Escritor Davi Nunes lança “Zanga”, seu primeiro livro de contos!


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Davi Nunes – Fto Marcelo Ostachevski

 

Tem livro novo do escritor Davi Nunes no ar! “Zanga” é o título de sua nova obra, que traz 19 contos pautando uma diversidade de personagens. O livro Zanga será lançado pela editora Segundo Selo, no dia 19 de julho (quinta-feira), no Goethe Institut – Corredor da Vitória, em Salvador. Confira entrevista cedida pelo autor ao Portal Soteropreta:

Portal Soteropreta – Davi, por que o título Zanga?

Davi Nunes – Zanga sempre foi uma palavra presente em minha comunidade no Cabula, em Salvador, e, no geral, ela é presente nas comunidades negras. Sempre ouvi desde a infância me dizerem: “Esse menino é muito zangado, tá de zanga ele.” Esse também é um sentimento presente na minha mãe, d. Maria do Socorro, que criou a mim e a meus irmãos se zangando com a escola, com o mau atendimento dos médicos nos postos de saúde, com a polícia,  com as instituições de poder no geral. O segundo motivo está ligado à origem da palavra Zanga – uma palavra que, segundo Nei Lopes no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem banto, provavelmente do Quicongo isanga: lágrimas, singular de kisanga. Ou relativo ao quimbundo zangalala: rebelde. Que se liga a ondzanga: bravura, coragem, combatividade. O terceiro motivo é que vejo nas palavras de origem africana a transposição de um sentimento potente de luta dos negros dessa diáspora. Zanga pra mim é super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós.  É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar.

 

Portal Soteropreta – Como o livro foi construído?

Davi Nunes – O livro é composto por 19 contos, costumo dizer que são 19 zangas estruturadas em linguagem literária, 19 zangalas, rebeldias. Como bem notou Silvio Roberto no prefácio do livro: “A diversidade se representa nos contos por personagens ainda simulacradamente héteros, gays, azoadxs, engajadxs, estudantes secundarista, universitárixs, devotxs de santxs, filhxs de orixá, cultuadorxs de vodu, da Cabula, de Zumbi, de zumbis, em meio ao amor, ao horror, ao necrófilo ou mesmo ao social.”

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Portal Soteropreta – Como você enxerga o processo de publicação do Zanga ?

Davi Nunes – O processo de publicação é sempre árduo e melindroso. Mas nunca tive pressa em publicar livro de contos, é um gênero que exige densidade na vida, um esgarçamento vivencial que me levou até a pensar no suicídio por algum tempo, porém só adensou a minha escrita. Então, passei algum tempo vivendo a boemia da cidade de Salvador, as paixões, e ao mesmo tempo estudando e exercitando várias técnicas de escrita de contos que me fez descambar em Zanga. Já falando mesmo no processo de publicação, de correr atrás de editora, é sempre angustiante a procura. O escritor negrx ainda sofre muita interdição devido ao racismo editorial vigente no próprio sistema literário brasileiro, mas tive a sorte de encontrar Jorge Augusto, que hoje é meu editor e comprou a ideia de publicação desse livro.

Para quem quer garantir o seu, o livro já está em pré-venda e pode ser adquirido por aqui.

Portal Soteropreta – A morte está bastante presente nos contos, por quê?

Davi Nunes – Sou de Salvador e, para as pessoas negras, esta cidade é um verdadeiro campo de morte. O corpo negro é um corpo sitiado, um corpo sem status político, um corpo nu, um corpo inimigo, um corpo em constante injúria pelas instituições de poder, um corpo do genocídio, da cesura biológica, do racismo. Um corpo cuja política de estado é a morte, um corpo que está localizado onde o estado é sempre de exceção, a periferia. O corpo da inimizade, do ódio, o corpo de uma sobrevivência inumana, de terror, um corpo cuja vida é subjugada ao poder da morte. O corpo que pode ser interditado mesmo antes de nascer. Um corpo cuja  bala, um cão com mandíbulas ensanguentadas, fareja à todo momento. Um corpo policiado, um corpo do extermínio, do massacre, do sacrifício, da fome, um corpo localizado numa instância aterrorizadora, exemplo claro do que Mbambe chama de necropoder. Talvez meus contos sejam necrocontos, ando refletindo sobre isso.

Lançamento livro “Zanga”, de Davi Nunes

Quando: 19 de julho (quinta-feira)

Onde: Goethe Institut – Corredor da Vitória, Salvador

Horário: 18h30 – Entrada gratuita

Pré Venda aqui!

Vendas no local: R$35 (cartão) ou R$30 (dinheiro)

A lírica amorosa da poetisa Lívia Natália em “Dia bonito pra chover”! – Por Davi Nunes


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Fto: Lissandra Pedreira

O livro de poesia, “Dia Bonito pra chover”, da poetisa baiana Lívia Natália, é estro translúcido, espelho d`água, mar estendido mitologicamente ao horizonte infinito da linguagem. É elevação – dimensionamento azeviche da poesia amorosa brasileira. Digo isso porque, em sua lírica feminina, Lívia Natália, pressuponho, revisita, reinventa, na contemporaneidade, características – como quem enxerga os versos hermeticamente refletidos em seu abebé – da poética arcadista.

Como os poetas pastores árcades, ela utiliza personagens da mitologia greco-romana para revestir, com força epopeica, nos poemas, o sentimento amoroso. No entanto, deixa nítido, como se pode ver no título do poema Odisseu negro, a filiação africana do ser-amante, objeto da sua poesia.

A poetisa também, através desse recurso estético de retomada das personagens mitológicas, aproxima-se do erotismo presente da poética parnasiana, mesmo que nos poetas parnasos seja erotismo de fogo morto, e, em Lívia Natália, é sedução, ardor e desejo. Ela adentra a Torre de Marfim, deixa seu perfume de flor, empunha a lira poética, enfeitiça com seu canto de sereia, vai embora e segue uma corrente marítima para o alto-mar, lombo do seu amor, como se pode observar no trecho do poema que dá nome ao livro, Dia bonito pra chover:

Eu nadaria no teu suor
e seria sereia encantada.
Eu, montada no lombo do teu grosso navio,
meu Odisseu,
nada em ti cessaria de querer,
nem tuas mãos atadas.
(NATÁLIA, 2017, p. 59)

Dia bonito pra chover, em Lívia Natália, assemelha-se ao carpe diem, nos arcadistas, no entanto ao invés do “aproveite o dia”, existe aí o instante poético, o momento iluminador que dá sentido aos seus versos-vida, a eternização, em linguagem, do átimo de beleza, sagrado, do intimismo feminino de amor e dores.

O equilíbrio formal (aproximação com o parnaso) através do uso das personagens mitológicas compõe a atmosfera clássica dos seus versos. Assim, o diálogo que Lívia Natália faz com o cânone é de alta voz poética, cheia de sutilezas insurgentes, que desestabilizam a sua imobilidade, pois a subjetividade, o eu lírico, a cor que a poetisa emprega é outra, um âmbar negro fino, com tempestividade e placidez marinha que caracterizam, neste livro, seus versos, como se observa no trecho do poema Olhos D`água.

Ele tem pés de peixes,
E eu sou Água.
Sua pele cheira a antigas maresias,
sua voz, feita de pedra,
já enganou sirenas delicadas
suas guelras brancas e brutas
engoliram Netuno,
Ele devorou o pai.
(NATÁLIA, 2017, p. 13)

Lívia Natália consegue se interpor formalmente ao cânone, toca-lhe no que lhe é mais caro, a estrutura poética, enuncia o eu lírico feminino e negro que, no Poema Noturno, consegue alcançar uma nota alta de erotismo:

Sinto, em minha garganta, seu falo robusto.
Sinto
Seu falo
Macio
em minha boca.
E minha língua lambe sedenta
as estrelas que escapam do seu céu.
(NATÁLIA, 2017, p. 45)

O erotismo em Dia bonito pra chover aparece fino, mas possui libido poética, as dimensões são altas, se ondulam nas vagas abertas no lençol, no suor, mar que o eu lírico, sereia encantadora, mergulha, pois é na água, na imensidão do horizonte infinito e aquoso que ela se faz.

Dia bonito pra chover retoma, assim, a tradição da poesia amorosa na literatura brasileira e chega com a renovação da voz: a forma, o foco dos sentidos e do desejo são femininos e a lira é negra, a tecer amores insólitos. A obra de Lívia Natália, dessa forma, é um libelo estético, realmente um dia bonito pra quem o ler.

NATÁLIA, Lívia. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.

 

Davi Nunes

Texto de Davi Nunes –  Colaborador do Portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

A palavra não é senzala, é quilombo! – Por Davi Nunes


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Banco de Imagens

As palavras de origem africana que foram usadas ou apropriadas pela branquitude durante esses séculos de escravização e racismo no Brasil para nomear as suas instituições – encharco de atrocidades históricas – ou mesmo às suas ações de violência estruturada contra a nossa humanidade, de certa forma perderam o sentido originalmente africano. Tornou-se um signo torto, uma palavra agrilhoada de acepções para nos aprisionar no campo semântico de representações negativas que nos liga ainda de forma sistemática à escravização.

A palavra senzala, assim, é o arquétipo perfeito disso, é o signo cujo uso nos enclausura, nos coloca dentro de um alojamento, presos(as) a correntes de desespero e terror  seculares.

Senzala se depreende de uma palavra que vem do Quimbundo, língua do tronco linguístico banto, sanzala. A sanzala na África, nas regiões que se localizavam os povos bantos, principalmente em Angola onde se encontrava o grupo étnico quimbundo, era lugar de habitação de pessoas de uma família.

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Sanzala

Observa-se aí que o sentido de sanzala se perdeu em [senzala] no Brasil, visto que aqui, como sabemos, era uma instituição do sistema escravagista, um alojamento (normalmente não muito distante da casa grande) onde homens e mulheres negros eram aprisionados, acorrentados, açoitados depois de jornadas extenuantes de trabalhos forçados.

Nesse sentido, senzala não pode ser tomada como símbolo de resistência, não pode ser propagada como o tiro, o estopim para a libertação, que não era. Era como existe hoje os presídios, o local físico, estrutural do nosso cárcere e escravização.

A palavra que dá conta da nossa força, de nossa liberdade nesse país, é outra advinda da Língua Quimbundo também – QUILOMBO – signo poderoso de nossa engenharia civilizacional.

O quilombo foi o primeiro espaço onde nós negrxs, nessa diáspora americana, fomos de fato livres. Foi onde plantamos axé, criamos mocambos, lar onde podemos assentar livremente o nosso corpo e sonhar com algum porvir, onde nos armamos e também nos dengamos criando nossas famílias, edificamos fortalezas para lutar contra a escravidão, onde erigimos modelos civilizatórios africanos que estruturarão com liberdades as nossas existências nesse país.

O quilombo foi e acredito que seja ainda o verdadeiro poder paralelo negro que fez e faz a branquitude pirar desde Palmares, no século XVI, até hoje. Haja vista a resistência dos Quilombolas dos Rios dos Macacos, na região metropolitana de Salvador, para manter seu território que vem sendo assaltado pela Marinha, como também dos quilombolas que, nas quebradas do Cabula, resistem ao genocídio impetrado pelo Estado baiano.

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Banco de Imagens

Penso que os Movimentos Negros urbanos baseados nos modelos de militância dos negros de EUA vêm, atualmente, negligenciando essa acepção. Delimitando-a a uma identidade suspensa, arcaica, ou só de negros que estão nos recônditos do Brasil, lutando pelas suas terras.

Quando na verdade as nomenclaturas quilombo, quilombola e as identidades revestidas nelas são a nossa história positivada nesse país. Foi e é o nosso libelo de libertação e criação real de paradigmas e modelos civilizatórios negros.

Penso que a desunião do povo negro, ocasionado pelo racismo estrutural e todas as mazelas impostas, vem também da dissolução da identidade quilombola nos centros urbanos. Temos que entender que nessa conjuntura em que nascemos – imposta pela branquitude – renascer para negritude é renascer para o quilombo e renascer para o quilombo é saber que sempre tivemos terras e riquezas, tanto em África como aqui, e que fomos duplamente assaltados.

O quilombo, ou como escrito em Quimbundo, Kilombo, é o reatar fraterno e pragmático de um saber poderoso que nos fez e faz sobreviver nessas terras, que é o “nós por nós”. De maneira que penso que temos que voltar às vistas para o quilombo e para as vivências quilombolas, pois é o horizonte mais livre onde podemos nos espelhar.

Davi NunesTexto de Davi Nunes –  Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

“Canções de Amor e Dengo: árvore que faz sombra às nossa raízes” – Por Davi Nunes


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O livro Canções de Amor e Dengo da escritora mineira radicada em Salvador Cidinha da Silva, é estro suave, soou em mim como um canto matutino de um passarinho que, dengosamente, nos desperta em placidez com a sua lírica amorosa.

É escrita de dândi feminina que sabe que as palavras (apesar de como a autora diz: não se encastelar no brilho delas) é encantamento que pode se imiscuir com o ritmo da batida do coração e enredar paixões – afeto dengoso das musas.

Escrevo isso porque a cartografia da obra é galante, se delineia inicialmente com os aforismos e, nessa parte do livro, me fez lembrar, desconfio que seja pela natureza proverbial do aforismo mesmo, da poesia conceptista barroca.

Aparece aí o jogo de ideias sensíveis e uma retórica sutil na composição dos versos. Como se pode observar no poema “Definitiva”: “Não me encantam as que se acham; me derrubam as que são” como também no poema É coisa, viu? “Era a mulher certa, sim! O relógio da vida é que andava desgovernado”.

A escritora vai em seguida, no corpo da obra, tecendo alguns pequenos poemas, onde a lírica amorosa vai delineando os versos, o eu lírico feminino e galanteador da poetisa aparece não como a tradição romântica do século XIX, ou seja, musa inatingível e se alcançada, destroçado o amor em tragédia.

Em Canções de Amor e Dengo a musa é outra, tem o azeviche de uma madrugada enluarada a cobrir a pele, além de Cidinha utilizar como forma estética algo que está bem relacionado à forma de afetos de nós, negras e negros, que é o dengo. Deste modo, o livro se sucede, vai ganhando em seu corpo outros membros, aparecem a dor, o desamor, a multidimensionalidade de afetos e sensações humanas que caracterizam as nossas vidas, as nossas relações afetivas nessa diáspora de dor.

            Assim, Canções de Amor e Dengo é árvore que faz sombra às nossas raízes, voz poética que ressoa beleza em nossos corações.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com), especial para o Portal SoteroPreta. 

Lima Barreto: um gênio negro e o reconhecimento tardio – Por Davi Nunes


lima barreto flipNo próximo ano, 2017, Lima Barreto será homenageado na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre 26 e 30 de Julho. É uma homenagem tardia ao autor, mas necessária, pois ele só teve a sua obra minimamente reconhecida 30 anos após o seu falecimento e foi totalmente, em vida, destroçado pela crítica, cujo viés teórico fora sempre racista.

Lima Barreto (1881-1922) escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, tendo o subúrbio da cidade como cartografia afetiva, escreveu em sua obra póstuma, Diário Íntimo, publicada em 1953, o plano de um romance que dá conta de sua genialidade e afrocentricidade latentes como elemento, signo para criar uma obra prima, segundo o autor.

“Veio-me à idéia, ou antes, registro aqui uma idéia que me está perseguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopeia. Animará um drama sombrio, trágico e misterioso, como os do tempo da escravidão.Como exija pesquisa variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde.”

O autor estava com apenas 23 anos quando traçou essas linhas. O jovem Lima tinha a mania de escrever para si no futuro, isto é, mais velho com 30, 40, 50 anos. Sabemos que ele morreu com 41 anos e não conseguiu por em prática a escrita dessa obra idealizada, visto que o racismo estrutural da sociedade brasileira o adoeceu, levou-o á loucura etílica e muitas internações no hospício, o que entravou a sua glória em vida.

limabarretoflip2No entanto, Lima Barreto conseguiu realizar e publicar outras obras geniais e destaco aqui Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pois nesse romance ele faz uma crítica ferrenha, cheio de sarcasmo, sátira e ironia aos jornalistas, críticos literários, à elite intelectual branca, que o escritor via como medíocres e “pomposos” racistas.

Depois desse romance publicado, ele recebeu muitas críticas: desde contestarem a qualidade literária, de chamarem de mau panfleto sua obra, até de tentarem colocá-lo num lugar intelectualmente inferior por ser negro.

Tática usual que os intelectuais brancos utilizam até hoje para desprestigiar, desclassificar e não premiar as obras escritas por escritores e escritoras negrxs no Brasil.

Um gênio que viveu o underground da sua época no Rio de Janeiro. Era visto como boêmio, louco, anarquista que perambulava o centro do Rio de Janeiro, bebendo e ironizando as rodinhas intelectuais da época – homens de óculos e bigodes.

Fico imaginando o que ele diria da crítica atual, das festas literárias e academias semelhantes às do seu tempo, penso que seria: “são os mesmos, mesma tez de bico de tucano, mesmo eurocentrismo desenxovado e atrasado; mesmo racismo, mas que agora não tem mais como impedir o meu gênio”. Depois disso, imagino-o tomando uma boa Paratiana e dizendo: axé.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com). 

Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece entre 26 e 30 de julho de 2017.

Davi Nunes e Bucala: uma literatura negra infantil feita para sentir e refletir


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“Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula” é o título do livro do escritor soteropreto Davi Nunes, lançado ao final de setembro. “Uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador, destruído em 1807”, ele descreve. Davi topou a entrevista e falou de Bucala e literatura negra. Confere:

PortalSoteroPreta – Porque trazer o bairro do Cabula como cenário do livro Bucala?

Davi Nunes – O Cabula é o local da minha cartografia afetiva, onde os meus passos se iniciaram seguindo o passar da minha avó, da minha mãe, tias, tios, e agora os meus sobrinhos e sobrinha segue o caminhar meu e os dos meus irmãos. No Cabula passei a infância entre o bairro Beiru/Tancredo Neves e Narandiba. O Beiru era e é uma periferia urbana tradicional: multidimensionalidade de pessoas, casas de blocos nus, telhas de Eternit, laje e polifonia rítmica popular. Era o que havia de mais moderno pra mim.

PortalSoteroPreta – Qual impacto deste cenário em sua escrita?

Davi Nunes – O que poderia ser ruim, por incrível que pareça, era, de certa forma, uma bênção, pois ainda se tinha uma natureza considerável, vivências de reminiscência de quilombo, o que me possibilitou ter uma infância livre, correndo ainda pelas matas, traçando aventuras. Essas vivências periférico-quilombolas no processo de escrita me possibilitaram imaginar Bucala, uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador-Ba, destruído em 1807.

Foto: AdelmirBorges
Foto: AdelmirBorges

PortalSoteroPreta – Como você vê a atual produção literária infantil de negros e negras? 

Davi Nunes – São muitas, o livro infantil além do texto exige ilustração e uma boa diagramação para fazer com que ele possa existir de forma digna e ter sucesso, além de ser muito difícil encontrar uma editora que queira apostar nisso, ainda mais em se tratando de autor(a) negro(a) que escreve sobre temas relacionados à negritude e à africanidade. O racismo editorial oblitera o caminho que muitos nem pensam em se arriscar no gênero. No entanto, é necessário perseverar e ir rompendo as barreiras visíveis e invisíveis no caminho.

PortalSoteroPreta – A leitura ainda é uma deficiência em meio às crianças negras? O que ainda pode ser feito?

Davi Nunes – Não gosto de restringir a leitura das nossas crianças somente ao texto escrito, acho que as formas de leitura são muitas e elas conseguem ler o mundo de forma bem inteligente, agora com relação ao letramento literário, ele sempre foi feito de forma equivocada, não só aqui no estado da Bahia, mas no país inteiro, sempre com os livros dos escritores brancos, cujos enredos pouco ou quase nada dizem sobre a realidade das crianças negras, logo um descompasso simbólico e representativo tornou durante muito tempo o mundo das letras mais ríspido para elas, mas com as publicações crescentes de escritores negros(as)  por todo país isso vem melhorando.

PortalSoteroPreta – A Lei 10.639/03 está há mais de 10 anos sem ser devidamente cumprida. Como fazer com que histórias negras sejam contadas nas escolas?

Davi Nunes – O Brasil é um país de leis dissimuladas, ainda mais as direcionadas para a população negra, no papel se apresenta como inclusivas e “cidadãs”, mas a própria estrutura racista das instituições do país como um todo dificulta, ou impede a sua implementação e funcionamento.  Acho que isso é exemplar com a Lei 10.639/03. Penso que temos que nos voltar para as nossas comunidades, construir as nossas bibliotecas e escolas para educar em princípios civilizatórios, educacionais africanos e afro-brasileiros as nossas crianças.

PortalSoteroPreta -O que você sente ao ver uma criança negra tendo “Bucala” às mãos?

Davi Nunes – Tenho tido um retorno muito bom das crianças, principalmente das meninas, elas se veem na personagem e destaco aqui, além do texto, o trabalho de ilustração de Daniel Santana. Ele ilustrou de forma primorosa o texto que escrevi e o resultado vem sendo criar um imaginário identitário e ancestral positivo para as crianças que leem o livro. Isso nos deixa feliz.

12144908_416323078563356_8463535839037744034_nPortalSoteroPreta – Em outras áreas, como está sua produção?

Davi Nunes – Ando escrevendo muito. Em 2015 tive o conto Cinzas adaptado para o cinema pela cineasta Larissa Fulana de Tal, também dividi o roteiro  do filme Cinzas com  Larissa. Agora, em 2016, fui selecionado no Prêmio Literário Enegrescência para participar da Antologia Literária, na qual publiquei oito poemas, além de ter sido selecionado para compor o 6º volume da Coleção Besouro, o livro A Makena e o Faraó, com o conto infanto-juvenil, O Menino das Vinte oito Tranças um Rei Faraó, além de ser colaborador de um site de cultura de EUA, Cores Brilhantes. Mantenho um blog que versa sobre a cultura afro-brasileira, chamado Duque dos Banzos. Ando também com um romance, um livro de contos e de poesia escritos, dialogando com editoras e concorrendo em concursos literários para a publicação.

PortalSoteroPreta -O que ainda precisa ser dito sobre a história de negros e negras para as crianças?

Davi Nunes – Há muita coisa a ser dita, temos uma história a ser restaurada que foi, de certa forma, interrompida com o tráfico transatlântico, com a escravização, com a favelização e racismo contemporâneo. Temos que colocar as nossas vitórias em vitrine histórica, há muito a ser feito e dito. Não sei sintetizar isso numa frase, mas talvez seja passar para as crianças a noção de que somos grandes e originais desde o primeiro momento em que surgimos nesta terra.

Davi nos cita alguns escritores negros baianos que publicaram livros infantis: Lázaro Ramos (“A Velha Sentada”, “Caderno de Rimas de João”), Maria Gal (“A bailarina e a folha de sabão”), Mel Adún (“A lua Cheia de Vento”), Érico Brás (“Lindas Águas: o mundo da menina rainha”).

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Foto: AdelmirBorges

Encontro Periférico de Artes- EPA acontece de 1º a 6 de outubro em Salvador!


Iguinho Imperador

 

Corpos em movimento, poesia, música, escrita e muito aprendizado, é o que promete as oficinas da  3ª edição do Encontro Periférico de Artes- EPA, que será realizado no período de 01 a 06 de outubro, em diferentes espaços. No total, serão realizadas 10 oficinas.

Para participar das oficinas não é necessário realizar inscrições prévias. Apenas ir ao local, em uma das datas, e fazer parte de uma das atividades disponíveis.  O EPA é idealizado pela ExperimentandoNUS, companhia que atua e produz dança de forma independente e ininterrupta há 11 anos no estado da Bahia.

No primeiro dia  (01 de outubro)  serão realizadas três oficinas. Um delas é a OFICINA DE STENCIL | ESTAMPATIA MANUAl, às 14h, no Centro Cultural Alagados, bairro do Uruguai. A oficina é focada no ensino de técnicas de corte utilizando estiletes para a produção de estampas para pinturas em tecido.

A oficina será facilitada pelo artista  Ramsestencil,  design e grafiteiro baiano que atua nas cenas soteropolitana há mais de quatro anos e trabalha com estamparia manual desde 2008. Da pesquisa sobre a técnica surgiu a sua marca, a ColeçãoDiori, voltada para a temática das religiões de matriz africana.

No dia 3 de outubro serão realizadas duas oficinas com artistas do Ceará e Rio de Janeiro. Um dos facilitadores é Iguinho Imperador (RJ), com a Oficina do Passinho. Ele é professor de danças urbanas, já fez apresentações vários estados brasileiros e em países como Inglaterra, Dinamarca e Suíça. A oficina será realizada, às 15h, no Espaço Xisto da Bahia (Barris).

Confira programação completa

1-Oficina De Stencil | Estamparia Manual Com Stencils
Oficina prática e focada no ensino de técnicas de corte utilizando estiletes comuns para a produção de stencils.
Artista facilitador: Ramsestencil (Ba)
O que é: Oficina De Stencil | Estamparia Manual Com Stencils
Local: Centro Cultural Alagados
Dia: 01/10 (Terça)
Horário: 14h

2-Oficina AFROFUTURISMO: A ESCRITA DE UM FUTURO NEGRO
A oficina Afrofuturismo: a escrita de um futuro negro visa através da utilização de contos de escritores(as) do gênero possibilitar a jovens negros e negras o acesso a um acervo literário  que tem como objetivo vislumbrar e defender o espaço do negro no futuro.
Artista facilitador: Davi Nunes (Ba)
O que é: Oficina de Desenho
Local: FUNDAC
Dia: 01/10 (Terça)
Horário: 9h as 11h
Específica para a FUNDAC

3-Oficina de Literatura Negra: caminhos para identidade
A oficina consistirá em leitura e discussão de textos em prosa ou versos de autores e autoras negras que reflitam sobre a identidade negra, culminando na produção e apresentação de textos.
 Artista facilitador: Jairo Pinto (Ba)
O que é: Oficina de Literatura Negra
Local: Centro Cultural Alagados
Dia: 01/10 (Terça)
Horário: 14h as 17h

03 DE OUTUBRO
4-Oficina de Percussão Corporal
A oficina pretende trabalhar noções rítmicas e corporal, assumindo o corpo como instrumento de produção sonora e musical.
Artista facilitador: Zé Viana Junior (CE)
O que é: Oficina de Percussão Corporal
Local: FUNDAC
Dia: 03/10 (Quinta)
Horário: 14h as 17h
Específica para a FUNDAC

5- Oficina de Passinho
Com as bases mais famosas da cultura do passinho, entre rabiscadas e cruzadas para dançar o famoso passinho foda.
Artista facilitador: Iguinho Imperador (RJ)
O que é: Oficina de Passinho
Local: Espaço Xisto Bahia
Dia: 03/10 (Quinta)
Horário: 15h as 17h

04 DE OUTUBRO

6- Oficina Ai Meu Quadril ante-retro-versão
O quadril na dança com jogos coreográficos, em solturas de couraças emocionais principalmente na região pélvica e lombar. Explora possibilidades de mexer a pelve, trabalha os músculos paravertebrais, dorsais e flexores de quadril com ritmos populares brasileiros como pagofunk, arrocha, pagode e funk.
Artista facilitadora: Raina Santos
O que é: Oficina de dança
Local: Espaço Xisto Bahia
Dia: 04/10 (Sexta)
Horário: 10h as 12h

7 e 8 – Pagode Baiano + Oficina de Passinho
Karol Ribeiro (BA)

Karoline Ribeiro, professora e bailarina, técnica em dança pela Escola de Dança da Funceb, bacharela, licenciada e pós graduada em Dança pela Escola de Dança da UFBA.

Iguinho Imperador (RJ)
Dançarino e professor de Passinho Foda e Danças Urbanas

Artistas facilitadores: Karol Ribeiro (BA) + Iguinho Imperador (Ba)
O que é: Oficina de Pagode Baiano e Passinho
Local: Espaço Xisto Bahia
Dia: 04/10 (Sexta)
Horário: 15h as 17h

9- Oficina Ateliê de Contos
Por meio da oficina de escrita de contos, almeja-se o desprender-se das amarras mentais do medo de compor uma história por meio da linguagem escrita, assim como observar o uso de diferentes termos e expressões que os cursistas usarão para expressar seus sentimentos, desejos e identidades utilizando a literatura e ilustrações de capa de livros como rizoma para tais construções narrativas.

Artista facilitador: Ana Fátima (Ba)
O que é: Oficina Ateliê de Contos
Local: Centro Cultural Alagados
Dia: 04/10 (Sexta)
Horário: 14h as 17h
Entrada Gratuita

05 DE OUTUBRO
10- Oficina de Dança Afro
Desenvolve uma linguagem corporal contemporânea baseada na comunicação da estética e estereótipos da cultura afrodescendente.
Artista facilitador: Pakito Lázaro (Ba)
O que é: Oficina de Literatura Negra
Local: Praça da Sé
Dia: 05/10 (Sábado)
Horário: 09h as 11h
Entrada Gratuita

Flipelô terá diversas atrações negras em sua programação! Confira!


Com um Poema Sinfônico para Castro Alves, montado pela Orquestra Afrosinfônica, do maestro Ubiratan Marques, a 3ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – FLIPELÔ será aberta em pleno Largo do Pelourinho; Com muito charme, Martinho da Vila vai chegar e perguntar se literatura dá samba; o legado de  Makota Valdina vai receber uma belíssima e merecida homenagem na Rosário dos Pretos; uma nova escrita nigeriana será apresentada pela jovem escritora Oyinkan Braithwaite;  Jamie Sodré lançará livro sobre racismo pelo MOCRI: Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil; na Casa do Benin tem conversa sobre masculinidades negras; Mateus Aleluia promove uma roda de conversa musicada com poesia e música negras… Estas são apenas algumas das mais de 80 ações/eventos que na FLIPELÔ têm como tema, base, inspiração, força, o nosso mundo afro. Confira …

 

7/8 – Quarta-feira

LARGO DO PELOURINHO – PALCO FLIPELÔ – 20h

Apresentação musical

Poema Sinfônico para Castro Alves

Orquestra Afrosinfônica – Maestro Ubiratan Marques

8/8 – Quinta-feira

CASA DO BENIN – 11h

Visita guiada

Acervo da Casa do Benin

SENAC PELOURINHO – SALÃO MESTRE PASTINHA – 13h30’

Aula-show

Arroz de Hauçá

Tiago Almeida (BA)

Inscrições gratuitas na Unidade Senac Pelourinho ou através do site www.ba.senac.br/senacnaflipelo. As vagas são limitadas

TEATRO SESC–SENAC PELOURINHO – 14h

Mesa de debate

Nordeste geek: entre orixás e cangaceiros:

personagens de nossas tradições no universo das histórias em quadrinhos.

Hugo Canuto (BA)

Zé Wellington (CE)

Mediação: Daniel Farias (BA)

 

CASA DO BENIN – 14h

Oficina de Etnogastronomia

Angélica Moreira (BA) (Ajeum da Diáspora)

Doces e sobremesas: cocada preta/ doces de banana / creme mármore

 

CASA DO BENIN – 15h

Visita Guiada

Acervo da Casa do Benin

 

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Vanda Machado

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS – 16h

Lançamento de livros

Irê Ayó: Uma Epistemologia Afro-Brasileira

Vanda Machado (BA)

Suburbano Rico em Poesia

Paulo Cezar (BA)

 

CASA DO BENIN – 16h

Roda de conversa

As Crianças Negras e a Literatura Infantil

Cássia Valle (BA)

Marcos Cajé (BA)

Davi Nunes (BA)

 

ESPAÇO DAS EDITORAS BAIANAS – ESCOLA DE MEDICINA – 16h

Bate-papo

A discriminação do negro  no livro didático

Lívia Natália (BA)

Ana Célia Silva (BA)

 

TEATRO SESC–SENAC PELOURINHO – 18h

Mesa de debate

Literatura que dá samba?

Somos muitos Martinhos e Helenas

Martinho da Vila (RJ)

Helena Theodoro (RJ)

 

GALERIA SOLAR FERRÃO – 18h

Roda de conversa e lançamento de livro

Lendas Africanas dos Orixás

Gilberto Sá (BA)

Enéas Guerra (BA)

Solange Bernabó (BA)

 

CASA DO BENIN – 18h

Pôr do sol com autores

Lançamentos e autógrafos

IGREJA DO PASSO – 18h30’

Sertão dos Anjos

Grupo Canção a 2 com maestro Ubiratan Marques e Paulo Alcoforado

CASA DO BENIN – 19h

Roda de conversa

Jogo de Discursos – A disputa por hegemonia na tradição da capoeira baiana

Paulo Magalhães (BA) e Grupo Gangara (BA)

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Annie Ganzala

9/8 – Sexta-feira

SENAC PELOURINHO – BAHIA BAR – 8h30’

Oficina

Os segredos de se fazer Aluá – uma bebida feita com abacaxi

Nelson Rodrigues Alcântara Jr. (BA)

Inscrições gratuitas na Unidade Senac Pelourinho ou através do site. As vagas são limitadas

 

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS – 9h às 12h

Mesa de debate

Literatura Griot: o legado de Makota Valdina

Aline França (BA)

Denise Carrascosa (BA)

Vilma Reis (BA)

Iyalorixá Jaciara Ribeiro – Mãe Jaciara (BA)

Lindinalva de Paula

Annie Ganzala (BA)

Isabela Sanches (BA)

Angélica Pinto (BA)

Nilsa Bomfim (BA)

Ana Célia (BA)

Lindinalva Barbosa (BA)

Intervenções artísticas

Slam e poesia (BA)

Coletivo ZeferinaS (BA)

Participação musical

Rita Braz (BA)

TEATRO SESC–SENAC PELOURINHO – 10h

Bate-papo

Nossa tradição oral: conversa e narração de histórias afro-brasileiras

Toni Edson (AL)

Vanda Machado (BA)

ESPAÇO DAS EDITORAS BAIANAS – ESCOLA DE MEDICINA – 11h

Mesa de debate

Literatura e identidade: caminhos pela Bahia

Luciany Aparecida (BA)

Sarah Rebecca Kersley (Reino Unido)

CASA DO BENIN – 14h

Oficina de Etnogastronomia

Angélica Moreira (Ajeum da Diáspora) (BA)

Entradas: bolsinha de Madagascar / salada criativa / caldinho de isú com gengibre

 

CAFÉ TEATRO ZÉLIA GATTAI – 15h

Performance teatral

Leituras Pretas – Castro Alves: A Voz da Poesia na Reconstrução do Brasil!

Companhia Beluna de Arte (BA) 

 

CASA DO BENIN – 15h

Visita Guiada

Acervo da Casa do Benin

 

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS – 16h

Lançamento de livros

Terreiro do Bogum: Memórias de uma comunidade Jeje-Mahi na Bahia

Everaldo Conceição Duarte (BA)

Makeba Vai à Escola

Ana Fátima (BA)

O diferencial da Favela: dos contos às poesias de Quebrada

Sarau da Onça (BA)

CASA DO BENIN – 16h

Roda de conversa

Masculinidades Negras, Ficções e Realidades

Vagner Amaro (BA) e convidados

 

CASA AMARELA – 1º andar – 16h

Narração de histórias e oficina de brinquedos

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS – 17h

Slam e poesia

Sarau da Onça (BA)

 

MUSEU EUGÊNIO TEIXEIRA LEAL – 18h

Workshop DNA Samba Reggae

Diálogo, Negritude, Ancestralidade

Anderson do Samba (BA)

 

CASA DO BENIN – 18h

Pôr do Sol com autores

Lançamentos e autógrafos

 

TEATRO SESC–SENAC PELOURINHO – 18h

Mesa de debate

Uma nova escrita nigeriana

Oyinkan Braithwaite (Nigéria)

Carolina Facchin (Tradutora)

Mediação: Rodrigo Casarin (SP)

 

CASA DO BENIN – 19h

Seminário

Travessias do Atlântico Sul: Modos de narrar a África (Projeto Intervalo)

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Vovó Cici

10/8 – Sábado

 GALERIA SOLAR FERRÃO – 10h

Narração de historias com vovó Cici

 

CASA DO BENIN – 10h

Oficina de Workshop

Performance poética

Luiza Romão (SP)

 

CASA DO OLODUM – 10h

Mesa de debate

Salvador no mapa da globalização: uma nova forma de ver a cidade

Anderson Simplício – @belezasdosuburbio

Larissa d’Eça – @asmelhorescoisasdesalvador

Luriana Moraes e Ive Deonísio – @seessaruafosseminha

Mediação: Iuri Barreto – @soteropobretano

MUSEU EUGÊNIO TEIXEIRA LEAL – 11h

Performance teatral

O Navio Negreiro

Grupo de teatro da TPC – Logística Inteligente (BA)

CASA DO BENIN – 12h

Vivência Etnogastronômica – Ajeum da Diáspora

Moqueca de bacalhau com banana da terra

Carne defumada acebolada com pirão de leite e salada de feijão fradinho

CASA DO BENIN – 13h

Sarau

DI-VER-GENTE

 

TEATRO SESC–SENAC PELOURINHO – 14h

Mesa de debate

(In)visibilidades sociais: a literatura como espaço de vozes historicamente silenciadas.

Ana Maria Gonçalves (SP)

Itamar Vieira Junior (BA)

Mediação: Rosinês Duarte (BA)

 

SENAC PELOURINHO – SALÃO MESTRE PASTINHA – 14h

Aula show

Bolinho de Estudante

Cibele Damasceno

Inscrições gratuitas na Unidade Senac Pelourinho ou através do site www.ba.senac.br/senacnaflipelo. As vagas são limitadas

 

CAFÉ TEATRO ZÉLIA GATTAI – 15h

Roda de conversa

Histórias e Receitas

Paloma Jorge Amado (BA)

Sulamita Tabacof (BA)  

Mediação: Rina Angulo

Lançamento do livro Beabá da Bessarábia à Bahia – Histórias e Receitas

CASA DO BENIN – 15h

Roda de conversa

Literatura e Performance

Nelson Maca e convidados

 

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS – 16h

Lançamento de livros

MOCRI: Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil

Jaime Sodré (BA)

A língua MINA-JEJE no Brasil: um falar africano em Ouro Preto do Século XVIII

Yeda Pessoa de Castro (BA)

CASA DO BENIN – 17h

Performance

Sangria

Luiza Romão (SP)

CASA DO BENIN – 18h

Apresentação musical

Rap – VisiOOnárias (BA)

 

LARGO DO PELOURINHO –PALCO FLIPELÔ – 21h

Performance musical

Gerônimo – Meninos do Pelourinho

Um tributo a Irakitan Sá

Oyinkan Braithwaite

11/8 – Domingo

CASA DO BENIN – 10h

Roda de conversa musicada

Poesia e Música Negra

Mateus Aleluia

Chicco Assis e convidados

 

CASA AMARELA – 1º andar – 11h

Narração de histórias

História de Raiz

CASA DO BENIN – 12h

Vivência Etnogastronômica – Ajeum da Diáspora

Anduzada com arroz e farofa / Quiabada de mariscos com arroz de coco

CASA DO BENIN – 13h

CandomBlackesia

Nelson Maca (BA) e convidados

 

CASA DO BENIN – 14h

Performance

Fragmento de Minas de Conceição Evaristo

Vera Lopes (BA)

Emilie Lapa (BA)

CASA AMARELA – 1º andar – 15h

Oficina de bonecas

Boneca Obayomi

CASA DO BENIN – 17h

Slam e poesia        

SLAM FreePelô (BA)

EXPOSIÇÕES E FEIRAS

De 8 a 11 de agosto

 

IGREJA DO ROSÁRIO DOS PRETOS

Horários: 8h às 12h / 13h às 17h

Candaces Moda Afro

Homenagem a Bira Reis: Um Toque Cultural de um Ser Universal

Mestre Ulisses: Som de papel

 

GALERIA SOLAR FERRÃO

Horários: 8 e 9/8 das 10h às 19h / Sábado das 10h às 20hs / Domingo das 10h às 17h

Lendas Africanas dos Orixás

Fundação Pierre Verger

Na Trilha do Poeta

DIMUS / IPAC

CASA DO BENIN

Horários: das 10h às 19h

Exposição do acervo 

PeriFeirAfro Literária

#Flipelô – Casa do Benin terá várias atividades sobre Literatura Negra e Periférica!


Foto: PalomaCarvalho

 

Entre os dias 09 e 12 de Agosto, a Casa do Benin (Pelourinho) se junta à movimentação da 2ª FLIPELÔ e oferece ao público uma programação que envolve literatura, culinária, música e muito mais. Com destaque para a produção literária negra e da periferia da cidade, a mesa da Casa do Benin terá comida afrodiáspórica da chef Angélica Moreira, do Ajeum da Diáspora, e conversas literárias, performances poéticas, apresentações musicais, além de um encontro de saraus e de um slam (batalha poética). Também acontece uma feira livre com livros e produtos afins.

Nos quatro dias de programação, o acervo da Casa do Benin, com obras coletadas por Pierre Verger em expedições à África, estará aberto à visitação sempre das 10 às 17h. No primeiro dia, 09, quinta-feira, o grupo Gangara realiza uma roda de capoeira. Já na sexta, dia 10, às 19h, as editoras Organismo e Segundo Selo realizam a primeira roda de conversas sobre Literatura Negra Contemporânea e Processos Criativos, coordenada por Silvânia Carvalho e que contará a participação dos autores baianos Davi Nunes, Vânia Melo e Alex Simões.

SERVIÇO

O que: Programação da Casa do Benin na Flipelô

Quando: 09 a 12 de Agosto

Onde:  Casa do Benin

Quanto: Programação Cultural e Visitação – Gratuita, Feira Literária – Livro com preços acessíveis, Ajeum da Diáspora – R$30,00 – Entrada e Prato Principal

 

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Sandro Sussuarana

CASA DO BENIN NA 2ª FLIPELÔ

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 

– QUINTA, dia 09/08

10 às 17h – Visitação à Exposição Permanente do Acervo da Casa do Benin

19h – Roda de Capoeira com o Grupo Gangara

 

– SEXTA, dia 10/08

10 às 17h – Visitação à Exposição Permanente do Acervo da Casa do Benin

19h – Roda de Conversas: Literatura Negra Contemporânea e Processos Criativos – Roda de Conversas coordenada por  Silvânia Carvalho, com a participação dos autores: Davi Nunes, Vânia Melo e Alex Simões. Organizado pelas editoras Organismo e Segundo Selo.

– SÁBADO, dia 11/08

10 às 17h – Visitação à Exposição Permanente do Acervo da Casa do Benin e PeriFeirAfro Literária – Exposição e venda de livros e produtos afins, com sessão de autógrafos de escritores e escritoras da periferia. Editoras convidadas: Organismo, Segundo Selo, Malê, Galinha Pulando e outras.

A partir de 11h – Ajeum Lítero-Sonoro – A chef Angélica Moreira e seu Ajeum da Diáspora – apresenta e serve o prato do dia: Cozido. DJ Gug Pinheiro discoteca Música Periférica Brasileira

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A partir de 13h – Ocupação Poéticas Periféricas  organizada por Valdeck Almeida e pela Editora Galinha Pulando

13h – Sarau e lançamento do livro Poéticas Periféricas: A nova voz da poesia Soteropolitana, com a participação de poetas da coletânea.

14h – Roda de Conversas: A Poesia Periférica no Centro da Literatura Sorteropolitana, com a participação dos poetas Gisele Soares, Sandro Sussuarana, Samuel Lima, Luz Preta Marques, Fabrícia de Jesus e Rilton Júnior.

15h – Encontro de Saraus – Roda poética com representantes de importantes saraus e coletivos poéticos da cidade – Sarau Bem Black, Sarau da Onça, Sarau do Cabrito, Sarau do JACA, Sarau da Raça, Sarau Bairro da Paz Vive e Coletivo Pé Descalço.

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Angélica Moreira – Ajeum da Diáspora Foto Juh Almeida

– DOMINGO, dia 12

10 às 17h – Visitação à Exposição Permanente do Acervo da Casa do Benin PeriFeirAfro Literária – Exposição e venda de livros e produtos afins, com sessão de autógrafos de escritores e escritoras da periferia. Editoras convidadas: Organismo, Segundo Selo, Malê, Galinha Pulando e outras.

A partir de 11h – Ajeum Lítero-Sonoro – A chef Angélica Moreira e seu Ajeum da Diáspora – apresenta e serve o prato do dia: Efó, com peixe ou com frango. DJ Gug Pinheiro discoteca Música Preta Brasileira

13h – CandomBlackesia: Axé e Poesia na Batida – Performance afro-poética e musical com Nelson Maca & Afro-Power-Trio: Dj Gug, João Teoria e Mestre Jorjão Bafafé e convidados: Alexandra Pessoa, Lee27, Vera Lopes e Netas de Francisca: Lucia Santos e Luiza Gonçalves

14h – Letras e Vozes de Mulheres Negras – Vera Lopes e Emile Lapa apresentam performance com diálogo entre poemas de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo

15h – Roda de Conversas: Escrita Atual da Bahia Preta – Roda de conversa com escritores e escritoras que participam da PeriFeirAfro Literária

16h: Free Pelô: Slam dos Slans – Slam de poesia com representação de slams pioneiros de Salvador – Slam da Onça, Slam Lonan, Slam das Minas e Slam da Raça

O lirismo banto no livro “Kalunga: poemas de um mar sem fim”, de Lande Onawale!


CAPA KALUNGA

O livro de poesia, Kalunga: poemas de um mar sem fim (2011), do poeta baiano, Lande Onawale, possui, em seus 21 poemas que o compõe, o que posso chamar de lirismo banto, uma força, afã sentimental quimbundo e um pensamento e lembrança banzo-quicongo. Digo isso porque traço a análise de alguns poemas seguindo o rastro da origem das palavras africanas que não são somente signos linguísticos, são energia, ritmo/ritual tambórico, ancestralidade, ato e sentimento negro que vem rasurando a língua portuguesa e a literatura produzida durante todos esses séculos nesse território suspenso, o Brasil.

Já no título do livro, denominado de Kalunga: poemas de um mar sem fim pode-se ver isso, visto que a palavra Kalunga, ou como aparece no Novo dicionário banto no Brasil (2006) de Nei Lopes , Calunga, possui muitos significados, trago apenas dois  que está no dicionário e  que também comungam com o sentido semântico e poético que o poeta traz em seu livro, que são: Kalunga significando (Deus) e (Mar). São dimensões amplificadas dessa palavra, na verdade a própria palavra é a amplidão, como se pode observar nessas duas estrofes do poema épico com o tom de uma elegia negra, que tem a nomeação de Kalunga:

A memória do mar me atravessa

está cravada em mim

como os ferros da grande árvore inesquecível,

são meus  poros,

são as voltas da muzenza contornando os cemitérios

– e, é claro, são mistérios.

(ONAWALE, 2011, p. 47)

O tom banzeiro vai ao longo do poema ganhando mais intensidade, beleza, e uma memória angustiante, aquática, elégica, da tragédia transatlântica que descamba potente nesta outra estrofe:

Balança o mar… balança num jinga interminável

das florestas de Matamba ao serrado do Brasil.

Balança o mar… balança numa dança incansável com o futuro

(exercício da destreza necessária).

Balança o mar… balança…

É o colo de Kayala que me embala,

são os braços da Kyanda

– onde entrego minhas forças para sair tão renovado!

(ONAWALE, 2011, p. 49)

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Foto: André Frutuoso

O lirismo banto é força poética, banzo que vai se espraiando como uma vaga poderosa, uma onda de batuques, gritos, cantos nos versos e prossegue compondo a forma dos poemas, com a beleza poética dos vocábulos bantos, como se nota no trecho do poema KWE ZULU:

quando fecho os meso

uma escuridão me ilumina

e vem do congo, moxicongo

a força que me anima

é por dentro o barravento das palavras

indaka que não se cala

ingoma soando em mim

… vem no vento, sibilando, cada sílaba…

eu, poeta, uma espécie de vodunsi

(olhos de Zambi)

boca de tudo

nada vejo

calo e me curvo de surran pra inspiração (…)

(ONAWALE, 2011, p. 33)

 

Lande Onawale que já carrega no nome a potência simbólica de sua ancestralidade e africanidade, de sua restauração espiritual, que também é semiótica nessa diáspora, no trecho do poema intitulado Letra, explicita já a forma como compõe (a sua Profissão de fé) a qual venho chamando de lirismo banto:

a minha letra dorme em esteira

e como a própria noite

é povoada de ancestres

o sol emerge dos teus murmúrios

contritos

e esta letra incansável

(que come com as mãos)

brilha, brilha, brilha

absurdamente

por dentro de todo cinza

numa perpétua consagração das cores e da natureza.

(ONAWALE, 2011, p. 35)

 

O lirismo banto do poeta Lande Onawale em Kalunga: poemas de um mar sem fim – livro escrito em português e inglês – conflui todos os tempos, é Kitembu. Sopro de inquice que compõe ventos e melodias, pois é ancestre e contemporâneo, denuncia o horror do genocídio e racismo em que vivemos, como demonstra a negrice, o poder, a beleza diversa, encrespada que comporta e consola, nessa diáspora de desespero e banzo,o povo negro.

ONAWALE, Lande. Kalunga: poemas de um mar sem fim. Salvador: Edição do autor, 2011.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

 

Davi Nunes

 

 

Texto de Davi Nunes –  Colaborador do Portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil. Confira outros textos do autor aqui.