#Ouriçadas – Hereditariedade e herança. Tal mãe, tal filha?


mae e filha negras

Aproveitando esse mês dedicado as mães, vamos tocar num assunto-chave, no processo de reconhecimento de nossa identidade.

Além da genética e toda carga hereditária que nossa família nos traz, em nossa formação teremos também, além de educação, vivência e costumes como fatores cruciais na forma de como definiremos e veremos “o belo” e nossa própria estética. Sem esquecer, é claro, das informações externas que são grandes influenciadoras das nossas conclusões na vida em sociedade.

O fenômeno da semelhança entre os nossos, nem sempre nos garante a elevada e sonhada autoestima. O que de fato irá nos encaminhar para esse processo de auto aceitação e amor próprio serão as contribuições dadas através da nossa vivência social positiva.

mae e filha negras
Negra Li e sua filha Sofia

Sendo herança, o DIREITO ou condição de herdar ou conquistar algo ou alguma coisa, temos hoje um grande legado a deixar para futuras gerações. Uma evolução comunicativa no que diz respeito a propagar o diverso, ao contrário de gerações anteriores.

Sendo nós (pessoas que conquistaram o direito de assumir uma identidade) os vetores de cobrança e ampliação desse espaço, também somos nós que devemos nos colocar como representantes dessa nova, bela e diversificada estética.

Uma nova geração poderá olhar pra trás e perceber no presente uma “beleza” universal, com liberdade de expressão, sem padrões rígidos a serem seguidos, uma significativa herança conquistada e representada.

coletivo cacheadas e crespas salvador

O Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo

#OuriçadAs! – Opiniões pessoais e racismo velado!


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Benny e Jaxyn Harlem (EUA)

Recentemente, em uma postagem dentro do coletivo ‘Cacheadas e crespas de Salvador’ algumas falas nos inquietaram. Um dos membros postou uma foto de um pai com a filha, ambos com o cabelo crespo bem volumoso. O que se viu em seguida foi uma enxurrada de depreciações em relação ao volume do cabelo deles.

Muitas falas nos chamaram a atenção. Mas outras nos incomodaram profundamente. Não pela depreciação em si, mas sim pelo que aquele comentário representava.

Falas como: “ridículo”, “não gostei, é feio”, “Deus me livre de um cabelo desses” etc, nos fizeram pensar como é a relação dessas pessoas com seu cabelo, e, consequentemente, com seu próprio corpo.

O cabelo é, sem dúvida, o elemento mais forte da identidade negra. Mas ele não é a única representação da negritude. O corpo negro é, em sua completude, um símbolo de resistência e também de obstinação. Entender-se negro é conhecer a história.

E mergulhando na história, constatamos que os negros africanos que foram traficados e escravizados no Brasil eram “coisificados” e submetidos às mais diversas formas de castigo; Ainda assim, os negros utilizavam o corpo para diversas formas de rebelião e busca pela liberdade. Esse corpo negro era contestador em sua totalidade: o nariz, a boca, a cor da pele, o tipo de cabelo.

Esses fatores serviram como um parâmetro, o qual o colonizador utilizava para impor padrões de beleza e fealdade que, obviamente, primavam pela brancura. Esses padrões estéticos são reproduzidos até hoje.

Assim, utilizar adjetivos que desqualifiquem o cabelo crespo não é simplesmente expressar a sua opinião. É reproduzir, implicitamente, um discurso racista. O discurso do branco europeu colonizador, do regime escravista. É classificar o bonito como branco, e o feio como negro.

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Benny e Jaxyn Harlem (EUA)

A cor da pele e o cabelo são componentes reveladores do pertencimento étnico e racial do sujeito, pressupostos no combate ao racismo e aumento ou diminuição da autoestima das pessoas.

A batalha contra o preconceito deve começar por nós, em policiar os nossos discursos. Nessa perspectiva destaco com veemência a palavra aceitação. Mas de um modo geral, consigo mesmo e com o outro. A autoestima se constrói no contato e com a validação com o outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

coletivo cacheadas e crespas salvadorO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

#Ouriçadas – ENTRE MUITAS PAGUS: feminismo, gênero e sexualidade


cacheadas e crespas ouriçadas

Os estudos feministas, ao incorporarem as categorias de gênero, forneceram um instrumento capaz de questionar em todas as esferas da vida, os padrões que definem o que significa ser mulher.

Desconstruir essas categorias mostra que, tanto homens quanto mulheres, aprendem a ser e viver como tal a partir de um conjunto de informações, normas e regras de comportamento que definem os papéis de gênero.

Desta forma, permitiram visualizar as conexões estabelecidas entre sexo (o dado físico-biológico) e gênero (o dado social) sem, muitas vezes, questionar a relação natural estabelecida entre esses dois e o dado sexual (a sexualidade), mantendo uma suposta orientação lógica do desejo ao “sexo oposto”.

#Ouriçadas – Upload Representatividade

Somos menos mulheres por gostar de outra mulher?!

Somos menos “femininas” de acordo com a orientação sexual?

cacheadas e crespas ouriçadas

 

Essas corelações são sempre estabelecidas como padrão, quando a resposta das perguntas é um preconceituoso “sim”. Nossa sociedade tem uma CLÁSSICA idéia de feminino na cabeça: delicadeza, beleza, maternidade, e isso não pertence somente à mulher, assim como a força e a coragem, associados ao masculino, não pertencem apenas a esse gênero.

Minha força não é bruta

Não sou freira, nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem…”

Ouriçadas – Quem ou o quê é bonito nessa cidade?

 

cacheadas e crespas ouriçadasAs pessoas assumem diversas posturas diante da vida conforme o seu desejo e necessidade, e não precisam se limitar a tabus.

Lembrando que aquém de todas as cobranças, ainda temos que manter uma aparência e postura estabelecidas como um padrão social: de uma mulher bonita, maquiada, “bem cuidada”, impecável… (Bela, recatada e do lar)

A verdade (a nossa, pelo menos) é que ser mulher é – além de uma transcendência – uma construção. Bastante onerosa, sobretudo quando se avalia todos os muros que precisam vir abaixo e pontes que precisam ser construídas.

 

Entretanto, ser mulher é, antes de tudo, um privilégio. Para quem discorda, uma pergunta: Além do clichê divino da geração da vida, que outro ser carrega consigo (des) equilíbrio, força e doçura, paz e inquietude, amor e sossego, calma e alma?

 

Somos muitas, somos tantas. Somos únicas. 

 

coletivo crespas e cacheadas

 

A Coluna Ouriçadas é assinada pelo Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador

#Ouriçadas – Upload Representatividade*


representatividadeO que coça o nosso queixo quando falamos de representação de beleza? (vamos ponderar..é a representatividade na beleza mesmo que estamos buscando?)

Tipos e estereótipos negros espalhados pela mídia (TV aberta ou fechada, cinema, comerciais, teatro, revistas, outdoors, etc)? (é uma pergunta?)

Esqueça a barraqueira, a versão nua da Globeleza, a rainha de bateria ou a “mulata” arrasa quarteirão. Estes estereótipos comuns para as mulheres negras não representam, em absoluto, tudo o que somos. Em tempos de Gabriela Flor, Viola Davis, Michele Obama, Beyoncé, Miss Raíssa Santana…já podemos mesmo comemorar? Chegamos onde queríamos?

Se compararmos o atual cenário com o que há alguns anos era mostrado, avançamos, mas não podemos parar. É muito pouco colocar uma de nós em um comercial e achar que a “cota” foi cumprida.

Precisamos – e exigimos – representatividade dentro das organizações, concorrendo em seleções, trabalhando criativamente, ocupando posições de poder. Sendo a sociedade tão múltipla, se esta diversidade não alcança as muitas áreas, os vários níveis, alguém está sendo prejudicado, alguém não alcançou estes locais. Ah, e por favor, nos poupem dos padrões!

Será mesmo que não somos suficientemente bonitos? Por isso não nos mostram?

Será mesmo que não somos suficientemente qualificados? Por isso não nos empregam?

Será mesmo que não somos suficientemente capazes? Por isso nos restringem?

representatividade

Talvez a lógica excludente do mercado seja: aquilo que eu vejo não é aquilo eu sou. Se o que sou não é mostrado, só pode ser feio. As nossas crianças negras não podem ser formadas dentro desta argumentação fútil e, ao mesmo tempo, cruel.

Desenhos, novelas, séries, comerciais não podem continuar a colocar na vitrine a raça branca, apenas. A protagonista, a super-heroína, a boneca, a referência não pode ser mais apenas branca. Por muitos motivos….e o mais rasteiro deles é por sermos um país e um povo diversos.

Identidade negra fortalecida nas mídias é crucial e urgente. Representatividade negra é construção para muitos espaços. É tijolo e cimento para mais Obamas, Martins, Zezés e Elisas. Fomentar a representatividade é como reconstruir e recriar, simbolicamente, a identidade e a história. É reescrever os traços da beleza usando outras cores, outros elementos, outros alicerces.

É deparar-se com a colheita das sementes de outrora e dar a ela o tratamento que a transformará, de dentro para fora, em um incontestável exemplo de beleza…e de grandeza!

“A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade”

Viola Davis

viola davis

*Upload – ato de enviar uma informação / Representatividade (subs. fem.) – qualidade de representativo; qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome.

Fotos: Banco de Imagens

coletivo crespas e cacheadasA Coluna Ouriçadas é assinada pelo Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador.

Ouriçadas – Quem ou o quê é bonito nessa cidade?


Crespas e Cacheadas“Qual a cara da beleza?”, ou melhor, “O que é beleza?” Ou ainda, “Quem ou o quê é bonito nessa cidade?”. Neste espaço “Ouriçadas”, queremos refletir sobre a complexidade e o conflito do “belo”, em uma cidade que apesar de sua maioria negra, nem sempre tem sua beleza representada.

Buscaremos uma revalorização deste conceito, que por vezes insiste em nos incomodar. Inevitavelmente, falaremos de ancestralidade africana, identidade negra, reconhecimento racial e de uma estética própria. Entenderemos e discutiremos o contexto deste novo levante de empoderamento e aceitação – e o quanto isso incomoda alguns.

Onde o cabelo e o corpo são pensados como cultura, sendo suportes para uma nova construção histórica, social, política e econômica. Juntxs enfrentaremos os padrões de frente, afirmando nossa auto identificação e politização. Entenderemos/explicaremos generalizações e comportamentos estabelecidos historicamente pela sociedade e hoje amplamente contestados por todos nós.

Cacheadas e Crespas de Salvador

O Grupo Cacheadas e Crespas de Salvador acredita na beleza como essência e defende essa causa. Por termos visto tantas belas personalidades ressurgindo depois de anos de sofrimentos, alicerçadas na segurança e na força que toda decisão maturada proporciona, escreveremos em conjunto. Para que os textos sejam sempre mais fortes e tenham diferentes pontos de vista. Este espaço no Portal SoteroPreta será o  “OURIÇADAS”

 

O que passa pela sua cabeça? O que ouriça o seu pensamento?                                    Queremos respostas, queremos soluções, mas não esperaremos sentadas de braços cruzados. Vamos buscar, vamos à luta, desejamos um mundo melhor e faremos a nossa parte!  #NenhumPassoAtrás

Cacheadas e Crespas de Salvador
Ana Paula Couto, Fernanda Borges e Sâmara Azevedo.

O coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador é um grupo formado nas redes sociais em 2014, contando hoje com mais de 80 mil membros.

Os textos da coluna “Ouriçadas” serão uma produção conjunta entre algumas de suas moderadoras: Ana Paula Couto, Fernanda Borges e Sâmara Azevedo. Acompanhem, sugiram temas pelo email [email protected] ou lá no Grupo do Facebook

 

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Confira aqui suas contribuições.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

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Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

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hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.
suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

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coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

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ricardogonzagakaiala

 

Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

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josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

Confira aqui suas contribuições.

 

Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

Confira aqui suas contribuições.