#PoesiaSoteropreta – Milica San: Filha da poesia e da filosofia! – Por Valdeck Almeida


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Jamili Soares (Milica San) escreve desde os 11 ou 12, “pequenas coisas nos diários, coisas que realmente aconteciam. Começaram a mudar quando passei das ‘coisas que realmente aconteciam’, para ‘coisas que realmente poderiam ter acontecido”, fantasias, o Mundo de criança, um mundo de Possibilidades”.

Aos 15 anos Milica meteu a ideia na cabeça de escrever um romance, cujo título era “E a Vida Real?”. Saiu dos sonhos, das utopias e das inocências infantis: “Tudo o que estava escrito nele não se parecia em nada com o que conhecemos sobre o assunto”, deixa escapar.

E a evolução continuou: vieram os estudos em Filosofia; A vida, a obra, as ideias dos grandes filósofos e uma paixão por Conhecer, fervendo dentro da poetisa. “O contato com a Filosofia fizeram as coisas se arrumarem; Permitiu a síntese entre realidade e fantasia”, divulga Milica San.

A temática é variada e a inspiração vem do que Milica San consegue ver de olhos fechados: O caos. A fuga do caos. Drogas, sexo, amor e Rock n’ Roll. O porre de todos eles juntos. A saudade e a morte. O outro. E ela dá uma dica: “Escrever sobre o Outro na perspectiva de meu semelhante, é pensar em mim como uma grande vilã, ao culpar O Outro pela dor da vez”.

A poesia de Milica San não foi feita para ferir ninguém, como ela mesma diz. “faço-a para curar. A mim mesma. Tenho um cuidado muito grande com isso”. E sua poesia é uma miríade de aconchegos, é moradia, é motivo para ser bruxa, flor, Deus, ou o nada absoluto. Mas ela não se limita aos poemas. Passeia pelo mundo da música, criando, cantando, misturando, aprendendo instrumentos, fazendo uns barulhos, tudo na tentativa de se encontrar nos olhos do outro. E, nesse jogo, ela se vê nos olhos dos amigos, irmãos reais ou fantásticos.

Seus textos podem ser lidos no Facebook na página “Os Vinhos deste Mundo”, além de alguns livretos, pequenas doses de suas poesias para as ruas. Tem, ainda, “A Angústia da Página em Branco”, publicado pela Antologia Galinha Pulando e mais textos publicados na Revista Òmnira.

 


O último Outono durou mais que o possível.
Está durando, sem previsão de fim.
Estou amando,
aceitando, sem dizer “sim”.
Entregando a parte de mim
que também é tua.
Preferindo morar em Ti
quando posso escolher qualquer lugar de rua.
O primeiro Outono está durando.
A primeira noite em que brincamos
entre risos…
Primeiros e últimos sons
deste amor que nasce, cresce,
reproduz e move.
Reajo muda, quieta,
miúda, imóvel.
Aceito sem dizer “sim”
Sem forças pra te negar
mesmo num balançar de cabeça.
Esqueça! Acho que há algo errado em minha autodefesa.
Deve ser o tempo,
e a tempos desejei fraqueza.
Precisar de um cuidado especial,
como o das crianças.
É que ser forte demais,
às vezes cansa.
O último Outono durou mais que o possível.
Está durando.
Você promete me dar de lembrança
qualquer coisa com o seu cheiro,
qualquer coisa com o seu jeito
se por descuido permitirmos a chegada do inverno?
Que inferno!
Não quero nem pensar nisso…
Eu Renasci no Outono

Milica San

#PoesiaSoteropreta – ThiZion é o poeta da literatura social e existencial!


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Thiago Ribeiro é graduado em Comunicação Social pela UNEB e participa atualmente do Coletivo de Arte/Cultura popular ATUAR e da Associação Cultural Comunitária Odeart, sediada no Cabula. Mais conhecido como Thiago Zion, ou ThiZion, ele escreve desde muito novo: “lembro que por volta dos 13 anos já arriscava as primeiras linhas.

Bebi desde cedo de literatura brasileira e americana e isso foi um fator aditivo pra me auto expressar através dos versos”. E ele se pergunta: “o que será que ela (poesia) pretende comigo?”, e já engata uma resposta: “A poesia para mim é uma forma de dar flores e gritos ao mesmo tom. Pretender algo no sentido teleológico, soa limitante pra tratar a desmesura do fazer poético. Mas o que todo poeta quer, é se expressar, traduzir em signos verbais essa complexidade, esse espanto que é existir”, filosofa.

O compromisso de ThiZion como escritor é trabalhar para ver mudanças, mesmo que mínimas. Afinal, “são 517 anos de saques e anulação, não veremos a coisa mudar da noite pro dia, mas já notamos diferenças nessa geração. Minha bandeira é a da literatura social e existencial. Sou um grão que acredita que podemos nos humanizar mais, denunciar as mazelas sociais e anunciar o novo mundo de maior igualdade entre os(as) sujeito(a)s e respeito às diferenças individuais”, comenta.

Zion, tem a poesia como ritmo, sonoridade, sem necessidade de rimar, com um tom musical ao ser falada, declamada. Em suas apresentações, o poeta usa recursos internos para ‘ritmizar’ o texto, como palavras da mesma família sintática, com morfologia semelhante.

Mas quem pensa que isso significa hermetismo, preciosismo, está enganado, pois o poeta desliza como muita facilidade em sua inspiração e trabalho poético: “sou fã do verso livre, já vivemos em muitas micro-celas sociais (ideologias, carências materiais, opressões) pôr o verso em mais uma gaiola é limitar sua força e possibilidade de expressão. E como já dito, a poesia é uma ferramenta, um meio para a modificação de consciências”.

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Para além da estética e da prática da arte, ThiZion tem muita consciência de seu papel social. Para ele, “a poesia é uma ferramenta para emissão de mensagens e eu a uso de forma a passar mensagens reflexivas, sobretudo em questões sociais”. Para ele, “um verso pode fazer uma pessoa mudar de rota, mudar a condução de sua própria vida e a arte tem esse poder de chacoalhar as pessoas em vários níveis (mental, emocional, energético, etc)”.

Tem textos publicados em papel: em 2012, publicou numa antologia poética da editora VIVARA, a nível nacional;E começou a fazer o exercício da auto publicação em livretos autorais. Já publicou umas quatro edições, sempre com temas específicos como as “Outonais”, com textos mais existencialistas.

Thi Zion acredita que o mercado editorial é muito fechado à poesia periférica, e defende que a produção autônoma é bem cara. “É caro editar uma obra do próprio bolso, por isso nos reinventamos e produzimos do nosso jeito popular”. Mesmo sabendo das dificuldades de publicação, ele prefere não explorar muito as redes sociais por preferir espaços menos turbulentos. Publicou no Recanto das Letras mas deixou de lado. Prefere o face-to-face mesmo!

Sonhos redivivos

Matam-se sonhos feito formigas.

Nós somos os primos pobres da “evolução”,

repletos de nãos, dias medonhos

e barrigas vazias.

Matam-se sonhos na caneta, na promessa,

na escopeta de dias de melhores.

E os preços dos pães, arroz e feijão

a cada dia maiores.

E os sonhos mortos, vão embora sem expressão.

E as noites piores nos avisam que não há amanhã…

A não ser pela união, irmã, irmão, de nós, dos nossos,

fechando os poços abertos pela polícia, pela política,

por essa espúria pátria homicida.

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa!

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa…

Mas não vamos chorar, vamos lutar até a última gota

de dor, suor… e Amor.

Thi Zion

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Lidiane Ferreira: poesias desenhadas na imaginação! – Por Valdeck Almeida


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Lidiane do Espírito Santo Ferreira de Jesus, ou Lidiane Ferreira, não escolheu escrever sobre a temática negra. A Literatura que lhe escolheu, inclusive a forma, o gênero e o assunto, fruto, inclusive, das discussões que seus textos suscitavam. Desde sempre! A infância lhe traz lembranças dos diários cheios de ficção e dos desenhos “com vida”, fruto de muita imaginação.

O lugar de mulher negra é a vertente de sua produção atual, fruto de seu ingresso na Universidade Federal da Bahia – UFBA, e, consequentemente, depois do contato com as literaturas afro-brasileiras e africanas de língua portuguesa; e, em especial, com a sua construção identitária. Segundo Lidiane Ferreira, sua escrita foi, por muito tempo, “uma rota de fuga do racismo. Hoje, ela é o símbolo da minha luta contra o racismo, o machismo, o sexismo, dentre outros fatores discriminatórios de nossa sociedade. A minha escrita resiste a tudo isso, mas também serve de seta, apontando novos caminhos”.

Esta sua descoberta e militância literária, entretanto, não afloraram tão facilmente. Para Lidiane, “O racismo fez com que, por muito tempo, eu escondesse a minha escrita. Faz cerca de dois anos que eu os divulgo. Tenho poemas publicados na Antologia Poética do Servidor Público Estadual (2015) e no livro Enegrescência Coletânea Poética, publicado pela Editora Ogum’s Toques Negros (2016)”.

Lidiane se considera uma poetisa que escreve a partir do silêncio, do isolamento. Além de poemas, escreve contos e tem um romance em construção, e se declara amante de teatro, com planos de fazer um curso, mesmo que amador. Com temática diversificada, o que escrevia durante a infância era o cotidiano e o universo familiar. “Lembro que eu utilizava muito as características da minha irmã mais velha, Paloma, nos personagens.

Durante a adolescência, consigo perceber os reflexos do racismo em minha escrita, pois a maioria dos poemas continha temas como a morte, a solidão e a perda”. Com a entrada na Steve Biko, a inspiração se redirecionou. “O meu ingresso no Instituto Cultural Steve Biko não apenas me preparou para o vestibular, mas para a superação e o enfrentamento ao racismo. A Biko pôde me mostrar que há outras possibilidades para uma mulher negra e pobre como eu”.

Lidiane Ferreira sempre usou a Literatura como refúgio, não para se esconder, mas para explorar e expor tudo o que lhe consome, intriga, incomoda. Ela versa sobre o lugar da mulher negra na sociedade, sobretudo no que tange às várias sexualidades. Para além de aconchego, ela se utiliza da produção artística como arma, intencionalmente, como ato político, para retratar as vivências do povo negro mas, principalmente, para influenciar mudança social.

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Isso resultou no coletivo Enegrescência, criado com amigos, cuja busca é apresentar e divulgar as literaturas afro-brasileiras e africanas, de forma não hierarquizada. Lidiane acredita que “a literatura é um fator relevante para a mudança social”. Fruto deste trabalho em conjunto, nasceu uma coletânea poética, da qual Lidiane Ferreira participa, também, como escritora.

A poetisa Lidiane Ferreira se auto define: mulher negra, bikuda do ano de 2010, periférica, feminista, graduada em Letras Vernáculas, e pós-graduanda em Educação em Gênero e Direitos Humanos, ambos pela Universidade Federal da Bahia – UFBA; uma jovem escritora de literatura preta.

 

 

 

 

 

Desenlace

No emaranhado dos fios o tempo,

pentes desembaraçam nós.

E eu rio

escorrendo maçãs

abaixo

Estiagem: trinco nunca mais aberto.

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Carlos Leleco: o poeta dos muros grafitados e das redes sociais!


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Desde 2013, Carlos Leandro Pinheiro de Souza, o Carlos Leleco, é o corpo que transmite a língua do povo, aqueles poemas, causos, escritos populares, com o sotaque próprio de quem nasce e vive uma vida simples. A atuação de Leleco, para além da propagação da poética roceira, tem a arte da performance e da escrita como meio para alimentar a alma e propiciar o seu crescimento como escritor, com vários objetivos, dentre eles “passar mensagens contra qualquer tipo de discriminação, preconceito e abuso de gêneros e a valorização da autoestima negra”, diz o poeta.

Para Carlos Leleco a poesia é uma das armas mais eficientes para a reflexão das questões raciais que nos rodeiam. E não é à toa que o poeta sai por aí, como um cavaleiro andante, com a espada-poesia em uma mão e a rima certeira na outra. Suas atuações são marcantes e marcadas pela cadência do verso, do movimento, da expressão séria e sisuda, se a poesia assim exige, mas, também, de um jeito maroto, quando o texto é mais faceiro e despretensioso.

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Mas não só de poesia vive o poeta. O grafite também é outra arte que ele carrega na tinta, só Deus sabe por onde ele anda, sobe, desce, para conseguir uma boa tela para expor seus talentos. Além das paredes e muros, onde deixa sua marca de spray, Carlos Leleco se equilibra, também, nas redes sócias (com a linguagem do matuto prosador), postando poemas sem rima, por escolha e licença poética. O fato de não rimar, por opção, não significa descompromisso ou desconhecimento, é pura escolha, mesmo. As escritas, no entanto, se situam num espaço, tempo e intencionalidade, como ele frisa:

“Nas intenções, existe sempre o cuidado e cumplicidade entre aquelas pessoas que se gostam. É aquela que se cuida e que mesmo magoando, exorta sua irmã ou seu irmão para uma melhor conduta social”. Numa autocrítica, o poeta não poupa sinceridade:

“Sou uma pessoa agradável, inquieto e um tanto cuidadoso(chato) para as questões raciais. Não aturo tudo, nem concordo com tudo o que o próprio povo negro tem como verdade. Afinal de contas, quem escreve ou divulga algo precisa ter o cuidado com o seu ponto de vista, algumas pessoas têm determinadas ideias como verdades”.

Jardim da Vida

No jardim da vida
Topamo um monte de flor
A deixar seus aroma ao vento
Quando por uma dessas fragrâncias somos atingidos
Ficamo tingido
Ao ponto de, mermo distante,
Sinti o exalar da vida
Invadir nossos pensamento
Aí então,
Nesse momento nos encontramos regozijados
A saborear desse tal perfume
Essas essências
Afirmo
Jamais sairão de nossas mentes.

(Carlos Leleco)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteroPreta – Julianx França Lima: A Poeta das quebradas!


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Julianx França Lima: A Poeta das quebradas, conhecida como Juh França, escreve desde que se entende por gente. Em tenra idade, a menina já tateava nas letras, e foi evoluindo, chegou a incluir nos textos análises sobre fatos históricos e, a partir daí, a poesia marginal cruzou seu caminho. A descoberta de um novo horizonte na arte de escrever. A própria Juh reconhece a força do gênero na sua atividade literária:

“Desde então não me separei mais” (da poesia marginal), assume!. E continua: “A poesia é a minha forma de transcender os meus; quando recito, levo comigo uma legião. A minha escrita blasfêmica é pra apontar e denunciar toda a opressão e sofrimento vividos principalmente por mim e pelos meus”, conclui!Juh_França

Juh carrega em si o significado de viver por si e pelo coletivo. Segundo ela, as lutas diárias, suas e de seus pares, principalmente da galera esquecida pela “cultura”, é que dá o tom e a inspiração para sua resistência na poesia. E é por meio da arte que ela demonstra, claramente, que a luta poética é persistência, e que jamais haverá desistência.

Para a poetisa, a poesia é a própria essência de sua vida, sem a qual ela declara não ser ninguém. “Sem poesia eu não sou nada nem ninguém, poesia é vida”, resume Juh França. A luta pela sobrevivência é a prática da poesia, na carne e na alma, por isso Juh se define como arte por inteiro. A escrita é sua melhor e mais poderosa arma.

“Quando recito e canto ecoam comigo gritos de amor e dor, não só meus, mas de todos que me permitiram estar aqui”, declama, em forma de verso livre.

A poeta declara seu amor pela vida, pela família, o “nós por nós” e observa que a poesia não é para ser compreendida, mas, sim, sentida, na pele, na emoção. Ainda sem texto publicado, a poetisa trilha os caminhos dos registros formais antes de se aventurar pelos papeis. Entretanto, nas formas virtuais, Juh França tem o seu fã-clube nas redes sociais, nos saraus e nas apresentações que faz por esta cidade do Salvador.

Sou Poeta!

Sou arte

Sou face

Sou heresia

Sou canto

Encanto

Sou poesia

Sou imoral

Sou Real

Sou inventor

Nas letras me faço eterno

Sou marginal versador (Juh França)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Veja aqui outros artigos dele!

#PoesiaSoteroPreta – Yuretta e sua Trans-Poesia! – Valdeck Almeida


Yuretta Santanna

No começo, jogos de RPG online foram inspirações, pois era necessário narrar, em forma de contos, coletivamente e online, histórias e ações de personagens. Isso foi em 2005. O gosto pela escrita veio daí e Yuretta deu início a seus próprios romances e fanfictions, depois contos, crônicas e, por fim, poemas, que lhe fascinaram e lhe conquistaram por inteira. Num outro universo paralelo, compunha letras de música.

Atualmente a temática que prevalece são provocações de gênero e sexualidade, e a poesia é a ferramenta pela qual a trans-poetisa dá voz às coisas que não conseguiria dizer de outra forma senão pela poesia!

Para Yuretta, poesia é “pulsão de vida. É beleza. É fôlego. E também seus avessos. É intenção. Aquilo que nos move, nos ostraciona, nos provoca e nos afeta. É a mensagem transmitida de maneira sensível. Ou, ainda, o sensível transmitido através de mensagens”, declama, lindamente!

Com estilo transgressor, Yuretta diz que, em seus textos, “o uso de alguns recursos linguísticos não são intencionais nem com a pretensão de enquadrar obras em determinados modelos por considerá-los superiores a outros menos criteriosos”.

Mas a poetiza investe em burilar suas criações, e diz que “abusa de figuras de linguagem como aliteração, metáfora, prosopopeia” e completa, já pensando como musicista: “metrifico alguns poemas, especialmente na forma de soneto, minha paixão. Gosto de valorizar o ritmo e a musicalidade do texto, acho que são as palavras chaves de uma boa poesia”.

Como a música e a poesia são indissociáveis para esta menina sapeca, ela se expressa também através do canto, da performance e, com menos frequência, dança e teatro. Transita pelas artes.

Suas músicas-poemas rimam com família sempre, pois “família é sinônimo de amor e respeito. Família é o sentimento de pertencimento a um núcleo de afeto e também o grupo unido por esse sentimento. Que poesia maior poderíamos ter?”, questiona Yuretta.

Se você quiser conferir mais das criações poéticas de Yuretta, procure a página Vale dos Alfarrábios, no Facebook, onde tem poemas publicados do livreto do Coletivo Atuar, da revista eletrônica do CEPA e de antologias poéticas como Várvara e Liberdade. Vai lá!

Yuretta Sant’Anna é cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

 

Transfiguração

Se me percebo, me questiono.
Se me questiono, me perco.
Se me perco, me acho.
Se me acho, me toco.
Se me toco, me percebo.
E tudo recomeça.
E tudo é vã conversa.
Ou vil engano,
ou grã acerto,
mas sempre um firme acordo
de fins e recomeços,
onde cada tempo é O Tempo
e todo T maiúsculo é uno,
verdadeiro,
dispensando a obrigação
de servir ao lado A
ou ao lado B
pois no alfabeto do ser
nasceu entre o fim e o meio,
no seio do início de um anseio
marcado por
trans
figura
ação.

Yuretta

 

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#PoesiaSoteropreta – Rafael Pugas e a poesia da estética da requenguela!


Rafael_Pugas_Soteropoesia

Rafael Muniz David Pugas, ou simplesmente Rafael Pugas, é psicólogo formado pela UFBA em 1997. A poesia está presente em sua vida desde jovem, e sua inspiração sempre foi as injustiças. Bastante sensível, muito mais que seus irmãos, Rafael não colava com a turma dos “bambambans”. Preferia a defesa de quem sofresse qualquer tipo de discriminação. Poesia em família é o tom de Rafael Pugas. Casado com uma poeta, ele tem dois filhos-poesias e o casal escreve, cada um a seu turno, sobre temas diversificados. A matriarca dedica seus textos ao poeta e esposo.

Sempre foi baixinho mas não deixou essa característica lhe diminuir. E para lutar em pé de igualdade, fez judô até a faixa preta e também boxe, mas somente para impor respeito e manter a autoestima em alta. Desde então suas lutas e desafios foram para o campo da poesia. A inspiração vem de tudo que rima com revolução, amor, injustiça.

Quando entrou pra faculdade passou a escrever na agenda vazia de compromissos, ideia de um amigo. Isso aumentou seu fluxo poético, andava com a agenda em mãos e, se não tinha nada pra fazer, escrevia…Ainda no curso universitário conheceu um poeta que declamava de improviso, mas não com rimas, era influenciado por Pessoa. A estreita amizade fez os dois desenvolverem projetos juntos. Aí Rafael descobriu a Psicologia Social, mergulhou no curso e, inclusive, realizou o III Encontro Nordestino de Psicologia Comunitária na Bahia.

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O À TU AR surgiu após uma temporada em Lençóis e Saúde em 1998, onde conheceu um grupo de artistas autodidatas: dirigiam, encenavam, iluminavam e construíam tudo em seus espetáculos. Se juntou ao coletivo e propôs um projeto que nunca recebeu respostas da prefeitura. Em 2001, em Salvador, botou o À TU AR em cena…, coletivo baseado na estética da requenguela, proposta por Alvinho. Na capital produziu o espetáculo Pintando o Sete de Setembro no sertão, encenado por Isaías Oliveira no Teatro Gamboa.

O declamador nasceu em 2002, quando alugou uma casa no Rio Vermelho com amigos, onde passaram 18 meses. Se sentiu impelido a declamar, pois todos o faziam e ele não seria diferente…

“Em relação à Poesia, pretendo ser poeta profissional, viver dela. Mas, sinceramente, não sei o que a poesia é pra mim, uma válvula de expressão, uma possibilidade de mudar o mundo, como a Psicologia Social já foi um dia, ainda é, de alguma forma”.

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Passeia por outras artes: a música como forma de expressão, “mas diante de tantos bons músicos com quem convivi, nunca esperei da música nada mais do que ser músico pra mim, como era poeta antes do À TU AR, não era pra mostrar, se não fosse o À TU AR o mundo não conheceria meus escritos. Gosto da escultura, da pintura, da dança, mas a título de expressão livre, sem pretensões profissionais”.

Não dá a mínima para publicações: “desde cedo publiquei os meus livros, não participo de concursos, não acho válido comparar poemas, acho terrível qualquer disputa em arte, não somos galos de rinha”.

Posta profissionalmente no Facebook pela possibilidade de ser lido em qualquer lugar do mundo. Aceita todos os pedidos de amizade virtual, pelas infinitas possibilidades de leituras. Além disso, mantém o canal Rafael Pugas no Youtube, onde divulga poemas declamados.

 

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#PoesiaSoteropreta – Ana Fátima e a poesia-martelada para adolescer!


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Foto: Leo Ornelas

Licenciada em Letras Vernáculas e Mestra em Crítica Cultural (UNEB), Ana Fátima Cruz dos Santos escreve desde os oito anos, uma poetisa precoce. Ou melhor dizendo, já nasceu com o dom. Mais conhecida como Ana Fátima, ela é ativista do movimento negro, filha do Ilê Axé Iboro Odé, educadora e consultora de beleza.

Estuda e analisa a formação de professores(as) em educação para as relações etnicorraciais e, atualmente, desenvolve pesquisa sobre produção de materiais didáticos para Educação Escolar Quilombola e educação antirracista sob a ótica da Linguística Aplicada.

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Foto: Leo Ornelas

Além de poemas, Ana romanceia para adolescer. E se joga mesmo nas letras: conto e literatura infanto-juvenil e literatura acadêmica (artigos, resenhas), com o sonho de libertar seus sonhos e fazer outras pessoas negras creem em seu potencial. E pra quem pensa que escrever é um ato complicado, para Ana Fátima é como respirar. Para ela, a “poesia é vida. Brota, vinga, cresce e floresce. Uso muitas aliterações e frases curtas como marteladas, lembretes da memória”.

Para além da escrita, uma arte da solidão, ou que requer um certo isolamento na sua produção, a produção literária de Ana “rima coletividade… uma voz ampliada, as várias famílias que nem sabemos que temos e as que temos também”. Esta é a forma mais coletiva de se pensar e viver a arte, em que a criação sai por aí, sem pedir licença, para vingar em mentes-quintais alheios.

Em tempos de redes sociais, Ana Fátima não fica de fora do Facebook e alimenta o Blog Sangue de Barro, onde planta sementes de poesias, mas tem participação em produtos tradicionais como as famosas antologias.

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Seus textos podem ser encontrados no site da Fundação Palmares (2010); Projeto Escritoras da Bahia (2015), na Revista Entrelinhas (2015) e Projeto Pé de Poesia (Salvador, 2016). Poemas e contos pela Antologia Cadernos Negros (Quilombhoje, vol. 37, 38 e 39, 2014-2016) e  Mulher Poesia I e II (Cogito, 2016-2017). Recebeu prêmio de melhor poesia pelo 2º Festival de Literatura São Francisco Xavier (2014), no 5º Concurso das Farmácias Pague Menos (2016) e no 2º Concurso do Sarau da Onça (“O diferencial da favela: poesias e contos de quebrada”, 2017, Editora Galinha Pulando).

Confere:

A cartilha da autora século XXI

De mim, muito algo a desenrolar…

Ser mulher é cheirar a ferida aberta

Pulsar a flecha certeira

Palmatória do mundo a acabar.

Profissão escolhi,

Estudos cumpri,

Casa vigiei e arrumei.

 

Mas meu deleite é outro:

Letras a bailar

Em papéis, telas e folhas;

Perpetuar nas cabeças

A alma de minhas histórias.

Carregar pedras

Para traduzir sentimentos e desejos:

Mandamentos de autora!

Pedras escritas e relidas

 

Compromisso em ser mulher

É reler e desdobrar

A hélice das tramas de meus ancestrais

Sem beber o amargor

Do chicote malfeitor.

 (publicado no Mulher Poesia. Editora Cogito, 2016)

 

Valdeck Almeida

 

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Veja aqui outros artigos dele!

#PoesiaSoteroPreta – A poesia problemática de Geilson de Andrade!


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Poesia marginal e problemática é como o poeta Geilson de Andrade define sua produção artística, que inclui, ainda, peças de teatro e contos. Mas é na escrita e na récita que ele se encontra, se entrega.

De corpo e alma, em busca de atingir o psicológico de quem lhe ouve, ele faz um bombardeio de rimas, expressões corporais e faciais. É impossível vê-lo em atividade e não arrepiar, não sentir os olhos apertarem e o coração se angustiar. A verdade dói! Os primeiros versos tratavam de amor, questões existenciais e sobrenaturais, conflito entre vida e morte, durante a infância e adolescência, lá pelos 13 e os 15 anos de idade. Em 2010, já pesquisador de História, o veio de protesto e afirmação lhe tomou.

Os textos passam a expressar esta identidade que lhe acompanha desde então. Questões sócio raciais e referentes à opressão institucional assomam sua produção textual, toda escrita na tela de um computador. “Não lembro a última vez que usei papel e caneta”, assume Geilson.

Para além de válvula de escape, a poesia é, para Geilson de Andrade, “uma forma de conscientizar as pessoas, uma espécie de mecanismo educacional que desperte o pensamento e o sentimento das pessoas”. E complementa: “A poesia para mim é um veículo pedagógico e de resistência, utilizo o contexto histórico para situar o sujeito psicologicamente enquanto pessoa importante dentro da sua própria existência e resgate de valores”.

A fonte de inspiração é a família, tanto a biológica, normativa, mas, também, aquela que acolhe e abriga no seio da comunidade, seja a vizinhança ou a comunidade dos saraus, dos slams de poesia, os que pensam e defendem os direitos humanos. Este é o poeta, humano, Geilson Andrade.

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Sistema Nazista

Perdeu-se o brilho daquela esteira de estrelas

Que se estendia a caminhar tranquilamente sobre o asfalto

Os brotos morreram, as flores murcharam

Vidas foram ceifadas a flor da idade

Pela foice que corta, na frieza da morte

Por displicência da carne

Foi-se a juventude da alma

E perdeu-se o brilho e ofuscaram o asfalto

Mancharam de sangue coração dilaceraram

Caminhos tortuosos e destinos cruéis

Em meio a frágeis e poderosos

Injustiças entre vítimas e réus

Tenho que parar

Tenho que parar porque não cabe no poema

Esse triste cenário pobre miserável

De mentes estúpidas e corações insensatos

Me tirem desse sistema nazista

Sem perspectiva otimista

Sem que me tirem a vida

Sem que massacrem minhas crianças

Sem que prostituam as minhas meninas

Me tirem desse sistema tão ego

Me tirem desse sistema tão ísta

Por favor, favela

Me tirem desse sistema nazista

 

#PoesiaSoteroPreta – O jardim imaginário de poesias de Marcos Paulo (Sarau do Jaca)


 

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Marcos Paulo é um dos coordenadores do Sarau do Jaca – Juventude Ativista de Cajazeiras e escreve desde 2005 sobre temas variados. O foco, no entanto, é o racismo. Com a arma nos dentes, a palavra, o poeta usa a poesia para combater o sistema opressor.

Seus textos são recheados de metáforas, não utiliza muitas rimas e emposta a voz quando declama, para viver outros personagens. Além da palavra, tem outras paixões com teatro, música e artes visuais. Desenha poesias nas paredes, em quadros, cartolinas, onde houver uma superfície.

Sua poesia rima com guerrilha, “porque o espírito da poesia se manifesta insurrecta contra a ordem”, assegura Marcos, mas não deixa de falar de poemas como elo entre familiares, sejam de sangue ou de afeto, porque “a família é uma invenção nossa”, decreta.

Poeta de gaveta, sem textos publicados em livros, Marcos Paulo se espalha mesmo é nas redes sociais e em um blog antigo que ele não revela o link pra ninguém. No mais, ele se expõe em saraus e encontros de poetas, com uma presença peculiar. Quem o vê declamando, além de ouvir sua voz possante tomando conta do texto, o percebe como performer, pois a poesia lhe toma inteiro, cada dread, cada gesto com braços, pernas, o corpo todo.

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Fruto de trabalhos sociais vivenciados durante toda a vida, o poeta, sensível e meticuloso, é, também, arte educador e usa a palavra poética para libertar a si e aqueles que lhe rodeiam, incentivando a todos e todas a experiências que mesclem arte e educação. E, assim, Marcos Paulo sai por aí, semeando poemas e cultivando poetas e artistas no seu jardim imaginário.

Lombra

Da satisfação obtida com o unguento

À tortura praticada por seu experimento.

Da calma recebida no uso do ópio

À campanha feita para nos mantermos sóbrios.

Dos amigos em roda trocando um baseado

À política de drogas que engendra o tráfico.

Do mito construído sobre o crack

À falta de sentido que encontramos na sociedade.

Da perspectiva de mundo obtida pelo ácido

À cegueira preconceituosa de quem o torna inválido.

Da teogonia transcendental do peiote

Ao ateísmo inerte e torpe.

Da oração muda degustada na ayahuasca

À descrença num mundo de plantas sagradas.

Dos debates incessantes sob goles de cervejas

Ao carro que te atropela onde quer que você esteja.

Da fragrância de um loló em pano úmido

Ao odor hipócrita encontrado no mundo.

Do êxtase que transborda de comprimidos

À apatia de uma ciência que não os tem reconhecido.

Dos duendes mágicos que dançam sobre cogumelos

À negação absoluta dos universos paralelos.

Das ilusões provindas no ato de cheirar cola

À necessidade daquele que sobrevive de esmola.

Da maldita heroína injetada na veia

Às doenças e males que a medicina semeia.

Do verde absinto que convida às fadas

À angustia de uma geração que vive acuada.

Das carreiras brancas de cocaína

À falta de coragem para enfrentar a vida.

 

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A tudo o que nos faz viajar

A tudo que nos faz pensar

A tudo que nos faz amar

A tudo que nos faz gozar

A tudo que nos faz sentir

A tudo que nos agrega e lança

A tudo que nos dá uma sensação de poder

A tudo que nos aproxima da verdade

A todas as coisas que nos levam a Deus

 

Eu agradeço.

A realidade é uma melodia

Nós somos os músicos.