“Confraternização sobre o capital que não cabe no bolso da favela”, Por Hisan Silva.


natal população negra
Foto: Fabio Teixeira / Folhapress
O processo histórico sobre cultura, construído em torno de pessoas brasileiras, mais especificadamente negras e faveladas, foi agressivo e incisivo. Grande parte dos itens que hoje se caracteriza como parte da cultura brasileira foi imposta. Com isso, negros favelados passaram a viver e reproduzir um cenário que não os representa e que não se ajusta a sua realidade. O Natal é um dos grandes pontos característicos dessa discussão.
A construção sobre cultura no Brasil se ergueu lado a lado com o capital. Então é cultural o ato de gastar deliberadamente em épocas como o Natal. Atrelado a essa noção, vem a ideia de dever social, que diz à população que você só se forma como indivíduo quando atende demandas que a cultura capitalizada te impõe, como por exemplo oferecer em todo Natal uma mesa farta de comida com peru, bacalhau e todos os exageros que esse dever social te pede.
Isso significa que pessoas à margem da sociedade devem se esforçar ainda mais para colocar comida dentro de casa, já que isso deixa de significar simplesmente alimentar seus filhos e filhas, para significar alimentar sua família e os desejos exagerados do capitalismo.
A imagem construída nas mentes de pessoas negras e faveladas sobre o Natal não se aproxima nem um pouco da realidade. A ideia sobre o Natal, em forma de imagem, gira em torno de uso de gorros, neve, trenós, flocos de neves caindo do céu e pinheiros enormes enfeitados.
natal-capitalismo
Origem: Folha de São Paulo
As  cidades ficam enfeitadas com flocos de neve pendurados por toda parte, com animais característicos de lugares de frio, com vestimentas que representam lugares que fazem frio. Quando, no entanto, a maioria esmagadora dessa população nunca nem viu esses artefatos em matéria, então constroem tudo baseados em suposições e vivem como se fosse uma verdade absoluta. A forma em que as pessoas são introduzidas nessa realidade foge do âmbito de ”fantasia” e ”entrar no personagem” , para um nível de alienação absurdo.
A cultura do Natal vende uma ideia tão usurpadora que quebra símbolos importantes do nosso bem estar, como os laços familiares. Tornou-se parte da cultura natalina medir a importância de sua relação com seus parentes pelo presente que se recebe na data. Isso capitaliza, de forma extrema, os laços entre os entes.
Então, para uma pessoa à margem da sociedade, conseguir abranger todos os laços entre família de forma que todos fiquem confortáveis – segundo os conceitos do natal moderno – é um grande desafio. Tanto antes, com a preocupação em deixar sua família ”feliz” e de bem, quanto depois quando as dívidas estão feitas, com parcelamentos absurdos e outras maneiras que o capitalismo fantasia como ”saída” para a falta de dinheiro.
natal-na-favela
Favela Natal -Brazil Europe JuWe
Tendo isso, o natal representa um confraternização extremamente tendenciosa, feita e vivida para uma realidade que não se passa nas comunidades, mas que é imposta a ela como o único caminho que se deve ser seguido. Algumas famílias quebram esse padrão e tentam se adaptar com outras formas de confraternizar fora da redoma natalina norte-americana.
Uma das formas alternativas de confraternização que vem se popularizando no Brasil se chama Kwanzaa, um ritual pan-africanista que se baseia na união, reflexão e sobre colheitas dos frutos ao longo do ano. O natal tornou-se uma confraternização sobre capital e a favela é obrigada a juntar as migalhas que o capitalismo oferece para se adequar as demandas que a data exige.
natal capitalismo
Hisan Silva

Hisan Silva é colaborador do Portal SoteroPreta formado em Produção Cultural pela PRACATUM, diz que não é modelo, mas por favor, né? (como não?), criador da Fanpage Meu Crespo.

Jovem negro armado – Por Hisan Silva


juventudenegra
Hisan Silva

Ser negro, jovem e reconhecer o mundo no qual se está inserido é ao mesmo tempo anestesiador e assustador. Isso força qualquer jovem negro a testar possibilidades, isso significa ampliar sua mente e inteligência a níveis brilhantes. O ponto é: usa-se essa ferramenta apenas para teste e para prová-la como operante ou essa ferramenta é alimentada para se tornar uma arma de conquistas?

O conhecimento e a informação tornam a juventude negra do século 21 ativa. A criatividade e tempestade de ideias destrói a muralha construída durante séculos entre pessoas de cor e o desenvolvimento.

A cada segundo temos provas diferentes de como essa parcela se encontra faminta de realizações em espaços políticos, culturais e econômicos. Mas essa inteligência é aproveitada de forma superficial quando cada pauta deveria ser revisada e estudada de forma minuciosa.

juventudenegra
Matheus Silva, Marcio Santana, Gilson Reis e os irmãos Israel e Misael Silva. Foto: Anderson Valentim

Em 2014 foi aberto um curso de Produção Cultural pela Nufac/Pracatum no qual só participavam pessoas negras e eu fui um dos estudantes. Durante o desenvolvimento do curso era fácil notar que na sala de 30 alunos, cada um tinha um apanhado de ideias incríveis, que gerariam conteúdo cultural, econômico e político. Todos ali estavam à espera de qualquer pessoa que só sentasse e ouvisse o que eles tinham a dizer.

A maioria dos projetos de baixo custo, já que boa parte surgia de apanhados de coisas que aconteciam ao redor dos jovens. Sendo assim, poderiam ser realizados por eles mesmos. Mas a freqüência de apenas testar o conhecimento dos jovens negros, e não usá-lo como gatilho para conquistas, faz com que eles travem no exato momento de dar início ao processo de realização.

kumasi
Foto: Modelos da Kumasi (Divulgação)

Fazer dinheiro entrou no dicionário popular e comunitário. A população marginalizada busca por medidas paralelas de construir seu próprio império sobre suas próprias ideias. A juventude negra tem provas de que seu mérito pode ir além de ”técnicos’. Não que seja ruim, mas ter isso como única opção é perturbador.

“Os jovens tem heróis vivos de que é possível se sustentar em suas próprias idéias, como a loja Kumasi, fundada por três pessoas dentre eles os jovens Lucas Santana e Monique Evelle.”

Precisa-se de gente disposta a incentivar os jovens a puxar o gatilho e usar suas inteligências como armas remuneradas. Precisa-se de pessoas dentro de cada comunidade dispostas a ouvir idéias. Produtores que não só mostrem as possibilidades, mas que incentivem essas ideias a saírem do papel.

Que mostrem aos jovens que seguir seus sonhos e fazer com que isso gere dinheiro é possível, que isso não significa abandonar seu ritmo de conquistas, mas que existe a possibilidade de cursar seu próprio caminho. Então, vale a tentativa.

Hisan Silva é formado em Produção Cultural pela PRACATUM

O povo preto e a atual perseguição sobre desenvolvimento de cultura/ agentes públicos


boicote à cultura negra
Bom, eu acho que de inicio a gente deveria falar sobre como a fiscalização é realizada, já para quebrar com o argumento de que os homens das leis estão apenas cumprindo o seu trabalho. O pessoal da Sucom, por si só, já representa autoridade, porém, quando se fala em abordagem e fiscalização em espaços negros, existe sempre a presença de oficiais da polícia, sempre bem armados, já mostrando que, mesmo não agredindo a população diretamente, a intimidação agressiva está presente.
A repressão sobre eventos de cultura negra, dentre as várias maneiras, também se apresenta com a negligência sobre a avaliação e resposta sobre esses eventos. As autoridades simplesmente ignoram os pedidos de autorização e nenhum resposta é emitida, nem negativa e nem positiva.
Sempre deixam as pessoas em espera, enquanto em outros setores a autorização e revisão é dada de forma mais profissional. A não ser que o evento tenha de alguma maneira um cunho de divulgação de campanha governamental.
Com tanta dificuldade em se realizar eventos em espaços públicos populares, a população começa a optar a se restringir apenas as suas comunidades, onde a repreensão das autoridades é ainda maior. Não só por ter um aval de quebra de lei, mas por abuso de autoridade, inclusive pelo fato de que as autoridades se aproveitam da negligencia das mídias em apontar agressões como essas dentro das comunidades.
Em setembro de 2013, houve uma grande movimentação aqui na Bahia, quando representantes culturais negros e representantes de órgãos de fiscalização se reuniram em uma sessão plenária sobre a agressividade dos órgãos. Muito em função da ação abrupta da Sucom e da Polícia em dois bares negros no Pelourinho. Ainda assim, em 2017, aqui na Bahia, diversos eventos não são realizados pelo bloqueio da não autorização. E é visível a violência dos órgãos de fiscalização, acompanhados de outras corporações.
A população negra vive um constante boicote, a interpretação das regras da nossa sociedade sempre terminam por restringir e bloquear um público específico. Quando isso acontece, de maneira abrupta e criminalizadora, o que resta aos negros é o isolamento.

hisan2Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Confira aqui suas contribuições.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

Confira aqui suas contribuições.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

Confira aqui suas contribuições.

hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.
suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Confira aqui suas contribuições.

 

coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

Confira aqui suas contribuições.

ricardogonzagakaiala

 

Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

Confira aqui suas contribuições.

 

josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

Confira aqui suas contribuições.

 

Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

Confira aqui suas contribuições.

Temos maturidade para um relacionamento moderno?


A modernidade das relações no século 21 traz diversas peculiaridades. Novas formas de se relacionar foram desenvolvidas e formas dos séculos anteriores foram adaptadas. No entanto, traços característicos de se relacionar com pessoas negras  parecem as mesmas.
Propagou-se pelos círculos sociais, principalmente entre os jovens, os ideais modernos de se relacionar com outra pessoa. Ideais que remetem a liberdade, consentimento e diversão. Dentre os modelos, o ”amor livre” é o de maior destaque, a ideia de ter um relacionamento livre da monogamia, com diálogo, compromisso e diversão é a mais buscada. Porém, a aplicação desses modelos não rendem os mesmos frutos para todas as pessoas, principalmente quando tem uma pessoa negra envolvida ou quando é entre pessoas negras.
relacionamentos modernos
Existe um histórico americano de se relacionar com pessoas negras. Grande parte das vezes, os afrodescendentes eram incluídos em relacionamentos de forma que os relembrassem de sua condição de escravo ou descendente de escravo. Isso significa que, mesmo quando havia amor, o fato de ser uma pessoa negra se sobressaía na relação e, quando não havia, na maioria das vezes, era por se tratar de um indivíduo negro.
Com o passar dos séculos, esse princípio se tornou mascarado, mas continua atuante e só revelado em situações específicas. No século 21 as pessoas identificam isso. Então, quando existe a proposta do relacionamento moderno, esses princípios são sentidos. Como, por exemplo, a situação do modelo de ”poliamor’,’ em que a pessoa negra envolvida só é incluída na hora do sexo – ou quando o modelo é de um ”relacionamento aberto” e só a pessoa negra mostra compromisso com o parceiro.
Nós não temos maturidade o suficiente para assumir um relacionamento moderno. Um dos braços do racismo é atacar a estética e autoestima da pessoa negra, tornando-a insegura com seu corpo, seu cabelo, sua pele e, portanto, se sentindo insegura em ser desejada. Um relacionamento aberto, por exemplo, pra uma pessoa negra, irá remeter a ela uma série de gatilhos, como a sensação de ser trocada, ser menos atraente, e uma série de dúvidas que – na maioria das vezes – é diretamente direcionada a ela mesmo.
E o histórico de ser realmente secundarizado, trocado, hipersexualizado e abandonado irá requirir que, no relacionamento, o parceiro se empenhe e dê seu máximo, o que na maioria das vezes não acontece, já que as pessoas não estão preparadas e nem disponíveis para lidar com racismo e suas mazelas.
relacionamentos modernos
‘Os relacionamentos modernos são adaptados para realidades de padrão alto. As referências utilizadas como base para moldar a maioria dos diversos modelos de relações modernas são sempre cheios de riquezas, gastos, exageros. São sempre com um cenário de custo alto, como se fossem contos de fadas e seu ”felizes para sempre”, sem problemas, mas com um molde diferente de relação.
 
No entanto, a maioria das pessoas negras vivem uma realidade em que contos de fadas não funcionam, em que dentre os problemas está a negação da princesa em namorar com o farroupilho favelado descendente de escravos e a falta de castelo e carruagens na morada da pretendente do príncipe. Sendo assim, esses modelos de relacionamento parecem – e são na maioria das vezes – incompatíveis com pessoas negras, porque não foram adaptados para sua realidade.
No final, para pessoas negras, o relacionamento moderno não tem nada de novo. Não existe surpresa em ser vinculado só a sexo e, muito menos, em ser trocado, substituído ou negligenciado, deixando a margem aberta para indivíduos negros perseguirem um relacionamento ainda utópico: ”amor livre, com respeito e compreensão.”
hisan2Hisan Ferreira é colaborador do Portal SoteroPreta formado em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Lane Silva fotografa amores possíveis em ensaio contra preconceitos


lane
Hisan e Pedro

“Antes de tudo, amor”. Esse é o nome do projeto da fotógrafa e poetisa Lane Silva, que reuniu casais amigos, mais próximos dela, pelos quais nutre admiração. A poesia que Lane expressa no Grupo Ágape pode ser sentida, literalmente, nas 10 imagens disponibilizadas em sua Rede Social, nas quais se podem ver heteros, gays, lésbicas, idosos, jovens…todos expressando um elemento que os une: o amor. “Em minha militância, sempre questiono nossos direitos e o mais forte deles, pra mim, é o amor. Vi isso no ensaio, que todos têm o amor em comum, que transborda e é lindo”, reflete Lane.

A fotografia é uma das paixões desta jovem fotógrafa, além de seu amor, Ricardo, que também entra no projeto. São 10 imagens que trazem o explícito ato de amar, traz carícias, trocas, olhares, beijos, em especial entre casais negros. “Como sou de periferia, todos meus amigos também moram lá, são negros, são eles que mais sofrem – não só com a homofobia, mas com o racismo”, diz Lane.

Um destes casais escolhidos é Hisan Silva e Pedro Batalha que, em se tratando de expor seu relacionamento, o enfrentamento e a militância estão à frente. “Eu nunca pensei que conseguiria desenvolver um relacionamento e muito menos tê-lo exposto como obra de arte. Após diversas fases de repreensão, repressão e luta, eu encontrei o amor, entre os passos com pulinhos que ele dá, no toque, no afeto, no carinho e cuidado. E o amor foi algo tão ardente e lindo que mantê-lo escondido seria uma violência pior que manter-se na defensiva contra a sociedade e na luta pela felicidade”, desabafa Hisan. Confira o artigo de Hisan Silva sobre esse amor fotografado. 

Rafaela e Polly
Rafaela e Polly

Outro casal é Rafaela e Polly, duas jovens negras que representam uma das mais belas fotos nesta série. “A fotografia de Lane é algo que vem da alma, é como se ela fotografasse de todo coração, lembro que falei isso pra ela, assim que vi as fotos. Fiquei muito feliz como lésbica e como mulher em participar desse ensaio, que trouxe visibilidade total à diversidade. Daniela Mercury já disse: Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”, acredito que foi isso que Lane retratou, uma quebra de paradigmas”, afirma Rafaela.

Uma das razões que motivaram Lane neste projeto foi a tristeza de ver seus amigos serem silenciados e discriminados ao expressarem seus amores. “Se tem sentimentos essenciais em nossas vidas, o maior deles é o amor, mas por que ainda tem gente sofrendo preconceito pelo simples fato de amar? Porque colocam regras e padrões para viver um sentimento tão puro? Adoro fotografar, me sinto realizada com o projeto. Ele me fez perceber o quanto é grandioso o amor, ele mora em um sorriso, em um olhar acolhedor com o seu parceiro(a), em um beijo…”, desabafa Lane.

As fotos podem ser conferidas em sua Fanpage! Quem sabe um book com seu amor enfrentador? #Ficadica

 

Amor: entre marginais e a capa do jornal


hisan3
Foto: Camila Bastos

Eu nunca pensei que conseguiria desenvolver um relacionamento e muito menos tê-lo exposto como obra de arte.  Sempre existiram dois motivos que me acompanhavam e me fizeram alimentar essa ideia: o primeiro era minha relação comigo, com as pessoas e a rejeição. A agressão era silenciosa e sorrateira, os ”nãos” sempre carregados de motivos de raça e expressão de sexualidade. A repreensão por ser homossexual e negro sempre parecia culpabilizar a mim e me fazer arcar com a responsabilidade de achar em mim o defeito e, com o passar do tempo, as explicações pareciam claras ao espelho.

O segundo era o medo. Via as notícias, os relatos, as fotos. Amar um homem era um ato quase suicida e onde deveria existir amor, só se disseminava violência, só pensava em qual a vantagem em ter alguém se esse alguém não poderia ser seu. Não se era permitido o toque, o afeto, o carinho, o cuidado e quando existia era tão escondido que se tornava poesia de amor marginal.

“E o amor foi algo tão ardente e lindo que mantê-lo escondido seria uma violência pior que manter-se na defensiva contra a sociedade e na luta pela felicidade.”

Após diversas fases de repreensão, repressão e luta, eu o encontrei. Encontrei o amor entre os passos com pulinhos que ele dá, no toque, no afeto, no carinho e cuidado. E o amor foi algo tão ardente e lindo que mantê-lo escondido seria uma violência pior que manter-se na defensiva contra a sociedade e na luta pela felicidade. Nós, juntos, passamos por várias experiências loucas, de contato externo positivo e negativo. Teve o sorriso contente de uma criança ao nos ver de mãos dadas na rua e uma senhora que nos parou no ônibus para dizer que nós tínhamos todo o seu apoio e proteção e teve uma rua cercada e homens nos olhando e piadas gritadas de carros em movimento.

Hisan e Pedro
Hisan e Pedro

“Após ver as fotos de Lane prontas (Projeto“Antes de tudo, amor”) , nós paramos e refletimos o quanto nós somos um casal forte e lindo, o quanto é importante ter um ao outro para passar por todos os muros construídos pela LGBTfobia”

Viver como homossexual negro e namorar outro homossexual negro é uma afronta, andar junto ao meu namorado na rua é um ato de coragem e afronta, e quando Lane Silva nos convidou para participar das fotos a primeira recepção foi de surpresa. Aceitamos felizes por ela ter possibilitado a interpretação da arte sobre um romance que vive esperando as repressões externas. Ter alguém que se disponibilize a te congelar em imagem e expor com o olhar delicado, artístico, inspirado e preocupado em mostrar que nós também amamos, que nós também existimos e que nosso amor é como arte como qualquer outro, é no mínimo gratificante.

Após ver as fotos de Lane prontas, nós paramos e refletimos o quanto nós somos um casal forte e lindo, o quanto é importante ter um ao outro para passar por todos os muros construídos pela LGBTfobia, tanto quando se fala das rejeições sociais, quanto do medo e repressão. Fico feliz em saber que estar em um jornal, ou portal possa representar um símbolo de que é possível sim ser gay, negro, amar, ser arte e ser feliz. É mostrar a todos os nossos iguais que a caminhada não é fácil, mas que não faltará felicidade e coragem. É mostrar para a sociedade em geral que nós estamos aqui, resistimos nos amamos e que sabemos o significado.

Hisan Silva é formado em Produção Cultural pela PRACATUM, diz que não é modelo, mas por favor, né? (como não?) e é criador da Fanpage Meu Crespo, seu “Fan Blog” pessoal, “um quilombo aberto para todas as pretas e pretos”, diz ele. 

Confira aqui o ensaio “Antes de tudo, amor” de Lane Silva, no qual Hisan e Pedro estão, livres, amando e felizes!

 

NOVO HORÁRIO – Jovens realizam pré-Enem gratuito no Candyal Guetto Square dia 22


aulaoFoi de última hora, mas tudo no tempo certo. Assim foi a idéia dos jovens Pedro Batalha, Hisan Silva, Ágatha Carvalho e Thiago Marinho, que resolveram agir diante de uma realidade muito conhecida: o restrito acesso de negros e negras à Universidade. Será realizado, no Candyall Guetto Square, um Aulão Pré-Enem no dia 22 de outubro, das 8h às 14h, destinado a jovens estudantes que estão se preparando para o exame, que acontece nos dias 5 e 6 de novembro.

O Aulão é colaborativo e, após postagens no Facebook, os jovens já conseguiram o apoio de professores nas disciplinas de Redação, Português e Matemática. “O racismo que atinge a população negra se ramifica em diversos setores, é uma estrutura que não só lhe tira a vida, como também a priva do acesso aos estudos, acesso aos espaços, à informação, saúde. Então, a ideia desse aulão, feito por jovens negros e com o apoio de professores negros, é pra – desde sua raiz – criar uma noção de representatividade no sucesso acadêmico”, diz Pedro Batalha.

A solidariedade está enraizada na concepção do projeto, que pretende ser uma oportunidade de mostrar a outros jovens negros e negras que eles não estão sozinhos no caminho à Universidade. “Foi a forma que encontramos, de maneira rápida e urgente, oferecer o último apoio aos meninos e meninas de periferia que irão prestar vestibular. Para eles saberem que não estão sozinhos. Queremos desenvolver uma semente de pertencimento no espaço da academia. Para que eles percebam que é possível sim estar na Universidade e que esse espaço é feito para eles”, diz. Inscrições podem ser feitas online. 

Para quem quer ajudar, está sendo disponibilizada uma conta bancária para depósitos em qualquer valor.

Banco Caixa Econômica

Agência: 1236

Operação: 013

Conta: 00120030-3 (Poupança)

Nome: Hisan Silva dos Santos

Mais informações:  (71) 99190-4737 (zap)