Ângela Davis: Enquanto houver mulheres negras, NÓS RESISTIREMOS!


angela davis em salvador
Foto: Hieros Vasconcelos

No mês em que se comemora a luta das organizações de mulheres negras e suas estratégias para o enfrentamento ao racismo, sexismo dentre outras opressões, na Bahia, mulheres negras tiveram suas energias renovadas e seus corações reaquecidos pela Pantera negra diaspórica Ângela Davis.

Em um momento de reflexão, sobre a identidade e resistência da mulher negra brasileira, ela nos convidou a pensar sobre como “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, as lutas de mulheres negras vem reconstruindo a dignidade humana como fator de desenvolvimento.

Durante sua palestra, Ângela pontuou como os diversos modelos de opressões vivadas por ser mulher e negra, fazem com que essas, ainda assim, continuem seguindo fortes enquanto protagonistas e espinha dorsal de suas famílias em momentos de perdas de direitos no mundo. Seja enfrentando a pobreza, a marginalidade e a condição de inferioridade a que é submetida ou como bem lembrou a jornalista Maira Azevedo em seu texto “Quero falar de amor”.

angela davis em salvador
Foto: Hieros Vasconcelos

Em seu discurso de denúncia e encorajamento, Ângela foi nos relembrando as diversas situações de negação de direitos, para mulheres que sempre sustentaram o sofrimento de ver entes queridos em situações de vulnerabilidade e como essas ainda hoje lutam para se fazerem presentes em diversos espaços ao longo de sua história, a exemplo da defensora dos direitos das mulheres negras, a produtora cultural e atriz Kenia Maria, que hoje detém essa importante tarefa junto a ONU Mulheres.

angela davis em salvador

Foi um momento único ver a mesma citar como exemplos de poder do feminismo no Brasil: a resistência do Candomblé e a organização de empregadas domésticas como espaços de lutas cotidianas para quem é mulher e negra.

Durante sua fala, me foi surgindo na memória a apresentação do Slam das Minas, a luta cotidiana do Instituto Odara ou de mulheres que tenho um carinho especial como Luana Soares, Sueide Kintê, Ilka Danusa, Yara Santiago, Raquel Luciana – que brilhou divinamente enquanto tradutora da mesma, Jamile Menezes, Urania Muzunzu, minha mãe e tantas outras que são para mim, exemplos cotidianos de que nossas estratégia de continuidade é o que nos torna capazes de resistir como bem lembrou nossa linda pantera.

Mulheres que, constantemente, mostram para a sociedade como suas mãos fortes ajudaram a construir o país que as renegam ou invisibilizam. Que, mesmo sobre todos os modelos de agressividade, vem tirando de sua capacidade de amar e doar, a coragem necessária para romper com elos convencionais e criando vias alternativas de romper com o que há muitos anos está estabelecido como verdade absoluta.

A essas mulheres – que tem a ousadia de pensar, discordar e contestar na luta pela sobrevivência, qualidade de vida e, principalmente igualdade, só posso parabenizar por serem vitoriosas e que continuem esse trator que, se acionado, tem a capacidade de esmagar seus opressores, como bem bradou nossa convidada especial.

Luciane Reis

Luciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

#NegrasVisíveis – Projeto mapeia profissionais negras de diferentes campos de norte a sul do Brasil


Giovana Xavier
Giovana Xavier

“Intelectuais Negras Visíveis”, uma pesquisa que tem como principal objetivo conferir visibilidade ao trabalho de profissionais negras atuantes em diferentes campos de norte a sul do Brasil”. Este é o projeto da pesquisadora Giovana Xavier que mapeia mulheres negras protagonistas em todo Brasil, em diferentes áreas, que vem produzindo saberes, ações, ativismos em todo canto.

É uma ampla pesquisa que registra estas produções negras, levando em conta a diversidade etária, regional, de classe, de gêneros e sexualidades e as transformações das últimas décadas. A busca é por “profissionais negras com trabalhos relevantes dentro e fora da comunidade”. A Bahia está bem representada, veja a lista abaixo.

jamile menezes
Jamile Menezes – Portal SoteroPreta

O primeiro resultado desse trabalho é o Portfólio no qual estão dados biográficos e profissionais de 129 Intelectuais Negras, atuantes nos campos: Academia e Pesquisa, Afroempreendedorismo, Artes Visuais, Cinema, Dança, Teatro e TV, Coletivos de Mulheres Negras, Coletivos de Mulheres Negras, Comunicação e Mídias, Direitos Humanos, Educação Básica, Intelectualidade Pública, Literatura, Música, Saúde.

Confira todo projeto AQUI.

No projeto, estão previstas ainda entrevistas individuais com as integrantes do catálogo e a publicação de novos títulos por campos profissionais específicos, dentre outras iniciativas.

Madalena Negrif - Fto Alex Dantas
Madalena Negrif – Fto Alex Dantas

As baianas Intelectuais Visíveis:

Academia
Juliana Barreto Farias: São Francisco do Conde – Professora de História

Afroempreendedorismo

Madalena Negrif: Salvador

Artes Visuais

Camila Moraes: Salvador – Cineasta e Jornalista

Cinema, dança, teatro e TV

Jamile Coelho: Salvador – Diretora, Diretora de arte e Produtora.

Larissa Fulana de Tal: Salvador – Criação, direção, montagem e desenvolvimento de projetos no campo de Cinema e Audiovisual

Onisajé: Alagoinha – Diretora Teatral

larissa fulana de tal
Larissa Fulana de Tal

Comunicação e Mídias

Geise Oliveira: Salvador – Produtora Cultural e Mestre em Cultura e Sociedade.

Jamile Menezes: Salvador – Jornalista

Larissa Santiago: Salvador – Publicitária

Luciane Reis: Salvador – Publicitária

Literatura

Mel Adún: Salvador – Escritora, editora e produtora de textos

Música

Nara Couto: Salvador – Pesquisadora, bailarina, cantora, atriz E produtora cultural

Saúde

Denize Ribeiro: Santo Antônio de Jesus – Nutricionista, Doutora em Saúde Coletiva; Professora.

Emanuelle Góes: Salvador – Enfermeira e Coordenadora do Programa de Saúde do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Quem produz samba são elas!!!


samba de mulheres
Quinta Do Samba Do Cajueiro – Boca Do Rio.

Kelly Adriano de Oliveira, em sua tese “Deslocamentos Entre o Samba e a Fé”, afirma que as mulheres tiveram um papel importante na preservação e resistência do samba. Pensar seu papel na preservação dos diversos legados negros é reafirmar o protagonismo e visibilizar a importância do empoderamento feminino, que revela sua força em diversos contextos, e em especial no samba.

Estamos falando da construção de novas narrativas, onde elas reivindicam não somente seu protagonismo, mas a participação para além da exposição do corpo, e em uma dimensão bem maior e mais profunda. Para muitas mulheres esse tema pode parecer algo natural, mas nem sempre foi assim. Se pensarmos que o samba naturaliza a presença masculina, enquanto invisibiliza a produção das mulheres, valorizar a figura feminina em um universo musical dominado pelos homens é um momento ímpar a ser comemorado.

Ao falar de “Uma Alvorada para as Mulheres” sua força e protagonismo cultural, o Bloco Alvorada nos convidou a pensar a contribuição destas na produção cultural fora do carnaval, sem a sexualidade que objetifica seu corpo nos espaços de samba. Esse tema mostrou o que vem sendo notado nas rodas de samba em Salvador, o cavaquinho, pandeiro e microfone brilhando nas mãos de realezas como Gal do Beco, Josiane Clímaco, Juliana Ribeiro e Rita Nolasco.

Sem deixar de lembrar mulheres como Camilla França, Carmen do Q’ Felicidade, Dorinha da Feira de São Joaquim – mulheres que vem desnaturalizando o protagonismo masculino nesses espaços. Elas vem mostrando que o samba não é só um gênero musical, mas uma cultura de resistência, visibilidade musical e participação feminina.

samba de mulheres

Ao desfilar pelas rodas de samba, elas mostram que o verdadeiro samba, além de valorizar a tradição, tem que garantir a contação da história de mulheres que foram detentoras da sua resistência. Por isso, ao estarem nestes espaços, elas quebram com o anonimato e mostram que o samba é sim assunto de mulher.

“Uma Alvorada para as mulheres” não conta somente um enredo feminino. Ele questiona as realidades, ameniza dores e festeja alegrias que contrariam as mazelas cotidianas que oprimem a população negra. Por isso, parafraseando a música “Maravilhosa é ela”: Quem tá no samba são elas!!!

 

Luciane ReisLuciane Reis – É comunicóloga, idealizadora do Merc’Afro e pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos. Confira aqui outros artigos de Luciane Reis. 

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Confira aqui suas contribuições.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

Confira aqui suas contribuições.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

Confira aqui suas contribuições.

hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.
suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Confira aqui suas contribuições.

 

coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

Confira aqui suas contribuições.

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Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

Confira aqui suas contribuições.

 

josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

Confira aqui suas contribuições.

 

Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

Confira aqui suas contribuições.

#OpiniãoPreta – Cultura em Salvador, desafio cotidiano da periferia negra


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Banco de Imagens

A Economia da Cultura é responsável por mais de 5% do PIB no mundo, segundo dados do Banco Mundial. Aqui no Brasil, o IBGE, através de um convênio com o Ministério da Cultura, vem  produzindo indicadores que dão um raio x do PIB brasileiro neste segmento.

Dados iniciais sobre essa economia informam que existe uma média de 320 mil empresas ligadas à produção cultural em todo o país. O que torna esse setor responsável pela geração de 1,6 milhão de empregos formais.

Ou seja, 4% dos postos de trabalho no Brasil se origina nas produções e ações culturais desenvolvidas nos mais diferentes espaços.

MvbilldjbrancofavelasoteropretaSe a cultura tem o poder de gerar emprego e renda, por que será que, mesmo com o acesso aos recursos financeiros dos governos locais, esses incentivos não consegue potencializar a cultura da periferia ou torná-la fonte de renda para seus produtores, como em outros setores?

Por que a cultura e eventos da periferia, ou seja, produção negra, não ocupa espaço nos veículos de comunicação de Salvador com o mesmo destaque que as não negras?

Ao olhar os números em destaque e pensar esses pontos, só me vem à cabeça o imaginário social existente sobre a cultura e eventos de periferia. Há aqui um misto de indignação e desconfiança sobre a população, que acaba por fazer com que haja uma baixa aceitação desta cultura. Isso as coloca, enfim, como “merecedoras” da precarização socioeconômica e da quase nula divulgação.

Ao perceber essa situação, entramos em outro ponto enfrentado, que é a ausência de uma profissionalização na perspectiva negra e periférica. Isso acaba por favorecer um mercado que se baseia na relação pessoal, clientelista e informal. Sem regras claras, igualdade de oportunidades, concorrência e  falta de visão estratégica sobre o papel da cultura periférica.

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Precisamos desenvolver estratégias de empreendedorismo na área da cultura. Em Salvador, é possível olhar as agendas culturais e notar como a cultura não periférica tem espaço e visibilidade nos meios de comunicação.

Essas contam, além da boa vontade dos comunicadores, com a parceria das agências de viagem, hotéis e guias turísticos, que as vendem como o coração da cultura baiana. Distorcem toda a publicidade dos órgãos de turismo. Estes que colocam a cultura negra e seus símbolos como o ponto chave da Bahia para o mundo.

Repensar esta visibilidade, aproveitando as oportunidades oferecidas, é atuar com uma capacidade criativa que atende aos mais diversos gostos. Ainda que não valorizado em seu protagonismo, por só se levar em consideração os “3 P’s” (pobre, preto, periférico).

É perceber que não há escassez de mercado para a cultura periférica e negra, produzida e coordenada por negros e negras.

Som de Crioulas
Som de Crioulas

Mas uma estigmatização e limitação no que se refere ao seu pertencimento étnico cultural, origem e condição socioeconômica.

Há em curso uma rede excludente de promoção da cultura soteropolitana, cuja auto preservação dos privilégios é o fator chave de um mercado cultural seletivo.

Um mercado que não permite, no palco, a presença – enquanto protagonistas – de quem nunca saiu da plateia ou das suas periferias.

lureis2Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Veja aqui artigo de Luciane sobre as Mídias Negras. 

Racismo Reverso com Mila Hora: PAREM!


nova vocalista timbalada
Foto: Banco de Imagens

Quem me conhece sabe da minha impaciência com solidariedade seletiva. Sim, me incomoda essas solidariedades que dependem de quem está sendo agredido, humilhado ou vítima de algo. Racismo é coisa séria, não pode ser usado como se fala “geladinho” ou  “me despache”.

Uma pessoa que sofre racismo, acaba por carregar para a vida toda marcas psíquicas que a coloca em situações de dificuldade constante, distorcendo seus sentimentos e percepções de si mesmo. Portanto, vamos com calma quando se fala de racismo reverso. Algo que para uma branquidade que nunca é barrada ou questionada, justifica os limites ou repressão dados por alguém ou algo que tenha feito.

Parem de banalizar algo tão sério. Assistimos situações de racismo cotidianamente, contra segmentos vulnerabilizados. Sim, vulnerabilizados e não discordantes. Falo isso, pois diante de tantos defensores do tal “racismo reverso” sofrido pela nova vocalista da Timbalada, é preciso – como diz Tia MÁ – ”tirar o sapatinho e colocar o pé no chão”. PAREM!!!

É isso mesmo. Parem de transformar um descontentamento técnico e de referencial cultural sofrido pela nova vocalista, em racismo reverso. Algo impossível de acontecer a pessoas, que tem o Brasil como principal garantidor de seus privilégios sociais e economicos. É desleal, alguém dizer que sofreu racismo por ser branco. Se oriente…Não existe racismo de negros contra brancos ou, como estão chamando reverso.

nova vocalista timbalada
Foto: Reprodução/Instagram

Antes de falar de racismo reverso,  vá ver os conceitos. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. Logo a nova vocalista da banda Timbalada, pode até ter recebido a carga de  descontentamento dos  seguidores do bloco, por não se enquadrar no projeto, por situações de abuso e desrespeito que esses julgam que os gestores do bloco vem  promovendo.

Mas racismo, impossível! Se tem uma coisa que Salvador/Bahia tem é  generosidade com a  “branquidade”. Vide Daniela Mercury que, na cidade mais preta, já foi “ a cor desta cidade”, sem o menor remorso. Ou  Cláudia Leitte,  que já se reivindicou “nega lôra”.Ambas muito aplaudidas e reverenciadas, mesmo sem saberem de fato o que é ter “a cor desta cidade” ou “ser uma nega lôra”.

Mile Hora foi vaiada por estar totalmente desconexa das simbologias e linguagens do bloco, por os presentes estarem estressados com os valores abusivos e por uma série de fatores que vem fazendo esses se chatearem. Agora, chamar isso de  racismo? PAREM!!!!

Tanto a Timbalada quanto os blocos afro, fazem parte da construção identitária e referencial de um segmento que tem suas relações de pertença construídas via  familiares ou de amizade. Diferente de Ivete, Cláudia Leitte, Saulo e outros que tem seu público formado por uma atuação midiática e conhecimento técnico de profissionais de comunicação.

nova vocalista timbalada
Banco de Imagens

Blocos como Ilê, Olodum, Filhos de Ghandy e Timbalada tem seu público formado de forma geracional. As pessoas que compõem e se conectam a estes, o fazem por pertencimento emocional e familiar, não comercial como muitos insistem em dizer.

Uma pessoa que vai a um destes ensaios há mais de 10 anos, como é o caso dos Timbaleiros, “Olodúnicos” e associados do Ilê ou Ghandy, não tem somente uma relação comercial ou de consumidores ocasionais.

São indivíduos que tem uma relação de identidade e garantia de valores, zelando, inclusive, pelo que consideram tradição e garantia da perpetuação dos valores encontrados nestes.

Mila Hora foi vaiada por não compreender essas nuances. Ela foi vaiada por – como disse uma Timbaleira – “não resgatar músicas femininas adormecidas e cantar um inglesamento louco e sem nenhuma relação com a banda e público”.

Dizer que a branquidade e a condição de não baiana, foram os fatores que fizeram o público da Timbalada vaiar Mila Hora é distorcer uma série de acontecimentos anteriores, nos quais a cor da pele não foi – e nunca será – o central, afinal Amanda Santiago não era negra.

Perdemos Ninha, Patricia e Xexeu (dores de quem perde um membro da família) e ainda assim, estivemos lá. Timbaleiro não gosta que se cante nada que não seja do repertório da Banda, principalmente no primeiro ensaio. E ela pecou feio ao não pisar miudinho e respeitar quem chegou antes dela. Portanto, vamos parar com esse discurso de branco privilegiado que acha que pode tudo e que quando é chateado ou repreendido por fazer besteira, chama de racismo reverso.

Comparar descontentamento comercial com racismo, é covarde, desleal e, acima de tudo, de profunda ignorância. Como profetizou o cacique Brown ainda nos primórdios da banda “Quem manda na mata é Oxossi, mas na Timbalada é cada Timbaleiro que há mais de 10 anos garante que a Timbalada desfile pelo Axé Music, como beldade central e descendente de Yansã Balé.

Luciane Reis MercAfroLuciane Reis é articulista do PortalSoteroPreta, publicitária, Jornalista, pesquisadora de afro empreendedorismo, etno desenvolvimento e negócios inclusivos e acima de tudo, TIMBALEIRA há MAIS DE 10 ANOS.

 

Instituto Mídia Étnica: 11 anos rompendo as amarras do coronelismo midiático


Luciane Reis
Luciane Reis

No momento em que o Instituto Mídia Étnica (IME) comemora 11 anos na luta pelo direito humano à comunicação, eu não poderia deixar de parabenizá-lo e pensar a importância de mídias negras como o “Geledés”, “Portal SoteroPreta”, “A Lista Negra”, “Flor do Dendê”, dentre outras. De Youtubers e influencers digitais como “Tia Má”, “Frases de Mainha”, “Tá Bom pra Você?”, “Muro pequeno”, “PH Cortes”, “Afro e Afins”, e tanto outros que vem dando destaque a segmentos invisibilizados e que sofrem violações na mídia diariamente.

Falar dos 11 anos do IME, é falar da desconstrução da noção de “democracia racial”, igualdade de oportunidades e participação social nos veículos e meios de comunicação brasileiros. É falar de uma disputa cotidiana com uma mídia majoritariamente branca, hétero, católica ou evangélica que naturaliza o sentimento de que negros, gays e mulheres pertencem a grupos “minoritários”, logo, com direitos e referenciais passíveis de serem violados e invisibilizados pelo racismo midiático que conhecemos.

imeReverenciar e potencializar veículos como o Correio Nagô\ Mídia Étnica, youtuber’s e influenciadores negros, é perceber quão primordial é a existência destes na aglutinação, fortalecimento e visibilidade de vozes e temas caros – porém deslegitimados – por uma representação radicalizada e estigmatizadora de parcela da sociedade.

“Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais.

É preciso repensar nossa forma de se comunicar com a sociedade brasileira e, nesse sentido, as mídias negras são uma grande aliada, uma vez que rompem com a cultura de que para ser válido, precisa ser noticiado em veículos legitimados por uma sociedade não negra e que denunciamos todos os dias como promotoras das diversas opressões que nos atingem. Precisamos ser ousados no fortalecimento dos nossos veículos e, principalmente, na produção de conteúdo para esses sites e blogs.

ime2É urgente que nos tornemos a mídia sobre todos os formatos, seja produzindo conteúdo, em páginas pessoais ou compartilhando personalidades e produtos de intelectuais que falem de nós, do nosso lugar de fala ou temas de nosso interesse ou comunidades. Temos uma disputa ideológica cotidiana, logo somos responsáveis pela reprodução positiva das identidades sociais “virtuais” e reais, quando se fala do registro da nossa memória e história nas amplas e diversas redes de mídia.

“Nesse repensar nossa postura com esses veículos, não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós”

ime4É preciso romper com a cultura que vê as mídias negras como uma ação de segunda ou terceira categoria ou, pior ainda, como a alternativa final quando os veículos que legitimamos e reclamamos, não nos aceitam como pauta.

Nesse repensar nossa postura com esses veículos não vejo melhor presente ao Instituto Mídia Étnica e demais veículos negros, do que a sua potencialização por cada um de nós que militamos por um mundo melhor, rompendo assim com parte do ciclo negativo que tanto nos assola. Logo, discutir a ampliação e fortalecimento destes é um desafio a todos aqueles que lutam pela promoção da igualdade – em especial a racial no Brasil.

 

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de desenvolvimento econômico, com foco em afro empreendedorismo e vulnerabilidades periféricas.

 

“Qual África nós pertencemos? Qual África eu posso chamar de minha?”


luedji-luna
Foto: Joyce Prado

A cantora e compositora baiana, Luedji Luna, hoje residente em São Paulo, lançou no inicio do mês o clipe “Um Corpo No Mundo”. Uma travessia em busca de uma identidade. A descoberta de suas origens para identificar qual “África” pode chamar de sua. “Um Corpo No Mundo” é uma canção que nasceu em 2016 a partir do encontro da artista com imigrantes africanos na cidade paulista.

“Eu ficava impressionada com o grande número de africanos que chegavam todos os dias na cidade. O questionamento era forte. Qual África nós pertencemos? Qual África eu posso chamar de minha? Eu acredito que nós pretos da diáspora sentimos uma saudade ancestral. O sequestro se deu de uma maneira tão perversa.” – Luedji Luna. 

“Um Corpo No Mundo” é o olhar da cantora sobre si mesma, além de uma conexão com a ancestralidade. O clipe tem a direção e fotografia de Joyce Prado, da Oxalá Produções. O cenário traz as ruas cinzas da cidade de São Paulo. “Os africanos escravizados tiveram suas vidas dilaceradas. Então o Brasil era o único lugar que poderia chamar de meu, mas não era, porque esse mesmo lugar que poderia chamar de meu matava as pessoas de minha cor. Era, e ainda é, um lugar onda há uma política sistemática de embranquecimento. Um lugar que nega a minha existência”, afirma

luedji-luna
Foto: Joyce Prado

O título da canção também dá nome ao primeiro disco de Luedji Luna, que pretende ser viabilizado por meio de campanha de financiamento coletivo, prevista para ser lançada no mês de janeiro de 2017. A canção foi gravada na Fábrica de Cultura da Vila Nova Cachoeirinha, com produção musical de Sebastian Notini, produtor de Tiganá Santana e do último trabalho da cantora Virgínia Rodrigues, “Mama Kalunga”. O figurino fica por conta do estilista baiano, Issac Silva, que assina figurino de artistas como Elza Soares, Liniker, Tássia Reis, entre outros.  O clipe pode ser conferido aqui. 

 

Ficha Técnica do Clipe

Direção e Fotografia: Joyce Prado

Montagem: Janaina do Nascimento

Maquiagem: Gabriela Gaabe

Coreografia e Dramaturgia do corpo: Luciane Ramos

Assistência de Direção: Pamella Aleixo

Still: Tassia Nascimento

Making Of: Macca Ramos

Figurino: Isaac Silva

Produção Musical/Mixagem/ Sax/Percussão: Sebastian Notini

Masterização: Claes Persson no CRP MASTER

Vozes: Nilce Ramos e Karyne Rosselle