilhar e se conectar com  experiências que fizeram com que sejamos quem somos. Durante todo o filme, Michelle nos convida a ser quem queremos ser de verdade. Ela se aproxima ao mostrar o peso de ser quem se quer e seu custo para além das palavras.

Ao relatar o peso de ser uma mulher com personalidade e em evidência ela, como muitos de nós, tem não somente suas falas e posturas deturpadas, como também a imagem sendo transformada no que consideram  “negra raivosa” detentora de uma “escrita violenta”.

Quantas vezes não ouvimos isso? Quantas vezes por motivos diversos, não formos tratadas como  loucas, incapazes e de “ difícil diálogo”,  tendo como base  a  cobrança de direitos e respeito enquanto ser humano detentor de análise crítica e visão de mundo?  Ser quem queremos ser tem um custo muito alto, é por isso que em um processo de autoconhecimento precisamos ser honestos conosco .

É preciso ter coragem de, como bem frisa Michelle Obama, não deixar que as estatísticas sobressaiam a sua história de forma a você esquecer que é ela sua força e alicerce. Lembro como viver para comer na época da universidade, me deixava envergonhada e fazia com que eu ignorasse como minha história construía não somente minha trajetória como o caminho que me traz ate aqui.

Para nós, que nos veem como número, caminhar todas as noites mais de 6 quadras para ir ao pré vestibular é algo que faz parte do nosso cotidiano. Muitas vezes não vemos a força de nossa história, recheada de persistência, resiliência e foco como bem frisa a ex primeira dama.  É exatamente ao revisitar essa caminhada que passamos, não somente a conhecer nosso caminhar, como também  entender a importância de compartilhar e  ser dono destas histórias.

Não  saímos de casa pra sermos independentes, saímos  para dar uma melhor chance a quem fica. Saímos  para construir uma outra parede de momentos e fotografias familiares,  onde nosso senso de empatia  é que nos faz não perder a noção de tempo real. Ao assistir “Minha História”, somos desafiados a  ter coragem de  dizer quem somos, revisitar quem éramos,  repensar nosso comportamento e, acima de tudo, refazer essa  caminhada  sem perder a conexão com o local de onde saímos, para  perseverar diante  da invisibilidade que nos faz perder o medo de ser vulnerável.

 

Fazer a jornada do autoconhecimento é ter coragem de ousar ser vulnerável cercada por pessoas diversas,  revisitar rituais familiares perdidos, a importância das palavras e, acima de tudo, pensar sobre atos simples como estarmos juntos à mesa de jantar. Reconectar com essas memórias e caminhadas, lembrando quem somos, de onde viemos  e como nos  conectamos espiritualmente, é relembrar os conselhos de quem viveu mais.  Minha história não é sobre a mulher mais popular do mundo, e  sim sobre como voltar às raízes, entendendo o poder da sua história, trajetória e importância para o local de onde saiu.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras e mestranda em Gestão Pública na Universidade Federal da Bahia

 

#OpiniãoPreta – Afro empreendedorismo: Uma relação para além do dinheiro!-Por Luciane Reis


Quando se fala de afro empreendedorismo, está se falando de história econômica negra. Afinal, a construção econômica ou de desenvolvimento brasileiro tem nas relações raciais e de invisibilidade sobre a atuação empreendedora seu grande fator de construção de quem é ou não sujeito econômico de poder. Não por acaso, há poucos intérpretes do lento processo de transição dos trabalhadores negros para livres. Ramatis, Nogueira, Elias Sampaio e Hélio Santos são alguns dos poucos economistas ou pensadores que nos permitem trazer uma outra ótica sobre o processo “empreendedor” brasileiro e mais ainda, o que é ser empreendedor negro quando se fala do pensamento de gestão e administrativo após o dia 14 maio, dia que vivemos até hoje.

Chegamos ao 14 de maio, diferente dos imigrantes, sem nenhum subsídio para sobrevivência. Isto nos fez empreender pela primeira vez, ao subirmos os morros ou ver como sobreviver em um país que simplesmente nos descartou. Pensar sobre o afro empreendedorismo é refletir sobre um modelo econômico e de desenvolvimento de país, onde predomina a ideia de incapacidade empresarial ou de gestão do trabalhador negro sobre a égide das teorias administrativas euro –norte – americanas. Ao não pensar o impacto destas teorias no desenvolvimento econômico negro, se repete o ciclo de olhares, repertórios e debates financeiros onde esses são vistos como “inviáveis ou não lucrativos”.

Entender empreendedorismo como um campo de atuação ampla é pensar como um dos seus eixos centrais – que é o desenvolvimento pessoal e financeiro – tem impacto no fortalecimento de projetos e ideias onde seus protagonistas são homens e mulheres negras. É preciso pensar o desenvolvimento pessoal quando se fala de afro empreendedorismo, afinal o primeiro plano de negócios que se faz na vida ao empreender é o plano de vida e financeiro. Quem você será daqui a 10 anos e por quais meios? Não podemos entender empreendedorismo como algo nato a todos, uma vez que isso tem feito com que muitos não invistam em concursos públicos ou discutam “ Racismo no Mercado de trabalho”.

Ser um empresário ou empreendedor negro está para além das “ferramentas” certas ou rede de profissionais que dê suporte. Estamos falando da ausência de debates sobre o conhecimento da história empresarial e econômica brasileira e a presença negra. Esse silêncio impede a compreensão dos modelos mentais adquiridos por lacunas históricas e teóricas que, ao minimizar a participação e identificação das habilidades e competências destes dentro do ambiente econômico, constrói outros referenciais de sucesso e autoridade dentro do que podemos considerar desenvolvimento econômico brasileiro.

Ao falar de afro empreendedorismo é preciso que se revisite a história econômica e de desenvolvimento brasileiro para que assim possamos discutir as particularidades destes tipos de negócios. É preciso que se conheça as dores econômicas esquecidas no processo escravagista e que nos acompanha todos os dias ao não pensarmos nossos mapas afetivos financeiros ou nossa relação com o dinheiro. Identificar como lidamos com sua presença e ausência, o que faz com que tenhamos ou não, um processo de rompimento com as relações culturais econômicas que nos afetam até hoje e está ,como eu disse, para além da financeira.

Falar sobre dinheiro é romper com a mentalidade de mercadoria construída ao longo da história. História essa que nos faz ter a sensação de não merecimento ou culpabilidade sobre este. Onde se usa o dinheiro? Quanto tempo ele permanece em sua mão? Como ele chega ou qual o impacto que ele causa a partir de onde você gasta? São decisões políticas importantes dentro do debate afro empreendedor. Onde se gastar dinheiro é um ato político que, a depender de onde você o deixa, ele ajuda a construir sua comunidade ou a destroi.

Afro empreendedorismo é isso. É conhecer a história econômica negra a fim de alterar as realidades vividas a partir do fortalecimento da identidade e repertório referencial, para o resgate memorial de pertencimento. Portanto, dialogar sobre uma construção mental que sempre sabotou todo processo de construção econômica é se reposicionar em um mercado que, mesmo sendo de maioria negra, continuam sendo entendidos como de baixa viabilidade financeira e pouca qualificação empresarial por conta da crença de que esses não são capazes de lidar com o universo dos números e da gestão.

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Olodúnica, Publicitária, apresentadora do programa Me Despache na TV Kirumuré e mestranda em Gestão Publica na Universidade Federal da Bahia.

#Artigo – Eleições 2020 e a questão racial, uma pauta menor? – Por Luciane Reis


O economista Elias Sampaio escreveu   sobre a candidatura da “Negona da cidade”, a pedagogo Olivia Santana para a prefeitura de Salvador.  Estamos falando de uma mulher negra com a nossa história e cara legitimada em convenção da sua legenda partidária como pré candidata a prefeita para  dirigir a cidade mais negra fora da África.  Militante histórica das causas negras, Olívia Santana foi titular da Secretaria de Educação e Cultura de Salvador, ganhando destaque pela implantação do Sistema Informatizado de Matrícula e do ensino da História da África e da Cultura Afro brasileira. Em 2012, foi candidata a vice-prefeita de Salvador, na chapa de Nelson Pelegrino (PT) naquele momento o partido entendeu que essa era  a forma de incluir a população negra, nos oferecendo o papel de coadjuvante no processo.

Estamos falando de uma mulher e negra que  se parece conosco e tem nossas histórias e trajetórias como marca de sua caminhada pela vida pública e profissional. Sim! Olivia, assim como uma parcela significativa da cidade é  filha de uma empregada doméstica com um marceneiro. Nascida nas periferias ao lado dos bairros ricos que nos ignora  a exemplo da  comunidade de Ondina, Olivia vem parafraseando Elias Sampaio “ com a tarefa de quebrar a hegemonia colonial intocada desta cidade”. Ouso a ir mais longe e dizer que ela como os demais nomes negros colocados no pleito,  vem como portadora da esperança negra de alteração de uma realidade que vem secularmente produzindo pobreza e dores em relação a uma cidade que nos explora enquanto identidade cultural, mas ignora interferindo em qualquer possibilidade de melhoria de vida ou do que as mulheres negras chamam de “Bem Viver”.

Este 20 de novembro vêm com o sabor e a certeza de “Desobediência racial como afirma a socióloga  e também candidata a prefeitura Vilma Reis. As candidaturas negras colocadas no pleito, traz o recado de que não estamos mais dispostos a ter “ nomes que não os nossos ” como portadores de nossas lutas, histórias e demandas. Não estamos mais dispostos a ter nomes que somente viram aliados  de 4 em 4 anos,  ainda que de  esquerda  e até mesmo de pele escura.  Os critérios mudaram e a  campanha “ EU QUERO ELA ” ,  nascida dentro do   bar de uma das matriarcas negras Alaíde do Feijão, tem uma participação singular sobre a conjuntura que vem   deixando um outro recado para a cidade e  partidos baianos  de alteração do que viemos construindo como parceria negra partidária até os dias de hoje. A campanha traz para o centro do debate do pleito de 2020,  o recado de que nós homens e mulheres negras,  não somos mais parceiras de  projetos políticos onde o protagonismo e o  centro do debate não é a população negra.

Foto Amanda Oliveira

 

 A campanha chega imbuída de apresentar à cidade de Salvador e aos  nascidos nas periferias vulnerabilizadas soteropolitanas que é preciso pensar uma cidade que inclua gente e neste sentido não existe case maior de sucesso do que o do Movimento social negro brasileiro que como bem afirma o vereador e também pré candidato a prefeito Silvio Humberto, é especialista em administrar gente. São as organizações negras que ao longo da história vem alterando a vulnerabilidade social, cidadã e econômica negra.

É neste cenário de lutas e experiência em potencializar o que as pessoas sabem fazer que, que Olivia como um dos primeiros nomes para a prefeitura com capacidade de  construir  “envolvimento”  e não desenvolvimento  social e econômico para  80% de uma população desrespeitada, violada e ignorada por um  aristocracia  branca, patriarcal e racista que governa o lugar mais negro fora do continente africano,  com toda sua arrogância por mais de 470 ininterruptos e longos anos.

Não será uma tarefa fácil seja para Olivia ou os demais nomes no pleito, mas, em princípio, Olivia que é o primeiro nome posto  não estará só como ressalta Elias.  E neste sentido fica como tarefa para cada pessoa que circula por essa cidade e  ver todas as gerações negras (crianças, jovens, adultos e idosos), circulando como farrapos humanos descartáveis,  a tarefa  de tornar cada espaço seu  digital ou não   espaço de reverberação dos nomes e história destes que temos certeza seja como candidato a prefeito ou vereador, ser  comprometidos com  nossa luta cotidiana.  Cabe a nós que não suportamos mais ver a população negra vivendo nas piores situações, fazer esses nomes  adentrar os bairros de Salvador,  como fio de esperança e possibilidade de construção de uma cidade humanizada onde os netos, filhos, sobrinhos, amigos e amantes destes que sempre nos exploraram acharam que podem governar não sejam os protagonistas e vencedores deste pleito.

 Olivia da mesma forma que os demais nomes posto,  surge com a  capacidade real de como debatemos no bar Mestiços, durante o dialogo puxado pelo mandato do vereador Silvio Humberto, mostrar que “ nos importamos com essa cidade e temos outro modelo de gestão que presa por  fazer o  “ mundo da branquitude que conta muito em Salvador ainda que seja minoria, se encontrar com o mundo negro ignorado” de uma maioria.

As campanhas negras para prefeito e em especial para vereador, traz para o centro do debate a possibilidade real de se construir desenvolvimento incluindo e compartilhando. Não estou aqui divagando sobre um mundo mítico, tenho plena consciência de que ela da mesma forma que os demais, caso tenha sucesso no pleito continuará sendo uma pessoa negra em qualquer movimento que faça enquanto gestora de uma cidade onde os brancos sempre enriqueceram  com os negros. Sei que consolidando sua vitória e de nossos vereadores e vereadoras presentes nas trincheiras de luta diária, virá a tona todos os problemas raciais invisibilizados até os dias de hoje quando se fala de pessoas  negra nesta cidade e neste sentido “ Querer Ela “ é romper com uma hegemonia que ousa nos ignorar dentro e fora dos partidos.

“Sorrir também é resistir!” – Por Luciane Reis


olodum
Foto Alexandra Martins/Divulgação SecultBAa

 

Escrever  sobre o Olodum é sempre um desafio. Primeiro por dialogar com uma diversidade de pessoas e olhares,  que faz com que o mesmo tenha que ser  visto sobre diversas perspectivas. Segundo por que escrever para uma instituição com as trajetórias e lutas como o Olodum;  trazer para o centro do debate o sorriso e a  cultura negra como forma de resistência e luta. Cultura como educação e preservação de memória, dores e alegrias.

Sim, dores porque estamos falando de parte de um público marginalizado, oprimido e que vê nas músicas e ensaios um momento de ser valorizado em sua essência. Pessoas que o estado e os próprios movimentos sociais não querem dialogar, os famosos NEM NEM  que encontram no Olodum, ainda que marginalizados e julgados, o direito de exercer sua cidadania violentada no cotidiano.

Ruy José Braga Duarte,  em seu artigo entitulado “Olodum Da Bahia Uma Inclusão Histórico Cultural “, lembra que o Olodum – ao nascer em 79 – buscou  garantir o direito dos moradores do Maciel \ Pelourinho de brincarem o carnaval em um bloco  de forma organizada. Algo que se mantém até os dias de hoje, afinal não podemos esquecer os diversos momentos de dificuldade que o Bloco – do mesmo modo que seu público mas intenso – enfrenta ou já enfrentou. Essa luta constante pela humanização e valorização negra antes, durante e após o carnaval, é o que traz para pessoas como nós, Olodúnicas, a ansiedade de esperar o carnaval -momento em que as atenções se voltam com mais intensidade, para  dialogar com essa cidade sobre inclusão e humanidade de um legado invisibilizado.

olodum
Fotos: Alexandra Martins / Divulgação SecultBA

É através da alegria de estar desfilando no bloco, distribuindo sorriso e orgulho na forma de temas, alegorias e o próprio abadá, ou por meio de seus dançarinos, que o Olodum rompe com uma história única e traz de maneira latente a identidade negra que distribuímos em forma de sorrisos na avenida, mostrando  nossa resistência com autenticidade. É transformando o rufar do tambor em um instrumento de luta política que o Olodum atravessa o circuito festivo, mostrando a realidade negra  através da arte e da música, fazendo análises do contexto em que vivem e  se relacionam os homens e mulheres negras na cidade mais africana fora do continente mãe.

É com as suas cores, danças e sorrisos que vamos enquanto corpos negros mostrando nossas tensões sociais cotidianas em uma cidade que nos invisibiliza e que – exatamente por isso – resignificamos através de um sorriso  que não pode e deve ser entendido como cordialidade. É a capacidade de sorrir diante da adversidade que nos permite transformar nossas lutas constantes em resistência, apesar de – como nos lembra Lazzo Matumbi – “Toda dor que nos invade”.

Somos a alegria desta cidade, ainda que ignorados, marginalizados  e violentados  pelo estado e município cotidianamente. É o sorriso que o Olodum tira do rosto de cada seguidor enquanto expressão de origem, história e cotidiano da população negra, que transforma o sorriso no produto básico de resistência  e resgate da auto-estima e das tradições da população negra. Temos um modelo de luta e resistência que não passa pela maneira bélica, transformamos diariamente nosso sorriso em uma arma para continuarmos vivos e orgulhosos diante de um cenário de desigualdade e invisibilidade que nos desumaniza em uma cidade como Salvador, capital da Bahia.

É o sorriso negro, que faz com que consigamos sobreviver diariamente à ausência de moradia digna, educação de qualidade, desrespeito enquanto corpo negro dentre outros. É esse sorriso tirado das nossas lutas, que não permite que desapareçamos  e aprendamos a nos resignificar e reconstruir diariamente neste estado e município, ainda que naturalizem nossas três gerações (crianças, jovens e idosos) em situação de vulnerabilidade humana e social. Somos o elemento agregador da economia desta cidade, afinal ninguém vem à Bahia para ver homens e mulheres brancos. É a nossa capacidade de se resignificar na dor que nos torna disruptivos diante das mazelas cotidianas.

É a capacidade de nossa juventude negra, vitima de genocídio diário, de ressurgir e criar alternativas de sobrevivência engajadas e criativas que tornam o carnaval e o Olodum o maior revolução negra desta cidade. Precisamos repensar nossos públicos, entendendo que o não diálogo do Estado e sociedade é o que torna a tecnologia musical diante das mazelas ferramenta de transformação que ajuda no crescimento social e econômico  desta  grande metrópole chamada Salvador.

Não podemos ignorar o poder de mobilização do tambor, que reúne pessoas de toda a cidade em busca de momentos de confraternização e alegria. Estamos nos becos e vielas, calçadas e favelas e ainda assim conseguimos continuar sorrindo e resistindo. Portanto cabe a nós – dentro e fora – a tarefa de fortalecer o que temos de mais caro: nosso sorriso como arma de resistência; nossa capacidade de tirar alegria das dores, enquanto ferramenta de resistência negra.

É nosso sorriso que mantém nossa solidariedade e humanidade. Logo, arma mais poderosa contra um colonizador que consegue se modernizar nos modelos de opressão e perpetuação de força. É nosso sorriso o combustível cotidiano que torna a tarefa deles de nos matar, a blindagem que nos faz resistir. Portanto, viva o Olodum, maior bloco percussivo do pais!

Eu sou Olodum, quem tu és?

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Olodúnica, Publicitária, apresentadora do programa Me Despache na TV Kirumuré e mestranda em Gestão Publica na Universidade Federal da Bahia.

Artigo publicado no Jornal do Olodum

Querer ela está muito além da prefeitura! – Por Luciane Reis


eu_quero_ela
Fto Enderson Araújo

 

Falar sobre a política baiana é falar sobre um processo e modelo de gestão que nunca enxergou Salvador para além do aquário, ou seja, seu entorno. Salvador é uma cidade complexa e de serviços, com uma baixa qualificação profissional e um déficit habitacional de pelo menos 106.415 unidades.

Ainda que tenha construído em média 2.458 imóveis populares por ano desde 2013,  isto não a faz  chegar nem perto de sua meta estabelecida em 2008 de zerar o déficit habitacional até 2030.

Não se desenvolve Salvador sem  racializá-la. É preciso que se enxergue uma população que é criativa, pulsante e que mesmo dentro deste processo de estagnação de sua criatividade financeira – feita via impostos da prefeitura – ou violência policial financiada pelo Estado, consegue gerar microempregos e rendas. Racializar Salvador é incluir em seu crescimento econômico uma parcela da população urbana mais vulnerável e que habita áreas insalubres e de risco desde o nascimento desta e que ainda assim  gera  renda em uma cidade que os  persegue e ignora.

O que a urbanização da cidade tem a ver com o pleito eleitoral e suas nuances? Possuir cerca de 600 áreas de risco localizadas em encostas e 80% dos imóveis irregulares, segundo a prefeitura, faz com que as pessoas nesta situação sofram diversas conseqüências que vão para além do que conhecemos. Sem o título de propriedade, a ameaça de despejo é constante.

E sem o documento, os moradores reduzem seu acesso ao crédito, motivação para melhorias das casas e vizinhanças, dentre outros. Sem falar que a grande maioria das localidades empobrecidas não são mapeadas, pouco se sabe sobre a demografia, capacidade de mão de obra, de geração de emprego e renda exatamente pelo uso “irregular”  espacial do território que faz com que o ecossistema de gestão invisibilize a chegada de condições de crescimento para essas localidades.

Então, como se pensar um projeto de cidade em um local onde o direito básico que é o de moradia não é levado a sério? É preciso mobilizar outras ideologias e pessoas para intervir neste cenário para além da eleição. É que se volte a ousar sonhar e acreditar em pessoas que nem sabem do que são capazes, como fez o Instituto Steve Biko, Ilê Aiye, Olodum, Ceao, CEN e tantas outras organizações de promoção de igualdade no passado.

Pensar um projeto de cidade mais igualitário e de impulsionamento econômico criativo é amparar as pessoas com respeito a sua dignidade como os terreiros de candomblé fazem no dia a dia. Debater a humanização de Salvador, entendendo que o diferente é sua maior fonte de construção de crescimento e desenvolvimento se faz central.

Querer “ELA” é pensar como romper com o pensamento racista que acredita que se pode cuidar desta cidade e suas especificidades, da mesma forma que se geri um clube esportivo que ganha visibilidade ao dar notoriedade a quem o sustenta, ou seja, a população de uma cidade de maioria negra.

eu_quero_ela

É entender que Salvador não é  um banco imobiliário que você gesta como brincadeira entre amigos. É romper com a continuidade de uma Câmara de Vereadores cujos membros, em sua maioria, trata essa como sua varanda de casa, ignorando as  especificidades e complexidade populacional. Salvador é uma cidade de carne e osso, feminina e que sofre diariamente o impacto da omissão de seus gestores e demais nomes em espaços de decisão.

Eleger nomes  que  assumam a responsabilidade de estarem “à frente da batalha pelo desenvolvimento sustentável desta é um desafio posto no próximo pleito eleitoral em uma cidade que invisibiliza a participação negra.

Ousar querer Salvador, é perceber seu potencial estagnado em uma rede de pensamentos coloniais, conservadores e subservientes, que não permite que sua rebeldia de crescimento torne essa uma cidade potente em sua capacidade de produzir, em seus mais de 160 bairros, sobre diversas perspectiva e sentidos.  Querer Salvador é ousar pensar um projeto de cidade onde cada bairro é um aglomerado econômico social imprensado na especulação imobiliária, racismo institucional e omissão de gestores  municipais e estaduais e um projeto de segurança  que impulsiona ainda mais a violência ao invés de combatê-la.

É mudar o  paradigma,  de uma cidade que até os dias de hoje pensa seu crescimento de fora ( turismo) pra dentro ( subserviência de quem recebe),  sem  levar em conta necessidades,  condições de existência e características de cenários para quem vive e promove desenvolvimento aqui.  Salvador é uma cidade que precisa ser cuidada de forma humanizada, empática e igualitária. Quem ousa querer esse projeto de cidade?

 

Me_despache
Luciane Reis

Luciane Reis é Publicitária, Mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento – Ciags -UFBA e idealizadora do Mercafro – Agência de Produção de Conteúdo Econômico e Étnico Racial. Apresenta o programa Me Despache, na TV Kirimurê. 

 

Luciane Reis