#PoesiaSoteropreta – Riick Lima, a voz contra a homofobia e a intolerância religiosa!


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Riick Lima é o nome social que Rian Henrique Lima usa nas redes sociais, e para se identificar como um poeta da quebrada. Ele se define como um jovem bem extrovertido, brincalhão e que luta pelos seus direitos, em busca de quebrar tabus e preconceitos.

Sua inserção no mundo poético foi iniciada em 2016, exatamente há um ano e as temáticas que aborda são várias, recorrentes, e que dizem muito de sua identidade na poesia: negritude, homossexualidade e intolerância religiosa.

Claro, os limites da escrita de Riick não estão todos aí. É somente o início de uma jovem e promissora carreira na escrita.

Como ele mesmo revela, “minha poesia é meio para conscientizar as pessoas e quebrar tabus sociais e familiares”, eis a deixa dos caminhos que sua inspiração pretende. E olhe que não há campo mais fértil para a inspiração, pois, em se tratando de barreiras, o nosso país, nos temas citados, é um dos mais injustos e reincidentes em tratar mal sua população.

 

Claro, o desejo do poeta não é se perpetuar nem que as intolerâncias permaneçam. Suas musas e musos migram e transmigram, e assim deve ser, para melhor, sempre. Mas enquanto houver qualquer resquício de desigualdade, ele, Riick Lima, estará a postos para combater, denunciar.

E tem dito e agido em saraus e encontros de luta. A expressão de Riick é coletiva, e luta por direitos individuais e da população, e suas armas são caneta e papel. Dança é outra arte que lhe move, sempre em busca de ocupar espaços que lhe são negados, e que são negados à grande parte dos habitantes das cidades brasileiras, principalmente para jovens negros e moradores das periferias. Sua luta, é, portanto, coletiva.

 

Riick_Stiller_06

Aliás, a poesia de Riick tem tudo a ver com coletividade, família. “A poesia e os poetas são uma grande família e reúnem várias outras pessoas, que, juntas, lutam por vários objetivos, querendo, assim, quebrar vários preconceitos”, convoca.

 

Um poema:

Fobia, já vi de várias pessoas, escuro, altura

a mais nova é de cultura

aonde a arte está sendo cassada

por uma sociedade que vem armada:

de palavras, covardia e comunicação

aonde a violência sempre passa na televisão

aonde também informou a mais nova lei, que sou doente por ser gay

tá bom, ser gay agora é doença

daqui a pouco vai ser minha cor, meu cabelo, minhas crenças

aí cê pensa

a sociedade prega igualdade e respeito

mas não te dá o direito de amar e ser amado

amar? menos se você for viado

é meio engraçado

ver toda sociedade testando criar uma cura favorável, para uma coisa incurável

aonde o padrão é clarear eu prefiro escurecer

se esse ditado certo

que tal clarear a mente da sociedade para ela perceber, que não há diferença entre eu e você

com esse mesmo assunto, mesmo ranço

porque na telinha existe um conto de fadas e uma menininha no balanço

enquanto para eles existiu magia

para os meus antepassados o mal agia

e até hoje eu sinto essa dor

 

aonde eu luto sem cessar

para minha brisa não acabar

porque eu fumo palavras

que te atingem como rajadas indo no seu subconsciente

minha fumaça? são os versos

que te revira do certo ao inverso

e meu trago? meu trago é a inspiração

aonde eu levo informação aos irmãos

divulgando meu trabalho de busão a busão

trazendo o caminho da cultura, tirando eles da prisão

aonde sempre canto com alegria

e digo não

à homofobia

#PoesiaSoteroPreta – A poesia-liberdade-libriana Larissa Barros!


Larissa_Barros-poesia_soteropreta

Larissa Barros escreve pequenos poemas desde a adolescência, mas somente há cerca de três anos, confessa, passou a vivenciar a poesia como uma arte potencial de expressão. “Escrevo majoritariamente sobre amor e questões de gênero e desejo expressar o que sinto e penso, assim como despertar no outro as suas próprias reflexões”.

 

A arte da palavra lhe toma por inteira. “A poesia pra mim é como falar, andar, respirar. Faz parte do meu ritual de vida. Vejo poesia pela janela do ônibus, em todo canto. Ela é instintiva, involuntária, pode brotar de todo lugar. Gosto de utilizar algumas figuras de lingaguem, como a personificação e anáfora. Não existe uma intenção exatamente, mas essas figuras me auxilam a transmitir a minha mensagem”.

 

A poesia de Larissa dialoga e rima com família, quando família representa acolhimento, segurança e liberdade; rima, sobretudo, com qualquer espaço de diálogo e libertação do pensamento. “Se não tiver isso, acredito que não pode rimar com família”, sussurra.

 

Além de poemas, Larissa se aventura, também, pela prosa, e diz que já escreveu alguns pequenos contos, mas ainda está em processo de identificação com essa linguagem. Apesar de usar as redes sociais, prefere não se divulgar como poetisa nestas plataformas. Prefere outros suportes, como declara: “Publiquei uma fanzine como trabalho final de um componente curricular no curso que faço na Ufba, na qual coloquei três pequenos poemas”.

 

Em suas próprias palavras ela tenta se resumir: “falar de uma libriana clássica como eu não é facil. Sou a mistura de muita coisa e não me envergonho disso. Não gosto de ser encaixada em quadrados e me dou a oportunidade todos os dias de mudar os meus pensamentos. Acho que essa é a minha marca maior, essa capacidade de me refazer sempre e não me sentir obrigada a manter sempre a mesma linha de pensamento. Acho que o segredo pra viver nesse mundo louco está na renovação diária”.

 

SEM ESCAPATÓRIA

 

Em todo o meu percurso,

Em cada canto deste mundo

Mundo insano por sinal

Não encontrei quem tenha escapado

De um grande amor

Tão pouco ter saído ileso dele

Espontâneo como criança

Leveza de um passarinho

Perspicaz, rápido, voraz

Há quem o chame de paixão

Loucura, cegueira, desejo ou tesão

Fica a vontade, a mercê e a toa

Chame do que quiser

Quantos apelidos couber

Só não se negue e nem recue

Não gosta de ser rejeitado

E não se faz de rogado

Mas sem dúvida

Seu lugar, seu porto, seu chão

O lugar para onde sempre volta

É o repouso tranquilo

Na letra da canção.

#PoesiaSoteropreta – Indemar Nascimento, poesia de carne, osso e pulsação!


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Indemar Nascimento escreve desde 2011, pretende levar mensagem e virar espelho pra sua comunidade e todas as perifas, e declara: “minha escrita não é a que seja preferida, mas necessária, racial e social”. Indemar se identifica tanto com a poesia, que se enxerga como uma poesia, de carne, osso e pulsação:

“Eu costumo dizer que eu sou a poesia; então, ela não é o que pra mim e sim eu sou ela”. As referências para escrever vêm de filmes, escritores, pessoas que são referências pessoais e para a humanidade. Seus textos trazem a intenção de conscientizar e fazer a perifa entender e passar a questionar sobre tudo que acontece ao redor: racismo, homofobia, machismo, genocídio.

A poesia de Indemar Nascimento não se escreve somente nos papéis, nas folhas de caderno, na tela de um celular ou computador. Ele encarna poemas em seu próprio viver diário, como dito anteriormente: Ele é a poesia.

indemar_nascimentoE essa poesia também se revela na capoeira, luta ancestral que dá início a todos os seus questionamentos. É através da capoeira, também, que Indemar tira exemplos e passa aos alunos: recortes, história, ancestralidade sobre de onde eles vieram, os porquês de onde eles estão.

Poesia são pessoas e pessoas formam a família real de Indemar.

“Na real, família pra mim foram pessoas que encontrei no andar da minha vida. Poesias que se modificam; algumas dessas pessoas/poesias não estão mais aqui, mas continuam poesias, virando poesias”. E exemplifica: “Sant em uma música diz “no rap prega família, mas a nossa de sangue nem existe”. Família pra mim são pessoas que te fortalece e muitas das vezes não significa que será encontrada em casa”.

A música é outro espaço que abriga o poeta. Suas incursões no universo do RAP estão nas redes sociais, em CD, EP etc, plataformas que funcionam como braços e pernas do jovem artista da palavra. Na caminhada cultural e poética, Indemar marca seu espaço na cena da poesia, e emociona quem o conhece. A potência de sua palavra está em todas as quebradas, desde a Baixa da Soronha, onde vive, no bairro Itapuã, a Sussuarana, Vila Verde (Estrada Velha do Aeroporto), Olaria, (Nordeste de Amaralina), enfim, por toda a cidade.

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Nos Slams e saraus de Salvador, ele é marca registrada e, em uma batalha emocionante no Slam BA realizado em Sussuarana, Indemar ficou classificado, juntamente com Juh França (Coletivo Zeferinas), como representante da Bahia para disputar o Slam BR em São Paulo – entre os dias 14 e 17/12.

Na literatura, foi classificado e teve um poema publicado pelo “Prêmio Galinha Pulando de Literatura – 2015”. Estas conquistas servem de incentivo para continuar: “me fazem sentir que isso não é em vão. Tento buscar o que possa ser melhor pra nós”, resume.

Pior que não sei…

Hoje olho pra minha velha, me sinto um merda, quantas quedas
planos, a geladeira vazia e eu me fudendo aos 23 anos
sentado no canto, pranto, pratos quebrados
aprendi que esse ditado não é pra peri: “colhemos o que plantamos”
eu sei que não sou desse mundo, meu coração anda podre demais mesmo sendo puro
olhar vendo pessoas não enxergando a dor do outro. Onde chegamos ? me diz…!
na diáspora, campo de pólvora. Os do lado de cá chora
escondem a neblina de dentro sorrindo pra fora
mãe África implora, vários tirados do ventre, do berço
o barranco desliza, fé, lágrimas recomeço
Se Deus existe será que ele não erra? A divisão foi injusta. Desculpa esses gritos
os suspiro de  um filho que nem sabe se tá sendo ouvido
carrego o peso do mundo nas costas, isso me fode literalmente
uma chance de frustrar literalmente em mim quem aposta
vivemos no inverno, constante
será que tudo mudou, ou apenas que cresci e não via a beleza como via antes?
daqui pra frente carrego o meu próprio peso. Sem machucar mais ninguém pelo que me tornei
toda vez que eu caí, foi pros braços seu que retornei
quantos questionamentos, quantos momentos
das minhas dores?? Só sei que tudo sei!
será que até nisso errei?

Indemar Nascimento

Texto de Valdeck Almeida para a coluna #PoesiaSoteropreta. Confira mais aqui!

 

#PoesiaSoteropreta – A transcendente poesia de CR Moska! – Por Valdeck Almeida


CR_Moska

CR Moska escreve desde o início da década de 90, quando começou misturando temas sociais com existenciais mas, hoje, diz: “cada vez mais amplio e agrego novas possibilidades poéticas sem perder as abordagens anteriores”.

O poeta foi o criador do extinto grupo poético musical “Prazer Atômico”, que fez dezenas de apresentações em recitais poéticos. Através deste coletivo, ele publicou seu primeiro zine poético literário em 1997, homônimo. Desde então participa, organiza e colabora com recitais poéticos do universo poético/literário soteropolitano.

Em 2009, iniciou mais um projeto poético intitulado “Páginas de Concreto”, que levou às ruas de Salvador pequenos poemas, no estilo haikai, com objetivo de estabelecer uma relação direta com as pessoas no ambiente urbano. Também participou do projeto “Poesia em Trânsito” como poeta, fotógrafo e vídeomaker. Atualmente, trabalha na finalização como diretor e editor do DVD “Poesia em Trânsito”. Em 2015, CR Moska recebeu o  prêmio de melhor vídeo-poema com o trabalho “Aqui Começam Minhas Palavras”, no Festival FENAPO 2015.

Em 2010, começou a produzir, dirigir e atuar em vídeos-poemas que estão disponíveis na internet. Possui um blog que agrega toda a diversidade das suas criações, como poemas, foto-poema, música, poesia e vídeo-poema.

Mesmo com uma atuação diversificada na cena artística de Salvador, CR Moska considera a poesia, “antes de tudo, para mim, uma forma de transcendência, ou seja, eu a uso como uma forma de desabafo, conforto, de prazer, de brincar com as palavras, de reagir e protestar contra as coisas que incomodam, frustram…”

A poesia é algo indefinível para CR Moska: “Nunca soube bem definir o que é poesia, mas fiquei satisfeito com alguém – que já não recordo quem -, que a definiu como uma forma de resumir tudo…”.

CR Moska deixa bem claro sua maneira de poetizar: “Eu nunca fui um poeta metódico, nunca medi ou pensei a poesia como algo que se pode meticulosamente planejar, ter métrica, versos rígidos, sentido combinado ou qualquer interpretação confabulada; portanto, não uso recurso, escrevo de forma intuitiva e sem nenhuma pretensão de sofisticação literária, tampouco domino a gramática…”

Mas é consciente do papel deste gênero literário em sua vida. Segundo Moska, a poesia está em todas as áreas de sua vida e, materialmente, não o levou a lugar algum, mas o cercou de amigos, cúmplices e companheiros das palavras. “Me tirou a solidão, as dores do mundo, os infortúnios e as coisas que transcendo quando escrevo…”, confessa.

Um Pequeno Saldo Positivo na Bolsa de Valores Emocional

O mundo se move com cifras milionárias.
Quantias e números que fazem brilhar.
Os olhos frios da opulência.
E os que fazem de sua conta bancária.
Uma forte razão para existir.

Eu com meus pequenos pormenores sentimentais.
Com uma insignificante quantia de moedas no bolso.
Sou obrigado a aprender tirar “leite de pedra”.

Foi um dia tão monótono e desastroso.
Faltavam flores e algo que me resgatasse.
Daquela sensação impiedosa de derrota.
Mas o destino não é tão desumano, cruel e avarento.
Às vezes, em meio a tantos infortúnios significativos, ele me presenteia.
Com pequenos e sutis gestos de misericórdia sentimental.
E me favorece na bolsa de valores emocional.
Com um ridículo e positivo saldo de alegria.

Eu preciso de pouco.
Ou quase nada material para viver sossegado no meu canto.
Conformo-me com uma aparição repentina.
De alguém especial e cativante…
E não há nada mais relevante e gratificante.
Que ganhar de bom grado um largo sorriso sincero…
Para ter alegria, alegria, alegria.

CR Moska

#PoesiaSoteropreta – Milica San: Filha da poesia e da filosofia! – Por Valdeck Almeida


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Jamili Soares (Milica San) escreve desde os 11 ou 12, “pequenas coisas nos diários, coisas que realmente aconteciam. Começaram a mudar quando passei das ‘coisas que realmente aconteciam’, para ‘coisas que realmente poderiam ter acontecido”, fantasias, o Mundo de criança, um mundo de Possibilidades”.

Aos 15 anos Milica meteu a ideia na cabeça de escrever um romance, cujo título era “E a Vida Real?”. Saiu dos sonhos, das utopias e das inocências infantis: “Tudo o que estava escrito nele não se parecia em nada com o que conhecemos sobre o assunto”, deixa escapar.

E a evolução continuou: vieram os estudos em Filosofia; A vida, a obra, as ideias dos grandes filósofos e uma paixão por Conhecer, fervendo dentro da poetisa. “O contato com a Filosofia fizeram as coisas se arrumarem; Permitiu a síntese entre realidade e fantasia”, divulga Milica San.

A temática é variada e a inspiração vem do que Milica San consegue ver de olhos fechados: O caos. A fuga do caos. Drogas, sexo, amor e Rock n’ Roll. O porre de todos eles juntos. A saudade e a morte. O outro. E ela dá uma dica: “Escrever sobre o Outro na perspectiva de meu semelhante, é pensar em mim como uma grande vilã, ao culpar O Outro pela dor da vez”.

A poesia de Milica San não foi feita para ferir ninguém, como ela mesma diz. “faço-a para curar. A mim mesma. Tenho um cuidado muito grande com isso”. E sua poesia é uma miríade de aconchegos, é moradia, é motivo para ser bruxa, flor, Deus, ou o nada absoluto. Mas ela não se limita aos poemas. Passeia pelo mundo da música, criando, cantando, misturando, aprendendo instrumentos, fazendo uns barulhos, tudo na tentativa de se encontrar nos olhos do outro. E, nesse jogo, ela se vê nos olhos dos amigos, irmãos reais ou fantásticos.

Seus textos podem ser lidos no Facebook na página “Os Vinhos deste Mundo”, além de alguns livretos, pequenas doses de suas poesias para as ruas. Tem, ainda, “A Angústia da Página em Branco”, publicado pela Antologia Galinha Pulando e mais textos publicados na Revista Òmnira.

 


O último Outono durou mais que o possível.
Está durando, sem previsão de fim.
Estou amando,
aceitando, sem dizer “sim”.
Entregando a parte de mim
que também é tua.
Preferindo morar em Ti
quando posso escolher qualquer lugar de rua.
O primeiro Outono está durando.
A primeira noite em que brincamos
entre risos…
Primeiros e últimos sons
deste amor que nasce, cresce,
reproduz e move.
Reajo muda, quieta,
miúda, imóvel.
Aceito sem dizer “sim”
Sem forças pra te negar
mesmo num balançar de cabeça.
Esqueça! Acho que há algo errado em minha autodefesa.
Deve ser o tempo,
e a tempos desejei fraqueza.
Precisar de um cuidado especial,
como o das crianças.
É que ser forte demais,
às vezes cansa.
O último Outono durou mais que o possível.
Está durando.
Você promete me dar de lembrança
qualquer coisa com o seu cheiro,
qualquer coisa com o seu jeito
se por descuido permitirmos a chegada do inverno?
Que inferno!
Não quero nem pensar nisso…
Eu Renasci no Outono

Milica San

#PoesiaSoteropreta – ThiZion é o poeta da literatura social e existencial!


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Thiago Ribeiro é graduado em Comunicação Social pela UNEB e participa atualmente do Coletivo de Arte/Cultura popular ATUAR e da Associação Cultural Comunitária Odeart, sediada no Cabula. Mais conhecido como Thiago Zion, ou ThiZion, ele escreve desde muito novo: “lembro que por volta dos 13 anos já arriscava as primeiras linhas.

Bebi desde cedo de literatura brasileira e americana e isso foi um fator aditivo pra me auto expressar através dos versos”. E ele se pergunta: “o que será que ela (poesia) pretende comigo?”, e já engata uma resposta: “A poesia para mim é uma forma de dar flores e gritos ao mesmo tom. Pretender algo no sentido teleológico, soa limitante pra tratar a desmesura do fazer poético. Mas o que todo poeta quer, é se expressar, traduzir em signos verbais essa complexidade, esse espanto que é existir”, filosofa.

O compromisso de ThiZion como escritor é trabalhar para ver mudanças, mesmo que mínimas. Afinal, “são 517 anos de saques e anulação, não veremos a coisa mudar da noite pro dia, mas já notamos diferenças nessa geração. Minha bandeira é a da literatura social e existencial. Sou um grão que acredita que podemos nos humanizar mais, denunciar as mazelas sociais e anunciar o novo mundo de maior igualdade entre os(as) sujeito(a)s e respeito às diferenças individuais”, comenta.

Zion, tem a poesia como ritmo, sonoridade, sem necessidade de rimar, com um tom musical ao ser falada, declamada. Em suas apresentações, o poeta usa recursos internos para ‘ritmizar’ o texto, como palavras da mesma família sintática, com morfologia semelhante.

Mas quem pensa que isso significa hermetismo, preciosismo, está enganado, pois o poeta desliza como muita facilidade em sua inspiração e trabalho poético: “sou fã do verso livre, já vivemos em muitas micro-celas sociais (ideologias, carências materiais, opressões) pôr o verso em mais uma gaiola é limitar sua força e possibilidade de expressão. E como já dito, a poesia é uma ferramenta, um meio para a modificação de consciências”.

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Para além da estética e da prática da arte, ThiZion tem muita consciência de seu papel social. Para ele, “a poesia é uma ferramenta para emissão de mensagens e eu a uso de forma a passar mensagens reflexivas, sobretudo em questões sociais”. Para ele, “um verso pode fazer uma pessoa mudar de rota, mudar a condução de sua própria vida e a arte tem esse poder de chacoalhar as pessoas em vários níveis (mental, emocional, energético, etc)”.

Tem textos publicados em papel: em 2012, publicou numa antologia poética da editora VIVARA, a nível nacional;E começou a fazer o exercício da auto publicação em livretos autorais. Já publicou umas quatro edições, sempre com temas específicos como as “Outonais”, com textos mais existencialistas.

Thi Zion acredita que o mercado editorial é muito fechado à poesia periférica, e defende que a produção autônoma é bem cara. “É caro editar uma obra do próprio bolso, por isso nos reinventamos e produzimos do nosso jeito popular”. Mesmo sabendo das dificuldades de publicação, ele prefere não explorar muito as redes sociais por preferir espaços menos turbulentos. Publicou no Recanto das Letras mas deixou de lado. Prefere o face-to-face mesmo!

Sonhos redivivos

Matam-se sonhos feito formigas.

Nós somos os primos pobres da “evolução”,

repletos de nãos, dias medonhos

e barrigas vazias.

Matam-se sonhos na caneta, na promessa,

na escopeta de dias de melhores.

E os preços dos pães, arroz e feijão

a cada dia maiores.

E os sonhos mortos, vão embora sem expressão.

E as noites piores nos avisam que não há amanhã…

A não ser pela união, irmã, irmão, de nós, dos nossos,

fechando os poços abertos pela polícia, pela política,

por essa espúria pátria homicida.

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa!

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa…

Mas não vamos chorar, vamos lutar até a última gota

de dor, suor… e Amor.

Thi Zion

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Lidiane Ferreira: poesias desenhadas na imaginação! – Por Valdeck Almeida


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Lidiane do Espírito Santo Ferreira de Jesus, ou Lidiane Ferreira, não escolheu escrever sobre a temática negra. A Literatura que lhe escolheu, inclusive a forma, o gênero e o assunto, fruto, inclusive, das discussões que seus textos suscitavam. Desde sempre! A infância lhe traz lembranças dos diários cheios de ficção e dos desenhos “com vida”, fruto de muita imaginação.

O lugar de mulher negra é a vertente de sua produção atual, fruto de seu ingresso na Universidade Federal da Bahia – UFBA, e, consequentemente, depois do contato com as literaturas afro-brasileiras e africanas de língua portuguesa; e, em especial, com a sua construção identitária. Segundo Lidiane Ferreira, sua escrita foi, por muito tempo, “uma rota de fuga do racismo. Hoje, ela é o símbolo da minha luta contra o racismo, o machismo, o sexismo, dentre outros fatores discriminatórios de nossa sociedade. A minha escrita resiste a tudo isso, mas também serve de seta, apontando novos caminhos”.

Esta sua descoberta e militância literária, entretanto, não afloraram tão facilmente. Para Lidiane, “O racismo fez com que, por muito tempo, eu escondesse a minha escrita. Faz cerca de dois anos que eu os divulgo. Tenho poemas publicados na Antologia Poética do Servidor Público Estadual (2015) e no livro Enegrescência Coletânea Poética, publicado pela Editora Ogum’s Toques Negros (2016)”.

Lidiane se considera uma poetisa que escreve a partir do silêncio, do isolamento. Além de poemas, escreve contos e tem um romance em construção, e se declara amante de teatro, com planos de fazer um curso, mesmo que amador. Com temática diversificada, o que escrevia durante a infância era o cotidiano e o universo familiar. “Lembro que eu utilizava muito as características da minha irmã mais velha, Paloma, nos personagens.

Durante a adolescência, consigo perceber os reflexos do racismo em minha escrita, pois a maioria dos poemas continha temas como a morte, a solidão e a perda”. Com a entrada na Steve Biko, a inspiração se redirecionou. “O meu ingresso no Instituto Cultural Steve Biko não apenas me preparou para o vestibular, mas para a superação e o enfrentamento ao racismo. A Biko pôde me mostrar que há outras possibilidades para uma mulher negra e pobre como eu”.

Lidiane Ferreira sempre usou a Literatura como refúgio, não para se esconder, mas para explorar e expor tudo o que lhe consome, intriga, incomoda. Ela versa sobre o lugar da mulher negra na sociedade, sobretudo no que tange às várias sexualidades. Para além de aconchego, ela se utiliza da produção artística como arma, intencionalmente, como ato político, para retratar as vivências do povo negro mas, principalmente, para influenciar mudança social.

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Isso resultou no coletivo Enegrescência, criado com amigos, cuja busca é apresentar e divulgar as literaturas afro-brasileiras e africanas, de forma não hierarquizada. Lidiane acredita que “a literatura é um fator relevante para a mudança social”. Fruto deste trabalho em conjunto, nasceu uma coletânea poética, da qual Lidiane Ferreira participa, também, como escritora.

A poetisa Lidiane Ferreira se auto define: mulher negra, bikuda do ano de 2010, periférica, feminista, graduada em Letras Vernáculas, e pós-graduanda em Educação em Gênero e Direitos Humanos, ambos pela Universidade Federal da Bahia – UFBA; uma jovem escritora de literatura preta.

 

 

 

 

 

Desenlace

No emaranhado dos fios o tempo,

pentes desembaraçam nós.

E eu rio

escorrendo maçãs

abaixo

Estiagem: trinco nunca mais aberto.

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Carlos Leleco: o poeta dos muros grafitados e das redes sociais!


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Desde 2013, Carlos Leandro Pinheiro de Souza, o Carlos Leleco, é o corpo que transmite a língua do povo, aqueles poemas, causos, escritos populares, com o sotaque próprio de quem nasce e vive uma vida simples. A atuação de Leleco, para além da propagação da poética roceira, tem a arte da performance e da escrita como meio para alimentar a alma e propiciar o seu crescimento como escritor, com vários objetivos, dentre eles “passar mensagens contra qualquer tipo de discriminação, preconceito e abuso de gêneros e a valorização da autoestima negra”, diz o poeta.

Para Carlos Leleco a poesia é uma das armas mais eficientes para a reflexão das questões raciais que nos rodeiam. E não é à toa que o poeta sai por aí, como um cavaleiro andante, com a espada-poesia em uma mão e a rima certeira na outra. Suas atuações são marcantes e marcadas pela cadência do verso, do movimento, da expressão séria e sisuda, se a poesia assim exige, mas, também, de um jeito maroto, quando o texto é mais faceiro e despretensioso.

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Mas não só de poesia vive o poeta. O grafite também é outra arte que ele carrega na tinta, só Deus sabe por onde ele anda, sobe, desce, para conseguir uma boa tela para expor seus talentos. Além das paredes e muros, onde deixa sua marca de spray, Carlos Leleco se equilibra, também, nas redes sócias (com a linguagem do matuto prosador), postando poemas sem rima, por escolha e licença poética. O fato de não rimar, por opção, não significa descompromisso ou desconhecimento, é pura escolha, mesmo. As escritas, no entanto, se situam num espaço, tempo e intencionalidade, como ele frisa:

“Nas intenções, existe sempre o cuidado e cumplicidade entre aquelas pessoas que se gostam. É aquela que se cuida e que mesmo magoando, exorta sua irmã ou seu irmão para uma melhor conduta social”. Numa autocrítica, o poeta não poupa sinceridade:

“Sou uma pessoa agradável, inquieto e um tanto cuidadoso(chato) para as questões raciais. Não aturo tudo, nem concordo com tudo o que o próprio povo negro tem como verdade. Afinal de contas, quem escreve ou divulga algo precisa ter o cuidado com o seu ponto de vista, algumas pessoas têm determinadas ideias como verdades”.

Jardim da Vida

No jardim da vida
Topamo um monte de flor
A deixar seus aroma ao vento
Quando por uma dessas fragrâncias somos atingidos
Ficamo tingido
Ao ponto de, mermo distante,
Sinti o exalar da vida
Invadir nossos pensamento
Aí então,
Nesse momento nos encontramos regozijados
A saborear desse tal perfume
Essas essências
Afirmo
Jamais sairão de nossas mentes.

(Carlos Leleco)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteroPreta – Julianx França Lima: A Poeta das quebradas!


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Julianx França Lima: A Poeta das quebradas, conhecida como Juh França, escreve desde que se entende por gente. Em tenra idade, a menina já tateava nas letras, e foi evoluindo, chegou a incluir nos textos análises sobre fatos históricos e, a partir daí, a poesia marginal cruzou seu caminho. A descoberta de um novo horizonte na arte de escrever. A própria Juh reconhece a força do gênero na sua atividade literária:

“Desde então não me separei mais” (da poesia marginal), assume!. E continua: “A poesia é a minha forma de transcender os meus; quando recito, levo comigo uma legião. A minha escrita blasfêmica é pra apontar e denunciar toda a opressão e sofrimento vividos principalmente por mim e pelos meus”, conclui!Juh_França

Juh carrega em si o significado de viver por si e pelo coletivo. Segundo ela, as lutas diárias, suas e de seus pares, principalmente da galera esquecida pela “cultura”, é que dá o tom e a inspiração para sua resistência na poesia. E é por meio da arte que ela demonstra, claramente, que a luta poética é persistência, e que jamais haverá desistência.

Para a poetisa, a poesia é a própria essência de sua vida, sem a qual ela declara não ser ninguém. “Sem poesia eu não sou nada nem ninguém, poesia é vida”, resume Juh França. A luta pela sobrevivência é a prática da poesia, na carne e na alma, por isso Juh se define como arte por inteiro. A escrita é sua melhor e mais poderosa arma.

“Quando recito e canto ecoam comigo gritos de amor e dor, não só meus, mas de todos que me permitiram estar aqui”, declama, em forma de verso livre.

A poeta declara seu amor pela vida, pela família, o “nós por nós” e observa que a poesia não é para ser compreendida, mas, sim, sentida, na pele, na emoção. Ainda sem texto publicado, a poetisa trilha os caminhos dos registros formais antes de se aventurar pelos papeis. Entretanto, nas formas virtuais, Juh França tem o seu fã-clube nas redes sociais, nos saraus e nas apresentações que faz por esta cidade do Salvador.

Sou Poeta!

Sou arte

Sou face

Sou heresia

Sou canto

Encanto

Sou poesia

Sou imoral

Sou Real

Sou inventor

Nas letras me faço eterno

Sou marginal versador (Juh França)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Veja aqui outros artigos dele!

#PoesiaSoteroPreta – Yuretta e sua Trans-Poesia! – Valdeck Almeida


Yuretta Santanna

No começo, jogos de RPG online foram inspirações, pois era necessário narrar, em forma de contos, coletivamente e online, histórias e ações de personagens. Isso foi em 2005. O gosto pela escrita veio daí e Yuretta deu início a seus próprios romances e fanfictions, depois contos, crônicas e, por fim, poemas, que lhe fascinaram e lhe conquistaram por inteira. Num outro universo paralelo, compunha letras de música.

Atualmente a temática que prevalece são provocações de gênero e sexualidade, e a poesia é a ferramenta pela qual a trans-poetisa dá voz às coisas que não conseguiria dizer de outra forma senão pela poesia!

Para Yuretta, poesia é “pulsão de vida. É beleza. É fôlego. E também seus avessos. É intenção. Aquilo que nos move, nos ostraciona, nos provoca e nos afeta. É a mensagem transmitida de maneira sensível. Ou, ainda, o sensível transmitido através de mensagens”, declama, lindamente!

Com estilo transgressor, Yuretta diz que, em seus textos, “o uso de alguns recursos linguísticos não são intencionais nem com a pretensão de enquadrar obras em determinados modelos por considerá-los superiores a outros menos criteriosos”.

Mas a poetiza investe em burilar suas criações, e diz que “abusa de figuras de linguagem como aliteração, metáfora, prosopopeia” e completa, já pensando como musicista: “metrifico alguns poemas, especialmente na forma de soneto, minha paixão. Gosto de valorizar o ritmo e a musicalidade do texto, acho que são as palavras chaves de uma boa poesia”.

Como a música e a poesia são indissociáveis para esta menina sapeca, ela se expressa também através do canto, da performance e, com menos frequência, dança e teatro. Transita pelas artes.

Suas músicas-poemas rimam com família sempre, pois “família é sinônimo de amor e respeito. Família é o sentimento de pertencimento a um núcleo de afeto e também o grupo unido por esse sentimento. Que poesia maior poderíamos ter?”, questiona Yuretta.

Se você quiser conferir mais das criações poéticas de Yuretta, procure a página Vale dos Alfarrábios, no Facebook, onde tem poemas publicados do livreto do Coletivo Atuar, da revista eletrônica do CEPA e de antologias poéticas como Várvara e Liberdade. Vai lá!

Yuretta Sant’Anna é cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

 

Transfiguração

Se me percebo, me questiono.
Se me questiono, me perco.
Se me perco, me acho.
Se me acho, me toco.
Se me toco, me percebo.
E tudo recomeça.
E tudo é vã conversa.
Ou vil engano,
ou grã acerto,
mas sempre um firme acordo
de fins e recomeços,
onde cada tempo é O Tempo
e todo T maiúsculo é uno,
verdadeiro,
dispensando a obrigação
de servir ao lado A
ou ao lado B
pois no alfabeto do ser
nasceu entre o fim e o meio,
no seio do início de um anseio
marcado por
trans
figura
ação.

Yuretta

 

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador.