E Se Deus fosse PRETO? – Por Ricardo Gonzaga


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Foto: Guilherme Malaquias

Por coincidência acompanhei, dias atrás, apenas como leitor na moita, uma discussão bastante polêmica na internet que envolvia religião. Religião na internet! Era o seguinte: postaram uma matéria que desconstruía etnicamente a imagem de Jesus Cristo. Segundo ela, cientistas e pesquisadores, cruzando dados históricos e traços étnicos da população do local de nascimento e vida do Jesus Cristo de Nazaré, chegaram numa imagem de um Jesus Cristo muito mais “escuro” do que ícone católico loiro de olhos azuis que nos é apresentado pela igreja.

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Foto: Max Fonseca

Polêmica brabíssima! Comentários nervosos e defesas surpreendentemente carregadas de preconceitos e ideias racistas… Pulei fora. Mas ficaram na cabeça as reflexões levantadas pelos comentários em rede.

E essas reflexões sempre escorriam para serem confrontadas com a violência e intolerância religiosa que sofrem as religiões de matriz africana, a demonização e perseguição raivosa aos ícones religiosos não brancos.

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Foto: Max Fonseca

Acabei encontrando diálogo com o espetáculo solo de Sérgio Laurentino (Bando Teatro Olodum) intitulado “Se Deus Fosse Preto?”. Sergio Laurentino, que já foi Exu no cinema, no filme Besouro, agora é Lhotam Omi Imbó do Dendê (Lhoid), um homem que reivindica para si uma divindade.

Lhotam Omi Imbó do Dendê  é um homem negro que nos relata uma vida de prosperidade, alcançada pela plantação e extração do dendê, sua cultura e identidade. Dentro de suas terras, vivia em grande liberdade, inclusive, na sua fazenda, o uso de roupas não era obrigatório. Então, num determinado dia, ao voltar para casa, encontra esposa e filha com as cabeças decepadas. Lhoid é apontado como praticante do crime bárbaro. Julgado e condenado, ele já cumpre a sentença de reclusão num manicômio judiciário por 17 anos.

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Nós, público, temos acesso a Lhoid num estado bem deplorado no cárcere. É esse homem massacrado que nos conta sua história pessoal com riqueza de detalhes e cheia de reflexões a respeito das divindades, sobre a existência e não existência de Deus. Em determinado instante, Lhoid chega a declarar que Deus não existe, que ele é Deus, que cada um de nós é Deus. E essa é sua sentença. É essa desconstrução da divindade como algo externo e distante de nós que move a ação, ela é causa e consequência do enredo criado por Sérgio, que também assina como dramaturgo.

sergio laurentino se deus fosse pretoO espetáculo é curto, cerca de 50 minutos, e objetivo. Sérgio Laurentino é um ator que captura a plateia, trabalha – brilhantemente – a serviço do texto e encenação, nos traz um espetáculo atual e com uma reflexão muito pertinente.

Destaque para a participação do ator Zé Carlos, que aparece em projeção no telão como diretor do manicômio. A direção precisa e discreta é Jean Pedro.

Em 2017, Sérgio Laurentino estreia mais um filme, Tungstênio, de Heitor Dhalia (Nina; O Cheiro do Ralo), que tem Fabrício Boliveira como protagonista de uma trama policial que se passa em Salvador, nos arredores da Cidade Baixa.

Por mais uma coincidência, Fabrício Boliveira e Psit estavam presentes na plateia. Então teve aquele nosso encontro no bar para “discutir a peça”. É gostoso quando um trabalho artístico permite esses encontros e trocas de ideias. Que assim seja! Evoé! Laroiê! Vamos ao teatro!

Crítica de Ricardo Gonzaga para o Portal SoteroPreta.

#TerçasPretas – “Se Deus fosse preto – o Legado de LHOID” em cartaz no Vila Velha


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Foto: Max Fonseca

O ator Sérgio Laurentino (Bando de Teatro Olodum) volta aos palcos do Teatro Vila Velha com seu solo,“Se Deus Fosse Preto – O Legado de LHOID”, que tem como personagem central Lhutam Omí Imbó do Dendê -LHOID, homem negro preso injustamente pelo assassinato de sua filha e de sua esposa.

Ao longo do solo, Lhoid escreve textos baseando e fundamentando uma nova religião universal. Entre ficção e realidade, sua escrita chega aos anos 3 mil, um futuro que prenuncia a queda das religiões vigentes e o surgimento de um novo messias. Em pouco tempo, as ideias de LHOID ganham repercussão absurda e tornam-se a nova religião universal.

Confira aqui crítica sobre o solo, por Ricardo Gonzaga. 

 

O espetáculo integra a programação do projeto “Terças Pretas” do Bando de Teatro Olodum, ocupando o Teatro Vila Velha, em Salvador, com poesia, literatura e espetáculos teatrais.

 

Chegue lá…

Dia 30/05 | terça | 19h

R$ 20 e R$ 10

Sala Principal – Teatro Vila Velha

Classificação indicativa: 16 anos

Duração: 60min

 

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Confira aqui suas contribuições.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

Confira aqui suas contribuições.

Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

Confira aqui suas contribuições.

hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

Confira aqui suas contribuições.
suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Confira aqui suas contribuições.

 

coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

Confira aqui suas contribuições.

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Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

Confira aqui suas contribuições.

 

josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

Confira aqui suas contribuições.

 

Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

Confira aqui suas contribuições.

Sulivã Bispo traz KAIALA de volta aos palcos neste fim de semana (20 e 21)


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KAIALA é a divindade das grandes águas, dos mares e oceanos. Na visão Bantu ela é o útero materno que gera todas as espécies, inclusive a raça humana. Esta é a inspiração do ator Sulivã Bispo no espetáculo “KAIALA”, que volta em cartaz em duas apresnetações especiais neste final de semana.

O público terá duas chances de ver este espetáculo, pelo qual Sulivã foi indicado ao Prêmio Braskem de Teatro na categoria Melhor Ator: dias 20 e 21 – sexta e sábado, às 19h no Espaço Cultural da Barroquinha. No solo, será contada a a história de uma menina de 10 anos assassinada em uma invasão ao seu terreiro.

É a menina Kaiala, que terá sua vida contada a partir de três pontos de vista: o da avó, do irmão de santo e de uma evangélica. Neles, serão levantados temas como racismo, intolerância religiosa e a morte de jovens negros no Brasil. O solo é dirigido por Com direção de Thiago Romero e faz parte do Projeto de Extensão e Experimentação artística PibiexA – UFBA 70 ANOS, que tem Maurício Pedrosa como tutor.

Confira aqui crítica feita pelo ator Ricardo Gonzaga, especial para o Portal SoteroPreta.

kaiala sulivã bispo
Serviço:
Datas: 20 e 21 de janeiro
Horário: 19h
Local: Espaço Cultural da Barroquinha
Valor: R$20 | R$10

*Ficha Técnica*
Direção/cenografia: Thiago Romero
Orientação: Maurício Pedrosa
Figurino: Tina Melo
Iluminação: Alisson Sá
Coreografia: Nildinha Fonseca
Direção Musical: Luciano Bahia
Instrumentista: Sanara Rocha
Direção de Produção: Luiz Antônio Sena Jr.
Produção Executiva: Bergson Nunes, Ícaro Piton e Diego Moreno
Produção: DAGENTE PRODUÇÕES

Desing Gráfico: Diego Moreno
Fotos: Andréa Magnoni

Espetáculo KAIALA volta em cartaz no Espaço Barroquinha


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Ele encantou, emocionou e foi aplaudido demais na primeira temporada de seu primeiro solo, KAIALA, encenado no Espaço Cultural da Barroquinha no início deste mês. Com o sucesso, o ator Sulivã Bispo (Frases de Mainha) retorna para o mesmo espaço com apresentações dias 3, 4, 10 e 11 de dezembro, às 17h. 

“Fazer um espetáculo assim, dessa grandeza de identidade e de pertencimento, é muito importante. Tem sido maravilhoso ter casa cheia, discuntindo racismo, preconceito, denunciando, falando do Orixá, do Nkisse, do Vodun, de uma maneira tão forte nesse momento que vivemos. Isso me toca muito, é especial. Fico emocionado e muito grato a todos”, diz Sulivã.

“O que mais ficou forte pra mim foi falar de intolerância, respeito e, de certa forma, pontuar o Candomblé Bantu, de Angola, que é uma nação que foi muito exterminada no Brasil. Já trabalho há um tempo falando de Candomblé e tudo que exalta nossa cultura e religião é muito importante no momento de intolerância em que a gente vive, esse foi o norte pra conceber esta direção”, diz o diretor Thiago Romero.

Na segunda temporada do espetáculo em que atua no seu primeiro solo, Sulivã Bispo percorre a trajetória da menina Kaiala a partir de três pontos devista: a avó, o irmão de santo e uma evangélica, para discutir temas como racismo, intolerância religiosa e a morte sistemática de jovens negros no Brasil. 

kaiala sulivã bispo

“É muito emocionante pra mim, com apenas 23 anos, um ator negro que passa tanta dificuldade pra fazer arte nesse país, fazer um primeiro solo falando dessa violência que a gente sofre diariamente por ser de Candomblé. Subir no palco pra falar de intolerância religiosa é muito forte e todo processo me ensinou que é possível fazer uma arte militante, consciente. A partir do momento que nós, dentro do terreiro de Candomblé – um espaço político, de afirmação e de aceitação-, entendermos que incomodamos porque é lá que construímos nossos heróis, nossa herança,a  gente se fortalece. Kaiala me ensinou muito isso” – Sulivã Bispo.

KAIALA é uma divindade das grandes águas, dos mares e oceanos, tida, segundo a visão Bantu, como o útero gerador de todas as espécies, inclusive a raça humana. Com esta referência, a trama conta a história de uma menina de 10 anos, assassinada em uma invasão ao seu Terreiro. Com direção de Thiago Romero, o espetáculo faz parte do Projeto de Extensão e Experimentação artística PibiexA – UFBA 70 ANOS que tem Maurício Pedrosa como tutor. Confira aqui crítica feita pelo ator Ricardo Gonzaga, especial para o Portal SoteroPreta. Ingressos serão vendidos na bilheteria do espaço, R$20/10.  

sulivabisbokaiala
Serviço:

Datas: 3, 4, 10 e 11 de dezembro
Horário: 17h
Local: Espaço Cultural da Barroquinha
Valor: R$20,00 inteira | R$10,00 meia
*Ficha Técnica*
Direção/cenografia: Thiago Romero
Orientação: Maurício Pedrosa
Figurino: Tina Melo
Iluminação: Alisson Sá
Coreografia: Nildinha Fonseca
Direção Musical: Luciano Bahia
Instrumentista: Sanara Rocha
Direção de Produção: Luiz Antônio Sena Jr.
Produção Executiva: Bergson Nunes, Ícaro Piton e Diego Moreno
Produção: DAGENTE PRODUÇÕES
Desing Gráfico: Diego Moreno
Fotos: Andréa Magnoni

“Em Kaiala tem um ator que resolveu falar sobre o extermínio da população negra”


ricardogonzagakaialaSabe aquele instante que a gente dá uma sacada no Instagram para dar umas curtidas aleatórias? Tenho me dedicado a isso agora bastante! Foi conselho de minha sobrinha:

– Meu tio, você não curte nada, maior grosseria!

– É?

Amo ver fotografias e charges no Instagram, mas já sei que precisa curtir foto de gente no espelho da academia fazendo um legal com o polegar. Precisa? Uma charge me para: O desenho mostrava um mar revoltado, destroços de embarcações e no meio de tudo isso, uma criança negra tentando sobreviver em cima de uma tábua. Discussão pra um milênio, né? Mas ainda tinha a frase embaixo: “Ninguém é Haiti”.

Vixe, verdade, já fomos até Charlie! Silêncio! Mas já se conta mais de mil mortos pelo furacão Matthew no Haiti. Silêncio. Nem fama Matthew teve! Quem é Matthew? A morte de mulheres, homens, idosos e até crianças do Haiti não nos causa identificação, comoção e interesse a esse ponto, Matthew!

kaialasulivabispoSilêncio nas redes sociais e grande mídia! Não falamos desse assunto nas grandes rodas também, óbvio. Silêncio! E foi esse silêncio que me levou a ver Kaiala, no Teatro da Barroquinha.

Em Kaiala tem um ator, que resolveu falar sobre o extermínio da população negra em nosso país, Sulivã Bispo.

Ele se utiliza das memórias de uma avó, de um adolescente irmão de candomblé e uma evangélica para recontar a vida e morte de uma garota de 10 anos que foi morta durante uma invasão ao seu terreiro. Motivo: intolerância religiosa.

Silêncio! O extermínio da população negra brasileira, nas grandes e pequenas cidades não nos comove, ainda que aconteça aqui ao nosso lado. Silêncio!

É desse ponto que o espetáculo Kaiala parte para sua narrativa metalinguística-poética. O espetáculo aconteceu no Teatro da Barroquinha, na antiga Igreja da Barroquinha, local que remete aos fundamentos das religiões de matriz africana no Brasil. Discussão pra um século e meio se não tiver paradas pro café e banheiro.

Acompanhado por toques de percussão, Sulivã Bispo, vestido predominantemente de branco, entra pelas portas da igreja-teatro iniciando o espetáculo embalado numa paz de Oxalá.

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Já tá dito, né? Não. Sulivã diz mais, sem economias e sem excessos, ele percorre fácil pelos três personagens completamente distintos, mas que estão ligados intimamente por questões afetivas e espiritual (a avó e o adolescente) mas também por conflitos pessoais e étnico-religiosas (a evangélica). Assim como o ator, que é negro e praticante de religião de matriz africana, também está muito próximo dessas pessoas.

Sulivã está em casa e empresta e remonta trejeitos, frases, formas de falar e ser bem típicas do povo negro e de terreiro de Salvador.

Tudo é narrado de uma forma muito familiar, simples e envolta nas relações cotidianas, buscando essa identificação do público com essas personagens, com a vida dessa menina assinada de uma maneira tão violenta e estúpida.

sulivabisbokaialaÉ um recado bem dado, uma intervenção necessária, muito necessária. Sabe um diálogo bom? É bacana ver um artista dando seu recado e dando bem dado, principalmente no teatro, que é tão penoso para se produzir. Saí contente da apresentação!

O artista tem essa função, arte é esse veículo! Sulivã tem identidade. E essa identidade está na expressão dele! Obrigado pelo encontro da noite!

Pontos para a direção precisa de Thiago Romero, texto, cenografia, luz, figurino, trilha sonora, executada ao vivo, tudo redondinho!

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E no mais, é poético, está dito pelo todo! Pelo local, pelo cenário, pelos corpos, pelos gestos, pelos cheiros, pelas luzes, pelas aguás, pelos espelhos, pelos olhares, pelos trejeitos, pelos risos, pelo amor, pela violência, pelo diálogo, pela narrativa inteligente, pela magia… Rolou mágia! Muita! É um solo-performance curtinho e ótimo de ver! E necessário! “O Haiti não é aqui”, mas… “pense do Haiti”!

Tem mais apresentações: dias 3 a 6 de novembro, às 19 horas,

no Teatro Gregório de Matos agora.

Crítica de Ricardo Gonzaga para o Portal SoteroPreta.

Fotos: Andréa Magnoni

#OcupA – Projeto de lei busca silenciar professores e professoras!


escola sem partido

Em 4 de janeiro de 2017, o vereador de Salvador Aleluia apresentou a PL nº 01/17, nomeada “Programa Escola Sem Partido”. Consta no projeto de lei, diversas barreiras para as ações das professoras e professores em sala de aula – “Lei da Mordaça”.

O artº 3, que delimita as funções dos professores, afirma que “ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as PRINCIPAIS VERSÕES, TEORIAS, OPINIÕES e perspectivas concorrentes a respeito”. A partir dessa afirmação, é interessante deixar evidente que o simples fato de se limitar a palavra “principal” para a discussão já nos traz uma perspectiva perigosa e assustadora, uma vez que o educador não tem a obrigação de repercutir o senso comum e reforçar os estereótipos de uma sociedade racista, machista e LGBTTfóbica.

É evidente que as versões, teorias e opiniões que são consideradas como principais na história do país, estão relacionadas àquelas narrativas vindas de homens brancos, universitários e eurocêntricos. A partir disso, limitar o discurso dos educadores às principais versões, teorias e opiniões é reforçar o epistemicidio, e o silenciamento de argumentos contra hegemônicos, que trazem novas narrativas para as salas de aula.

O epistemicídio é um fenômeno que age por meio da deslegitimação e desvalorização do conhecimento, relacionado e produzido pela população negra. Pela negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano ao patrimônio cultural da humanidade e pelo embranquecimento, a partir da imposição histórica e cultural.

A partir disso, entendo que essa proposta de lei reforça este silenciamento, por querer pautar a neutralidade a partir da hegemonia, em um contexto educacional que pouco discute as produções da comunidade negra.

 Escola sem partidoÉ necessário o entendimento de que o educador tem como função garantir a livre e democrática manifestação de diversas e diferentes versões sobre o mundo, a partir das construções  e experiência de cada um, procurando ao máximo dialogar por uma sociedade com mais equidade e respeito.

A partir disso, “a livre manifestação de pensamento” deve ser respeitada e endossada. O que o projeto de lei da mordaça traz para os professores, é o aprisionamento de idéias e novas construções para as escolas de Salvador.

Segundo a justificativa do vereador, essa proposta almeja “… buscar o verdadeiro ensino e ensinar de forma neutra…”. A perspectiva de neutralidade na justificativa não dialoga com o respeito ao pluralismo de idéias e com as diversas formas de se lidar com a educação e a pedagogia.

 

Meu professor racista!

No início desta semana, a hashtag #meuprofessorracista se popularizou em redes sociais como o Facebook e o Twitter.

 

A mobilização virtual surgiu a partir de um episódio ocorrido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Em carta aberta, o coletivo Ocupação Preta relata que, durante uma discussão em aula, uma professora teria abordado com chacota assuntos relacionados às relações raciais e Monteiro Lobato. A partir disso, a hashtag viralizou e diversos relatos de jovens, que quando criança escutaram frases racistas dos professores e professores, foram expostos.

O que deixou claro que ações racistas são cotidianas nas escolas, por ser algo estrutural que necessita de muitas lutas e resistência para ser superado.  Diante disso, é importante reiterar que o “Programa Escola Sem Partido” vem na função de fortalecer ações hegemônicas e enfraquecer as mobilizações a favor de uma sociedade mais democrática, respeitosa e menos racista.

Precisamos nos mobilizar para barrar a passagem dessa proposta de lei. Diante disso, diversos coletivos, instituições e entidades se uniram para construir a FRENTE BAIANA ESCOLA SEM MORDAÇA, por uma escola livre e com pensamento crítico.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

Confira aqui suas contribuições.

Sarau da Onça divulga selecionados no II Concurso Literário


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Foto: Lissandra Pedreira

Sabe quem vai estar na coletânea de poemas e contos, resultantes do II Concurso Literário Sarau da Onça? Saiu a lista com nomes dos 50  selecionados que terão seus textos publicados em um livro, sem custo, com direito a cinco exemplares cada um.

O II Concurso integra o Festival de Arte e Cultura, que acontecerá em maio de 2017, com Oficinas de teatro, dança, Hip Hop e criação literária.

O Sarau da Onça atua há mais de cinco anos no bairro de Sussuarana, é fruto da iniciativa de jovens do bairro, no intuito de atuar como aliados no resgate de valores e na construção de uma sociedade mais igualitária, através da arte. O Sarau é uma das principais opções de atividades culturais e educativas para os moradores do bairro.

Sarau da Onça prepara II Festival de Arte, Cultura e Concurso Literário

O projeto foi contemplado com o edital Setorial de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), com patrocínio do Fundo de Cultura do Estado, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

Veja quem vai tá nessa publicação:

Autor
Categoria
Título do trabalho
Herbert Souza Santos
Conto
Praça de alimentação
Gonesa Souza Moreira Gonçalves
Conto
Noturna
Jordan Silva Santos
Poesia
Ativista/Baiana
Joseane Santana
Poesia
Oração Feminista/Pu(re)za
Joyce Melo
Poesia
Radicalizando/Desabafos
Névora
Poesia
Puta/Não cale-se para sempre
Lucas Santiago
Poesia
Incomodando o silêncio da viagem/A bênção do dia 20
Ludy Borges
Poesia
Black Power, sim!/Amor ancestral
Marcelo Ricardo
Poesia
Manifesto Esú/Bicha errada
Fabrícia de Jesus
Poesia
Quem come/Feito Maré
Gleise Sousa
Poesia
Cor do pecado/Mulher de verdade
Helen Adriane
Poesia
Laço afrocultural/Baile das negras
Iasmin Carolaine
Poesia
Oh Preta!/Meu sertoneste
Jacquinha Nogueira
Poesia
Crespo/Querência
Jairo Pinto
Poesia
Na cabeça do motorista – Carro II/Outros mares
Fernando Gonzaga
Poesia
Outras danças/Carapinha não eletrificada: é bala!
Sandro Sussuarana
Poesia
Culpado/Negritude
Fernanda Leão
Conto
Odeio despedidas
Jamerson Brandão
Conto
Inocentes
Ronald Castro
Poesia
Sem mais delongas/O que falta é oportunidade
Robinson Silva Alves
Poesia
Viva a liberdade/Teus
Roberth Novaes Nascimento
Poesia
Partida/Dorival Caymmi
Rafael Sampaio Souza
Poesia
Mulher em código/Love for sale
Negreiros Souza
Poesia
Turbante-se/É detector de metal ou melanina?
Marjorie dos Santos
Poesia
Ciclo/Maré cheia
Mariana Ferreira
Poesia
Belezas do vale/É treta preta!
Marcos Peixe
Poesia
Pós-conceito/Maldita vírgula!
Lissandra Pedreira
Conto
A noite
Rogério Di Sousa
Conto
A aventura das porongas
Evanilson Alves
Poesia
Vila Moisés/Não nego voz
Ronaldo Magalhães Oliveira
Conto
Eterna presença
Andréia Cairo
Poesia
Aqui jaz/A invisibilidade negra
Fabiana Lima
Poesia
Afroconveniência/Rafael da Silva Lima
Amanda Quésia
Poesia
Tentaram/Menina Sonhadora
Ana Paula Oliveira
Poesia
Meu corpo negro/Cidadão escravizado
Brenda Gomes
Conto
Maria
Breno Silva
Poesia
Favela/Efeito dominó
Djean Felipe
Poesia
Meninos alvos/Inocente
Fábio Bahia
Poesia
Transição/Altruísta
Ana Fátima
Conto
Muralhas ou migalhas?
Epitácio Carvalho
Conto
Dia de chuva
Sirlene Pereira Birpo
Poesia
Vítima/Insônia
Cleide Bruno dos Santos (Sol Vasconcelos)
Poesia
Escrevo/Menina dos olhos fuxiqueiros
Maiara Silva
Poesia
Intolerância religiosa/Símbolo de resistência
Telma Fiúza Roque Viana (Telma Fiúza)
Poesia
Coração passarinho/A saudade
Vanessa Sena de Almeida
Poesia
Homem fardado/Caríssimo Estado
Vinícius Costa Morais
Poesia
A cor da luta/O cultivo
Vítor Oliveira Santos
Poesia
Humano, profano, insano/As partes
Mateus Silva
Poesia
Florescer/Favela na veia
Zezé Olukemi
Poesia
Interlude/Saravá

 

“Duas Noites e Quatro Búzios” é o novo projeto teatral de Ângelo Flávio


01João de Deus, Lucas Dantas, Manuel Faustino e Luís Gonzaga. Jovens negros, assassinados e expostos onde hoje conhecemos como Praça da Piedade, em Salvador. Luiza Francisca, Lucrécia Maria, Domingas Maria e Anna Romana. Mulheres que lutaram no mesmo front.

Estamos falando da Revolta dos Búzios, movimento que, em 1798, defendia a independência do país da coroa portuguesa, o fim da escravidão, um governo republicano, democrático e com liberdades plenas, o livre comércio e abertura dos portos.

Esta memória será resgatada no Solar Boa Vista (Engenho Velho da Federação), dias 7 e 8 de novembro,  pelo ator e diretor Ângelo Flávio, que chega a Salvador para apresentar seu projeto artístico teatral “Duas Noites e Quatro Búzios”, uma realização do Instituto Pedra de Raio e da Companhia Teatral Abdias Nascimento, a qual dirige. A entrada é gratuita, às 19h.

revoltadosbuziosangeloflavioO projeto pretende unir, nas duas noites, um coletivo de artistas que celebrarão a memória de luta destes jovens pela liberdade e a linguagem teatral é a escolhida para fazer um resgate e valorização da história e da memória da Revolta dos Búzios e dos seus heróis.

SERVIÇO:

Performance Teatral “Duas Noites e Quatro Búzios”

Onde: Cine Teatro Solar Boa Vista

Quando: 7 e 8 de novembro, às 19h

Quanto: Entrada Franca

Classificação: Livre

 

Ficha técnica:

Direção e roteiro: Ângelo Flávio

Ator: Amaurih Oliveira

Atrizes: Ive Carvalho e Josi Acosta

Dançarina: Marilza Oliveira

Poetas: Fabiana Lima, Jamile Santana e Pareta

Músico: Ricardo Costa

Apoio: Cine Teatro Solar Boa Vista, Acosta Produções Artísticas e Azul Designers

Realização: Instituto Pedra de Raio e Cia. Teatral Abdias Nascimento