Livro “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana” será lançado em Salvador!


Banda_Zimoblack
Banda_Zimoblack

 

Contemplado pelo Calendário das Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb/SecultBA), o livro “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana” será lançado em 7 de julho, às 18h, no Sarau da Onça, em Sussuarana. A publicação reúne cerca de 100 poemas e é resultado do trabalho coletivo de vários protagonistas de saraus, slams, grupos e coletivos de artistas da palavra oriundos das periferias de Salvador.

O evento já começará animado ao som da Banda Zimoblack. Em seguida, a diretora-geral da Funceb, Renata Dias, a jornalista e atriz Tia Má, que escreveu a orelha do livro, e os prefaciadores da publicação: Geilson dos Reis e Dhay Borges falarão sobre o livro. O microfone ficará aberto para poetas do livro, e no final haverá sessão de autógrafos e Banda Zimoblack.

“Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana” registra parte da produção literária de Salvador e denúncias contra o genocídio da juventude negra e periférica, racismo, homofobia, racismo religioso, machismo e todas as opressões, além de poemas de amor, sonhos e alegria. O livro será vendido no na ocasião por R$ 30,00.

“A publicação pretende dar visibilidade, proporcionar a compilação de poemas para fontes de pesquisas, além de valorizar o movimento de leitura e escrita, bem como fortalecer políticas de formação de leitores e facilitar o acesso à produção poética da periferia para os interessados”, conta o proponente do projeto, poeta e jornalista, Valdeck Almeida.

Valdeck Almeida
Valdeck Almeida

Serviço:
Lançamento do livro “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana”
Quando: 7 de julho (sábado), às 18h
Onde: Sarau da Onça – Rua Albino Fernandes, 50-C, Novo Horizonte/Sussuarana, em Salvador-BA
Quanto: Entrada gratuita.
Livro: R$ 30,00 (trinta reais)

#PoesiaSoteropreta – O amor e a liberdade na poesia de Nádia Ventura!


Nadia_Ventura

 

Nádia Ventura escreve há 51 anos sobre o amor em suas várias vertentes, com a pretensão de se libertar.  poesia é sua essência e, através desta arte, Nádia viaja. Na sua escrita, não tem horizonte impossível: sonhos, imaginação, lembranças, dores, frustrações, desencanto, cenas do cotidiano… Com intenção de dividir, canalizar sentimentos, fazendo com que o leitor se identifique e sinta que a poesia faz parte da sua vida desde a hora que acorda, até quando dorme e sonha. “Todos nós somos poetas, vivemos a poesia que a vida nos dá, amarga ou doce… Alguns sabem como externá-las, outros apenas a sentem…”, segundo a poetisa!

Nádia se inventa e reinventa na poesia. “A minha arte é puramente literária. Dentro da literatura eu me reinvento e me realizo nos Romances, Contos, Crônicas e em Artigos políticos…”.

Poesia e família. “Para a poesia rimar com Família, depende muito do momento do autor. Pode rimar de uma forma boa ou má. Nenhuma Família é perfeita fora dos porta-retratos, fora da imagem que cada um pretende mostrar à sociedade”, diz Nádia. E ela afirma que a família é como a vida, cheia de altos e baixos, de amor e ódio, de tristeza, alegrias e decepções… E segue o raciocínio: “A família tradicional para mim já não existe. A Ancestralidade Comum, também já não conta. Outras formas, outros valores tomaram lugar, porque evoluímos”.

Nadia_Ventura

E Nádia não para por aí.

“Então, esse grupo familiar já não divide necessariamente o mesmo teto, expandiu-se aos amigos. Mãe é pai e pai é Mãe, avó, tias(os) são pais e mães. Casais sem filhos adotam; casais brancos adotam crianças de outras raças; assim como homossexuais, lésbicas, travestis e trans, também adotam, formando assim uma nova família contemporânea. Portanto, hoje, a consanguinidade não quer dizer Família. Família hoje são escolhas… Temos o direito inquestionável de criar a nossa própria Família, amá-la sem a obrigatoriedade parental… E essa diversidade é MARAVILHOSA e EVOLUTIVA…”… Essa é a trama da poesia de Nádia Ventura, que não tem limites ou receitas prontas. Tudo é poesia, e poesia é tudo na vida a poeta.

E a poeta iniciou bem cedo seus exercícios de poesia. Começaram a ser escritos desde a infância, mais ou menos aos oito anos de idade. O primeiro poema, entretanto, só foi publicado na idade adulta, em uma antologia organizada pelo jornalista Valdeck Almeida de Jesus. “Eu sou muita grata ao poeta por isto. Depois desta publicação vieram vários convites e estou em treze Antologias no Brasil, Europa e países de língua portuguesa”, enumera Nádia.

Onde estão os textos de Nádia Ventura: Prêmio Literário Galinha Pulando 2012, Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus 2014, Era das Palavras – Antologia Internacional Multiacadêmica BRASIL/SUÍÇA, Palavra é Arte – Antologia Poética, COGITO – Antologia Internacional II, COGITO – Antologia Internacional III, Incertezas e Suas Fragilidades, Antologia SOLILÓQUIO, Antologia MEMÓRIAS, Antologia PARADIGMA (Editado em Portugal e países de língua portuguesa), Mulher Poesia – Antologia Poética vol. 2, Doce Poesia Doce, KAMA – Poesia e Contos Eróticos. E não para por aí. Tem outros textos no prelo, que sairão nas publicações: Focus – Antologia Poética XII, Antologia Memórias 2, Perdida – Romance (Solo), Contos que te Conto em Versos e Prosas (SOLO)”.

Nádia por Nádia: “Sou uma pessoa apaixonada pela vida, apesar da dor. Sou apaixonada pela minha família, meus amigos, pela natureza, pelos animais, pelas crianças, pela ciência, pela minha religião e por todas as expressões artísticas, principalmente pela literatura…”

 

A Moça e o Menino
(Para Fátima Celeste Nascimento)

Era um segredo de amor
Só para dois,
Cheios de expectativas
Na noite escura
Ou na madrugada calada…
Um dia o segredo tomou corpo,
Criou coragem,
Ganhou o dia, 
Chegou ás ruas,
E sem pressa 
Entrou no quarto.
Primeiro lutaram contra o estranhamento.
Depois o acasalamento.
Ela, tranquila,
Sabia todos os passos daquela dança…
Ele, nervoso, 
Admirava o ritmo tranquilo daquela moça.
E Colados, dançaram por horas, 
Até adormecerem…
Quando dia chegou
O desencanto se fez real
Cada qual seguiu calado a sua via.
E a noite quando veio
Nunca mais foi a mesma… 
O segredo se desfez,
Quando a expectativa fugiu.
Mas o menino guardou na memória, a voz rouca e sensual
Que lhe falava delícias, 
Na penumbra do quarto
Que cheirava a óleo de sândalo. 
A moça por sua vez,
Chorou o desencanto e partiu
Levando consigo toda a dor
De um amor impossível
Numa tarde fria 
De um dia qualquer… (Nádia Ventura)

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Rilton Júnior, o Poeta com P de Preto!


Rilton_Junior
Foto Dayse Cardoso

 

Rilton Santos de Santana Junior ou Rilton Junior, também se apresenta como Poeta com P de Preto. Ele é Poeta, Pai, Ator, Agente Cultural, Capoeira Raça, além de intérprete de suas vivências. É poesia em pessoa, mas acha que só começou a escrever poemas na mesma época em que iniciou sua trajetória no Teatro. As temáticas variam de amor, alegrias, saudades, tristezas, anseios, natureza, ancestralidade, enfim, mas hoje encara a questão racial como seu principal foco na escrita.

Todo o seu empenho com as letras tem um propósito:

“Um dos principais desejos é dar protagonismo à juventude e, desde quando cheguei, até agora, tenho visto a grandeza que se tornou o movimento da poética marginal em nossa cidade, (marginal porque foge dessa perspectiva de poesia pra ganhar aplausos, essas poesias querem mais que aplausos, querem reflexão, conscientização, vem pra fazer sair do lugar de conforto!”, diz Rilton Junior. “Eu pretendo apenas expressar um pouco do que há em mim, na minha caminhada, e um pouco do que vivenciei”, conclui o poeta.

Poeta com P de Preto lança CD sobre resistência negra

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Foto: Fernando_Gomes

Como todo poeta de verdade, o Poeta com P de Preto situa a poesia numa variedade de definições ao ser perguntado sobre o tema. “Olha, eu ainda não sei o que é a poesia, sei que vivencio ela de diversas formas, seja em versos ou nas vivências com a comunidade, também creio que seja algo que modifique, que traga reflexões, que transmita ou crie sentimentos”. E no exercício criativo ele revela:

“Quando estou escrevendo me referencio em tudo que tenho, o contexto do que quero falar no momento, desde o que leio em um Livro a uma conversa que tenho com um amigo, em estatísticas, às vezes vêm frases na mente, aí eu escrevo no celular, e lapido. A intenção vai ser de informar, contextualizar uma ação, instigar os sentimentos dos ouvintes”. Finaliza Junior.

Multiartista e inquieto no criar artístico, Rilton Junior tem como principal vertente o Teatro, mas não se limita: “De lá que eu vim. Mas nessa vida já trilhei alguns poucos caminhos, com a Dança, a Capoeira, Produção cultural, e aos poucos me arrisco na Música no Rap”.

E quem disse que todo poeta é um fingidor, nem sempre. Rilton tem uma personalidade definidamente forte, mas ao mesmo tempo acolhedor. Sinceridade é com o poeta. Sobre poesia e família, ele fala:

“Poesia rima com família, assim como família rima com poesia, acho que a poesia relata ou cria possibilidades de sentimentos, vivências e trocas que na família também existe, digo nas várias lições e estados em que se encontra um laço familiar, seja de sangue ou não”.

E poesia-família é o que Rilton Junior sente, de acordo com esta afirmação: “Família, acho que existem certos laços afetivos que são tão importantes que as vezes são estruturantes em nossa formação, muitas vezes até que involuntariamente, digo isso a partir da minha vivência com o Grupo de Poesia Resistência Poética, que é um alicerce fundamental pra eu me tornar quem sou hoje”.

Tem textos publicados:

Em 2015 teve um poema no Prêmio Literário Galinha Pulando, que foi a poesia “12 Pretos” sobre a Chacina do Cabula.

Tem um Livreto de poesia intitulado “A poesia é o meu trabalho”, que contém 10 poemas autorais, já tem mais de 2.500 exemplares rodando por toda city.

Teve 3 poemas lançados no Antologia Literária Jovem Afro editora Quilombhoje, onde tem 14 poetas do Brasil inteiro e Rilton Junior teve a honra de ser um dos dois poetas representando a Bahia e o único residente de Salvador.

A Minha Poesia

A minha poesia é preta

Crítica, política e racial

Estética

Métrica

Universal

Minha poesia não se comporta em livros

ou na rede

Minha poesia fala

Porque tem sede

De retaliação

Minha poesia assusta e conforta

Incomoda

É quem me livra na hora

do bote dos bota preta

Minha poesia é treta

Pros racistas inculcados na gaveta

Minha poesia é treta

Pro homem machista que a mulher não respeita

Minha poesia é treta

Nossa luta não se assimila à esquerda nem direita

Minha poesia é preta

É alimento pra quem

tem fome de conhecimento

Resistente

Potente

É dedo na ferida de muita gente

Poeta

periférico

Sem diploma de faculdade

em letras

Minha poesia é vivida

Preta!

E eu como preto

Poeta

Faço dos meus versos um

Escudo e espada na mão

Para alertar meu povo faço das tripas coração

Às vezes fico rouco

Por falta de exercícios de respiração

Mas basta eu recitar pra você respeitar!

Minha poesia é preta!

Rilton Junior

 

Valdeck AlmeidaPor Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

Livro com poesias de adolescentes da Case Feminina será lançado no TCA!


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“Força Feminina, a Poesia que liberta” é o nome da obra, resultado da produção poética de socioeducandas da Fundação da Criança e do Adolescente – Fundac, em parceria com a Editora Galinha Pulando. O livro reúne 53 poesias que contam a trajetória de vida das adolescentes e será lançado na próxima terça-feira (27), no Foyer do teatro Castro Alves, em cerimônia aberta ao público.

As poesias relatam vidas interrompidas por atos infracionais, falam sobre os laços familiares, projetam perspectivas positivas para o futuro, a busca da liberdade, além de traduzir sentimentos de amor, amizade e companheirismo.

“Ao longo desses anos, vi meninas super talentosas e com uma longa bagagem passarem pela Case e, a partir do contato com a escrita, entenderem que é possível refletir, contar e reescrever sua história, entender o que é garantia de direitos, despertar o senso crítico, e quebrar uma série de estereótipos que a sociedade faz questão de emplacar” – Evanilson Alves, instrutor das oficinas. 

case_feminina_fundac

As autoras cumprem medidas socioeducativas na Comunidade de Atendimento Socioeducativo – Case Feminina, em Salvador e foi lá que se deram oficinas de produção de texto desde 2015, resultando na publicação. As oficinas tiveram como intuito também fortalecer a autoestima, a capacidade de expressar ideias e sentimentos e de utilizar a palavra para a resolução de conflitos, além do engajamento político social.

A iniciativa é da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social – SJDHDS, e a primeira edição do livro “Força Feminina, A Poesia que Liberta” tem a produção e direção editorial do jornalista, poeta e escritor Valdeck Almeida e da Editora Galinha Pulando (Vitória da Conquista/BA).

O desenho gráfico da capa é da autoria do designer, Hugo Carvalho, e conta com o prefácio elaborado pelo ator e dramaturgo, Aldri Anunciação. A orelha do livro foi escrita pela poeta e professora da Universidade Federal da  Bahia (Ufba), Lívia Natália e a organização final dos textos foi feita pelo instrutor das oficinas de produção textual, Evanilson Alves e da gerente da Case Feminina, Luciana Lima.

“A partir das produções literárias, elas melhoram sua leitura e conhecimento, nas aulas da educação regular, e de outras oficinas. É muito positivo vê-las apostando no diálogo, e resolvendo diversas situações através da palavra. o conhecimento é a única coisa que ninguém será capaz de tirar de qualquer pessoa, sou feliz em poder ser esse instrumento que fez cada uma delas compreender o poder dos versos, o poder do papel e caneta. Não há dinheiro que pague vê-las escrevendo e falando de si mesmas nas dependências da unidade feminina. Esse lançamento é um marco na história, é pra dizer a outras instituições que é possível replicar esta e outras ações, alias esse é o meu desejo”, Diz Evanilson. 

Serviço:

O quê: Lançamento do livro, Força Feminina: A Poesia que Liberta, 1ª edição, Editora Galinha Pulando.

Onde: Foyer do Teatro Castro Alves – TCA, Salvador – Bahia

Quando: Dia 27 de março, às 17h

Aberto ao público

#PoesiaSoteropreta – Gonesa Gonçalves nasceu Poesia!


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Gonesa Gonçalves é o nome artístico de Gonesa Souza Moreira Gonçalves, que escreve desde quando não se lembra… nasceu poesia! “Fui a primeira vez na escola aos nove anos, mas aprendi a ler e escrever muito rápido, porque tinha que ajudar minha mãe, que foi letrada fora desses moldes ocidentalizados que não reconhecem as diversas habilidades de uma pessoa que não escreve”.

E a prática, o exercício de Gonesa começou muito cedo com um diário. A mãe, uma mulher muito inteligente, lhe ensinou primeiro a recontar as coisas belas do mundo com a boca, “porque ela considerava que conseguir falar era uma ferramenta muito potente de liberdade”, relembra. “Então antes de escrever qualquer coisa no papel, eu aprendi a bordar esse tecido pálido e gigantesco que é o mundo com as linhas contadas das histórias coloridas da minha mãe”.

gonesa

Gonesa escreve, escreve, de tudo: poesia, conto, crônicas, mas deixa que o leitor ou o pesquisador analise sua produção. Pra ela, o mais importante é tecer o mundo em letras e versos. Uma coisa é certa: a comparação entre a natureza e o ser humano é latente na sua escrita, além da poesia homoerótica, homoafetiva…

Em relação a inspiração e performance poético, ela se pergunta e já emenda a resposta: “Meu corpo é artístico? Eu acho. Eu gosto de usar meu corpo, minha voz. Eu sou preta, gorda e me considero um delito as imagens que “regem” a ordem da sociedade atual. Eu gosto de ocupar todos os espaços, Eu sei que meu corpo, da maneira como se comporta é artístico, é político, porque incomoda. Então meus contos, meus poemas, meu corpo, minha voz são linguagens que eu utilizo”.

Na escrita Gonesa quebra regras e linearidades, inventa as próprias setas, caminhos, padrões, para, depois, quebrar tudo. Sua pretensão com a poesia? Ficar rica! E ela confessa que não deu! Então, faz outros corres para sobreviver.

E por falar em quebrar regras, a poesia de Gonesa rima com família divergente, com rasuras. A família possível e a família do afeto, é a que rima com os textos desta poetisa:

“O sentimento de afeto não deveria ser invadido por uma ideologia invasiva de achar que família é um modelo papai, mamãe e filhos, até porque a gente sabe que o que mais existe na sociedade brasileira são famílias compostas por mulheres negras e seus filhos. Minha família era eu, minha mãe, uma irmã, um irmão mais velho que foi para São Paulo trabalhar e meu irmão mais novo, que minha mãe adotou de uma outra mulher que se relacionou com meu pai. Meu pai foi embora e ficamos uma família de irmãos e mãe e agora somos uma família de irmãos porque minha mãe morreu”.

 

Tem oito poemas publicados na Coletânea Literária Enegrescencia, dois poemas no Diferencial da Favela e Um conto publicado no Diferencial da Favela 2. E posta também nas páginas do Enegrescência e no Colcha de Retalhos, no facebook.

Gonesa Gonçalves é graduanda de Letras pela Universidade Federal da Bahia, membro do PET Conexões Comunidades Populares, vice-presidente do Enegrescência e pesquisadora no Grupo de Pesquisa Rasuras da Ufba.

 

Súdito

Se veio aqui

Seja meu, inteiro

Sou dona da noite

Faça o que peço

 

Sem algemas,

Meu quarto

Cárcere

De conter você

 

Meus olhos

A imobilizar

seu corpo

Não farei esforço

Para que seja meu

 

Minhas mãos

Acolhem

Como terras

a segurar raízes

De árvores troncosas

 

Minha boca:

Recipiente

De conter os rios

Que transbordam

Do seu corpo.

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – O Poeta Crônico Anderson Shon!


Anderson_Shon

Anderson Shon é o nome artístico de Anderson Mariano de Santana Santos, que escreve desde sempre mas que, somente em 2013, encarou a arte da palavra como profissão. Aí sua poesia ficou crônica. Para além da primeira impressão, a ‘crônica’ aí é a forma de escrita híbrida, já observada pelo poeta em outros artistas da palavra, porém, ainda, segundo ele, não havia essa denominação de poesia-crônica, ou poesia narrativa, que conta uma história ou um fingimento de história (O poeta é (sempre), um fingidor).

E como para bom fingidor meia palavra não basta, quer dizer, para o bom entendedor meia palavra basta, Shon se expressa, ou finge, contando histórias do cotidiano, transformando o simples fazer diário de um humano qualquer em combustível para a poesia, cuja escrita poética, por sua vez, retroalimenta o fingimento do poeta e vira combustível para o dia-a-dia. (Não precisa entender).

Ah, a poesia-crônica de Anderson Shon serve, ainda, de biombo, refúgio, para que o poeta se esconda do dia (ou da noite, ou da madrugada). E, nessa fuga-refúgio, ele inventa formas de interação com o mundo real (vai saber que mundo é esse!). E, como o poeta é professor de Redação, usa a língua (a portuguesa, claro), e as facilidades de sua formação acadêmica para atender aos pedidos que a poesia faz… Já viu que o poeta vira poesia e vice-VERSO, o tempo todo, né?

Como bom fingidor, ooops, poeta, Anderson Shon se mete em outras áreas como música (já gravou um CD), tem contos e romances (escritos, no papel, literatura, mesmo!), mas sua paixão, real, de carne e osso, é mesmo a literatura. Já viu que não dá para saber o que é real ou imaginário num poeta, não é?

E a poesia delira em Shon. Até a família entra na roda. Mas se você está pensando que é apenas a tradicional, com pai, mãe, irmãos etc, inclui mais aí: não precisa ter relação de sangue, consanguínea. Parente de poeta é pai, mãe, bonecos, ídolos, livros: “tudo que exista para ajudar o seu existir é sua família”, diz Shon. E aqui não é fingimento do poeta!

Anderson_Shon

Mas nem só de fingimento vive um poeta. Anderson Shon revela, em primeira mão, que vem por aí um aplicativo próprio para lhe ajudar a controlar a sua produção artística e alcançar um público maior. Antes disso, ele já atua nas redes sociais para divulgar sua poesia. Tem um site  e já publicou numa coletânea (Poesia Todo Dia), um conto no livro Artistas Liberais e um livro autoral: Um Poeta Crônico.

TÔ DE CACHO CHEIO PRA VOCÊ

 

Moda?

Pelo amor dos deuses

Vá procurar o que fazer

Pois hoje

Eu estou de cacho cheio pra você

 

Empoderar

É deixar qualquer madeixa

Solta pelo ar

E se comercial de shampoo

Ditava o liso

Hoje, com orgulho,

Eu digo

Que disso eu não preciso

Já posso escolher

E escolho

Estar de cacho cheio pra você

 

Ser black, afro

Cacho, curto

Liso, careca

A beleza mora

Na pessoa que se olha

E abre o sorriso

Eleva a estima

E ignora o blasé

Cara,

Tô de cacho cheio pra você

 

E sempre tem alguém

Pra puxar para baixo

Eu acho

Que há um pouco de inveja

Pois nas minhas fotos

Há uma beleza mais bela

Que foi renegada pela ditadura

Mas não hoje

Não amanhã

 

No futuro

Ninguém ouvirá o termo

Cabelo duro

Haverá respeito

O que mais puder haver

Diferente disso

Eu insisto

Mundo,

Estou de cacho cheio pra você.

 

(Anderson Shon, Um Poeta Crônico)

 

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

Projeto Latitudes Latinas reunirá artistas das periferias em diversas linguagens!


la_frida
La Frida

Difundir as artes, as culturas e o pensamento crítico latino americano é parte dos objetivos do projeto Latitudes Latinas (IHAC/UFBA) nos seus 10 anos de atividade. O projeto comemora uma década de existência com um festival entre 30 de novembro a 2 de dezembro, no Centro Cultural Plataforma, na praça São Braz, no bairro de Plataforma. O evento acontece junto à iniciativa Rede ao redor: encontro de artes das/nas periferias, que é um dos desdobramentos das ações que conectam coletivos artísticos de bairros periféricos de Salvador.

 

A iniciativa pretende reunir artistas de diversos bairros da capital baiana, com linguagens que transitam pela música, performance, dança, poesia, oficina e roda de conversa. Na programação, estão entre os destaques a mostra de curta-metragens Cine Dendê, intervenções poéticas do Coletivo Sarau do Cabrito e do Sarau da Onça, performances com Salt n´Jazz, Moover Dance, The Black’s, uma feirinha de marcas (de roupas e acessórios) criadas nas periferias e atrações musicais como A Corda Samba de Roda, MamaSónika (México) e Tallowah.

PROGRAMAÇÃO

Quinta, 30 de novembro de 2017

15h às 17h — Papo (p)reto: “Só quem passou fome pra chegar nesse apetite”

(De que forma a periferia mata as fomes que não são de comida? (bate-papo sobre as artes das/nas periferias)

Convidados: Cairo Costa + Marcos Paulo Silva (juventude ativista de Cajazeiras) | Pedro Maia (biblioteca Zeferina) | José Eduardo Ferreira (Acervo da Laje) | Heraldo de Deus e Leno Sacramento (Ouriçado Produções) | Fátima Gavião (Calabar) | Marcio Bacelar (Centro Cultural Plataforma) | Fabricio Cummings | Marina Lima + Vaguiner Bráz (Coletivo Cutucar) | Marise Urbano + Ihago Allech (Copecine) | Coletivo Sarau do Alto do Cabrito | Valdeck Almeida de Jesus | Sandro Sussuarana (Sarau da Onça) | Natureza França (A Corda Samba de Roda) | Eduardo Alves + Bruno Novais + Dimmy Oliveira (diáspora: Núcleo Negro de Pesquisa Artística).

17h — Mostra dialogada de curtas Cine Dendê (Curadoria: Copecine)

Deus — Vinicius Silva | RJ | 25 min. | 2016 | Livre.

Estamos todos aqui — Rafael Mellim e Chico Santos | SP | 21 min. | 2017 | 14 anos.

18h — Sarau de Plataforma e de outras Latitudes

Eduardo Alves + Bruno Novais + Dimmy Oliveira (Negras Utopias) | Cairo Costa + Marcos Paulo Silva (Juventude Ativista de Cajazeiras) | Coletivo Sarau do Alto do Cabrito | Valdeck Almeida de Jesus | Sandro Sussuarana (Sarau da Onça) | A Corda Samba de Roda.

a corda samba de roda
A Corda Samba de Roda

Sexta, 1 de dezembro de 2017

10h às 12h — Bate-papo musicado: Mamasónika — Dança que Canta (México).

15 às 17h — Papo de mulher preta:”Se eu for pra essas mina um espelho, eu venci”

(bate-papo sobre trajetórias de mulheres negras)

Convidadas: Ananda Santana | Samira Soares | Marina Lima (Coletivo Cutucar) | Lívia Natalia | Justina Santana | Ana Vaneska |  Dandara Baldez |  Joyce Mello | Amanda Rosa | Lívia Suarez + Luise Reis + Jamile Santana (La Frida Bike) | Yuna Sant’anna | Marise Urbano (Cine Dendê) | Áurea Semiséria | Taíssa Cazumbá | Inajara Diz Santos (Flor de Milho Quilombo de Artes).

17h — Mostra dialogada de curtas Cine Dendê (Curadoria: Copecine)

Fervendo — Camila Gregório | BA | 16 min. | 2017 | Livre.

A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação — Taís Amordivino | BA | 16 min. | 2016 | Livre.

18h — Sarau de Plataforma e de outras Latitudes (poesia + música + dança + performances)

Convidadas: Livia Natália, Amanda Rosa, Yuna Sant’anna, Joyce Mello, Áurea Semiséria, Dandara Baldez.

 

Sábado, 2 de dezembro de 2017

10h às 12h — Preta, vem de bike — La Frida + Kaleidokleta — Leika Mochán (México).

15 às 17h — Somos Semente (bate-papo sobre genocídio da juventude negra e re-existências)

A paz: performance de Vera V./Marcos Araújo.

Convidados: Itala Herta (Vale do Dendê) | Enderson Araújo (Movimentos) | Reaja ou Será Morto/a | Camila Fiúza | Gabriel Swahili | Jaguaraci Aragão (Mídia Étnica) | Icaro Jorge (Ocupapreto + Coletivo Ousar), Gleide Davis (Coletivo Sarau do Cabrito), Busta Mavi Tallowah).

17h — Mostra dialogada de curtas Cine Dendê (Curadoria: Copecine)

Rapsódia para um homem negro — Gabriel Martins | BH | 25 min. | 2015 | 12 anos.

Peripatético — Jéssica Queiroz | SP | 15 min. | 2017 | Livre.

A partir das 17h: feirinha de marcas das periferias

Empoderamente (Turbantes) | Yabá Acessórios | Carlos Oluyê (roupas).

Laissa Ferreira (sequilhos e biscoitos caseiros) | Matias Romani (pastéis veganos).

18h — Shows e performances de encerramento

Salt N’Jazz | Moover Dance | The Blac’s  | Mamasónika |Tallowah

 

SERVIÇO:

O quê? 3º Festival Latitudes Latinas / Rede ao Redor.

Quando? De 30 de novembro a 2 de dezembro.

Onde? Centro Cultural Plataforma. Praça São Braz, Plataforma.

Quanto? Gratuito.

 

#PoesiaSoteropreta – Indemar Nascimento, poesia de carne, osso e pulsação!


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Indemar Nascimento escreve desde 2011, pretende levar mensagem e virar espelho pra sua comunidade e todas as perifas, e declara: “minha escrita não é a que seja preferida, mas necessária, racial e social”. Indemar se identifica tanto com a poesia, que se enxerga como uma poesia, de carne, osso e pulsação:

“Eu costumo dizer que eu sou a poesia; então, ela não é o que pra mim e sim eu sou ela”. As referências para escrever vêm de filmes, escritores, pessoas que são referências pessoais e para a humanidade. Seus textos trazem a intenção de conscientizar e fazer a perifa entender e passar a questionar sobre tudo que acontece ao redor: racismo, homofobia, machismo, genocídio.

A poesia de Indemar Nascimento não se escreve somente nos papéis, nas folhas de caderno, na tela de um celular ou computador. Ele encarna poemas em seu próprio viver diário, como dito anteriormente: Ele é a poesia.

indemar_nascimentoE essa poesia também se revela na capoeira, luta ancestral que dá início a todos os seus questionamentos. É através da capoeira, também, que Indemar tira exemplos e passa aos alunos: recortes, história, ancestralidade sobre de onde eles vieram, os porquês de onde eles estão.

Poesia são pessoas e pessoas formam a família real de Indemar.

“Na real, família pra mim foram pessoas que encontrei no andar da minha vida. Poesias que se modificam; algumas dessas pessoas/poesias não estão mais aqui, mas continuam poesias, virando poesias”. E exemplifica: “Sant em uma música diz “no rap prega família, mas a nossa de sangue nem existe”. Família pra mim são pessoas que te fortalece e muitas das vezes não significa que será encontrada em casa”.

A música é outro espaço que abriga o poeta. Suas incursões no universo do RAP estão nas redes sociais, em CD, EP etc, plataformas que funcionam como braços e pernas do jovem artista da palavra. Na caminhada cultural e poética, Indemar marca seu espaço na cena da poesia, e emociona quem o conhece. A potência de sua palavra está em todas as quebradas, desde a Baixa da Soronha, onde vive, no bairro Itapuã, a Sussuarana, Vila Verde (Estrada Velha do Aeroporto), Olaria, (Nordeste de Amaralina), enfim, por toda a cidade.

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Nos Slams e saraus de Salvador, ele é marca registrada e, em uma batalha emocionante no Slam BA realizado em Sussuarana, Indemar ficou classificado, juntamente com Juh França (Coletivo Zeferinas), como representante da Bahia para disputar o Slam BR em São Paulo – entre os dias 14 e 17/12.

Na literatura, foi classificado e teve um poema publicado pelo “Prêmio Galinha Pulando de Literatura – 2015”. Estas conquistas servem de incentivo para continuar: “me fazem sentir que isso não é em vão. Tento buscar o que possa ser melhor pra nós”, resume.

Pior que não sei…

Hoje olho pra minha velha, me sinto um merda, quantas quedas
planos, a geladeira vazia e eu me fudendo aos 23 anos
sentado no canto, pranto, pratos quebrados
aprendi que esse ditado não é pra peri: “colhemos o que plantamos”
eu sei que não sou desse mundo, meu coração anda podre demais mesmo sendo puro
olhar vendo pessoas não enxergando a dor do outro. Onde chegamos ? me diz…!
na diáspora, campo de pólvora. Os do lado de cá chora
escondem a neblina de dentro sorrindo pra fora
mãe África implora, vários tirados do ventre, do berço
o barranco desliza, fé, lágrimas recomeço
Se Deus existe será que ele não erra? A divisão foi injusta. Desculpa esses gritos
os suspiro de  um filho que nem sabe se tá sendo ouvido
carrego o peso do mundo nas costas, isso me fode literalmente
uma chance de frustrar literalmente em mim quem aposta
vivemos no inverno, constante
será que tudo mudou, ou apenas que cresci e não via a beleza como via antes?
daqui pra frente carrego o meu próprio peso. Sem machucar mais ninguém pelo que me tornei
toda vez que eu caí, foi pros braços seu que retornei
quantos questionamentos, quantos momentos
das minhas dores?? Só sei que tudo sei!
será que até nisso errei?

Indemar Nascimento

Texto de Valdeck Almeida para a coluna #PoesiaSoteropreta. Confira mais aqui!

 

#PoesiaSoteropreta – ThiZion é o poeta da literatura social e existencial!


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Thiago Ribeiro é graduado em Comunicação Social pela UNEB e participa atualmente do Coletivo de Arte/Cultura popular ATUAR e da Associação Cultural Comunitária Odeart, sediada no Cabula. Mais conhecido como Thiago Zion, ou ThiZion, ele escreve desde muito novo: “lembro que por volta dos 13 anos já arriscava as primeiras linhas.

Bebi desde cedo de literatura brasileira e americana e isso foi um fator aditivo pra me auto expressar através dos versos”. E ele se pergunta: “o que será que ela (poesia) pretende comigo?”, e já engata uma resposta: “A poesia para mim é uma forma de dar flores e gritos ao mesmo tom. Pretender algo no sentido teleológico, soa limitante pra tratar a desmesura do fazer poético. Mas o que todo poeta quer, é se expressar, traduzir em signos verbais essa complexidade, esse espanto que é existir”, filosofa.

O compromisso de ThiZion como escritor é trabalhar para ver mudanças, mesmo que mínimas. Afinal, “são 517 anos de saques e anulação, não veremos a coisa mudar da noite pro dia, mas já notamos diferenças nessa geração. Minha bandeira é a da literatura social e existencial. Sou um grão que acredita que podemos nos humanizar mais, denunciar as mazelas sociais e anunciar o novo mundo de maior igualdade entre os(as) sujeito(a)s e respeito às diferenças individuais”, comenta.

Zion, tem a poesia como ritmo, sonoridade, sem necessidade de rimar, com um tom musical ao ser falada, declamada. Em suas apresentações, o poeta usa recursos internos para ‘ritmizar’ o texto, como palavras da mesma família sintática, com morfologia semelhante.

Mas quem pensa que isso significa hermetismo, preciosismo, está enganado, pois o poeta desliza como muita facilidade em sua inspiração e trabalho poético: “sou fã do verso livre, já vivemos em muitas micro-celas sociais (ideologias, carências materiais, opressões) pôr o verso em mais uma gaiola é limitar sua força e possibilidade de expressão. E como já dito, a poesia é uma ferramenta, um meio para a modificação de consciências”.

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Para além da estética e da prática da arte, ThiZion tem muita consciência de seu papel social. Para ele, “a poesia é uma ferramenta para emissão de mensagens e eu a uso de forma a passar mensagens reflexivas, sobretudo em questões sociais”. Para ele, “um verso pode fazer uma pessoa mudar de rota, mudar a condução de sua própria vida e a arte tem esse poder de chacoalhar as pessoas em vários níveis (mental, emocional, energético, etc)”.

Tem textos publicados em papel: em 2012, publicou numa antologia poética da editora VIVARA, a nível nacional;E começou a fazer o exercício da auto publicação em livretos autorais. Já publicou umas quatro edições, sempre com temas específicos como as “Outonais”, com textos mais existencialistas.

Thi Zion acredita que o mercado editorial é muito fechado à poesia periférica, e defende que a produção autônoma é bem cara. “É caro editar uma obra do próprio bolso, por isso nos reinventamos e produzimos do nosso jeito popular”. Mesmo sabendo das dificuldades de publicação, ele prefere não explorar muito as redes sociais por preferir espaços menos turbulentos. Publicou no Recanto das Letras mas deixou de lado. Prefere o face-to-face mesmo!

Sonhos redivivos

Matam-se sonhos feito formigas.

Nós somos os primos pobres da “evolução”,

repletos de nãos, dias medonhos

e barrigas vazias.

Matam-se sonhos na caneta, na promessa,

na escopeta de dias de melhores.

E os preços dos pães, arroz e feijão

a cada dia maiores.

E os sonhos mortos, vão embora sem expressão.

E as noites piores nos avisam que não há amanhã…

A não ser pela união, irmã, irmão, de nós, dos nossos,

fechando os poços abertos pela polícia, pela política,

por essa espúria pátria homicida.

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa!

Quantos sonhos assassinados à queima-roupa…

Mas não vamos chorar, vamos lutar até a última gota

de dor, suor… e Amor.

Thi Zion

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna. 

#PoesiaSoteropreta – Carlos Leleco: o poeta dos muros grafitados e das redes sociais!


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Desde 2013, Carlos Leandro Pinheiro de Souza, o Carlos Leleco, é o corpo que transmite a língua do povo, aqueles poemas, causos, escritos populares, com o sotaque próprio de quem nasce e vive uma vida simples. A atuação de Leleco, para além da propagação da poética roceira, tem a arte da performance e da escrita como meio para alimentar a alma e propiciar o seu crescimento como escritor, com vários objetivos, dentre eles “passar mensagens contra qualquer tipo de discriminação, preconceito e abuso de gêneros e a valorização da autoestima negra”, diz o poeta.

Para Carlos Leleco a poesia é uma das armas mais eficientes para a reflexão das questões raciais que nos rodeiam. E não é à toa que o poeta sai por aí, como um cavaleiro andante, com a espada-poesia em uma mão e a rima certeira na outra. Suas atuações são marcantes e marcadas pela cadência do verso, do movimento, da expressão séria e sisuda, se a poesia assim exige, mas, também, de um jeito maroto, quando o texto é mais faceiro e despretensioso.

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Mas não só de poesia vive o poeta. O grafite também é outra arte que ele carrega na tinta, só Deus sabe por onde ele anda, sobe, desce, para conseguir uma boa tela para expor seus talentos. Além das paredes e muros, onde deixa sua marca de spray, Carlos Leleco se equilibra, também, nas redes sócias (com a linguagem do matuto prosador), postando poemas sem rima, por escolha e licença poética. O fato de não rimar, por opção, não significa descompromisso ou desconhecimento, é pura escolha, mesmo. As escritas, no entanto, se situam num espaço, tempo e intencionalidade, como ele frisa:

“Nas intenções, existe sempre o cuidado e cumplicidade entre aquelas pessoas que se gostam. É aquela que se cuida e que mesmo magoando, exorta sua irmã ou seu irmão para uma melhor conduta social”. Numa autocrítica, o poeta não poupa sinceridade:

“Sou uma pessoa agradável, inquieto e um tanto cuidadoso(chato) para as questões raciais. Não aturo tudo, nem concordo com tudo o que o próprio povo negro tem como verdade. Afinal de contas, quem escreve ou divulga algo precisa ter o cuidado com o seu ponto de vista, algumas pessoas têm determinadas ideias como verdades”.

Jardim da Vida

No jardim da vida
Topamo um monte de flor
A deixar seus aroma ao vento
Quando por uma dessas fragrâncias somos atingidos
Ficamo tingido
Ao ponto de, mermo distante,
Sinti o exalar da vida
Invadir nossos pensamento
Aí então,
Nesse momento nos encontramos regozijados
A saborear desse tal perfume
Essas essências
Afirmo
Jamais sairão de nossas mentes.

(Carlos Leleco)

Valdeck Almeida

Por Valdeck Almeida de Jesus para o espaço “Poesia Soteropreta”, que vai evidenciar, divulgar e fortalecer a Poesia Preta, Periférica e de Resistência do cenário literário de Salvador. Confira aqui outros textos desta coluna.