#SoteroPerfil – Jarbas Bittencourt, uma ponte negra entre a Música e o Teatro!


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Banco de Imagens

O nome dele é Jarbas Bittencourt, ele tem 46 anos e é filho de Therezinha de Fátima Bittencourt das Virgens e Jeziel Azevedo das Virgens. Ele também é diretor musical, cantor e compositor. Ele esbanja talento e é referência na música negra da Bahia.

Vindo dos bairros da Ribeira, Liberdade e Massaranduba, Jarbas, quando criança, já demonstrava que em suas veias corriam notas musicais. Convidava seus colegas e amigos “e brincava de inventar cordões carnavalescos com tambores feitos de latas, plástico de sacos de leite e câmaras de pneu. Saíamos tocando ruas e ladeiras abaixo”, diz aos risos.

Sob a influência dos Trios Elétricos, Blocos Afros e Afoxés, ele passou toda a infância construindo trios de brinquedo e “mexendo” em todos os instrumentos musicais a que teve acesso. Como morador da Cidade Baixa e já com a música pulsando no coração, Jarbas via a grande movimentação para o carnaval e festas de largo da região – e “literalmente enlouquecia”(sic) com as sonoridades e com o aspecto coletivo e social que a música adquiria naquele contexto.

Filho de uma família com poucos recursos financeiros, Jarbas enfrentou algumas dificuldades para seguir o sonho de fazer música. Nas décadas de 1970 e 1980, não havia uma educação musical no currículo escolar e isso deixava os caminhos para a música profissional incertos. Ele lembra e reforça: “A preparação necessária ao ingresso num curso superior de música deveria começar bem cedo, na educação fundamental, mas para nós, isso não era e ainda não é uma realidade na maioria das escolas. Hoje em dia, projetos como o Neojibá, e outros, aproximam mais a juventude da música como profissão.”

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Reprodução Facebook

Seguindo o sonho…

Sem esquecer a música e com a pressão da família para que optasse por um “trabalho de verdade” (vejamos!), Jarbas vai estudar Química na Escola Técnica Federal da Bahia e, antes de concluir o curso, percebe que não consegue viver sem a música.

 

Ali ele perde o interesse pelos estudos, indo concluir o 2º grau em um supletivo, o que lhe renderia mais tempo para estudar sua paixão por conta própria. Sua formação musical se deu, principalmente, como autodidata e, quando ingressou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, já escrevia suas próprias partituras. O sonho de Jarbas estava cada vez mais próximo.

 

No início da década de 1990, a mente criativa e inquieta começa a questionar a produção musical que tocava no rádio e “no quanto ela refletia o dia a dia de uma cidade como Salvador, além das estratégias de levar a música para um círculo maior que o dos amigos, familiares e vizinhos”- ele diz.

É então que, fazendo uma participação no show do cantor e compositor Arnaldo Almeida, no Sindicato dos Bancários, ele descobre que outros compositores também se faziam as mesmas perguntas e escreviam canções com essas inquietações e questionamentos estéticos. Jarbas não estava só e havia uma inspiração!

O que ele [Arnaldo Almeida] fazia era tudo que eu gostaria de estar fazendo. Dias depois fui até a Ribeira e procurei a casa em que ele morava pedindo informação às pessoas. Cheguei, me apresentei, toquei as “músicas estranhas” que estava fazendo na época e falei sem parar sobre todas as ideias que estavam ocupando meus pensamentos. Durante a madrugada, Tito Bahiense também chegou por lá e conversamos até de manhã. Alguns dias depois nascia a Confraria da Bazófia, que acrescida de Ray Gouveia, Ângelo Rafael, Supertom, Jorge Sacramento, Marcos Amorim (poeta e ator), Gerson Silva, Corujito e Leonardo Reis, nasceu com cara de movimento e acabou envolvendo jornalistas como Marcos Rodrigues e Jeane Borges e a artista plástica Babi Lima” – Jarbas. 

“Erê” – Bando de Teatro Olodum

o sonho chega….

Como integrante da Confraria, Jarbas participa das Leituras Dramáticas, organizadas pelo diretor Márcio Meirelles durante a reconstrução do Teatro Vila Velha. Não só Jarbas, mas Márcio também percebe o talento específico para o diálogo da música com a cena teatral e aqui, Jarbas inicia esse casamento com direção musical e composição das músicas, em parceria com Capinam. O espetáculo era “Erê Pra Toda Vida”, em 1996, estreado no RJ neste ano.

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Reprodução Facebook

A partir desse primeiro trabalho, Jarbas assume a direção musical do Bando de Teatro Olodum e faz espetáculos como Dom Quixote, Sonho de Uma Noite de Verão, Fausto#Zero, Cabaré da Rrrrraça, Ópera dos Três Reais, dentre outros de grande sucesso.

 

O Bando de Teatro Olodum dá a Jarbas uma forma mais consistente ao seu pensamento em relação às questões raciais no Brasil e abre um terreno fértil de pesquisa e criação musical a partir de elementos de matriz afro brasileira. Seu nome se  liga à musicalidade negra! Como o fez com o espetáculo”Rosas Negras”, solo de Fabíola Nansurê que dirigiu musicalmente.

Nele, as músicas foram compostas a partir de necessidades apontadas no texto escrito por Fernanda Júlia,e nos desejos que Fabíola trazia para o processo criativo. Um exemplo disso é a canção Blues da Mulher Invisível – letra e música foram feitas na sala de ensaio,com Fabíola ao seu lado enquanto ele perguntava o que ela achava deste ou daquele verso.

Falar da música negra no Brasil é falar da própria música brasileira. Ainda há muito a ser feito para que artistas negros ligados à musica, em todas as suas ramificações, tenham um retorno à altura de seus talentos e capacidades. As questões da mulher negra me interessam, mas não posso falar por elas, então o que fiz nesse espetáculo foi falar junto com elas. Em Rosas Negras temos uma atriz negra dizendo coisas que quer dizer do jeito que escolheu dizer”

Jarbas, Jade e Gabriel Fto Acervo Pessoal

Esse é Jarbas Bittencourt, pai de Jade Oliveira Bittencourt das Virgens, estudante de Letras e escritora, e de Gabriel Soriano Bittencourt das Virgens, estudante de Economia. Um homem da música, do teatro – que usa seu talento em prol do diálogo sobre as questões raciais e sociais do país, que une a Música ao Teatro e vice versa, que passeia dentre ambas linguagens em uma carreira longa, sólida e, hoje, referenciada em Salvador, Bahia, Brasil.

 

Texto de Marcio Lima – participante do Programa Soteropreta de Jornalismo, em parceria com a UNIME.