Quer entender o pensamento de Angela Davis?! Inscreva-se!


Angela Davis

Racismo, Sistema Prisional, Liberdade e Feminismo são temas recorrentes dentro do pensamento da pesquisadora Angela Davis. Para discutir os temas de seu pensamento, o Coletivo Di Jejê oferecerá, entre os dias 15 de Abril e 30 de Maio, o curso “O pensamento de Angela Davis”.

Será tudo online, na plataforma Moodle, e será ministrado pela mestra e doutoranda Jaque Conceição, pesquisadora e coordenadora do coletivo. As inscrições seguem abertas, e você pode fazê-las clicando aqui.

O material necessário será disponibilizado na plataforma online e contém traduções inéditas do trabalho de Angela Davis para o português. Serão seis módulos: Introdução ao pensamento de Angela Davis; Liberdade; Feminismo e Feminismo Negro; Sistema Prisional; e Racismo.

Serviço:

Curso “O pensamento de Angela Davis”
Duração: 15 de Abril a 30 de Maio.
Inscrições: AQUI.
Investimento: R$60

A palavra não é senzala, é quilombo! – Por Davi Nunes


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Banco de Imagens

As palavras de origem africana que foram usadas ou apropriadas pela branquitude durante esses séculos de escravização e racismo no Brasil para nomear as suas instituições – encharco de atrocidades históricas – ou mesmo às suas ações de violência estruturada contra a nossa humanidade, de certa forma perderam o sentido originalmente africano. Tornou-se um signo torto, uma palavra agrilhoada de acepções para nos aprisionar no campo semântico de representações negativas que nos liga ainda de forma sistemática à escravização.

A palavra senzala, assim, é o arquétipo perfeito disso, é o signo cujo uso nos enclausura, nos coloca dentro de um alojamento, presos(as) a correntes de desespero e terror  seculares.

Senzala se depreende de uma palavra que vem do Quimbundo, língua do tronco linguístico banto, sanzala. A sanzala na África, nas regiões que se localizavam os povos bantos, principalmente em Angola onde se encontrava o grupo étnico quimbundo, era lugar de habitação de pessoas de uma família.

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Observa-se aí que o sentido de sanzala se perdeu em [senzala] no Brasil, visto que aqui, como sabemos, era uma instituição do sistema escravagista, um alojamento (normalmente não muito distante da casa grande) onde homens e mulheres negros eram aprisionados, acorrentados, açoitados depois de jornadas extenuantes de trabalhos forçados.

Nesse sentido, senzala não pode ser tomada como símbolo de resistência, não pode ser propagada como o tiro, o estopim para a libertação, que não era. Era como existe hoje os presídios, o local físico, estrutural do nosso cárcere e escravização.

A palavra que dá conta da nossa força, de nossa liberdade nesse país, é outra advinda da Língua Quimbundo também – QUILOMBO – signo poderoso de nossa engenharia civilizacional.

O quilombo foi o primeiro espaço onde nós negrxs, nessa diáspora americana, fomos de fato livres. Foi onde plantamos axé, criamos mocambos, lar onde podemos assentar livremente o nosso corpo e sonhar com algum porvir, onde nos armamos e também nos dengamos criando nossas famílias, edificamos fortalezas para lutar contra a escravidão, onde erigimos modelos civilizatórios africanos que estruturarão com liberdades as nossas existências nesse país.

O quilombo foi e acredito que seja ainda o verdadeiro poder paralelo negro que fez e faz a branquitude pirar desde Palmares, no século XVI, até hoje. Haja vista a resistência dos Quilombolas dos Rios dos Macacos, na região metropolitana de Salvador, para manter seu território que vem sendo assaltado pela Marinha, como também dos quilombolas que, nas quebradas do Cabula, resistem ao genocídio impetrado pelo Estado baiano.

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Banco de Imagens

Penso que os Movimentos Negros urbanos baseados nos modelos de militância dos negros de EUA vêm, atualmente, negligenciando essa acepção. Delimitando-a a uma identidade suspensa, arcaica, ou só de negros que estão nos recônditos do Brasil, lutando pelas suas terras.

Quando na verdade as nomenclaturas quilombo, quilombola e as identidades revestidas nelas são a nossa história positivada nesse país. Foi e é o nosso libelo de libertação e criação real de paradigmas e modelos civilizatórios negros.

Penso que a desunião do povo negro, ocasionado pelo racismo estrutural e todas as mazelas impostas, vem também da dissolução da identidade quilombola nos centros urbanos. Temos que entender que nessa conjuntura em que nascemos – imposta pela branquitude – renascer para negritude é renascer para o quilombo e renascer para o quilombo é saber que sempre tivemos terras e riquezas, tanto em África como aqui, e que fomos duplamente assaltados.

O quilombo, ou como escrito em Quimbundo, Kilombo, é o reatar fraterno e pragmático de um saber poderoso que nos fez e faz sobreviver nessas terras, que é o “nós por nós”. De maneira que penso que temos que voltar às vistas para o quilombo e para as vivências quilombolas, pois é o horizonte mais livre onde podemos nos espelhar.

Davi NunesTexto de Davi Nunes –  Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

“Canções de Amor e Dengo: árvore que faz sombra às nossa raízes” – Por Davi Nunes


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O livro Canções de Amor e Dengo da escritora mineira radicada em Salvador Cidinha da Silva, é estro suave, soou em mim como um canto matutino de um passarinho que, dengosamente, nos desperta em placidez com a sua lírica amorosa.

É escrita de dândi feminina que sabe que as palavras (apesar de como a autora diz: não se encastelar no brilho delas) é encantamento que pode se imiscuir com o ritmo da batida do coração e enredar paixões – afeto dengoso das musas.

Escrevo isso porque a cartografia da obra é galante, se delineia inicialmente com os aforismos e, nessa parte do livro, me fez lembrar, desconfio que seja pela natureza proverbial do aforismo mesmo, da poesia conceptista barroca.

Aparece aí o jogo de ideias sensíveis e uma retórica sutil na composição dos versos. Como se pode observar no poema “Definitiva”: “Não me encantam as que se acham; me derrubam as que são” como também no poema É coisa, viu? “Era a mulher certa, sim! O relógio da vida é que andava desgovernado”.

A escritora vai em seguida, no corpo da obra, tecendo alguns pequenos poemas, onde a lírica amorosa vai delineando os versos, o eu lírico feminino e galanteador da poetisa aparece não como a tradição romântica do século XIX, ou seja, musa inatingível e se alcançada, destroçado o amor em tragédia.

Em Canções de Amor e Dengo a musa é outra, tem o azeviche de uma madrugada enluarada a cobrir a pele, além de Cidinha utilizar como forma estética algo que está bem relacionado à forma de afetos de nós, negras e negros, que é o dengo. Deste modo, o livro se sucede, vai ganhando em seu corpo outros membros, aparecem a dor, o desamor, a multidimensionalidade de afetos e sensações humanas que caracterizam as nossas vidas, as nossas relações afetivas nessa diáspora de dor.

            Assim, Canções de Amor e Dengo é árvore que faz sombra às nossas raízes, voz poética que ressoa beleza em nossos corações.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com), especial para o Portal SoteroPreta. 

Lima Barreto: um gênio negro e o reconhecimento tardio – Por Davi Nunes


lima barreto flipNo próximo ano, 2017, Lima Barreto será homenageado na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre 26 e 30 de Julho. É uma homenagem tardia ao autor, mas necessária, pois ele só teve a sua obra minimamente reconhecida 30 anos após o seu falecimento e foi totalmente, em vida, destroçado pela crítica, cujo viés teórico fora sempre racista.

Lima Barreto (1881-1922) escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, tendo o subúrbio da cidade como cartografia afetiva, escreveu em sua obra póstuma, Diário Íntimo, publicada em 1953, o plano de um romance que dá conta de sua genialidade e afrocentricidade latentes como elemento, signo para criar uma obra prima, segundo o autor.

“Veio-me à idéia, ou antes, registro aqui uma idéia que me está perseguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopeia. Animará um drama sombrio, trágico e misterioso, como os do tempo da escravidão.Como exija pesquisa variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde.”

O autor estava com apenas 23 anos quando traçou essas linhas. O jovem Lima tinha a mania de escrever para si no futuro, isto é, mais velho com 30, 40, 50 anos. Sabemos que ele morreu com 41 anos e não conseguiu por em prática a escrita dessa obra idealizada, visto que o racismo estrutural da sociedade brasileira o adoeceu, levou-o á loucura etílica e muitas internações no hospício, o que entravou a sua glória em vida.

limabarretoflip2No entanto, Lima Barreto conseguiu realizar e publicar outras obras geniais e destaco aqui Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pois nesse romance ele faz uma crítica ferrenha, cheio de sarcasmo, sátira e ironia aos jornalistas, críticos literários, à elite intelectual branca, que o escritor via como medíocres e “pomposos” racistas.

Depois desse romance publicado, ele recebeu muitas críticas: desde contestarem a qualidade literária, de chamarem de mau panfleto sua obra, até de tentarem colocá-lo num lugar intelectualmente inferior por ser negro.

Tática usual que os intelectuais brancos utilizam até hoje para desprestigiar, desclassificar e não premiar as obras escritas por escritores e escritoras negrxs no Brasil.

Um gênio que viveu o underground da sua época no Rio de Janeiro. Era visto como boêmio, louco, anarquista que perambulava o centro do Rio de Janeiro, bebendo e ironizando as rodinhas intelectuais da época – homens de óculos e bigodes.

Fico imaginando o que ele diria da crítica atual, das festas literárias e academias semelhantes às do seu tempo, penso que seria: “são os mesmos, mesma tez de bico de tucano, mesmo eurocentrismo desenxovado e atrasado; mesmo racismo, mas que agora não tem mais como impedir o meu gênio”. Depois disso, imagino-o tomando uma boa Paratiana e dizendo: axé.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com). 

Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece entre 26 e 30 de julho de 2017.

Davi Nunes e Bucala: uma literatura negra infantil feita para sentir e refletir


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“Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula” é o título do livro do escritor soteropreto Davi Nunes, lançado ao final de setembro. “Uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador, destruído em 1807”, ele descreve. Davi topou a entrevista e falou de Bucala e literatura negra. Confere:

PortalSoteroPreta – Porque trazer o bairro do Cabula como cenário do livro Bucala?

Davi Nunes – O Cabula é o local da minha cartografia afetiva, onde os meus passos se iniciaram seguindo o passar da minha avó, da minha mãe, tias, tios, e agora os meus sobrinhos e sobrinha segue o caminhar meu e os dos meus irmãos. No Cabula passei a infância entre o bairro Beiru/Tancredo Neves e Narandiba. O Beiru era e é uma periferia urbana tradicional: multidimensionalidade de pessoas, casas de blocos nus, telhas de Eternit, laje e polifonia rítmica popular. Era o que havia de mais moderno pra mim.

PortalSoteroPreta – Qual impacto deste cenário em sua escrita?

Davi Nunes – O que poderia ser ruim, por incrível que pareça, era, de certa forma, uma bênção, pois ainda se tinha uma natureza considerável, vivências de reminiscência de quilombo, o que me possibilitou ter uma infância livre, correndo ainda pelas matas, traçando aventuras. Essas vivências periférico-quilombolas no processo de escrita me possibilitaram imaginar Bucala, uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador-Ba, destruído em 1807.

Foto: AdelmirBorges
Foto: AdelmirBorges

PortalSoteroPreta – Como você vê a atual produção literária infantil de negros e negras? 

Davi Nunes – São muitas, o livro infantil além do texto exige ilustração e uma boa diagramação para fazer com que ele possa existir de forma digna e ter sucesso, além de ser muito difícil encontrar uma editora que queira apostar nisso, ainda mais em se tratando de autor(a) negro(a) que escreve sobre temas relacionados à negritude e à africanidade. O racismo editorial oblitera o caminho que muitos nem pensam em se arriscar no gênero. No entanto, é necessário perseverar e ir rompendo as barreiras visíveis e invisíveis no caminho.

PortalSoteroPreta – A leitura ainda é uma deficiência em meio às crianças negras? O que ainda pode ser feito?

Davi Nunes – Não gosto de restringir a leitura das nossas crianças somente ao texto escrito, acho que as formas de leitura são muitas e elas conseguem ler o mundo de forma bem inteligente, agora com relação ao letramento literário, ele sempre foi feito de forma equivocada, não só aqui no estado da Bahia, mas no país inteiro, sempre com os livros dos escritores brancos, cujos enredos pouco ou quase nada dizem sobre a realidade das crianças negras, logo um descompasso simbólico e representativo tornou durante muito tempo o mundo das letras mais ríspido para elas, mas com as publicações crescentes de escritores negros(as)  por todo país isso vem melhorando.

PortalSoteroPreta – A Lei 10.639/03 está há mais de 10 anos sem ser devidamente cumprida. Como fazer com que histórias negras sejam contadas nas escolas?

Davi Nunes – O Brasil é um país de leis dissimuladas, ainda mais as direcionadas para a população negra, no papel se apresenta como inclusivas e “cidadãs”, mas a própria estrutura racista das instituições do país como um todo dificulta, ou impede a sua implementação e funcionamento.  Acho que isso é exemplar com a Lei 10.639/03. Penso que temos que nos voltar para as nossas comunidades, construir as nossas bibliotecas e escolas para educar em princípios civilizatórios, educacionais africanos e afro-brasileiros as nossas crianças.

PortalSoteroPreta -O que você sente ao ver uma criança negra tendo “Bucala” às mãos?

Davi Nunes – Tenho tido um retorno muito bom das crianças, principalmente das meninas, elas se veem na personagem e destaco aqui, além do texto, o trabalho de ilustração de Daniel Santana. Ele ilustrou de forma primorosa o texto que escrevi e o resultado vem sendo criar um imaginário identitário e ancestral positivo para as crianças que leem o livro. Isso nos deixa feliz.

12144908_416323078563356_8463535839037744034_nPortalSoteroPreta – Em outras áreas, como está sua produção?

Davi Nunes – Ando escrevendo muito. Em 2015 tive o conto Cinzas adaptado para o cinema pela cineasta Larissa Fulana de Tal, também dividi o roteiro  do filme Cinzas com  Larissa. Agora, em 2016, fui selecionado no Prêmio Literário Enegrescência para participar da Antologia Literária, na qual publiquei oito poemas, além de ter sido selecionado para compor o 6º volume da Coleção Besouro, o livro A Makena e o Faraó, com o conto infanto-juvenil, O Menino das Vinte oito Tranças um Rei Faraó, além de ser colaborador de um site de cultura de EUA, Cores Brilhantes. Mantenho um blog que versa sobre a cultura afro-brasileira, chamado Duque dos Banzos. Ando também com um romance, um livro de contos e de poesia escritos, dialogando com editoras e concorrendo em concursos literários para a publicação.

PortalSoteroPreta -O que ainda precisa ser dito sobre a história de negros e negras para as crianças?

Davi Nunes – Há muita coisa a ser dita, temos uma história a ser restaurada que foi, de certa forma, interrompida com o tráfico transatlântico, com a escravização, com a favelização e racismo contemporâneo. Temos que colocar as nossas vitórias em vitrine histórica, há muito a ser feito e dito. Não sei sintetizar isso numa frase, mas talvez seja passar para as crianças a noção de que somos grandes e originais desde o primeiro momento em que surgimos nesta terra.

Davi nos cita alguns escritores negros baianos que publicaram livros infantis: Lázaro Ramos (“A Velha Sentada”, “Caderno de Rimas de João”), Maria Gal (“A bailarina e a folha de sabão”), Mel Adún (“A lua Cheia de Vento”), Érico Brás (“Lindas Águas: o mundo da menina rainha”).

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Foto: AdelmirBorges

Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro terá núcleo baiano


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NordesteLab Foto: Emerson Dindo

Construir caminhos e estratégias que garantam a inserção e fortalecimento dos profissionais negros no audiovisual, em diálogo com agentes e parceiros indispensáveis ao setor. Este é o principal objetivo da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), que ganhará sua seção Bahia durante o NordesteLab, que acontece no Teatro do Goethe-Institute (Corredor da Vitória).  O lançamento será na sexta (2), às 15h30, com entrada gratuita.

Antes disso, a Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro marcará presença no NordesteLab nesta quinta-feira (01), às 9h30, com a mesa “Mulheres no Audiovisual – em busca da paridade de gênero”. As discussões sobre a presença feminina no cinema terão a participação de Débora Ivanov (Ancine), Milene Evangelista (Fundarpe), Malu Andrade (Mulheres no Audiovisual Brasil), Dênia Cruz (Trinca Audiovisual/ABD-RN) e Thamires Santos Vieira (Tela Preta/APAN-BA), mediadas por Daniela Fernandes.

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Jamile Coelho Foto: Diane luz

A APAN-BA nasceu de diálogos e articulações de cineastas e produtoras negras baianas, que uniram-se no propósito de – não apenas fazer frente à hegemonia do eixo Rio-São Paulo na produção audiovisual – mas também marcar a presença e força do cinema negro na Bahia. A Associação Nacional nasceu em São Paulo, em 2016 e hoje já está em 10 estados.

“É necessário que, no momento em que o setor audiovisual no mundo se dispõe a crescer o bolo econômico sobre histórias e subjetividades negras, os profissionais negros façam parte desse processo de forma autônoma e participativa”, diz Viviane Ferreira, baiana e presidente da APAN.

Em março deste ano, projetos e profissionais negros de audiovisual da Bahia foram convidados pelo ator, Lázaro Ramos, curador da Rio Content Marketing para participar do evento – o maior encontro de negócios da América Latina entre produtores independentes e profissionais do audiovisual.

VIVIANE FERREIRA DA CRUZ
Viviane Ferreira – APAN

“Lá, vimos a atuação de Lázaro e de Viviane enquanto APAN, articulando o cinema negro com os canais, as Tvs, produtoras e daí conhecemos a Associação e sua intenção de se ramificar nos demais estados Quando regressamos começamos esta articulação e compusemos o núcleo da APAN Bahia. Nos organizamos para estar no NordesteLab enquanto APAN-BA, conseguimos inscrever alguns projetos e teremos um espaço da Associação para dialogar com os players lá. Precisamos nos apropriar disso, nosso cinema negro tem a capacidade de se comunicar com o mundo, traz questões comuns à Diáspora e o mercado do Audiovisual está entendendo isso. Portanto, precisamos dominar as ferramentas de acesso a estes recursos para darmos viabilidade às nossas ideias”, diz Renata Dias.

Integram a APAN-BA, as cineastas Urania Munzanzu, Jamile Coelho, Cintia Maria, Larissa Fulana de Tal, Thamires Santos e Davi Aynan, além da Relações Públicas e Produtora, Renata Dias e o Produtor Criativo, Emerson Dindo.

NordesteLab

No dia 2 (sexta), a programação contará com a mesa “Cinema Negro: Conexões na Diáspora”, com a presença do ator Antonio Pitanga, em cartaz com o documentário “Pitanga”, e das cineastas Urânia Munzanzu, Stella Zimmerman, Jamile Coelho e Viviane Ferreira.

“O NordesteLab se firma no cenário regional e nacional como um dos mais importantes espaços de aproximação entre os produtores, realizadores e os principais players do mercado. Por isso a APAN, em sua regional Bahia, acredita ser este o melhor espaço para realizar sua apresentação ao mercado”, explica David Aynan, membro do conselho fiscal da associação.

Quinta-feira (01), às 9h30, com a mesa “Mulheres no Audiovisual – em busca da paridade de gênero”.

Lançamento da APAN

Sexta-feira (02), às 15h30, com a mesa  “Cinema Negro: Conexões na Diáspora”.

WabFestValda abre inscrições para bandas de todo país


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Banco de Imagens

Há 16 anos o WabFestValda, realizado na casa de shows carioca Fundição Progresso, promove concurso de música dirigido a músicos de todo território nacional. Inscrevendo-se a partir de preenchimento e envio da Ficha Eletrônica de Inscrição, os interessados terão despesas de viagem, hospedagem, alimentação e translado arcadas pela Valda Friends.

O WebFestValda será realizado em duas etapas nos dias 7 e 8 de julho deste ano. Na ocasião, além de prêmios, as bandas selecionadas poderão tocar no mesmo palco que grandes nomes da música nacional, a exemplo de Paralamas do Sucesso, Marcelo D2, Criolo, Onze:20 e outros que participaram, por exemplo, da última edição, em 2016.  Ao todo serão selecionadas 20 (vinte) bandas e a relação será divulgada dia 9 de junho no site. 

Somente poderá participar do WebFestValda bandas compostas de, no mínimo, um vocalista e dois instrumentistas e que executem músicas de sua autoria (em Português) no vídeo de seleção.

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Banda Levante (BA) – 3º Lugar em 2016 Foto: David Silva

Premiação

Todas as bandas vencedoras recebem troféus e 500 DVD com sua apresentação no WebFestValda. Também será eleito o melhor vocalista, que ganha um troféu e um microfone de alta qualidade, e melhor guitarrista, que também recebe seu troféu, além de uma guitarra. E tem mais, veja aqui. 

Como se inscrever

A banda sdeverá enviar um vídeo interpretando uma música autoral, no qual todos os integrantes devem aparecer tocando seus instrumentos. O vídeo deverá estar publicado no Youtube. 

 

Além disso, devem ser anexadas à Filha Online de Inscrição, cópias digitalizadas (“escaneadas”) dos documentos de identidade e CPF de todos os integrantes da banda, em arquivo formato JPEG, a letra da música inscrita, e outros elementos. O WebFestValda é promovido, dirigido e patrocinado pelo Laboratório Canonne Ltda.

O Festival

Com 16 edições, realizadas entre 1992 e 1999, o WebFestvalda está, hoje, dentre os principais festivais de música para novos talentos. Foi dele que saíram nomes como Pedro Mariano, Tafari Roots (alguns componentes seguem hoje na banda Natiruts) e a banda mineira Tianastacia, dentre outros.

Acesse aqui todo Regulamento.

 

 

Baile do Dendê terá 2ª edição no Pelourinho com música e gastronomia


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Fotos: Amilton André

Com um repertório composto só por músicas baianas, o Baile do Dendê do DJ e produtor Lucio K chega a sua segunda edição no dia 12 de março, depois do sucesso da estréia. Dessa vez contará com a participação do DJ, músico e artista visual Pedro Mariguella e do cantor Mr. Cappy, também conhecido como Capitão América (ex. Braga Boys e Bragadá).

A festa acontece no quintal do restaurante Jardim das Delícias, Pelourinho, das 13h às 20h, com Caruru completo incluso no passaporte. As vendas antecipadas já estão abertas. 

DJ Lucio K é o reponsável pelo repertório, voltado para todas as idades, com versões originais de clássicos da música carnavalesca da nossa terra, do Axé e da música Afro-Baiana.  Vai de Ilê Aiyê a Timbalada, de Luiz Caldas a Ivete Sangalo, de Pepeu Gomes a Davi Moraes, de Dodô e Osmar a Baiana System.

Os passaportes para o Baile podem ser adquiridos através do Sympla ou no próprio restaurante, na Rua Maciel de Cima, nº 12, próximo ao Terreiro de Jesus.


Serviço:
Baile do Dendê com DJ Lucio K

Quando: 12 de março (domingo)
Horário: 13h às 20h
Onde: Restaurante Jardim das Delícias, Pelourinho
Quanto: Couvert artístico R$ 30 + prato completo de Caruru

Machado de Assis: a voz de um Ancestral


MachadodeAssisSempre li Machado de Assis desde a adolescência. De certa forma ele foi meu professor de Literatura, visto que o bruxo escrevia seus contos e romances, ensinando-nos como fazê-los – metalinguagem chamam alguns – eu chamo de toque de mestre para a posteridade.

No meu caso, um escritor de gênio ambicioso, um “cabeça de Eternit” das periferias de Salvador, ao lê-lo sempre perguntava diretamente a ele, como se indagasse um ancestral griot: é assim mesmo, mestre? E escutava, depreendendo de suas sentenças sagradas e estéticas milagrosas: “é, e mais um pouco”.

De certa forma tive Machado como um amigo imaginário que assoprava técnicas ao meu ouvido, ou mesmo, oníricas sensações que venho entendendo no decorrer da vida. Talvez tenha ocorrido uma conversa mais longa numa digressão de ayahuasca. Não sei. Só tenho apenas a sensação fincada no peito.

Mas não é isso que importa agora. Na verdade, pela primeira vez entendi o pessimismo machadiano, não como os pálidos críticos canônicos; para mim o pessimismo dele foi algo que nós, pretos (alguns com profundidade maior do que outros) sempre sentimos com nomeação africana, ou seja, através das palavras banzo e zanga.

Mas não é algo conceitual, pois compreendi isso nos ossos, está na minha circulação sanguínea, saca? Como o verme do suicídio que estanco a cada dia com pinça heroica e enfadonha, o banzo. Ou com o franzir do rosto ao monstro conjectural que quer nos diminuir a zero sempre, zanga. Percebo agora a célebre frase de Machado, aquela que está escrita no final do romance Memórias Póstumas de Brás Cuba: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Esta frase fora muito tocante quando eu li na primeira leitura do livro, ainda saindo da adolescência, mas só de fato fremiu os meus ossos e (em borbulhas de angústias) ferveu o meu sangue nas veias, agora. É uma espécie de eureca atroz me fazendo depreender a ideia de que o pessimismo que se desnuda das camadas semânticas dessa frase está relacionado ao pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país.

Digo isso porque Machado de Assis era um homem negro, convivendo numa conjuntura racial, social e econômica aterrorizadora e ele tinha plena consciência disso. Haja vista o conto “Pai contra mãe” e os seus romances que, através da ironia e sarcasmos, sempre criticava – por via de sua tática de caramujo dissimulado – a elite do país, os políticos e as idiossincrasias medíocres dos profissionais liberais médios da época. Por outro lado, ele também não conseguiu se depreender, como exposto na frase em Brás Cuba, do pessimismo, a zanga e o banzo.

O legado de miséria seria o lastro humano seu, um filho, que ele teria que deixar nessa conjuntura que despersonaliza e oprime a mulher e o homem negro. Não quis produzir um ser para passar as agruras raciais as quais teve que enfrentar. Ao mesmo tempo em que via o seu povo, como nos diz Cruz e Souza, [emparedado] e numa situação, como nos afirma Fanon, de “Os condenados da terra.”

Após 136 anos da publicação em livro de Memórias Póstumas de Brás Cuba (1881) percebo – imerso numa conjuntura racial, social e econômica não menos aterrorizadora – que a zanga e o banzo, o pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país é atual. Verdade. Ainda estamos controlados pela branquitude, existe uma escravização mental profunda que nos bestializa e aliena em nossos costumes e ações no cotidiano.

E a resistência feita pelo Movimento Negro, que tinha inicialmente o objetivo de tomar o poder e melhorar o status quo da maioria da população – que ainda se resvala nos esgotos nas periferias, no genocídio e racismo – vem, agora, se enveredando numa retórica culturalista (aviltar estético de turbantes, tambores e cabelos) que do ponto de vista simbólico causa um frisson identitário, mas que estruturalmente não muda muito a realidade conjectural e objetiva dos negros e negras neste país.

O nosso legado de miséria posso dizer que seja a escravização, o racismo e a desgraça que Machado de Assis via envolta do povo preto e, consequentemente, refletida nele. Mesmo com toda glória e sucesso que alcançou em vida, o nosso legado de miséria são todas essas ignomínias construídas pela branquitude historicamente para se manter no poder.

Óbvio que esta é a tônica da história deste país, que obliterou e oblitera o caminho de muitos gênios negrxs, mas que não conseguiu, mesmo tentando o tempo todo, escamotear a negritude do maior escritor brasileiro, que para mim desde a primeira leitura é uma voz escritural de um sábio ancestral que ainda convivo: Machado de Assis.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

Confira seus textos aqui.

Feministas negras na TV aberta: o feminismo que alcança mainha! – Por Lorena Lacerda


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Foto: GShow

Uma vez eu debati com uma amiga o fato dela achar errado ou incoerente militantes, feministas, pessoas de esquerda e intelectuais negras irem dar entrevista na Globo. Para ela, era incoerente gritar “Globo golpista” nas ruas e depois ir lá no Programa da Fátima Bernardes falar sobre racismo, feminismo, LGBTfobia e várias outras opressões.

Pois bem, eu não concordei com ela. A Globo é uma rede de televisão e é concessão pública, ou seja, ela passa por um processo licitatório para ir ao ar, precisa cumprir regras em relação a sua programação dentro dos parâmetros da constituição e tem por obrigação representar a sociedade brasileira.

E, por falar em representar, sabemos muito bem que os programas de televisão e novelas são, em sua maioria, protagonizados e roteirizados por pessoas brancas, o que não garante a pluralidade do Brasil. Portanto, não vejo problema algum em feministas negras ocuparem espaços que estão lá para serem ocupados, pois, como foi dito, as emissoras de televisão tem por obrigação representar à diversidade e suas demandas. E, dentre essas demandas, temos o feminismo e o racismo para serem tratados com urgência.

Culpar ou cobrar coerência de mulheres negras porque elas foram à Globo, é ser no mínimo ridículo e, dependendo dos autores, é racista e machista. Muitas dessas críticas e acusações partiram de pessoas de esquerda e feministas brancas. Mais uma vez, malhando mulheres negras feministas e intelectuais. O racismo e o machismo da esquerda já estão mais do que escancarados: sempre que as pretas avançam no debate e tem um alcance grande de público, vocês, ditos de esquerda, desqualificam esses avanços que, são necessários e urgentes.

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Foto: GShow

E as feministas brancas ainda insistem em dar lição de moral ou bancar as sinhás para cima das mulheres negras nos ensinando e dando cartilha do que é ser feminista, como se mulheres não fossem múltiplas e lutassem por diferentes pautas.

Então, a partir desses fatores descritos, eu quero acordar de manhã, ligar a televisão no Programa da Fátima e ver sim, pautas como racismo e feminismo negro sendo tratado em tv aberta por pessoas que sofrem e constroem mecanismos de enfrentamento contra tais opressões. Eu quero ver sim, mais programas como o “Amor & Sexo”, que abordou o sexo não só pelo viés branco, mas de uma perspectiva enegrecida através do debate pautado pela competente e diplomada Djamila Ribeiro.

Vocês precisam entender que a Globo não vai acabar porque algum esquerdo-macho gritou “Fora Globo” ou “Globo golpista” na rua. Esse mesmo esquerdo-macho não sai da bolha do privilégio para entender que muitas pessoas no Brasil ainda não tem internet e nem TV a cabo.

Então, é de suma importância à participação de mais negras falando sobre racismo e machismo, de forma diluída e direta para as mães, tias, avós que nunca leram Simone de Beauvoir, Sueli Carneiro, Angela Davis, mas que, se lembrarão de nomes como a mulher do fim do mundo, Elza Soares e a professora e filósofa Djamila Ribeiro falando sobre empoderamento na perspectiva das mulheres negras, porque as viram, de forma despretensiosa ou não, no programa “Amor & Sexo” da Globo.

Ps: Eu não quero ver o feminismo apenas na academia ou só no clube da luluzinha, eu quero ver o feminismo chegando em mainha.

 

feminismo negroOpinião Preta de Lorena Lacerda, museóloga (Ufba), integrante da coordenação da Marcha do Empoderamento Crespo.