“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Por Luciane Reis!


Tem muito tempo que não escrevo. Seja pela falta de tempo, erros da escrita  que nos acompanham neste processo de dizimação da nossa gente, ou pelas palavras de desencorajamento ou desestímulo que tenho ouvido em alguns espaços. Aconteceu uma situação muito emblemática na Câmara de Vereadores esta semana. Eu que venho de espaços de discordância, mas nunca de violação extrema de direitos; vi um filho do que se existe de mais conservador em Salvador autorizar o uso de spray de pimenta em servidores do município – pelo simples motivo dele e de seus “comparsas” não serem ouvidos.

Fico imaginando se nossa reação para cada vez que não somos ouvidos pelo prefeito ou governador, fosse o que eles autorizam seu braço armado fazer conosco?  O despreparo para estar como presidente, as birras e gritos de menino branco de prédio de luxo que só sabe o que é periferia de 4 em 4 anos e que – pasmem – tem nos nossos a legitimidade para adentrar as comunidades. Seja pelos brancos, ou pelos ombros de alguns ditos “líderes comunitários”, ou por nós mesmos, que não conseguimos compreender que se importar com o outro passa por se ver.

Temos um processo real de desumanização dos nossos. Esse é o maior legado brasileiro à comunidade negra. A animalização e normatização das nossas dores. Ver o sempre calado “príncipe do gueto”, só se pronunciar quando é para nos destruir, ou ver filhos, netos e amigos de quem sempre nos fez mal, nos destruindo,  me faz invocar King – com quem nem tenho tanta afinidade: “O que me preocupa não é o barulho dos maus, e sim o silêncio dos bons”.

 

É Leno, aqui do nosso lado. É uma capa de Jornal que teria causado rebuliço em qualquer país sério, e que por muito menos se tornaria notícia internacional com condolências em todo o mundo. É garoto sendo arrastado de Shopping, ainda que alguém tente  garantir a máxima do MST que diz: “ordem é todo cidadão não passar fome e progresso é ter sua dignidade garantida”. Não foi real aquele grau de brutalidade assistida na Câmara. Não pode ser real!

Os gritos histéricos de Leo Prates, seus posicionamentos autoritários e, por fim, sua autorização para que a Polícia fizesse o que sabe fazer bem, não pode ser real.  Não é possível que pessoas negras de Salvador tenham eleito nomes como o dele. Não pode ser normal o silêncio do Estado diante de 30 mortes registradas em menos de 24h, e dos números que só aumentam: 66, desde a morte de 1 (um) policial – ainda que de forma desumana.  

Não pode ser normal que o governador deste Estado, junto com seu secretário de segurança, ache que a cor da pele é o que menos importa e vamos eleger uma lista de homens brancos com instintos militarizados para continuar nos massacrando. É cultural no Brasil, e em especial na Bahia, a invisibilidade das mortes  e violências sobre peles negras – independente da idade – pela governabilidade. Como dormir ao ver a quantidade de bebês encostando a cabeça naqueles bancos frios da Piedade, com sono?

Moramos em um estado de políticas sociais insignificantes, onde o entendimento de humanização negra, para ambos os governantes, é munição e spray de pimenta.  Precisamos fazer outras escolhas. Não podemos mais eleger “príncipes” que se tornam algozes, centroavantes que entendem que é possível fazer gol de bicicleta com nossas vidas. E, acima de tudo, continuar votando em “aliados” que se silenciam na defesa de um governo de coisas, que quer ser o mais algoz combatente de outro que se espelha neste, mas é considerado inimigo.  

genocídio da juventude negra

Não precisamos de representantes de coisas. Precisamos fazer outras escolhas políticas, que passam por eleger candidaturas negras e femininas de forma coletiva. Não podemos  morrer como insetos no braço deste Estado que nos desumaniza o tempo todo, e achar que quatro homens brancos, com séria simpatia e casamento, com a postura truculenta da Polícia, sejam eleitos.  Não existe projeto coletivo quando o corpo negro é o único que tomba. Não pode existir projeto de crescimento deste estado, quando não somos envolvidos nos processos e ações.

Leo Prates e parte da Câmara de Vereadores – eleita pelo voto negro da  periferia – disse de qual lado estão e quais escolhas farão. E nós continuaremos os elegendo? Rui Costa diz em seu silêncio dos “bons”, qual o lado que ele defende quando a família de campanha de Margarina dele é mostrada e se silencia diante do esfacelamento das nossas. O que ainda achamos que podemos esperar de pessoas que não se parecem conosco e dizem nos representar? Ser morador do bairro da Liberdade não coloca todos que ali residem ou residiram na mira do Estado.  O que esperar de candidatos negros que nenhuma linha dizem sobre situações como essas, por que acreditar que eles são o nosso futuro?

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” – Provérbio Africano.

Como essas aldeias, travestidas de município e Estado, vem – de fato – educando nossas crianças? Como nomes negros que saem candidatos esse ano vem se posicionando para que essa aldeia de fato eduque os nossos?  Temos um secretário de Educação evangélico, que pluralidade ele defende? O que nós, homens e mulheres negras, achamos que pessoas que não sentem o que sentimos podem mudar nossa realidade?

Não morremos porque estamos nas drogas, mas por termos um estado que, conjuntamente, seja de esquerda ou de direita. Nunca levou de forma séria outros braços para as comunidades que não a Polícia. Como diz o economista Silvio Humberto, as coisas se degradam. Temos governos que querem deixar como legado coisas, ao invés de conhecimento. Coisas sempre tem uma capacidade máxima,   pessoas não. A brutalidade da morte do policial, é o reflexo de um país que constrói na cabeça das pessoas a certeza de que elas não valem nada. Se elas sabem que não são nada, porque vão achar que alguém que se pareça com ela terá algum valor?

Luciane Reis
Luciane Reis

A não reflexão sobre nossos princípios de representatividade, de humanidade e compromisso com o que nos é caro tem feito com que também homens e mulheres se silenciam em situações como essas. Não existem seminários, falas públicas exaltadas a serem feitas. Há um governo a ser confrontado e esse governo foi eleito e será reeleito com votos de homens e mulheres negras que ainda se iludem achando que fazem parte deste projeto. Outras escolhas políticas passam, inclusive, por voltarmos a ser militantes da pauta racial  e lembrar que, como diz a socióloga Vilma Reis, “nossos títulos acadêmicos só fazem sentido se estiverem à serviço da luta. Eles precisam ser a arma que desmonta a casa grande”. Isso é o que precisa nos mover e ser nossa governabilidade.

 

Luciane Reis é publicitária, Especialista em Gestão Pública e produção de conteúdo digital,  coordenou o Plano Juventude Viva na Gestão Dilma Rouseff e foi membro do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência enquanto assessora de Juventude no Governo Camilo Santana.

Nós e a cultura do “FAZ SOZINHO”! – Por Luciane Reis


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Nos idos de 2004 quando professor Jaime Sodré usou esse termo durante atividade do Pompa na Biko, demos risada. Achamos engraçada a forma como ele definiu a relação do estado com os realizadores negros.  Professor Jaime trouxe exemplos de como nossas atividades  muitas vezes até reconhecida como importante pelo país /estado,  não recebia recursos que de fato fizesse essas acontecerem com tranquilidade.

Durante meu período na Casa Civil, um dos conselhos que recebi do professor Sergio São Bernardo, além do de não me deslumbrar com Brasília e pensar minha vida de maneira centrada, foi “FAÇA TODOS OS CURSOS QUE A PRESIDÊNCIA TE OFERECER”. Conselho que me permitiu entender a máquina pública e, acima de tudo as diversas, formas de repasse financeiro. Um dos meus professores de orçamento público, costumava dizer que “ só não pode aquilo não justificado, sabendo explicar a União, pode tudo”. Quem transita pelas gestões pública e política, sabe como isso é verdade.

Então, por que quando os realizadores são negros, os projetos e editais são engessados, complicados, de baixo valor, e nós ainda continuamos tratando esses como aliados? Atuei em vários editais enquanto servidora federal, exatamente por entender esses entraves. Lembro que uma das nossas tarefas, sob a orientação da secretária Severine Macedo, e do Ministro Gilberto Carvalho, era pensar como esses editais deveriam ser menos burocráticos e atender a realizadores de carne e osso. Ou seja, pessoas que tinham projetos de impactos em áreas vulneráveis, por não dominarem o processo destes editais, acabavam não sendo contempladas.

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Confesso que o Plano Juventude Viva foi uma grande escola no refazer o quebra cabeça excludente do país. Com boa vontade, compromisso, dialogo (via Fompi) e  ajuda dos articuladores que, oriundos do  Enjune, contribuíram e muito para quebrarmos um pouco a cultura do “negro faz muita coisa com pouco dinheiro ou apoio institucional”. Confesso que, diferente de todas as pessoas não negras que chegaram com redes de contato, salários realmente em condição de sobreviver naquela cidade (que amo e sinto falta hoje em dia), eu tive que usar o velho FAZ SOZINHO e os conselhos rápidos de Sergio São Bernardo. Era todo o Networking profissional  que tive naquela cidade.

O faz sozinho para a população negra não é um recurso que usamos somente na hora de realizar eventos e atividades afins. Usamos, principalmente, em nosso caminhar enquanto indivíduo. Recentemente, a BBC fez uma matéria falando como a nossa falta de QUEM INDICA  nos estagna e adoece.

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Temos menos acesso a redes de contato ou a um capital social influente para subir ou ter uma carreira, o que acaba por nos fazer questionar a nossa capacidade profissional. Temos dificuldade de dialogar e trabalhar com a diversidade, ainda que tenhamos militado, escrito e façamos discurso falando da importância de trabalhar com o diferente. Em uma sociedade como a nossa, isso é fundamental. Atuar com diversidade de ideias, universos e conhecimento é importante não somente para  indicação a outros  postos de comando,  como afirma Emerson Rocha, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mas principalmente para que possamos vencer essa concepção de que nossos projetos ou capital profissional é bom, mas 500 reais resolve.

Se em pleno seculo 21 ainda temos o “faz sozinho e o eu apoio se quiser” , de maneira tão latente, é  porque não conseguimos avançar para dentro da disputa ideológica,  de que as politicas de igualdade feita com seriedade,  desenvolve o país. O  impacto disso, é o fortalecimento do olhar sobre nós como amadores, incapazes de lidar com recursos financeiros e que qualquer valor em cima da hora resolve. O fato do nosso  capita social ser escasso,  impede que possamos ser  bem-sucedido nas nossas carreiras e capacidade realizadora.

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A falta de diálogo sobre dinheiro e seus aspectos de desenvolvimento, acaba por nos deixando sem  uma rede social de recursos para acessar, logo distante das boas oportunidades, como por exemplo  ocupar um cargo de gerência ainda que tenhamos competência e reconhecimento  para isso. Nos condicionaram ao Faz Sozinho e pior, sem nenhum constrangimento de acharem que podem nos colocar para se degladiar por  20, 30 mil reais, quando outros segmentos tem acesso a  valores acima da casa dos milhões em simples almoços, jantares ou telefonemas a exemplo dos colarinhos e corpos brancos da Lava Jato ou gestores  e seus parentes  e amigos dentro dos órgãos públicos.

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Agora somos nós que protegeremos os Orixás! – Por Luciane Reis


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Foto Raul Spinassé/A Tarde

A nossa pacificidade diante da não laicidade e da tolerância e aceitação do estado com as posturas evangélicas, é a mola propulsora que sustenta a certeza da permissividade  destes que se consideram os enviados de Deus. A nossa complacência é tanta, que não nos incomodamos com as pregações nos transportes ditos coletivos ou qualquer violabilidade pública provocada por esses e que tem nos passageiros e rodoviários  toda a compreensão com os  “enviados do senhor”.

Nossa tolerância é tanta que de maneira institucionalizada e apoio do estado, a bancada evangélica ocupa quase todos os espaços de governos e dos meios de comunicação diante dos nossos “o que é que tem?”.

O que é que tem se estou no hospital e o único templo religioso tem uma cruz e pessoas entregando a palavra de deus?

O que é que tem se estou sentada em um bar e esses entendem que posso ser invadida com o que eles consideram a palavra do senhor?

O que é que tem a não participação do estado nos eventos de combate à intolerância?

O que é que tem se esses fecham uma rua e impede a passagem de qualquer carro por que estão pregando a palavra de Deus?

O que é que tem? Tem que essa complacência  é o que, junto com a certeza da tolerância e impunidade social, faz com que esses cometam as maiores atrocidades e invasão e isso seja normal.

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Foto Fafá Araújo

O “é só a palavra do senhor” vem cada dia mais  promovendo violência ao  povo de orixá  nos quatro cantos do pais independente da posição social.  Não podemos nos indignar com o ocorrido junto aos  terreiros do Rio de Janeiro,  quando há mais de duas décadas esse mesmo estado  legitima os “trabalhos sociais” de uma única religião junto aos presídios brasileiros.

O sociólogo Clemir Fernandes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), em suas pesquisas junto às unidades prisionais, averiguou que entre os anos de 2000 e 2010 houve um aumento de 61% de evangélicos no país. Metade destes, fruto das “ações sociais” junto ao sistema prisional brasileiro.

Não é problema ter programas sociais e acalanto religioso  para  pessoas que passam anos em meio à solidão, sem saber como será o dia de amanhã. O problema é a aceitação e permissibilidade de uma única fé. Fé essa que não estimula a tolerância e o respeito à diversidade às demais religiões.

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Foto Jornal Awure

Graça Machel, em recente visita ao Brasil, lembrou que colhemos os frutos de certas ações a longo prazo. Eis que chega o momento de colheita do “povo de deus”. Um processo de intolerância que sai das mãos de cidadãos comuns e passa para os que estão à margem da sociedade e sem nenhum parâmetro de diálogo ou controle do estado.

É preciso compreender que os vínculos dos detentos com as atividades religiosas não se restringem apenas à espiritualidade, mas também à mudança de caráter e de comportamento que se estende a todo núcleo familiar. Os ataques aos terreiros no Rio de Janeiro nada mais são que efeitos de visitas sociais evangélicas aos presídios, sob a institucionalização da intolerância religiosa.

Não acho que seja a hora de colocar os orixás ou clamar por sua justiça. Ao contrário, é hora de convocar sua ira e desmontar essa não laicidade que descansa em berço esplêndido. É hora de se cobrar posicionamentos reais e internacional contra o estado brasileiro.

Quando “até Oxalá vai à guerra”, entendemos que chegou a hora de mostrarmos até onde iremos para defender nossa fé. Isso passa pelo entendimento que precisamos nos organizar institucionalmente. Ou elegemos nossos nomes, homens e mulheres de Candomblé que usam firma e não miçangas no pescoço, ou continuaremos sendo esmagados por esse estado intolerante e omisso.

Precisamos buscar a fé que não sucumbiu nem aos navios tumbeiros quando nos tiraram a dignidade e humanidade. Mas precisamos também discutir estratégias, para  desestruturar essa rede que nos violenta de maneira massiva. Sabemos que a resistência às opressões vem da união dos oprimidos, portanto que nos organizemos para a resistência.

Não pedimos guerra,  somos um povo que mesmo com todas as dores  proporcionada por esse país,  continuamos sendo generoso. Mas sabemos guerrear e nossa justiça  é   implacável.

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do MercAfro e Yamorixá de Oxumaré

‘Elas na Roda’ debate sobre Mulher e Cultura no Centro Histórico


As possibilidades de atuação, os desafios e as perspectivas para a atuação da mulher na produção cultural. Estes são alguns dos assuntos que serão debatidos no ‘Elas na Roda: Mulher e Cultura – Produzindo Novos Lugares’. A proposta do evento é ser um bate-papo conduzido por mulheres que atuam na área, regado à cerveja e petiscos.

 

A ideia, segundo a idealizadora do evento, a publicitária Luciane Reis, é juntar num ambiente de informalidade, mulheres de diferentes posições na cadeia da cultura, para debater um assunto sério num formato de discussão que propicie mais interação e trocas. O objetivo, além da apresentação de um panorama do setor, sob a ótica feminina, é apontar caminhos para a criação de “novos lugares” para as mulheres na produção cultural.

A roda de conversa será realizada no Bar Mestiços (Praça da Sé), nesta quarta-feira (28/03), às 19h e contará com a participação da bailarina e cantora, Nara Couto; da escritora, dramaturga e produtora cultural, Cacilda Povoas; da antropóloga Naira Gomes; dentre outras mulheres do meio cultural.

 

Fale mais sobre?

O que: ‘Elas na Roda: Mulher e Cultura – Produzindo Novos Lugares’;

Quando: Quarta-feira (28/03), às 19h;

Onde: Bar Mestiços – Praça da Sé, nº 398 – Condomínio Edifício Themis – Centro;

#OpinãoPreta – Os tambores rufaram, salve o furacão da Bahia!!


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Foto: Sepromi/BA

Domingo, voltando do trabalho, alguém no metrô puxou algumas cantigas do Olodum. Qual não foi minha surpresa, ver todo metrô respondendo aos hits desse furação que toma nossa vida de maneira única. Estava aqui pensando o que para cada olodúnico significa esse “se tornar patrimônio imaterial” e, acima de tudo, ter seu festival de música institucionalizado?

Construir o projeto Olodum, é uma batalha constante de conscientização, não somente de quem não o conhece, mas acima de tudo de quem o curte. Não falamos somente de um bloco, mas de uma filosofia de vida com seus ritos, acordos e  religiosidade africana, que se mostram presentes a cada tema trabalhado.

Só quem vai ao Olodum domingo ou sai às sextas de Carnaval, sabe do que estou falando. O Olodum é uma banda que se escuta tanto nos grandes prédios onde a população negra habita, como nas periferias violentadas cotidianamente. Estamos falando de uma banda que – diferente do imaginário social – possui uma relação muito forte de compromisso e respeito com o combate às opressões. 

Estamos falando de patrimônio social constituído em torno de um amor único, o Bloco Afro Olodum, e possui uma relação de irmandade medida no monitoramento um do outro para saber se chegou bem após cada ensaio e não foi abatido pelo racismo institucional  cotidiano em nossa vida.

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Crédito: Globo/ Luiz C. Ribeiro

“Pular” corda do Olodum na sexta, por exemplo, é um destes momentos ímpares do bloco. É na sexta de carnaval que o “furacão da Bahia”  se encontra com aqueles cujos momentos de celebração não fazem sentido se na trilha sonora não tocar “nossa porra”,  forma como se  referem à banda. Tornar o Olodum imaterial é reconhecer uma instituição que não é  somente um bloco, mas que de maneira política e cultural faz a  transformação através da Escola Olodum, de eventos de formação de professores para uso da 10. 639, dentre outros.

Estamos falando da imaterialidade de uma instituição, que combate a escravidão mental e o racismo institucional que nos atinge diariamente. Ele é imaterial porque agrega um público que, historicamente, carrega o estigma de criminoso, ainda que faça seus “corres”  honestos durante todo o ano.

Portando, esse reconhecimento é o primeiro passo para construção de um respeito perdido. O Olodum  vem resignificando seus passos a duras penas e, como dizia Germano, “Não somos mais aqueles”. Mudamos. Somos historiadores, publicitários, advogados, empresários. Somos pedreiros, carpinteiros, ambulantes, empregadas domésticas, marginalizados e excluídos. Agradeço todos os dias ao meu amigo amado, Marcelo Gentil, por me fazer voltar a beber desta energia que emana de forma única sua resistência e existência. Graças a ele, pude voltar a ver o Olodum que muitos se recusam a ver.

A institucionalização do festival é a valorização dos tambores, seus vocalistas e, acima de tudo, da história africana – que vem em cada letra puxada e respondida por vozes sintonizadas – como uma veia sanguínea. É a proteção do pulsar negro que se faz presente em cada ensaio, junto a pessoas que o estado não dialoga e que consolida o mesmo como um  espaço de agregação independente de como se chega. Damos nós em madeira e levantamos poeira, já dizia nosso poeta Lazinho. Vida longa ao furação da Bahia.

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Luciane Reis é publicitária, pesquisadora de etno desenvolvimento e negócios inclusivos, idealizadora do Merc’Afro e acima de tudo OLODÚNICA.

#NegrasRepresentam – Campanha homenageia mulheres no Novembro Negro


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Zaika dos Santos     Fotógrafo: Maxwell Vilella 

Ao longo do Novembro Negro, o MercAfro, o Portal Soteropreta e a produtora Três Tons se unirão em torno de homenagens a mulheres negras que tem um trabalho significativo em diversos segmentos. Por meio de perfis, a campanha #NegrasRepresentam tem o objetivo de apresentar os pensamentos de mulheres negras em diversas esferas sociais e como suas ações vem propondo mudanças na realidade racial do país.

“Estamos acostumados a ver mulheres negras desenvolvendo atividades diversas, mas poucas são as vezes em que damos os créditos e principalmente nomeamos seu capital intelectual ou técnico para que aquela ação se tornasse possível. Essa homenagem cumpre então esse papel, mostrar como a contribuição feminina altera e enriquece não somente os espaços onde essas são parte, mas principalmente quais os ganhos desses com a presença delas”, reforça Luciane Reis, uma das coordenadoras da campanha e idealizadora do MercAfro.

Para Caroline Moreira, co-criadora da produtora Três Tons e também coordenadora da campanha “ela mostra, não somente as conquistas destas, mas acima de tudo mostrar as diferentes protagonistas desta batalha diária”, diz.

Conheça as homenageadas aqui!

#NegrasRepresentam – Major Denice Santiago, a segurança das mulheres, sua escolha de vida!

#NegrasRepresentam – Luana Soares, feminista, militante e incentivadora!

#NegrasRepresentam – Dione Silva, a juventude Negra Kalunga e o combate ao racismo!

Merc’Afro promove visita de empreendedoras negras à Fapesb!


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Uma comitiva integrada por mulheres negras de diversos segmentos empresariais, visitou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB . O grupo foi recepcionado pelas coordenações de ciência e inovação e seu Diretor-Presidente, Lázaro Cunha. A comitiva ouviu informações sobre economia criativa, desenvolvimento de ideias, modelos e formas que a instituição vem desenvolvendo a produtividade e competitividade empresarial e, principalmente, como funciona o apoio a empreendimentos comunitários.

As presentes puderam desmitificar o olhar sobre a Fapesb e suas linhas de atuação, entender modos de ter suas empresas atendidas pela mesma, além de abrir um canal de diálogo, através do Merc’Afro para se pensar formas conjuntas de qualificar empreendimentos étnicos femininos para a competitividade empresarial. Para Luciane Reis, idealizadora do Merc’Afro- Agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos e que, em 2016, foi um dos projetos finalistas do “Ideias inovadoras”, a visita abre um canal de diálogo para além do fazer.

“Estamos construindo a cultura empresarial étnica de informação, precisamos pensar nossos negócios na prática. Se, no passado, ter elementos negros em seus produtos era um problema, hoje pode ser uma solução se conseguirmos entender que existe uma disputa que – além de prática – é ideológica”, disse.

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A falta de produção de dados ou de referencial empresarial na perspectiva étnica, vem permitindo que no diálogo de “diversidade'”, o componente racial seja invisibilizado. “Ao abrir esse canal com a Fapesb e as demais instâncias de fomento empresarial do estado, começamos ser protagonista não somente enquanto empreendedor que faz, mas, acima de tudo, que reflete eproduz conteúdo provocativo sobre o que é o chamado caminho do dinheiro negro”, enfatiza Luciane.

Para Renata Matos, diretora científica da Fapesb, a visita fortalece o olhar da Fapesb como um órgão que constroi, não somente Ciência, mas – acima de tudo- o desenvolvimento social sustentável. “Esses momentos de escuta e trocas de saberes e demandas, é o que contribui para desmitificar a Fapesb para o micro empresariado.É preciso desconstruir esse olhar de inovação enquanto coisa de impacto macro, ele acontece exatamente nas pequenas ideias”, salientou.

 

 

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Sobre Merc ‘Afro

Fundada em Salvador, em outubro de 2014, é uma Agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos, cujo objetivo é a produção de conteúdo e serviços educacionais e de formação, propiciar benefício social transformando soluções digitais em desenvolvimento econômico para empreendedores e consumidores de economia vulnerável.

“Trabalhamos com materiais e metodologias de educação e formação empreendedora, voltada para criação de empresas e negócios inclusivos alicerçados em saberes culturais e identitários para assim desenvolver e formular temas, cursos e metodologias de formação e criação para negócios em pequena escala. Enquanto negócio social, o Merc’Afro tem como base de desenvolvimento econômico a construção de um capital formacional e educacional que através do fomento, pesquisa e análise da economia local, conecta globalmente empreendedores e consumidores étnicos em novas perspectivas de negócio”, explica Luciane.

 

Imagens: Gustavo Pereira (Photossíntese Fotos e Videos)

Ângela Davis: Enquanto houver mulheres negras, NÓS RESISTIREMOS!


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Foto: Hieros Vasconcelos

No mês em que se comemora a luta das organizações de mulheres negras e suas estratégias para o enfrentamento ao racismo, sexismo dentre outras opressões, na Bahia, mulheres negras tiveram suas energias renovadas e seus corações reaquecidos pela Pantera negra diaspórica Ângela Davis.

Em um momento de reflexão, sobre a identidade e resistência da mulher negra brasileira, ela nos convidou a pensar sobre como “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, as lutas de mulheres negras vem reconstruindo a dignidade humana como fator de desenvolvimento.

Durante sua palestra, Ângela pontuou como os diversos modelos de opressões vivadas por ser mulher e negra, fazem com que essas, ainda assim, continuem seguindo fortes enquanto protagonistas e espinha dorsal de suas famílias em momentos de perdas de direitos no mundo. Seja enfrentando a pobreza, a marginalidade e a condição de inferioridade a que é submetida ou como bem lembrou a jornalista Maira Azevedo em seu texto “Quero falar de amor”.

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Foto: Hieros Vasconcelos

Em seu discurso de denúncia e encorajamento, Ângela foi nos relembrando as diversas situações de negação de direitos, para mulheres que sempre sustentaram o sofrimento de ver entes queridos em situações de vulnerabilidade e como essas ainda hoje lutam para se fazerem presentes em diversos espaços ao longo de sua história, a exemplo da defensora dos direitos das mulheres negras, a produtora cultural e atriz Kenia Maria, que hoje detém essa importante tarefa junto a ONU Mulheres.

angela davis em salvador

Foi um momento único ver a mesma citar como exemplos de poder do feminismo no Brasil: a resistência do Candomblé e a organização de empregadas domésticas como espaços de lutas cotidianas para quem é mulher e negra.

Durante sua fala, me foi surgindo na memória a apresentação do Slam das Minas, a luta cotidiana do Instituto Odara ou de mulheres que tenho um carinho especial como Luana Soares, Sueide Kintê, Ilka Danusa, Yara Santiago, Raquel Luciana – que brilhou divinamente enquanto tradutora da mesma, Jamile Menezes, Urania Muzunzu, minha mãe e tantas outras que são para mim, exemplos cotidianos de que nossas estratégia de continuidade é o que nos torna capazes de resistir como bem lembrou nossa linda pantera.

Mulheres que, constantemente, mostram para a sociedade como suas mãos fortes ajudaram a construir o país que as renegam ou invisibilizam. Que, mesmo sobre todos os modelos de agressividade, vem tirando de sua capacidade de amar e doar, a coragem necessária para romper com elos convencionais e criando vias alternativas de romper com o que há muitos anos está estabelecido como verdade absoluta.

A essas mulheres – que tem a ousadia de pensar, discordar e contestar na luta pela sobrevivência, qualidade de vida e, principalmente igualdade, só posso parabenizar por serem vitoriosas e que continuem esse trator que, se acionado, tem a capacidade de esmagar seus opressores, como bem bradou nossa convidada especial.

Luciane Reis

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

#NegrasVisíveis – Projeto mapeia profissionais negras de diferentes campos de norte a sul do Brasil


Giovana Xavier
Giovana Xavier

“Intelectuais Negras Visíveis”, uma pesquisa que tem como principal objetivo conferir visibilidade ao trabalho de profissionais negras atuantes em diferentes campos de norte a sul do Brasil”. Este é o projeto da pesquisadora Giovana Xavier que mapeia mulheres negras protagonistas em todo Brasil, em diferentes áreas, que vem produzindo saberes, ações, ativismos em todo canto.

É uma ampla pesquisa que registra estas produções negras, levando em conta a diversidade etária, regional, de classe, de gêneros e sexualidades e as transformações das últimas décadas. A busca é por “profissionais negras com trabalhos relevantes dentro e fora da comunidade”. A Bahia está bem representada, veja a lista abaixo.

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Jamile Menezes – Portal SoteroPreta

O primeiro resultado desse trabalho é o Portfólio no qual estão dados biográficos e profissionais de 129 Intelectuais Negras, atuantes nos campos: Academia e Pesquisa, Afroempreendedorismo, Artes Visuais, Cinema, Dança, Teatro e TV, Coletivos de Mulheres Negras, Coletivos de Mulheres Negras, Comunicação e Mídias, Direitos Humanos, Educação Básica, Intelectualidade Pública, Literatura, Música, Saúde.

Confira todo projeto AQUI.

No projeto, estão previstas ainda entrevistas individuais com as integrantes do catálogo e a publicação de novos títulos por campos profissionais específicos, dentre outras iniciativas.

Madalena Negrif - Fto Alex Dantas
Madalena Negrif – Fto Alex Dantas

As baianas Intelectuais Visíveis:

Academia
Juliana Barreto Farias: São Francisco do Conde – Professora de História

Afroempreendedorismo

Madalena Negrif: Salvador

Artes Visuais

Camila Moraes: Salvador – Cineasta e Jornalista

Cinema, dança, teatro e TV

Jamile Coelho: Salvador – Diretora, Diretora de arte e Produtora.

Larissa Fulana de Tal: Salvador – Criação, direção, montagem e desenvolvimento de projetos no campo de Cinema e Audiovisual

Onisajé: Alagoinha – Diretora Teatral

larissa fulana de tal
Larissa Fulana de Tal

Comunicação e Mídias

Geise Oliveira: Salvador – Produtora Cultural e Mestre em Cultura e Sociedade.

Jamile Menezes: Salvador – Jornalista

Larissa Santiago: Salvador – Publicitária

Luciane Reis: Salvador – Publicitária

Literatura

Mel Adún: Salvador – Escritora, editora e produtora de textos

Música

Nara Couto: Salvador – Pesquisadora, bailarina, cantora, atriz E produtora cultural

Saúde

Denize Ribeiro: Santo Antônio de Jesus – Nutricionista, Doutora em Saúde Coletiva; Professora.

Emanuelle Góes: Salvador – Enfermeira e Coordenadora do Programa de Saúde do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Quem produz samba são elas!!!


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Quinta Do Samba Do Cajueiro – Boca Do Rio.

Kelly Adriano de Oliveira, em sua tese “Deslocamentos Entre o Samba e a Fé”, afirma que as mulheres tiveram um papel importante na preservação e resistência do samba. Pensar seu papel na preservação dos diversos legados negros é reafirmar o protagonismo e visibilizar a importância do empoderamento feminino, que revela sua força em diversos contextos, e em especial no samba.

Estamos falando da construção de novas narrativas, onde elas reivindicam não somente seu protagonismo, mas a participação para além da exposição do corpo, e em uma dimensão bem maior e mais profunda. Para muitas mulheres esse tema pode parecer algo natural, mas nem sempre foi assim. Se pensarmos que o samba naturaliza a presença masculina, enquanto invisibiliza a produção das mulheres, valorizar a figura feminina em um universo musical dominado pelos homens é um momento ímpar a ser comemorado.

Ao falar de “Uma Alvorada para as Mulheres” sua força e protagonismo cultural, o Bloco Alvorada nos convidou a pensar a contribuição destas na produção cultural fora do carnaval, sem a sexualidade que objetifica seu corpo nos espaços de samba. Esse tema mostrou o que vem sendo notado nas rodas de samba em Salvador, o cavaquinho, pandeiro e microfone brilhando nas mãos de realezas como Gal do Beco, Josiane Clímaco, Juliana Ribeiro e Rita Nolasco.

Sem deixar de lembrar mulheres como Camilla França, Carmen do Q’ Felicidade, Dorinha da Feira de São Joaquim – mulheres que vem desnaturalizando o protagonismo masculino nesses espaços. Elas vem mostrando que o samba não é só um gênero musical, mas uma cultura de resistência, visibilidade musical e participação feminina.

samba de mulheres

Ao desfilar pelas rodas de samba, elas mostram que o verdadeiro samba, além de valorizar a tradição, tem que garantir a contação da história de mulheres que foram detentoras da sua resistência. Por isso, ao estarem nestes espaços, elas quebram com o anonimato e mostram que o samba é sim assunto de mulher.

“Uma Alvorada para as mulheres” não conta somente um enredo feminino. Ele questiona as realidades, ameniza dores e festeja alegrias que contrariam as mazelas cotidianas que oprimem a população negra. Por isso, parafraseando a música “Maravilhosa é ela”: Quem tá no samba são elas!!!

 

Luciane ReisLuciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis.