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Opinião

O maniqueísmo nosso de cada dia

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Mônica Santana

Depois de ver anunciada uma protagonista negra na novela juvenil Malhação, novidade divulgada amplamente nesta nova temporada, surgiu uma curiosidade de saber como a novela adolescente, que persiste há 20 anos, absorveria uma personagem mais complexa, afro-descendente. Desde sua criação, em 1996, Malhação costumou trazer histórias de meninos e meninas das classes mais abastadas do Rio de Janeiro, muitos deles com comportamentos mimados, em contraste com a simpatia dos jovens mais batalhadores e descontruídos – raros desses interpretados por atrizes ou atores não-brancos.

Pela primeira vez, a trama se passa numa escola pública, apresentando os muitos desafios que uma unidade pública traz, como falta de materiais, falta d’água, necessidade de parcerias para garantir práticas desportivas e projetos. Contudo, é curioso ver que o elenco que frequenta a escola é essencialmente branco, o que inclusive leva a um estranhamento pensar numa escola pública carioca onde não haja presença de negros e negras, nem mesmo pardos. Bem, mas a protagonista é negra. Sim, é faxineira, sendo humilhada em grande parte das cenas em que aparece, frequentemente em cenas com a jovem filha do dono da academia, encarnando a típica jovem burguesa e arrogante. Para tensionar a relação, o namorado atleta da moça rica se apaixona pela funcionária – situação pouco verossímil porque exceto no romantismo dos contos de fada, essa relação não se opera nas academias de elite Brasil afora, um jovem “geração saúde” se apaixonar (para além da atração sexual) pela funcionária negra. Não somos tão descontruídos assim.

“Há uma insistência em romantizar o amor entre o rico e a pobre, o branco e a negra, desconhecendo o dado concreto que nas relações afetivo sociais no Brasil contemporâneo essa mobilidade do encanto entre opostos é tão fantasiosa quanto cavalos alados e unicórnios.”

É bem comum no cinema brasileiro, bem como nas nossas telenovelas haver um certo tipo de maniqueísmo, no qual as pessoas das classes mais abastadas são comumente retratadas como egoístas, cruéis desumanas. No meio popular, residem personagens alegres, criativos, que superam as dificuldades com largo sorriso. E esses mundos se encontram – geralmente o encontro amoroso se dá com entes dessas classes e universos distintos, provando que o amor supera tudo, toda diferença de classe, todas as dificuldades econômicas, todas as ambições, todas as misérias. Os roteiros trazem certa simpatia dos autores – estes quase sempre, muito mais identificados com uma localização social de elite na vida real – com as classes subalternas, sem com isso necessariamente garantir voz e uma representação. Há uma falsa adesão ao subalterno, embora quem tem voz é o burguês e siga o subalterno em silêncio.

Gabriel ( Felipe Roque ) e Joana ( Aline Dias ).

Gabriel ( Felipe Roque ) e Joana ( Aline Dias ).

A relação maniqueísta da patroa e funcionária engendrada gera uma identificação tipificada do público com a mocinha, sem com isso, provocar no público um espelhamento de como ele se relaciona com o outro, especialmente se esse outro é subalterno. A satanização da figura da patroa versus a vitimização da figura da funcionária desumaniza ambas personagens, romantiza relações de classe, repete um script de folhetim, onde nada é reinventado, nem potencializado. Pelo contrário, a superficialidade das relações explicitadas, apazigua autores e um certo público – todos são muito good vibes e torcem pelo bem.

E por que dizer que uma relação entre o garoto loiro sarado da academia com a faxineira negra e nordestina é improvável? Onde mora a fantasia, minha gente? Será que não há lugar para sonho? Vamos celebrar a criação de fantasmas que vão acompanhar meninas negras para todo sempre, desejando e aspirando ser vista por um perfil de homem cujos olhos são socialmente treinados para ignora-las? Há uma insistência em romantizar o amor entre o rico e a pobre, o branco e a negra, desconhecendo o dado concreto que nas relações afetivo sociais no Brasil contemporâneo essa mobilidade do encanto entre opostos é tão fantasiosa quanto cavalos alados e unicórnios.

malhacao-joana-e-barbaraOs encontros entre classe, além de tratados como maniqueísmo primo irmão do romantismo, reiteram uma certa máxima que diz que os ricos, quando decadentes e precisando oxigenar-se, vão até o meio popular. Se encantam, se encontram e voltam para o seu meio, reenergizados, atualizados, um pouco melhorados e mais sensíveis. É uma espécie de redenção. Que a dramaturgia explora à exaustão, talvez, redimindo autores e artistas, que parecem todos não fazer parte da elite a qual caricaturam e essencializam.

Talvez nessa empatia frágil estejam todos mantendo tudo como é. Acalmando o espectador de classe média e alta, que não se identifica com os patrões e enxerga que trata com carinho, seus subalternos. E os subalternizados, que nas frestas de visibilidade que tem, talvez sintam algum alívio na promessa de amor da bela garota negra com o rapaz da zona sul. E sonhemos todos com um Felizes para Sempre, apesar das diferenças e da pouca humanidade partilhada. Das narrativas excludentes que travestem ideologias tão antigas, com um verniz de novidade.

Mônica Santana é jornalista, mestre em Artes Cênicas, atriz, educomunicadora e empreendedora negra, pela Crioula Comunicação.

Opinião

#Opinião: Quem são as pombagiras?

Amanda Moreno

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Causou indignação certas declarações feitas por uma senhora há alguns dias. Utilizando as redes sociais para responsabilizar as religiões de matriz africana pelo fenômeno climático extremo no Rio Grande do Sul (RS), ela afirmou que Deus teria descarregado a Sua ira sobre aquele Estado, por este ter a maior quantidade de terreiros do Brasil. Além de desconhecer as previsões científicas, ela também parece ignorar a função das entidades cultuadas nos terreiros, entre elas, as Pombagiras. Laroyê!

Quase sempre associadas por religiões cristofascistas[3] à Magia Obscura, as Pombagiras foram mulheres que jamais se submeteram aos caprichos masculinos. Recentemente, a palestrante espírita Maira Rocha (1988-) descreveu as Pombagiras como mulheres para além da sensualidade simplória, que, mesmo tendo sido assassinadas brutalmente neste plano, baixam nos terreiros para ensinar a autoestima[4]. Em suas giras[5], encontramos ajuda para questões materiais, porém, As Corajosas Senhoras vão além: ensinam-nos a acreditar em nossa Vontade de Potência[6]. Na obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Sarraceni (1951-2015) menciona as Pombagiras como espíritos que despertam o desejo para muito além do sexo, porquanto desejar é Divino, se constitui em uma energia absorvida por todos os nossos chacras e está presente nas realizações humanas.

Portanto, as entidades cultuadas nos terreiros não têm qualquer relação com o ocorrido no RS. Pelo contrário, as Pombagiras são Seres de Luz que entram em nosso caminho para auxiliar, especialmente em situações desafiadoras. Qualquer definição que discrimina essas entidades é racismo religioso e se distancia dos ensinamentos do Mestre Jesus, que, em Sua Encarnação Crística, deixou a Mensagem Maior: amar a todas as pessoas sem qualquer distinção.

[1]Dedico esse artigo a Dona Maria de Padilha.

[2]Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).

[3]O conceito de Cristofascismo foi criado pela teóloga alemã Dorothee Sölle (1929-2003) e descreve a ideologia supremacista branca e cristã.

[4]O vídeo pode ser acessado no link: https://www.youtube.com/watch?v=EeQxtbm5vzQ

[5]Gira ou Jira é termo do quimbundo nijra e significa caminho. Se refere a reunião de espíritos de determinada categoria, manifestados pelo fenômeno da incorporação dos médiuns

[6]Vontade de Potência é termo criado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e indica a força maior presente nos humanos para atingir seus objetivos.

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – Pretas e Pretos-velhos: uma reflexão de Umbanda

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“Saravá, linha do Congo”. Com essa saudação, a Sagrada Umbanda presta reverência às pretas e pretos-velhos. Nesse 13 de maio, saudamos essas entidades espirituais, caracterizadas por sua imensa humildade e sabedoria. Aquele que escuta os Seus ensinamentos acessa a Evolução, deixando de lado a arrogância e abraçando a caridade.

Em sua obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Saraceni (1951-2015) descreve os pretos-velhos como entidades atuantes no Setenário Sagrado, Essência Divina que chega até nós através das Sete Essências Sagradas: Cristalina, Mineral, Vegetal, Ígnea, Eólica, Telúrica e Aquática. Em termos simples, o Setenário se manifesta na terra, na água, no fogo, no ar, nos minerais, nos vegetais e nos cristais. Nada caminha para fora do Setenário Sagrado, porquanto Nele está a Manifestação de Deus que irradia para todo ser vivente.

Ainda conforme o autor, encontramos correlações entre o Setenário Sagrado e os Sete Sentidos da vida: Fé (Essência Cristalina), Amor (Essência Mineral), Conhecimento (Essência Vegetal), Justiça (Essência Ígnea), Lei (Essência Aérea), Razão (Essência Telúrica) e Geração (Essência Aquática). Contemplamos, assim, a vasta sabedoria desse Grau Manifestador do Mistério Divino, denominado preto-velho, haja vista Saraceni descrevê-los como entidades presentes nas Sete Linhas de Umbanda, colaborando para a Evolução Maior.

No entanto, nem sempre pretas e pretos-velhos são pretos ou velhos. Aprendemos com Saraceni que por terem atingido um elevado grau evolutivo, esses espíritos se manifestam em aparência como pretos que foram escravizados, para nos trazer o exemplo da humildade. Paz, tranquilidade, esperança, paciência e perseverança são ensinados por esses Sábios Espíritos, levando cada pessoa a refletir sobre a sua Casa Interna.

Os pretos-velhos estão entre nós para ensinar a fé e a coragem ante as experiências desafiadoras que vivemos. Independente de crença, os Seus conselhos são lições de vida que nos convidam à Sabedoria ante momentos cruciais. “Êpa preto, sinhá”.

 

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – E o teu feminismo, comunidade? É negro mesmo? – por Aline Lisboa

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Práticas de feminismos coloniais são estratégias de divisão para a nossa comunidade. A primeira onda do movimento feminista surge na Inglaterra no final do século XIX, buscando direitos que eram negados às mulheres e concedidos continuamente como forma de privilégio a homens.

O movimento se popularizou com a primeira luta que foi o direito ao voto. As sufragetes, como ficaram conhecidas, encheram as ruas de Londres, foram presas várias vezes, fizeram greve de fome e por fim após a morte de Emily Davison, que se atirou na frente do cavalo do rei, na corrida Derby, esse direito foi conquistado.

O feminismo chega ao Brasil e as sufragetes brasileiras dão início ao movimento em 1910. Assim, em 1932 é promulgado um novo código eleitoral brasileiro, por meio do qual se conquista o direito ao voto das mulheres brasileiras, entretanto mantém-se vetado o direito ao voto de mendigos e ANALFABETOS.

Considerando a primeira Lei da Educação, promulgada em 1837, que proibia negros e negras, ainda que livres, de frequentarem a escola, pode-se dizer que a conquista em 1932 não abarcavm a população de mulheres negras, assim como a de homens negros daquela época, que tinham os seus privilégios na organização social do convívio estrutural, mas com intersecções das relações que também são de raça.

Com a continuidade do movimento, vê-se que há muitas outras lutas com perspectivas que não abarcam as relações de raça e gênero. Urgiu-se, então, a necessidade de tratar dos direitos das mulheres negras, compreendendo as relações de domínio e poder, dentro e fora da comunidade de pessoas negras, pensando assim, as  perspectivas de um feminismo negro.

O feminismo, quando negro, dialoga com as espistemes decoloniais, já que a luta de mulheres brancas não conversa com os esmagamentos sofridos por mulheres negras, assim, como o privilégio de homens brancos são em números, de forma transparente, maiores que o de homens negros.

Tendo assim, nas camadas sociais, homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que trazem consigo lugares de fala, lutas e quando privilégios, diferentes.

Considerando os contextos acima, é importante pensar como o racismo pode atravessar a luta feminista negra, transfigurando-a em um contexto colonial, sendo um enorme fator de divisão na nossa comunidade.

Nós, mulheres negras, irmandade a qual sou pertencente, enfrentamos inúmeros esmagamentos silenciados na luta feminista colonial. Em números alarmantes, os baixos salários, a maternidade solo, o adoecimento físico e mental, a violência obstétrica, a violência sexual, o encarceramento, a marginalização, humilhação e silenciamento são absurdos.

É impossível escrever aqui sobre a necessidade de diálogos do nosso povo, sem dizer que o racismo e o sexismo, atuando juntos, são potentemente destrutivos às vidas de mulheres negras.

Contudo, considera-se importante pensar o atravessamento do racismo ao feminismo colonial, quando as lutas e colocações são atravessadas pelas imagens que controlam a figura de homens negros. A sociedade constrói estereótipos que vem matando aos pouquinhos homens negros todos os dias.

Já escrevi em outro artigo que como educadora, ao conviver com meninos negros, diariamente, os vejo sobrevivendo a um massacre com sorrisos desesperadores no rosto. Se a luta não considera os impactos do racismo ela não é negra, e para mim, nem é luta.

Se o movimento é sobre odiar, perseguir, expor, marginalizar e matar aos poucos os homens negros, esse movimento tem outro nome, é o racismo. A branquitude é firme em averiguar profundamente, perdoar e esquecer com facilidade falhas por vezes absurdas de homens brancos, enquanto relembra, ataca e marca em corpos de homens negros, falhas que por vezes não são nem verdadeiras, pois como já dizia o Ilê Ayiê, “Preto sempre é vilão, até meu bem, provar que não”.

A colonização é estratégica em dividir comunidades que juntas, dialogando, são poderosas no combate. Não podemos deixar que uma luta que nunca dialogou com o lugar das mulheres negras nos sirva para auxiliar a destruição do nosso semelhante.

Que o nosso feminismo seja negro. Defendendo o lugar de fala de mulheres negras, aniquilando qualquer perspectiva construída pelo racismo para qualquer um dos nossos semelhantes dentro da comunidade. O futuro, não está na colônia, o futuro é Sankofa!

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