A lírica amorosa da poetisa Lívia Natália em “Dia bonito pra chover”! – Por Davi Nunes


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Fto: Lissandra Pedreira

O livro de poesia, “Dia Bonito pra chover”, da poetisa baiana Lívia Natália, é estro translúcido, espelho d`água, mar estendido mitologicamente ao horizonte infinito da linguagem. É elevação – dimensionamento azeviche da poesia amorosa brasileira. Digo isso porque, em sua lírica feminina, Lívia Natália, pressuponho, revisita, reinventa, na contemporaneidade, características – como quem enxerga os versos hermeticamente refletidos em seu abebé – da poética arcadista.

Como os poetas pastores árcades, ela utiliza personagens da mitologia greco-romana para revestir, com força epopeica, nos poemas, o sentimento amoroso. No entanto, deixa nítido, como se pode ver no título do poema Odisseu negro, a filiação africana do ser-amante, objeto da sua poesia.

A poetisa também, através desse recurso estético de retomada das personagens mitológicas, aproxima-se do erotismo presente da poética parnasiana, mesmo que nos poetas parnasos seja erotismo de fogo morto, e, em Lívia Natália, é sedução, ardor e desejo. Ela adentra a Torre de Marfim, deixa seu perfume de flor, empunha a lira poética, enfeitiça com seu canto de sereia, vai embora e segue uma corrente marítima para o alto-mar, lombo do seu amor, como se pode observar no trecho do poema que dá nome ao livro, Dia bonito pra chover:

Eu nadaria no teu suor
e seria sereia encantada.
Eu, montada no lombo do teu grosso navio,
meu Odisseu,
nada em ti cessaria de querer,
nem tuas mãos atadas.
(NATÁLIA, 2017, p. 59)

Dia bonito pra chover, em Lívia Natália, assemelha-se ao carpe diem, nos arcadistas, no entanto ao invés do “aproveite o dia”, existe aí o instante poético, o momento iluminador que dá sentido aos seus versos-vida, a eternização, em linguagem, do átimo de beleza, sagrado, do intimismo feminino de amor e dores.

O equilíbrio formal (aproximação com o parnaso) através do uso das personagens mitológicas compõe a atmosfera clássica dos seus versos. Assim, o diálogo que Lívia Natália faz com o cânone é de alta voz poética, cheia de sutilezas insurgentes, que desestabilizam a sua imobilidade, pois a subjetividade, o eu lírico, a cor que a poetisa emprega é outra, um âmbar negro fino, com tempestividade e placidez marinha que caracterizam, neste livro, seus versos, como se observa no trecho do poema Olhos D`água.

Ele tem pés de peixes,
E eu sou Água.
Sua pele cheira a antigas maresias,
sua voz, feita de pedra,
já enganou sirenas delicadas
suas guelras brancas e brutas
engoliram Netuno,
Ele devorou o pai.
(NATÁLIA, 2017, p. 13)

Lívia Natália consegue se interpor formalmente ao cânone, toca-lhe no que lhe é mais caro, a estrutura poética, enuncia o eu lírico feminino e negro que, no Poema Noturno, consegue alcançar uma nota alta de erotismo:

Sinto, em minha garganta, seu falo robusto.
Sinto
Seu falo
Macio
em minha boca.
E minha língua lambe sedenta
as estrelas que escapam do seu céu.
(NATÁLIA, 2017, p. 45)

O erotismo em Dia bonito pra chover aparece fino, mas possui libido poética, as dimensões são altas, se ondulam nas vagas abertas no lençol, no suor, mar que o eu lírico, sereia encantadora, mergulha, pois é na água, na imensidão do horizonte infinito e aquoso que ela se faz.

Dia bonito pra chover retoma, assim, a tradição da poesia amorosa na literatura brasileira e chega com a renovação da voz: a forma, o foco dos sentidos e do desejo são femininos e a lira é negra, a tecer amores insólitos. A obra de Lívia Natália, dessa forma, é um libelo estético, realmente um dia bonito pra quem o ler.

NATÁLIA, Lívia. Dia bonito pra chover. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2017.

 

Davi Nunes

Texto de Davi Nunes –  Colaborador do Portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

A palavra não é senzala, é quilombo! – Por Davi Nunes


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Banco de Imagens

As palavras de origem africana que foram usadas ou apropriadas pela branquitude durante esses séculos de escravização e racismo no Brasil para nomear as suas instituições – encharco de atrocidades históricas – ou mesmo às suas ações de violência estruturada contra a nossa humanidade, de certa forma perderam o sentido originalmente africano. Tornou-se um signo torto, uma palavra agrilhoada de acepções para nos aprisionar no campo semântico de representações negativas que nos liga ainda de forma sistemática à escravização.

A palavra senzala, assim, é o arquétipo perfeito disso, é o signo cujo uso nos enclausura, nos coloca dentro de um alojamento, presos(as) a correntes de desespero e terror  seculares.

Senzala se depreende de uma palavra que vem do Quimbundo, língua do tronco linguístico banto, sanzala. A sanzala na África, nas regiões que se localizavam os povos bantos, principalmente em Angola onde se encontrava o grupo étnico quimbundo, era lugar de habitação de pessoas de uma família.

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Observa-se aí que o sentido de sanzala se perdeu em [senzala] no Brasil, visto que aqui, como sabemos, era uma instituição do sistema escravagista, um alojamento (normalmente não muito distante da casa grande) onde homens e mulheres negros eram aprisionados, acorrentados, açoitados depois de jornadas extenuantes de trabalhos forçados.

Nesse sentido, senzala não pode ser tomada como símbolo de resistência, não pode ser propagada como o tiro, o estopim para a libertação, que não era. Era como existe hoje os presídios, o local físico, estrutural do nosso cárcere e escravização.

A palavra que dá conta da nossa força, de nossa liberdade nesse país, é outra advinda da Língua Quimbundo também – QUILOMBO – signo poderoso de nossa engenharia civilizacional.

O quilombo foi o primeiro espaço onde nós negrxs, nessa diáspora americana, fomos de fato livres. Foi onde plantamos axé, criamos mocambos, lar onde podemos assentar livremente o nosso corpo e sonhar com algum porvir, onde nos armamos e também nos dengamos criando nossas famílias, edificamos fortalezas para lutar contra a escravidão, onde erigimos modelos civilizatórios africanos que estruturarão com liberdades as nossas existências nesse país.

O quilombo foi e acredito que seja ainda o verdadeiro poder paralelo negro que fez e faz a branquitude pirar desde Palmares, no século XVI, até hoje. Haja vista a resistência dos Quilombolas dos Rios dos Macacos, na região metropolitana de Salvador, para manter seu território que vem sendo assaltado pela Marinha, como também dos quilombolas que, nas quebradas do Cabula, resistem ao genocídio impetrado pelo Estado baiano.

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Banco de Imagens

Penso que os Movimentos Negros urbanos baseados nos modelos de militância dos negros de EUA vêm, atualmente, negligenciando essa acepção. Delimitando-a a uma identidade suspensa, arcaica, ou só de negros que estão nos recônditos do Brasil, lutando pelas suas terras.

Quando na verdade as nomenclaturas quilombo, quilombola e as identidades revestidas nelas são a nossa história positivada nesse país. Foi e é o nosso libelo de libertação e criação real de paradigmas e modelos civilizatórios negros.

Penso que a desunião do povo negro, ocasionado pelo racismo estrutural e todas as mazelas impostas, vem também da dissolução da identidade quilombola nos centros urbanos. Temos que entender que nessa conjuntura em que nascemos – imposta pela branquitude – renascer para negritude é renascer para o quilombo e renascer para o quilombo é saber que sempre tivemos terras e riquezas, tanto em África como aqui, e que fomos duplamente assaltados.

O quilombo, ou como escrito em Quimbundo, Kilombo, é o reatar fraterno e pragmático de um saber poderoso que nos fez e faz sobreviver nessas terras, que é o “nós por nós”. De maneira que penso que temos que voltar às vistas para o quilombo e para as vivências quilombolas, pois é o horizonte mais livre onde podemos nos espelhar.

Davi NunesTexto de Davi Nunes –  Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

“Canções de Amor e Dengo: árvore que faz sombra às nossa raízes” – Por Davi Nunes


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O livro Canções de Amor e Dengo da escritora mineira radicada em Salvador Cidinha da Silva, é estro suave, soou em mim como um canto matutino de um passarinho que, dengosamente, nos desperta em placidez com a sua lírica amorosa.

É escrita de dândi feminina que sabe que as palavras (apesar de como a autora diz: não se encastelar no brilho delas) é encantamento que pode se imiscuir com o ritmo da batida do coração e enredar paixões – afeto dengoso das musas.

Escrevo isso porque a cartografia da obra é galante, se delineia inicialmente com os aforismos e, nessa parte do livro, me fez lembrar, desconfio que seja pela natureza proverbial do aforismo mesmo, da poesia conceptista barroca.

Aparece aí o jogo de ideias sensíveis e uma retórica sutil na composição dos versos. Como se pode observar no poema “Definitiva”: “Não me encantam as que se acham; me derrubam as que são” como também no poema É coisa, viu? “Era a mulher certa, sim! O relógio da vida é que andava desgovernado”.

A escritora vai em seguida, no corpo da obra, tecendo alguns pequenos poemas, onde a lírica amorosa vai delineando os versos, o eu lírico feminino e galanteador da poetisa aparece não como a tradição romântica do século XIX, ou seja, musa inatingível e se alcançada, destroçado o amor em tragédia.

Em Canções de Amor e Dengo a musa é outra, tem o azeviche de uma madrugada enluarada a cobrir a pele, além de Cidinha utilizar como forma estética algo que está bem relacionado à forma de afetos de nós, negras e negros, que é o dengo. Deste modo, o livro se sucede, vai ganhando em seu corpo outros membros, aparecem a dor, o desamor, a multidimensionalidade de afetos e sensações humanas que caracterizam as nossas vidas, as nossas relações afetivas nessa diáspora de dor.

            Assim, Canções de Amor e Dengo é árvore que faz sombra às nossas raízes, voz poética que ressoa beleza em nossos corações.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com), especial para o Portal SoteroPreta. 

Lima Barreto: um gênio negro e o reconhecimento tardio – Por Davi Nunes


lima barreto flipNo próximo ano, 2017, Lima Barreto será homenageado na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre 26 e 30 de Julho. É uma homenagem tardia ao autor, mas necessária, pois ele só teve a sua obra minimamente reconhecida 30 anos após o seu falecimento e foi totalmente, em vida, destroçado pela crítica, cujo viés teórico fora sempre racista.

Lima Barreto (1881-1922) escritor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, tendo o subúrbio da cidade como cartografia afetiva, escreveu em sua obra póstuma, Diário Íntimo, publicada em 1953, o plano de um romance que dá conta de sua genialidade e afrocentricidade latentes como elemento, signo para criar uma obra prima, segundo o autor.

“Veio-me à idéia, ou antes, registro aqui uma idéia que me está perseguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopeia. Animará um drama sombrio, trágico e misterioso, como os do tempo da escravidão.Como exija pesquisa variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde.”

O autor estava com apenas 23 anos quando traçou essas linhas. O jovem Lima tinha a mania de escrever para si no futuro, isto é, mais velho com 30, 40, 50 anos. Sabemos que ele morreu com 41 anos e não conseguiu por em prática a escrita dessa obra idealizada, visto que o racismo estrutural da sociedade brasileira o adoeceu, levou-o á loucura etílica e muitas internações no hospício, o que entravou a sua glória em vida.

limabarretoflip2No entanto, Lima Barreto conseguiu realizar e publicar outras obras geniais e destaco aqui Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pois nesse romance ele faz uma crítica ferrenha, cheio de sarcasmo, sátira e ironia aos jornalistas, críticos literários, à elite intelectual branca, que o escritor via como medíocres e “pomposos” racistas.

Depois desse romance publicado, ele recebeu muitas críticas: desde contestarem a qualidade literária, de chamarem de mau panfleto sua obra, até de tentarem colocá-lo num lugar intelectualmente inferior por ser negro.

Tática usual que os intelectuais brancos utilizam até hoje para desprestigiar, desclassificar e não premiar as obras escritas por escritores e escritoras negrxs no Brasil.

Um gênio que viveu o underground da sua época no Rio de Janeiro. Era visto como boêmio, louco, anarquista que perambulava o centro do Rio de Janeiro, bebendo e ironizando as rodinhas intelectuais da época – homens de óculos e bigodes.

Fico imaginando o que ele diria da crítica atual, das festas literárias e academias semelhantes às do seu tempo, penso que seria: “são os mesmos, mesma tez de bico de tucano, mesmo eurocentrismo desenxovado e atrasado; mesmo racismo, mas que agora não tem mais como impedir o meu gênio”. Depois disso, imagino-o tomando uma boa Paratiana e dizendo: axé.

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Texto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com). 

Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontece entre 26 e 30 de julho de 2017.

Davi Nunes e Bucala: uma literatura negra infantil feita para sentir e refletir


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“Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula” é o título do livro do escritor soteropreto Davi Nunes, lançado ao final de setembro. “Uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador, destruído em 1807”, ele descreve. Davi topou a entrevista e falou de Bucala e literatura negra. Confere:

PortalSoteroPreta – Porque trazer o bairro do Cabula como cenário do livro Bucala?

Davi Nunes – O Cabula é o local da minha cartografia afetiva, onde os meus passos se iniciaram seguindo o passar da minha avó, da minha mãe, tias, tios, e agora os meus sobrinhos e sobrinha segue o caminhar meu e os dos meus irmãos. No Cabula passei a infância entre o bairro Beiru/Tancredo Neves e Narandiba. O Beiru era e é uma periferia urbana tradicional: multidimensionalidade de pessoas, casas de blocos nus, telhas de Eternit, laje e polifonia rítmica popular. Era o que havia de mais moderno pra mim.

PortalSoteroPreta – Qual impacto deste cenário em sua escrita?

Davi Nunes – O que poderia ser ruim, por incrível que pareça, era, de certa forma, uma bênção, pois ainda se tinha uma natureza considerável, vivências de reminiscência de quilombo, o que me possibilitou ter uma infância livre, correndo ainda pelas matas, traçando aventuras. Essas vivências periférico-quilombolas no processo de escrita me possibilitaram imaginar Bucala, uma menina que vive aventuras no Quilombo do Cabula no século XIX, sendo que este quilombo foi um lócus de resistência ao sistema escravagista em Salvador-Ba, destruído em 1807.

Foto: AdelmirBorges
Foto: AdelmirBorges

PortalSoteroPreta – Como você vê a atual produção literária infantil de negros e negras? 

Davi Nunes – São muitas, o livro infantil além do texto exige ilustração e uma boa diagramação para fazer com que ele possa existir de forma digna e ter sucesso, além de ser muito difícil encontrar uma editora que queira apostar nisso, ainda mais em se tratando de autor(a) negro(a) que escreve sobre temas relacionados à negritude e à africanidade. O racismo editorial oblitera o caminho que muitos nem pensam em se arriscar no gênero. No entanto, é necessário perseverar e ir rompendo as barreiras visíveis e invisíveis no caminho.

PortalSoteroPreta – A leitura ainda é uma deficiência em meio às crianças negras? O que ainda pode ser feito?

Davi Nunes – Não gosto de restringir a leitura das nossas crianças somente ao texto escrito, acho que as formas de leitura são muitas e elas conseguem ler o mundo de forma bem inteligente, agora com relação ao letramento literário, ele sempre foi feito de forma equivocada, não só aqui no estado da Bahia, mas no país inteiro, sempre com os livros dos escritores brancos, cujos enredos pouco ou quase nada dizem sobre a realidade das crianças negras, logo um descompasso simbólico e representativo tornou durante muito tempo o mundo das letras mais ríspido para elas, mas com as publicações crescentes de escritores negros(as)  por todo país isso vem melhorando.

PortalSoteroPreta – A Lei 10.639/03 está há mais de 10 anos sem ser devidamente cumprida. Como fazer com que histórias negras sejam contadas nas escolas?

Davi Nunes – O Brasil é um país de leis dissimuladas, ainda mais as direcionadas para a população negra, no papel se apresenta como inclusivas e “cidadãs”, mas a própria estrutura racista das instituições do país como um todo dificulta, ou impede a sua implementação e funcionamento.  Acho que isso é exemplar com a Lei 10.639/03. Penso que temos que nos voltar para as nossas comunidades, construir as nossas bibliotecas e escolas para educar em princípios civilizatórios, educacionais africanos e afro-brasileiros as nossas crianças.

PortalSoteroPreta -O que você sente ao ver uma criança negra tendo “Bucala” às mãos?

Davi Nunes – Tenho tido um retorno muito bom das crianças, principalmente das meninas, elas se veem na personagem e destaco aqui, além do texto, o trabalho de ilustração de Daniel Santana. Ele ilustrou de forma primorosa o texto que escrevi e o resultado vem sendo criar um imaginário identitário e ancestral positivo para as crianças que leem o livro. Isso nos deixa feliz.

12144908_416323078563356_8463535839037744034_nPortalSoteroPreta – Em outras áreas, como está sua produção?

Davi Nunes – Ando escrevendo muito. Em 2015 tive o conto Cinzas adaptado para o cinema pela cineasta Larissa Fulana de Tal, também dividi o roteiro  do filme Cinzas com  Larissa. Agora, em 2016, fui selecionado no Prêmio Literário Enegrescência para participar da Antologia Literária, na qual publiquei oito poemas, além de ter sido selecionado para compor o 6º volume da Coleção Besouro, o livro A Makena e o Faraó, com o conto infanto-juvenil, O Menino das Vinte oito Tranças um Rei Faraó, além de ser colaborador de um site de cultura de EUA, Cores Brilhantes. Mantenho um blog que versa sobre a cultura afro-brasileira, chamado Duque dos Banzos. Ando também com um romance, um livro de contos e de poesia escritos, dialogando com editoras e concorrendo em concursos literários para a publicação.

PortalSoteroPreta -O que ainda precisa ser dito sobre a história de negros e negras para as crianças?

Davi Nunes – Há muita coisa a ser dita, temos uma história a ser restaurada que foi, de certa forma, interrompida com o tráfico transatlântico, com a escravização, com a favelização e racismo contemporâneo. Temos que colocar as nossas vitórias em vitrine histórica, há muito a ser feito e dito. Não sei sintetizar isso numa frase, mas talvez seja passar para as crianças a noção de que somos grandes e originais desde o primeiro momento em que surgimos nesta terra.

Davi nos cita alguns escritores negros baianos que publicaram livros infantis: Lázaro Ramos (“A Velha Sentada”, “Caderno de Rimas de João”), Maria Gal (“A bailarina e a folha de sabão”), Mel Adún (“A lua Cheia de Vento”), Érico Brás (“Lindas Águas: o mundo da menina rainha”).

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Foto: AdelmirBorges

O lirismo banto no livro “Kalunga: poemas de um mar sem fim”, de Lande Onawale!


CAPA KALUNGA

O livro de poesia, Kalunga: poemas de um mar sem fim (2011), do poeta baiano, Lande Onawale, possui, em seus 21 poemas que o compõe, o que posso chamar de lirismo banto, uma força, afã sentimental quimbundo e um pensamento e lembrança banzo-quicongo. Digo isso porque traço a análise de alguns poemas seguindo o rastro da origem das palavras africanas que não são somente signos linguísticos, são energia, ritmo/ritual tambórico, ancestralidade, ato e sentimento negro que vem rasurando a língua portuguesa e a literatura produzida durante todos esses séculos nesse território suspenso, o Brasil.

Já no título do livro, denominado de Kalunga: poemas de um mar sem fim pode-se ver isso, visto que a palavra Kalunga, ou como aparece no Novo dicionário banto no Brasil (2006) de Nei Lopes , Calunga, possui muitos significados, trago apenas dois  que está no dicionário e  que também comungam com o sentido semântico e poético que o poeta traz em seu livro, que são: Kalunga significando (Deus) e (Mar). São dimensões amplificadas dessa palavra, na verdade a própria palavra é a amplidão, como se pode observar nessas duas estrofes do poema épico com o tom de uma elegia negra, que tem a nomeação de Kalunga:

A memória do mar me atravessa

está cravada em mim

como os ferros da grande árvore inesquecível,

são meus  poros,

são as voltas da muzenza contornando os cemitérios

– e, é claro, são mistérios.

(ONAWALE, 2011, p. 47)

O tom banzeiro vai ao longo do poema ganhando mais intensidade, beleza, e uma memória angustiante, aquática, elégica, da tragédia transatlântica que descamba potente nesta outra estrofe:

Balança o mar… balança num jinga interminável

das florestas de Matamba ao serrado do Brasil.

Balança o mar… balança numa dança incansável com o futuro

(exercício da destreza necessária).

Balança o mar… balança…

É o colo de Kayala que me embala,

são os braços da Kyanda

– onde entrego minhas forças para sair tão renovado!

(ONAWALE, 2011, p. 49)

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Foto: André Frutuoso

O lirismo banto é força poética, banzo que vai se espraiando como uma vaga poderosa, uma onda de batuques, gritos, cantos nos versos e prossegue compondo a forma dos poemas, com a beleza poética dos vocábulos bantos, como se nota no trecho do poema KWE ZULU:

quando fecho os meso

uma escuridão me ilumina

e vem do congo, moxicongo

a força que me anima

é por dentro o barravento das palavras

indaka que não se cala

ingoma soando em mim

… vem no vento, sibilando, cada sílaba…

eu, poeta, uma espécie de vodunsi

(olhos de Zambi)

boca de tudo

nada vejo

calo e me curvo de surran pra inspiração (…)

(ONAWALE, 2011, p. 33)

 

Lande Onawale que já carrega no nome a potência simbólica de sua ancestralidade e africanidade, de sua restauração espiritual, que também é semiótica nessa diáspora, no trecho do poema intitulado Letra, explicita já a forma como compõe (a sua Profissão de fé) a qual venho chamando de lirismo banto:

a minha letra dorme em esteira

e como a própria noite

é povoada de ancestres

o sol emerge dos teus murmúrios

contritos

e esta letra incansável

(que come com as mãos)

brilha, brilha, brilha

absurdamente

por dentro de todo cinza

numa perpétua consagração das cores e da natureza.

(ONAWALE, 2011, p. 35)

 

O lirismo banto do poeta Lande Onawale em Kalunga: poemas de um mar sem fim – livro escrito em português e inglês – conflui todos os tempos, é Kitembu. Sopro de inquice que compõe ventos e melodias, pois é ancestre e contemporâneo, denuncia o horror do genocídio e racismo em que vivemos, como demonstra a negrice, o poder, a beleza diversa, encrespada que comporta e consola, nessa diáspora de desespero e banzo,o povo negro.

ONAWALE, Lande. Kalunga: poemas de um mar sem fim. Salvador: Edição do autor, 2011.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

 

Davi Nunes

 

 

Texto de Davi Nunes –  Colaborador do Portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil. Confira outros textos do autor aqui. 

Machado de Assis: a voz de um Ancestral


MachadodeAssisSempre li Machado de Assis desde a adolescência. De certa forma ele foi meu professor de Literatura, visto que o bruxo escrevia seus contos e romances, ensinando-nos como fazê-los – metalinguagem chamam alguns – eu chamo de toque de mestre para a posteridade.

No meu caso, um escritor de gênio ambicioso, um “cabeça de Eternit” das periferias de Salvador, ao lê-lo sempre perguntava diretamente a ele, como se indagasse um ancestral griot: é assim mesmo, mestre? E escutava, depreendendo de suas sentenças sagradas e estéticas milagrosas: “é, e mais um pouco”.

De certa forma tive Machado como um amigo imaginário que assoprava técnicas ao meu ouvido, ou mesmo, oníricas sensações que venho entendendo no decorrer da vida. Talvez tenha ocorrido uma conversa mais longa numa digressão de ayahuasca. Não sei. Só tenho apenas a sensação fincada no peito.

Mas não é isso que importa agora. Na verdade, pela primeira vez entendi o pessimismo machadiano, não como os pálidos críticos canônicos; para mim o pessimismo dele foi algo que nós, pretos (alguns com profundidade maior do que outros) sempre sentimos com nomeação africana, ou seja, através das palavras banzo e zanga.

Mas não é algo conceitual, pois compreendi isso nos ossos, está na minha circulação sanguínea, saca? Como o verme do suicídio que estanco a cada dia com pinça heroica e enfadonha, o banzo. Ou com o franzir do rosto ao monstro conjectural que quer nos diminuir a zero sempre, zanga. Percebo agora a célebre frase de Machado, aquela que está escrita no final do romance Memórias Póstumas de Brás Cuba: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.

Esta frase fora muito tocante quando eu li na primeira leitura do livro, ainda saindo da adolescência, mas só de fato fremiu os meus ossos e (em borbulhas de angústias) ferveu o meu sangue nas veias, agora. É uma espécie de eureca atroz me fazendo depreender a ideia de que o pessimismo que se desnuda das camadas semânticas dessa frase está relacionado ao pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país.

Digo isso porque Machado de Assis era um homem negro, convivendo numa conjuntura racial, social e econômica aterrorizadora e ele tinha plena consciência disso. Haja vista o conto “Pai contra mãe” e os seus romances que, através da ironia e sarcasmos, sempre criticava – por via de sua tática de caramujo dissimulado – a elite do país, os políticos e as idiossincrasias medíocres dos profissionais liberais médios da época. Por outro lado, ele também não conseguiu se depreender, como exposto na frase em Brás Cuba, do pessimismo, a zanga e o banzo.

O legado de miséria seria o lastro humano seu, um filho, que ele teria que deixar nessa conjuntura que despersonaliza e oprime a mulher e o homem negro. Não quis produzir um ser para passar as agruras raciais as quais teve que enfrentar. Ao mesmo tempo em que via o seu povo, como nos diz Cruz e Souza, [emparedado] e numa situação, como nos afirma Fanon, de “Os condenados da terra.”

Após 136 anos da publicação em livro de Memórias Póstumas de Brás Cuba (1881) percebo – imerso numa conjuntura racial, social e econômica não menos aterrorizadora – que a zanga e o banzo, o pessimismo de Machado em relação ao futuro do povo negro neste país é atual. Verdade. Ainda estamos controlados pela branquitude, existe uma escravização mental profunda que nos bestializa e aliena em nossos costumes e ações no cotidiano.

E a resistência feita pelo Movimento Negro, que tinha inicialmente o objetivo de tomar o poder e melhorar o status quo da maioria da população – que ainda se resvala nos esgotos nas periferias, no genocídio e racismo – vem, agora, se enveredando numa retórica culturalista (aviltar estético de turbantes, tambores e cabelos) que do ponto de vista simbólico causa um frisson identitário, mas que estruturalmente não muda muito a realidade conjectural e objetiva dos negros e negras neste país.

O nosso legado de miséria posso dizer que seja a escravização, o racismo e a desgraça que Machado de Assis via envolta do povo preto e, consequentemente, refletida nele. Mesmo com toda glória e sucesso que alcançou em vida, o nosso legado de miséria são todas essas ignomínias construídas pela branquitude historicamente para se manter no poder.

Óbvio que esta é a tônica da história deste país, que obliterou e oblitera o caminho de muitos gênios negrxs, mas que não conseguiu, mesmo tentando o tempo todo, escamotear a negritude do maior escritor brasileiro, que para mim desde a primeira leitura é uma voz escritural de um sábio ancestral que ainda convivo: Machado de Assis.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

Confira seus textos aqui.

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

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pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

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Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

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hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.
suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Confira aqui suas contribuições.

 

coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

Confira aqui suas contribuições.

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Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

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josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

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Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

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As “liberdades” da soterópolis baiana e os fantasmas da escravização


As fraseologias baianas, principalmente as de Salvador que têm as “bruxas” cotidianas – os apertos de mente do frenesi da soterópolis a compor a comunicação dialetal da cidade – se observadas em sua profundidade – podem nos deixar suspensos da matrix festiva. Podem demonstrar as violências, prisões psicológicas e linguísticas, resquícios ainda dos séculos de escravização e racismo que a população negra da Bahia passou e passa.

Escrevo isso porque, há dois dias, ouvi no ponto de ônibus um homem negro de meia idade falar (em conversa com outros amigos) uma frase que me deixou desperto. Me tirou do comum cotidiano, da dinâmica do calendário festivo – organizada pela branquitude neste verão – para controlar ou usar nossos corpos e mentes, constituindo mais riqueza e poder.

davi nunes população de salvador
Banco de Imagens

Senti a sua voz em toar tambórico no ouvido, quando ele falou, antes de eu entrar no ônibus: “disse um monte de liberdades pra eles e eles queriam me matar!”. O “dizer liberdades” me afetou e me fez refleti profundamente, pois a necessidade de dizê-las significa que temos a fala aprisionada. E ter a fala aprisionada significa que não somos livres, mesmo quando gritamos.

O grito sai mudo, abafado pelos grilhões. E o grito mudo é a morte da cidadania, a subserviência e a escravização. Pensar que “as liberdades” que aquele homem disse me fizeram imaginar prisão e escravização – isso doeu. Sei que “as liberdades” às quais ele se referia no dialeto baiano foi um desabafo.

davi nunes população de salvador
Banco de Imagens

Ou alguma ofensa para alguém, mas não era essa a questão. Foi uma frase semântica que, para mim, trouxe uma sensação de aprisionamento da população negra na cidade. Sei que os grilhões estruturais – o racismo – dão uma prisão perpétua a cada negro e negra nesse país. E isso é louco.

Assim, entrei no ônibus, sentei e comecei a pensar quando fomos livres realmente. Livres para dizermos as “nossas liberdades” nessa diáspora que nos sucumbe. Coletivamente, me veio à mente o quilombo, os terreiros em seu princípio fundador.  Individualmente, as ações de libertação, a exemplo do homem ou mulher escravizado que matou seu escravizador(a) em grito de liberdade.

Ou mesmo o homem ou mulher que, depois de anos de prisão, comprou sua alforria e a dos seus em xeque-mate libertador. Depois, senti se fixar – em movimento de viagem – na minha mente, a rainha quilombola Zeferina do Quilombo do Urubu. Ela, em 1826, disse no campo de batalha a “liberdade” mais ousada já proferida na Cidade do Salvador: “Viva os negros, morte aos Brancos!”

Pelourinho
Banco de Imagens

Saltei do ônibus, andei sobre os paralelepípedos históricos do Pelourinho, escutei o tambor e observei que todos tinham o corpo livre no fluir festivo do verão – e as mentes presas. Situação que me remeteu à época da escravização, quando a lógica era outra: corpo preso e a mente livre, pois o pensamento de libertação acompanhava a vida inteira.

As liberdades, em seu sentido transformador, já quase não são mais ditas. Tem o tilintar dos grilhões em sua fraseologia, mas sei que há também quem queira quebrar os grilhões para proferi-las em sua semântica verdadeira – ancestral, em seu poder.

davinunesTexto de Davi Nunes, poeta e escritor (ungareia.wordpress.com), especial para o Portal SoteroPreta. 

Professora trabalha representatividade negra e educação antiracista em escola municipal


gleice2Dar referências a crianças negras em uma fase essencial à formação de suas personalidades: nas primeiras séries de sua escolarização. Esse é o objetivo do projeto “Representatividade Negra”, da professora Gleice Pinto, que ensina na Escola Municipal Sóror Joana Angélica (Nazaré) e vem desenvolvendo ações educativas antiracistas em seu projeto pedagógico. Para esta quinta (13), a professora convidou o escritor Davi Nunes, que lançará seu livro “Bucala: a princesa do quilombo do Cabula”.

Esse será o segundo lançamento de livro na escola, cuja história traz a subjetividade e autoria negras para servir de referencial às crianças. O primeiro foi “A Lua Cheia de Vento”, da escritora Mel Adún, editora Oguns Toques. O projeto tem quatro campos de atuação: lançamento de livros infantis com escritores negros e negras; empréstimo de bonecas negras – as crianças levam as bonecas para casa e devolvem no dia seguinte. “A ideia é sensibilizar as crianças em relação ao corpo negro, percebendo a necessidade de cuidado e carinho, além de enternecê-las com nossa história”, explica Gleice.

Além disso, o projeto promove doações de bonecas negras customizadas. A última entrega, inclusive, foi feita no Dia das Crianças. A quarta linha de atuação do projeto de Gleice é estender o empréstimo destas bonecas a outras escolas e municípios. Segundo Gleice, cinco delas já estão indo para Mata de São João, por exemplo, onde outra professora fará a mesma ação junto a seus alunos. Gleice foi uma das homenageadas da segunda edição do prêmio “Elas fazem a diferença: Mulheres Negras e suas Comunidades”, realizado em julho pelo Fundo Municipal para o Desenvolvimento Humano e Inclusão Educacional de Mulheres Afrodescendentes (FIEMA). O prêmio homenageou iniciativas de professoras da Rede Municipal que objetivem a inclusão e a construção política.

gleice3“O projeto é feito com recursos próprios e, às vezes, com alguma doação de apoiadores. Em minha sala de aula, trabalho com princesas e príncipes negros africanos, já usei o livro “Boi Multicor”, de Jorge Conceição, tivemos a mestra em Teoria e Crítica da Literatura e da Cultura, Jovina Souza, que também é poeta e escritora do livro de poesia “Agda”, formando os professores sobre a lei 10.639. Recebemos o griot Augusto Cardoso, de Guiné Bissau – da etnia dos Bijagós-  e também já tivemos oficina com o rapper Mr. Armeng, dentre outras ações”, relata Gleice. Além de atuar na formação e conscientização das crianças, o projeto busca apoiar os escritores e escritoras negras em suas publicações. “Quando compro os livros, eles vão e divulgam o trabalho e cavam espaços”, diz.

gleice4Em novembro – Mês da Consciência Negra -, o projeto se intensifica e, este ano, já está sendo programado pela professora um trabalho voltado para a descoberta e estudo de inventores negros. O objetivo é mostrar que o protagonismo negro vai além do campo da Cultura. “Estamos pesquisando algumas tecnologias que usamos no dia a dia, que sabemos que foram inventos de homens e mulheres negras. A ideia é mostrar o invento e contextualizar com a história do inventor, africanos, americanos, brasileiros e outros negros e negras”, explica.

Quer ajudar?

Quem quiser pode doar bonecas negras, de cabelo black, livros sobre a cultura negra, jogos de origem africana, instrumentos musicais. “Também convidamos profissionais  de diferentes áreas para falar às crianças sobre seus trabalhos. Queremos que elas conheçam médicas, jornalistas, advogadas e médicos negro e negras e os tenham como referências”, convida Gleice Pinto.

Contatos: Gleice Pinto [email protected] | (71) 99235-4964