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Amor: entre marginais e a capa do jornal

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Foto: Camila Bastos

Eu nunca pensei que conseguiria desenvolver um relacionamento e muito menos tê-lo exposto como obra de arte.  Sempre existiram dois motivos que me acompanhavam e me fizeram alimentar essa ideia: o primeiro era minha relação comigo, com as pessoas e a rejeição. A agressão era silenciosa e sorrateira, os ”nãos” sempre carregados de motivos de raça e expressão de sexualidade. A repreensão por ser homossexual e negro sempre parecia culpabilizar a mim e me fazer arcar com a responsabilidade de achar em mim o defeito e, com o passar do tempo, as explicações pareciam claras ao espelho.

O segundo era o medo. Via as notícias, os relatos, as fotos. Amar um homem era um ato quase suicida e onde deveria existir amor, só se disseminava violência, só pensava em qual a vantagem em ter alguém se esse alguém não poderia ser seu. Não se era permitido o toque, o afeto, o carinho, o cuidado e quando existia era tão escondido que se tornava poesia de amor marginal.

“E o amor foi algo tão ardente e lindo que mantê-lo escondido seria uma violência pior que manter-se na defensiva contra a sociedade e na luta pela felicidade.”

Após diversas fases de repreensão, repressão e luta, eu o encontrei. Encontrei o amor entre os passos com pulinhos que ele dá, no toque, no afeto, no carinho e cuidado. E o amor foi algo tão ardente e lindo que mantê-lo escondido seria uma violência pior que manter-se na defensiva contra a sociedade e na luta pela felicidade. Nós, juntos, passamos por várias experiências loucas, de contato externo positivo e negativo. Teve o sorriso contente de uma criança ao nos ver de mãos dadas na rua e uma senhora que nos parou no ônibus para dizer que nós tínhamos todo o seu apoio e proteção e teve uma rua cercada e homens nos olhando e piadas gritadas de carros em movimento.

Hisan e Pedro

Hisan e Pedro

“Após ver as fotos de Lane prontas (Projeto“Antes de tudo, amor”) , nós paramos e refletimos o quanto nós somos um casal forte e lindo, o quanto é importante ter um ao outro para passar por todos os muros construídos pela LGBTfobia”

Viver como homossexual negro e namorar outro homossexual negro é uma afronta, andar junto ao meu namorado na rua é um ato de coragem e afronta, e quando Lane Silva nos convidou para participar das fotos a primeira recepção foi de surpresa. Aceitamos felizes por ela ter possibilitado a interpretação da arte sobre um romance que vive esperando as repressões externas. Ter alguém que se disponibilize a te congelar em imagem e expor com o olhar delicado, artístico, inspirado e preocupado em mostrar que nós também amamos, que nós também existimos e que nosso amor é como arte como qualquer outro, é no mínimo gratificante.

Após ver as fotos de Lane prontas, nós paramos e refletimos o quanto nós somos um casal forte e lindo, o quanto é importante ter um ao outro para passar por todos os muros construídos pela LGBTfobia, tanto quando se fala das rejeições sociais, quanto do medo e repressão. Fico feliz em saber que estar em um jornal, ou portal possa representar um símbolo de que é possível sim ser gay, negro, amar, ser arte e ser feliz. É mostrar a todos os nossos iguais que a caminhada não é fácil, mas que não faltará felicidade e coragem. É mostrar para a sociedade em geral que nós estamos aqui, resistimos nos amamos e que sabemos o significado.

Hisan Silva é formado em Produção Cultural pela PRACATUM, diz que não é modelo, mas por favor, né? (como não?) e é criador da Fanpage Meu Crespo, seu “Fan Blog” pessoal, “um quilombo aberto para todas as pretas e pretos”, diz ele. 

Confira aqui o ensaio “Antes de tudo, amor” de Lane Silva, no qual Hisan e Pedro estão, livres, amando e felizes!

 

Opinião

#Opinião – Uma questão planetária – Por Armando Januário

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Somos uma sociedade ainda distante do amor genuíno. Moramos em uma Casa onde o outro é a ameaça, o estranho, o inimigo. Essas fobias nos afastam do Deus que somos, porquanto “[…] o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme, não chegou à perfeição do amor” (1 João 4:18).

Enquanto escrevo, pessoas LGBTQIAPN[1]+ certamente sofreram alguma violência, sendo privadas de acessar cidadania e dignidade. Pessoas que a partir das suas identidades de gênero e/ou orientações sexuais nos convocam a aprender que somos espíritos encarnados, em experiências previamente planejadas, visando nossa evolução para além de visões extremistas.

Estamos em uma Transição Planetária[2] e é exatamente nesse pormenor que a população LGBTQIAPN+, desde A Revolta de Stonewall em 1969[3] – liderada pelas travestis Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera – nos convoca a repensar essa modelos de colonização psíquica, que, até o momento, servem apenas para aprisionar, muitos deles em nome de um Deus vingativo, sedento para castigar.

Somos chamados pelas pessoas LGBTQIAPN+ a conhecer o humano para além de critérios biomédicos, os quais embora úteis, são classificações limitadas, haja vista não se atentar para as subjetividades próprias da nossa espécie. Neste sentido, como Buscadores da Verdade, devemos amar, respeitar e acolher as pessoas LGBTQIAPN+ em sua tarefa espiritual de convocar a família humana para exercitar diariamente o amor sobre todas as coisas, tal qual o Mestre Jesus nos ensinou em João 15:17: “Isto vos mando: amai-vos uns aos outros”.

[1] A sigla se refere a lésbicas; gays; bissexuais; travestis e transexuais; queers[1]; intersexuais; assexuais, andróginos e agêneros; pansexuais e não-binários. O termo queer significa estranho e foi utilizado como ataque a população LGBTQIAPN+. Entretanto, a própria comunidade, em um movimento de luta pelos seus direitos, tomou esse termo para si, em uma referência às pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade, a imposição compulsória da heterossexualidade e da cisgeneridade.
[2] Transição Planetária é um termo que define o árduo processo de encerramento de um padrão de consciência atrasado, para o advento da fraternidade universal e da supremacia do Bem. Sugiro a leitura da obra Transição Planetária, psicografia de Divaldo Franco, ditada pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda e publicada em 2008.
[3] No ano de 1969, as batidas policiais em bares com clientela homossexual eram constantes em Manhattan, Nova York: agentes da segurança pública adentravam a esses espaços, espancando clientes e profissionais dos bares. Todavia, na madrugada de 28 de junho de 1969, durante uma operação policial no bar Stonewall Inn, os clientes reagiram, expulsando a polícia, em um conflito que se arrastou até o dia 03 de julho de 1969. Acontecia ali a Revolta de Stonewall, dando origem ao atual Movimento LGBTQIAPN+.
Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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Opinião

#Opinião – Por que racializar a terapia? – Por George Barbosa

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Ainda há muitos questionamentos, principalmente entre não-negros, sobre o motivo pelo qual surgiu, dentro da Psicologia,  a necessidade em discutir, estudar e pesquisar sobre  a saúde mental da população negra. Acredita-se que a psiquê humana é uma só e que a ciência abarca a todos. No entanto, a ciência sempre foi e continua sendo utilizada como ferramenta do racismo.

A exemplo da frenologia que não muito obstante, defendia a ideia de que pessoas negras possuem traços neurológicos que o colocam em situação de submissão. Basicamente como se a era escravagista tivesse surgido por conta dessa “habilidade inata” das pessoas de cor.

As religiões também foram utilizadas na perseguição, extermínio e o “apagamento” de pessoas negras. A exemplo do catequismo feito aos povos indígenas que já tinham suas próprias crenças e divindades. Foram forçados a catequizar-se para serem aceitos por um Deus que em tese, eles nem conheciam.

Levando em consideração que a ciência engloba: educação, medicina, saúde, nutrição, política etc…É o suficiente para reconhecer que a formação mental de um sujeito que tenha suas possibilidades e estímulos afunilados por um contexto racista é adoecedora.

Em outras palavras, um indivíduo de cor, não tem nenhuma desvantagem cognitiva ou genética, mas encontra-se em desvantagem no mundo desde o processo do seu nascimento. Até porquê as maiores taxas de erro médico e violência obstétrica apontam que pessoas negras estão estatisticamente mais vulneráveis do que pessoas brancas. Em suma, quanto mais retinta for a sua melanina, maior será a sua exposição aos diversos tipos de violência e microviolência em nossa sociedade.

Logo… Não! A pessoa negra não tem a mesma formação de psiquê uma vez que o contexto modela o comportamento do sujeito. Se por um lado as pessoas brancas detêm possibilidades, heranças coloniais, sobrenomes invejáveis, a religião mais aceita, o saber científico mais utilizado no nosso processo educativo, dentre tá das outras vantagens e privilégios, então a psiquê da pessoa negra precisa de um cuidado ímpar.

E isso, apenas um profissional antirracista que compreenda essas estruturas e simbologias genocidas irá conseguir mapear, compreender para assim, melhor auxiliar seu analisado.

George Barbosa – Psicólogo Clínico e Fundador Projeto Terapia no Bairro

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Artigos

#Opinião – João: um sol místico na Judeia – Por Armando Januário

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Entre os santos mais populares do Brasil, São João Batista é uma das figuras mais importantes na tradição judaico-cristã. Reverenciado pela cultura nordestina nas celebrações de junho, o Batizador de Jesus, desde os primórdios da sua existência, cultivou intimidade com os arcanos da Sabedoria Universal.

João foi educado nos preceitos judaicos e logo adentrou ao nazireado, costume típico do judaísmo, no qual algumas famílias destinavam seus filhos para uma vida ascética: os nazireus deixavam crescer a barba e os cabelos, se privavam de bebidas alcoólicas e uvas, e não tocavam em cadáveres. Essa moral era o caminho encontrado para a introdução em conhecimentos profundos sobre A Energia Criativa. O Batista afirmava que batizava em água, contudo, viria Aquele que batizaria em fogo, sendo maior que ele (Mateus 3:11). Essa passagem bíblica dá a entender que João já conhecia a iminente Manifestação Crística em Jesus de Nazaré. Com efeito, ele é o filho de Isabel, que ainda no ventre da sua mãe, pula de júbilo quando ela ouve a saudação de Maria, grávida de Jesus (Lucas 1:41-44). Esse momento indica que João e Jesus se conheciam de outras existências.

Antes de o imperador Justiniano, no Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 553, condenar a reencarnação, o cristianismo primitivo encarava a pluralidade das existências como realidade. Por isso, quando Jesus afirmou que João “[..] é Elias, que havia de vir” (Mateus 11:14), o Mestre alude a vida pregressa do Batista, algo que certamente não causou surpresa aos presentes. A própria encarnação de João, anunciada pelo anjo Gabriel confirma a existência pretérita de João como Elias: “[…] e [João] irá adiante dele com o espírito e a virtude de Elias, a fim de reconduzir os corações dos pais para os filhos” (Lucas 1:13).

João Batista é uma figura tão especial que os festejos em sua homenagem uniram certas tradições antigas[1], na qual a data está inserida no solstício de verão, quando o ângulo do sol se distancia ao máximo da Terra. Esse fenômeno ocorre apenas duas vezes por ano: em junho, no Hemisfério Norte e em dezembro, no Hemisfério Sul. Temos, portanto, dois sóis: João, o sol que vem para anunciar a chegada de outro sol, reluzente e soberano: Jesus, o Cristo Planetário.

[1] Os celtas comemoravam o solstício de verão em honra ao deus Sol, para o qual pediam proteção contra maus espíritos e pragas nas colheitas. As festas incluíam fogueiras e fartura, apontando para o desejo de prosperidade espiritual e física.

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