Goleiro Bruno: de assassino preso a goleiro disputado! – Por Suzana Batista


goleiro brunoO goleiro Bruno, condenado a 22 anos e três meses de prisão por sequestro, morte e ocultação do cadáver da modelo Eliza Samudio (mãe de um filho seu), acertou com Boa Esporte por dois anos e volta a ser jogador profissional, disputando a série B do Campeonato Brasileiro.

Bruno deixou a Apac (Associação de Proteção e Assistência a Condenados), na cidade mineira de Santa Luzia, em 24 de fevereiro, graças a uma liminar deferida pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, tendo ficado preso por seis anos.

É difícil de entender como Bruno preso por seis anos, a menos de um mês em condicional, está empregado. E olha que vivemos em um momento de crise, o país está demitindo mais que contratando, são mais de 10 milhões de desempregados em todo Brasil.

Mesmo com muitos goleiros qualificados a espera de uma chance para mostrar seu talento em um time de futebol, essa oportunidade foi dada para um homem condenado a mais de duas décadas de prisão por matar, esquartejar e ocultar o corpo da mãe de seu filho.

 

Como um homem mata a mãe de seu filho de uma forma tão cruel e tem noves clubes interessados em contratá-lo? Em que sociedade vivemos, onde um assassino tem inúmeras propostas de emprego? Numa sociedade machista, patriarcal, capitalista e misógina.

goleiro brunoQue diz “vamos dar uma chance para ele” e que chance Eliza teve? Que chance o filho de Bruno teve em conhecer e poder viver com sua mãe? Que chance a família de Samúdio tem em ver a justiça sendo feita? Já que um assassino condenado há 22 anos de prisão cumpre apenas seis e pronto!

Mesmo depois de tudo isso a sociedade está dividida. Uma parcela repudia sem hesitar a presença e permanência de Bruno em um time de futebol. Que referência ou exemplo ele pode dar para uma criança, uma família que vai a um estádio torcer pelo Boa Esporte Clube? Uma outra parcela da população fala em ressocialização. Tudo bem, depois de cumprir sua pena integral, talvez. Até porque nas aparições do goleiro nas mídias sociais ele não demonstra nenhum arrependimento e se nega a falar sobre o assunto.

 

goleiro brunoCrueldade contra a mulher

Em território brasileiro, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2015, o Mapa da Violência sobre homicídios entre o público feminino revelou que, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.

Na mesma década, foi registrado um aumento de 190,9% na vitimização de negras, índice que resulta da relação entre as taxas de mortalidade branca e negra. Para o mesmo período, a quantidade anual de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747 em 2003 para 1.576 em 2013. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Os feminicídios geralmente são cruéis e marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória (como ocorreu no caso de Eliza Samudio). E, na maioria das vezes, não se encerram com o assassinato.

Mantém-se pela impunidade e pela dificuldade do poder público em garantir a justiça às vítimas e a punição aos agressores, a exemplo do goleiro do Boa Esporte, condenado a 22 anos e em condicional depois de cumprir apenas 6 anos do total.

goleiro brunoReação popular

Após a contratação do goleiro ser oficializada, o clube mineiro foi alvo de críticas por parte dos internautas. O Boa Esporte já perdeu cinco patrocinadores, incluindo o principal, o Grupo Góis & Silva.

A última a anunciar a decisão foi a Kanza, na tarde desta segunda-feira, 13. Antes da Kanza, a Cardiocenter Varginha, a Magsul Ressonância Magnétic e a Nutrends Nutrition já haviam cancelado o patrocínio.

Um abaixo-assinado intitulado “Somos Todos Vítima Unidas” defende que o goleiro seja impedido de atuar no esporte e não possa requerer a guarda do filho que teve com Eliza. O menino também se chama Bruno e tem 7 anos. O documento já tem 32.410 assinaturas. Ele tem apoio de Sonia Fatima Moura, mãe de Eliza Samudio, e também foi assinado pela atriz Letícia Sabatella.

suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Confira aqui suas contribuições.

Salvador, o carnaval da contradição! – Por Suzana Batista


leo santana
Foto: Max Hacck Fotografia

A campanha lançada pela Câmara Municipal de Salvador, como objetivo de colaborar com a redução dos índices de violência durante a maior festa popular do mundo, para conscientizar a população sobre os direitos da mulher supostamente falhou.

Devido à infeliz escolha da música Hit do carnaval 2017. É o segundo ano que a Comissão dos Direitos da Mulher está presente no carnaval de salvador no camarote da casa Legislativa, no circuito do campo grande.

Que contradição é a música escolhida como a música do carnaval 2017. Já que esse ano o slogan usado pela Câmara Municipal de Salvador foi “Salvador: Carnaval da Alegria, da Música e do Respeito à Mulher”. Como assim? Respeite as Minas!

Mas a música vencedora fala justamente ao contrário, tudo bem que quem escolheu a canção foi o folião, mas o intuito do slogan era conscientizar exatamente esse folião da importância de se respeitar a mulher, não desqualificá-la como faz a música vencedora. Parece que a mensagem não foi passada corretamente.

“ A santinha perdeu o juízo

tomou uma e já ficou louca

quando bebe ela é um perigo

Sai beijando de boca em boca”.

Segundo os dados do Observatório da Semur, foram registradas 847 agressões contra mulheres durante o Carnaval de 2015. Em 2016, esse número teve um aumento, subiu para 2.025. Deste total, 63% das vítimas foram negras. A violência física predominou com 1.114 casos (55%), seguida da verbal/gestual discriminatória com 911 registros (45%). O Circuito Dodô teve 455 ocorrências (22,4%) e o Osmar 1.570 (77,6%). O 180, número destinado à denúncia de violência cometida contra mulher oferecida pela SPM, teve um aumento de 174% de denúncias atendidas pelo serviço em relação a 2015. No ano passado, foram 3.174 relatos no país. A Bahia ficou em 4º lugar do ranking nacional com 223 ocorrências registradas em todo o estado.

respeite as mina

No carnaval de Salvador desse ano, os policiais foram orientados a impedir qualquer tipo de agressão como ‘invasões’ à privacidade, o beijo forçado, toque sem consentimento, dentre outras formas de violações do corpo da mulher.

O atendimento foi ampliado, atuando nos circuitos Dodô e Osmar. As atividades começam pela sensibilização dos policiais militares, para que entendam que todos os casos precisam ser registrados. Brigas entre casais, beijo forçado, apalpadas e outras maneiras que violem a integridade da mulher são considerados crimes e sujeito a punições.

Mas em meio a tantas ações para desarticular o machismo e sexismo durante o carnaval de Salvador, tudo termina com um contrassenso. O que é preciso para mudar realmente o senso crítico da população baiana? Já que tantas iniciativas foram feias durante o carnaval para sensibilizar e desconstruir as interseccionalidades que oprimem a mulher, em especial a mulher negra. Políticas públicas com maior poder de conscientização, atividades que enalteçam a valorização feminina durante todo o ano e não apenas nas proximidades da maior festa de rua do planeta. Precisamos de ações contra a violência contra a mulher diariamente.

suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

Festival Caymmi de Música no Subúrbio teve #MaisAmorEntreNós


 

Mais amor entre nósO  #MaisAmorEntreNós surgiu a partir de uma inquietação da jornalista Sueide Kintê, através das redes sociais oferecendo troca de serviços entre as mulheres. A campanha se espalhou pelo Brasil, tendo centenas de seguidoras e, neste domingo (30), ela esteve em destaque na progrmação do Festival Caymmi de Música, que chegou ao Subúrbio de Salvador.

Na campanha, diversos serviços são oferecidos, como massagens, aula de dança e, principalmente, a doação do tempo para outra pessoa. A sororidade  colocada em prática entre as mulheres.

Mais amor entre nós

“As pessoas nos procuram para fazer parte das atividades. Nosso grupo fechado tem hoje mais de 20 mil seguidoras no Facebook, e a Fanpage tem mais de 90 mil. Então, a gente pede que as pessoas acessem as nossas redes e, a partir daí, ela fará uma publicação de algo que ela tem a oferecer”, diz  Nélia Sobrau, integrante.

A administradora e ilustradora, Tati Marques, fala de como é fazer parte de projetos como esses. “Essa interação entre as mulheres é mais uma forma de amar. Mais amor entre nos é o que a gente está buscando. Tanta violência no mundo, as coisas estão de cabeça para baixo, então, quanto mais amor a gente praticar, gerações futuras melhores virão”, disse.

Mais amor entre nós

Na programação, as mulheres foram agraciadas com técnicas de relaxamento anti-estresse, com a facilitadora Sueli Kintê e a terapeuta Mônica Gonçalves, além de um tratamento nos pés e ombros, por meio de massagem.

Teve ainda aula de dança Coupe Decalé, de origem africana e mais praticada na Costa do Marfim, ensinada por Brisa Alves. “É uma dança que precisa muito de ritmo, então, precisa ter muita energia por ter uma base ancestral. Ela traz liberdade de expressão pras mulheres, sensação liberdade. Me senti livre com elas”, disse.

Mais amor entre nós

Pelo mundo

A campanha #MaisAmorEntreNós está em todo Brasil, presente em oito países como França, Suíça, Estados Unidos, México. Tudo acontece através das redes: as mulheres oferecem uma ajuda a outra com necessidade. Daí uma equipe – a partir de um banco de dados – cruzam as ofertas e procuras, ajudando inúmeras mulheres. De um corte de cabelo, aula de inglês ou, simplesmente, uma pessoa conversar.

Fotos: Suzana Batista

Colaboradorxs


O Portal SoteroPreta possui a contribuição de autores em diversas áreas da Cultura Negra. São narrativas de Salvador e outros estados que, de forma permanente, acrescentam seus olhares e percepções das realizações negras no campo da Cultura. Conheça:

 

Luciane Reis

Luciane Reis é publicitaria, idealizadora do MerC’afro e pesquisadora de Afro empreendedorismo, Etno desenvolvimento e negócios inclusivos.

Confira aqui suas contribuições.

pec 55 e negrosÍcaro Jorge, 19 anos, é fundador e conciliador de histórias do Ocupa Preto, blogueiro, youtuber e mobilizador social.

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Davi NunesDavi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

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hisan2

Hisan Ferreira é em Produção Cultural pela PRACATUM, criador da Fanpage Meu Crespo.

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suzana batistaSuzana Santos Batista, Jornalista, jovem negra e feminista, capoeirista.

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coletivo crespas e cacheadasO Coletivo Cacheadas e Crespas de Salvador, com a coluna “Ouriçadas!”, reúne as soteropretas, Sâmara Azevedo, 35 anos, professora de Língua Portuguesa da Rede pública estadual, Fundadora do Coletivo; Fernanda Borges, 38 anos produtora cultural e coordenadora do Armazém Cenográfico do TCA, é Adm do Coletivo; Ana Paula Couto, 34, administradora, moderadora do Coletivo.

Confira aqui suas contribuições.

ricardogonzagakaiala

 

Ricardo Gonzaga é ator e diretor teatral.

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josi acosta

 

Josi Acosta é atriz, professora de teatro e produtora cultural.

Confira aqui suas contribuições.

 

Frida Costa

Frida Costa é redatora publicitária, assessora de imprensa, social media e integrou a equipe do A Tarde Online. Descobridora dos sete mares, vive procurando músicas e artistas “desconhecidos”, documentários e filmes independentes.

Confira aqui suas contribuições.

Xica – Coletivo Liliths traz reflexão sobre os dilemas da comunidade LGBT


Coletivo Liliths

A narrativa se passa no período colonial, quando a sociedade levava a vida baseada nos dogmas da religião, seja ela católica ou não. Naquela época, assim como ainda acontece muito hoje, a opção sexual e de se transvestir ainda não era aceita por grande parte da população. Francisco lutou por seu direito de se travestir e usar o nome de Xica Manicongo, escravo do Sapateiro Fernando Pires.

Francisco saía ao final do expediente e se transformava em Xica. Nem a sociedade, nem seu dono, entendiam sua necessidade de se identificar com aquele nome. Mas, para ele, não era apenas uma nome – era a sua verdade como pessoa, sua identidade como uma mulher.  A peça traz as questões de direitos e visibilidade da comunidade LGBT.

O diretor da trama, Geogenes Issac, já possui a característica de abordar temas do dia a dia – como preconceito, a intolerância religiosa. Issac dirigiu peças como “Lady Dai”, “Adão, Eva e Circo dos Horrores” e muitas outras. O jornalista Pedro Moraes, fã dos trabalhos do diretor Geogenes Isaac, acompanha suas peças desde 2013. “Precisamos ocupar espaços como esses, que falem sobre essas diferenças. Nós vivemos em mundo diversificado, sempre existiu essa mistura”, diz Moraes.

Coletivo Liliths Ricardo Andrade, ator e diretor teatral, interpreta Xica. Ele descreve como é importante a história de pessoas como Francisco Antônio. “Um travesti que morava nas redondezas da Baixa dos Sapateiros. Homem que lutou pelo o direito de se travestir de mulher e ser chamada por Xica. Para mim, a mensagem que Xica deixa é de que ela está viva, ela está aqui”, diz.

 

Foto: Pedro Moraes

Texto de Suzana Batista (colaboradora do Portal SoteroPreta)

OcupA! – Salinas da Margarida e os avanços pela juventude


Ocupa Preto Icaro Jorge
Grupo de Teatro da Esquina – Divulgação

Neste final de ano o meu destino foi Salinas das Margarida, uma cidade com em torno de 15 mil habitantes, e que está entre as 10 cidades mais negras na Bahia, segundo o IBGE de 2010.

A juventude negra de Salinas muito se organiza através da cultura, da arte, uma grande aproximação com a dança, o teatro e afinidade estética.

É uma juventude forte, debate o combate ao racismo e às opressões. Não é muito difícil você enxergar meninas e meninos negros de 15 a 19 anos utilizando tranças de todas as cores e tipos, os cabelos naturais e uma presença marcante nos espaços.

Fiquei em Salinas por quatro dias e fui apresentado a um grupo de teatro chamado “Teatro da Esquina” que, para mim, é extremamente engrandecedor e empoderador, por conta da forma que se é feita as apresentações. Jovens negros e negras se unem em qualquer esquina da cidade, praças e espaços possíveis e realizam suas apresentações.

“O grupo surgiu a partir de uma peça que fizemos na igreja, no dia da padroeira de Salinas. No começo, tinha 21 integrantes, hoje em dia tem 10, alguns que por motivos maiores tiveram que se afastar. O grupo é importante porque, como você deve ter reparado, não tem muitos grupos que trabalhem com arte (movimentos, manifestações), então cabe a nós do Teatro de Esquina mexer em alguns assuntos como o combate ao racismo, à violência contra mulher e vários outros” – Ed Oliver, jovem  componente do “Teatro de Esquina”.

Ocupa Preto Icaro Jorge
Grupo de Teatro da Esquina – Divulgação

A cidade, devido à estrutura racista e toda a formação do mercado ilegal brasileiro, mantém construções de facções e uma educação opressora. As escolas se tornam prisões para as crianças e adolescentes, é interpelada pelo tráfico de substâncias ilícitas e pela aliciação de jovens para esse mercado.

Ações culturais como esta, “mudam futuros, mudam realidades”, é uma forma de criar outros futuros para destinos que, pela cultura e estrutura social, já estão traçados. É uma forma de mudarmos as realidades através das artes e fazer o que nós queremos: VIVER.

Espero que as ações e produções culturais por toda a Bahia se multipliquem e que nós possamos criar novas identidades, conquistas e vitórias com isso. Essa é uma sociedade em que um presidente interino branco, afirma, publicamente, que uma chacina, causada pela estrutura de um país racista – que coloca as pessoas negras na mira de balas e as matam -, é “um acidente. A mídia, golpista igual, aplaude as mortes e assassinatos que estão ocorrendo ou omitem os acontecimentos.

Ocupa e convera ícaro jorge
Ocupa e convera Foto: Suzana Batista

Sabemos que todos os dias estamos passando por chacinas, sejam nas periferias, favelas, prisões – não são acidentes. São, estrutural e historicamente, planejadas em torno de um privilégio que fazem questão de manter: a “verdadeira superioridade”, como explica Lélia Gonzales.

Por conta disso que é tão importante ver a juventude negra forte e empoderada, produzindo as suas próprias narrativas. Como a Marcha do Empoderamento Crespo, as rodas de conversa que estão acontecendo por toda cidade, as loja de resistência negra como a Agô Nilê, as e xs youtubers negrxs que estão levando as pautas de resistência pelas redes.

Ultimamente, participei de seletivas para o I Prêmio de Jornalismo Afirmativa com  tema “A violência da guarda municipal nos espaços de encontros da juventude negra”. Ganhei o prêmio, agora vou produzir um audiovisual de acordo com esse tema e eu só tenho uma preocupação: quais as consequências que vamos conseguir produzir para esses espaços?  

ocupa preto
Foto: Kawe N. Nzangi

Em um momento de retrocessos como esses que estamos passando: um presidente interino que conseguiu alcançar o cargo através de um golpe e um presidente ultraconservador eleito no país que é considerado a maior potência do mundo, só faço um pedido: NÃO PAREM DE LUTAR. 

Não se sintam pressionados com essa supremacia branca que está a todo tempo nos silenciando, mas também não se responsabilizem por uma luta sozinhxs. Lembrem que a luta é coletiva e cada um ocupando seu espaço fará as necessárias mudanças. Não pense em abraçar o mundo sem abraçar aqueles que estão ao seu lado.

pec 55 e negros
Foto: Joa Souza

Ícaro Jorge é colunista do Portal SoteroPreta neste espaço chamado “OcupA!”, que será atualizada a cada 15 dias.

Jovens aprendem a criar diálogos nos moldes do “Ocupa, Preto!”


Ocupa e convera ícaro jorge

Com oito meses de criação o projeto Ocupa, Preto! promoveu, nesta quarta (18), a primeira oficina “Ocupa e Conversa!”, idealizada por Ícaro Jorge – estudante do BI de Humanidades (UFBA) e articulista do Portal SoteroPreta.

Esta foi a primeira de três oficinas que serão ministradas em parceria com o Instituto Mídia Étnica (IME). Na ocasião, Hellen Souza – que integra o IME – realizou uma oficina com o tema “Pense Grande”, cujo objetivo é proporcionar aos jovens um incentivo às idéias, ao conhecimento entre eles e possibilitar o empreendedorismo.

A oficina serve como uma preparação para a realização de diálogos como o Ocupa, Preto! Segundo Ícaro, o que mais lhe chamou a atenção para a criação dessa oficina foi a necessidade de ter um espaço para as pessoas debaterem temas como racismo, preconceito e o combate à intolerância religiosa.

“Temas que estão no dia a dia da população negra. Um local onde eles não apenas ouçam, mas façam parte da discussão e possam mobilizar a sociedade para fazer essa roda de conversa”, diz.

“Não existe o “Ocupa, Preto!” sem o “Ocupa e Conversa”. Esse projeto tem o intuito de mobilizar, de estar nas ruas, próximo da galera de está fazendo projetos. Isso foi o que me incentivou e mantém sentido em minha vida no momento”. – Ícaro Jorge

Ocupa e convera ícaro jorge

O “Ocupa e Conversa” já passou pela Universidade Federal da Bahia, São Caetano e Salinas das Margaridas. As próximas realizações serão nos dias 25 e 2 de fevereiro, também na sede do Instituto (Dois de Julho).

Para o estudante de Administração, Guilherme Lima, foi um passo importante. “É a minha primeira vez em eventos do tipo. Eu vejo a conversa de hoje como uma atividade de semear sabe, eu estou sendo a terra preparada que está sendo semeada. Acho que estou nesse momento agora, bem da semente e vim absorver conhecimento”.

 

 

 

Fotos e texto: Suzana Batista (colaboradora do Portal SoteroPreta)

 

 

 

 

 

#21DiasAtivismo – Coletivo de Entidades Negras reuniu órgãos públicos e comunidades no debate sobre violência


21 dias de ativismo
Foto: Suzana Batista

Órgãos públicos e mulheres de entidades comunitárias estiveram juntos na manhã desta segunda (5), na sede da OAB, em Salvador, para debater caminhos conjuntos de combate à violência doméstica contra mulheres. O encontro faz parte da Campanha pelos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher, organizada na cidade pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN), em parceria com o Instituto AVON. As ações seguem até dia 10 de dezembro.

A cada 15 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência no mundo e a cada 15 minutos uma mulher é vitima desta violência no Brasil, quinto país em número de assassinato de mulheres. Segundo dados relatados nos debates, a maioria desses crimes são cometidos por alguém da família.

violência contra mulher
Foto: Marcio Gualberto

“Apesar da Lei Maria da Penha, da criação das Deam’s, da Lei do Feminicídio, entendo que, principalmente aqui na Bahia, nós ainda estamos longe de alcançar um trabalho de excelência. As mulheres continuam sendo vítimas, com um número maior de feminicídio, principalmente contra mulher negra”, enfatizou Maria Auxiliadora Teixeira, corregedora geral da Defensoria Pública do estado.

Para o psicólogo Rafael Cequeira do Grupo de Atuação em Defesa das Mulheres do Ministério Público (Gedem-MP), o que uma mulher vitimizada precisa é de profissionais qualificados e um sistema acolhedor para atendê-las.

“Não adianta apenas prender o opressor e não empoderar essa mulher, lhe dando emprego e auto estima”, diz.

Iraildes Andrade coordenadora de Gênero do CEN falou da necessidade de se efetivar os debates. “Nós não podemos continuar apenas falando de violência, temos um grande problema hoje que é o da saúde pública das mulheres”.

Para tanto, um encontro já está agendado entre o CEN, a Defensoria Pública, o Gedem e a Secretaria de Políticas para as Mulheres, em janeiro de 2017.

#21DiasAtivismo – Coletivo de Entidades Negras debate violência de gênero com policiais militares


“Ele nunca me agrediu, só me xinga as vezes mas, durante esses 13 anos, ele nunca me bateu. Quero que ele saia da minha casa e ele não quer sair”, relata C.S, que estava na Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM), em Periperi na manhã desta terça (29).

16 dias de ativismo
Iraildes Andrade (CEN) Foto – Ascom/Ronda

O relato dela é o de muitas outras que chegam à linha de frente do atendimento às vítimas de violência doméstica – seja em ocorrências atendidas nas Delegacias ou pela Ronda Maria da Penha, criada em 2015 no âmbito da Polícia Militar da Bahia.

Para capacitar agentes policiais quanto aos tipos de violência contra a mulher, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) esteve na Deam de Periperi neste dia, para falar com policiais sobre o tema. Na ocasião, a coordenadora de Gênero do CEN, Iraildes Andrade, falou de violência psicológica, sexual, patrimonial e moral – cujas características ainda são desconhecidas por muitas mulheres.

A ação integra a Campanha dos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher, encabeçada, em Salvador e Região Metropolitana, pelo CEN, em parceria com o Instituto AVON e Governo do estado. A Campanha segue até dia 10 de dezembro, já tendo realizado atividades junto a mulheres em situação de cárcere, intervenções em espaços públicos com distribuição de materiais informativos. As ações seguem durante a semana, veja aqui. Na ocasião, a Ronda Maria da Penha integrou seu projeto “Papo de Homem” à Campanha, reunindo seus policiais para a formação.

16 dias de ativismo
Foto: Suzana Batista

O objetivo foi educar para a prevenção à violência doméstica e familiar, para que eles tenham o conhecimento das cinco formas de violência a que a mulher é vitima. A Ronda, comandada pela Major Denice Santiago, já vem acontecendo em outros municípios como Piritiba, Riachão de Jacuípe.

“Nós temos uma preocupação aqui na Ronda de atender a tudo que se configure a Lei Maria da Penha. Pela prática, nós percebemos que quando a Ronda também conversa com o agressor, ela explica para ele a medida protetiva e dialoga sobre sua violência. Aqui, o agressor tende a compreender mais a necessidade de seu afastamento da companheira (ou ex)”, explica major Santiago.

A violência não é só física

A violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral são as formas mais comuns de violência contra a mulher e são essas violências que a Ronda Maria da Penha vem tentando impedir que aconteça com tanta frequência.

 A denunciante que citamos no início deste texto, por exemplo, é retrato do que os policiais da Ronda Maria da Penha relatam, quando questionados sobre dificuldades neste tratar: lidar com a falta de informação dessas vítimas quanto ao que é violência. No caso, averiguado pelos policiais, ela sofre de dois tipos de violência: a moral e a patrimonial, uma vez que seu companheiro se nega a sair de sua casa, ameaçando seu patrimônio.

 

ronda maria da penha
Foto: Suzana Batista

A capitã Ana Paula Queiróz, subcomandante da Ronda Maria da Penha, fala sobre esta atuação. “O crime de violência doméstica é perpetuado pela cultura. Para além de atender à demanda dessas mulheres, a Ronda tem o compromisso de instruir as pessoas sobre o que são estas violências e como as mulheres podem não sofrê-las, não figurem como vítimas. É também para os homens, para que eles não comentam se tornem agressores”, explica.

“Os policiais foram receptivos à temática. Ouvimos relatos sobre patriarcado, cultura de machismo, de se colocar no lugar da mulher e entender suas dificuldades, o que nos deu a certeza de que há jeito de transformar a realidade que ainda encontramos, que é a da falta de acolhimento relatada pelas mulheres vítimas de violências. Eles são a porta da frente para elas, elas precisam enxergar nesta farda que há alguém do outro lado que pode ajudá-las. De eles estiverem conscientizados disso, sensibilizados, já teremos avançado”, afirma a coordenadora de Gênero do CEN, Iraildes Andrade. 

Estima-se que, no Brasil, cerca de 2 milhões de mulheres sofram agressão a cada ano e a Lei Maria da Penha descaracteriza esta agressão enquanto crime de menor poder ofensivo, punido com multa ou cestas básicas, tornando-a crime com pena de 1 a 3 anos de prisão. Além disso, o judiciário pode obrigar o agressor a participar de programas de reeducação ou recuperação.

Para o Cabo Djair, que é um dos primeiros integrantes da Ronda Maria da Penha, fazer parte desse projeto é muito importante ainda mais sendo homem. “Uma coisa que vem do patriarcado, uma coisa bem antiga de criar o homem com a bola, criar mulher com essa separação, essa falta de explicação de gêneros. Criou-se essa dificuldade hoje da aceitação masculina com relação à compreensão sobre a mulher e suas necessidades. Hoje, muitos homens não veem a mulher com a igualdade que elas merecem, mas a gente está tentando desconstruir isso”, afirma.

As ações do CEN na Campanha dos 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher – em parceria com o Instituto AVON – continuam em Salvador, Simões Filho e Lauro de Freitas. Saiba tudo aqui.

MAFRO e Você trouxe história de vida de Luiz Bokanha


mafrobokanha

Durante o mês da Consciência Negra, o Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia realiza a 5º edição do programa O MAFRO e você. O projeto foi idealizado por Marcos Rodrigues, integrante do Museu, que propôs, com esse evento, dar visibilidade a protagonistas negros que se destacam nos mais variados seguimentos – sejam eles artísticos ou não.

O MAFRO e você 2016 acontece desde o inicio do mês, todas as quartas-feiras de novembro com temáticas que dão voz e vez aos personagens negros. Na última quarta (16) foi a vez de Luiz Bokanha falar sobre sua trajetória como bailarino e coreógrafo.

Projetos como esses são muito importantes e devem ser multiplicados. Tem muita história de vida de negros talentosos que precisa ser conhecida. Criar projetos como esses serve como um espaço onde o negro pode relatar suas experiências, contar sua história. A cultura só funciona quando espaços como esses exitem” – Marcos Rodrigues

A trajetória de vida de Bokanha é sofrida e muito parecida com a de muitos negros que moram em bairros periféricos de cidades como Salvador. Oriundo do Nordeste de Amaralina, Bokanha sempre quis fugir dos destinos violentos e curtos que seus amigos de infância tiveram. Foi através da percussão e, em seguida, com o balé que ele conseguiu fugir desta realidade existente em bairros como o Nordeste.

mafrobokanha

Depois de ter iniciado o balé na escola do SESC e passar pelo Balé Brasileiro da Bahia, viajou para o Rio de Janeiro e São Paulo, cidade que não conhecia quase ninguém. Apostou na Capoeira para conseguir dinheiro e ligar para sua mãe e dizer que estava bem. Mas a sua vida mudou a partir da audição do Balé Municipal de São Paulo. Uma vez dentro, conheceu o mundo através do balé, foi a países como Polônia, Suíça e, por 20 anos, foi diretor da Casa de Show Maracanã, em Firenze na Itália.

Depois de muita luta Luiz se recorda de tudo que passou e sabe que valeu a pena tanto esforço, tanta dedicação. Hoje ele é reconhecido internacionalmente devido a sua carreira como bailarino . A lição que Bocanha tem para seus alunos e todos que vivem do balé é “não desista, insista e persista em seu sonho”.

Saiba mais da programação do MAfro e Você 2016. 

Fotos: Suzana Batista