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#SoteroRelato – Val Benvindo, jornalista, negra e o dever cumprido

Jamile Menezes

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val4Quando ingressei na Facom, em agosto de 2010, sempre soube que o meu Trabalho de Conclusão de Curso seria um produto. Naquele momento não estava tão nítido qual seria meu objeto, mas outra certeza que tinha era que falaria sobre algo ligado às questões raciais.

Passados seis anos, eis que no dia 25 de outubro de 2016, adentro a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da UFBA pela última vez como estudante do curso de Jornalismo.

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Foto: Divulgação

Toda de branco, cheguei certa de que tinha feito a melhor escolha da minha vida: ter como TCC um documentário sobre a Noite da Beleza Negra do Ilê Aiyê, o “Outra Face”.

Abri minha fala, inclusive, quebrando os protocolos, já que falei antes do orientador abrir os trabalhos – pedindo a benção aos meus mais velhos e aos meus mais novos e saudando a mesa de examinadores, composta pela Mestre em Estudos Étnicos e Africanos  e professora substituta da UFBA, Cleidiana Ramos e pela Mestre em Estudo de Linguagens e educadora para relações étnico-raciais e de gênero, Lindinalva Barbosa, juntamente com meu orientador, o Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Guilherme Maia.

“Saí da Facom com a sensação de dever cumprido! Saí ao som do Ilê e acompanhada pelas Deusas do Ébano e sob as bençãos de Mãe Hilda Jitolu.”

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Foto: Fabio Bouzas

Peguei o microfone e a voz embargou por olhar para aquele auditório tão cheio de gente preta, de gente que acreditou em mim e que estava ali para vibrar junto comigo (e com Iasmin Sobral, minha dupla no TCC), qualquer que fosse o resultado.

Aquele ambiente, que por vezes foi tão hostil comigo e com os meus, tão racista e elitista, foi obrigado a engolir que ia ter jornalista preta formando e falando sobre mulher preta também. A produção do documentário foi muito tranquila e prazerosa em todas as suas etapas e isso não foi diferente na construção da apresentação, e nela em si. Passado o nervosismo inicial, me senti muito à vontade em falar sobre algo que me é muito comum, o Ilê Aiyê e sua (na verdade, nossa) Noite da Beleza Negra.

 

 

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Foto: Fabio Bouzas

A minha intenção sempre foi mostrar para os espectadores, sobretudo os espectadores pretos, o que eu sempre vi nas Noites da Beleza Negra. Como aquele concurso, e o Ilê em si, me formaram e me fizeram crescer sem nóias, com muito orgulho do meu cabelo crespo, da minha pele preta e valorizando minha história.

Foi emocionante poder falar um pouco dessa experiência para aquele público e depois de ter recebido a nota máxima – e com louvor! – ter a Band’Aiyê tocando em comemoração à minha aprovação. Chorei! Choramos! Abracei! Abraçamos! Foi uma linda cerimônia e repleta de quebras de protocolos por conta das fortes emoções. Após tudo isso, o documentário foi finalmente exibido e a sensação de dever cumprido veio com a aceitação do público.

Aquele ambiente, que por vezes foi tão hostil comigo e com os meus, tão racista e elitista, foi obrigado a engolir que ia ter jornalista preta formando e falando sobre mulher preta também.”

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Foto: Divulgação

No decorrer da exibição, o público se divertiu, emocionou e se encantou com as falas das Rainhas Mirinha Cruz (1975), Gerusa Menezzes (1998), Edilene Alves (2009) e Daiana Ribeiro (2013), além de Vânia Oliveira, que concorreu duas vezes e foi princesa nas ocasiões.

Alguns dirigentes da entidade, Vovô, Vivaldo, Dete e Arany, também foram entrevistados e contaram muito sobre a história do bloco e da noite de escolha das Deusas.

Além deles, o idealizador do concurso, Sergio Roberto, falou sobre suas motivações para criar e pensar o evento. Para mim, o momento que mais esperei para ver a reação do público foi do bloco dedicado à minha avó, Mãe Hilda Jitolu. E foi emoção forte!

“Saí da Facom com a sensação de dever cumprido! Saí ao som do Ilê e acompanhada pelas Deusas do Ébano e sob as bençãos de Mãe Hilda Jitolu.”

Val Benvindo é Jornalista, Produtora do Bloco Afro Ilê Aiyê e Produtora Executiva do Coletivo Criativo N.

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#NegrasRepresentam – ANAADI, negra, múltipla, das Artes!

Jamile Menezes

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ANAADI
ANAADI

Fto Raul Krebs

Que música é para aquecer nossos corações, não temos dúvidas. Explicar o que a música provoca é como escrever pra primeira paixão das nossas vidas. Aquele bilhetinho no auge do sentimento. E é assim que podemos descrever ANAADI, artista que muitos descrevem como a que canta o que compõe e compõe quando canta. Ela já cativou ouvidos de artistas como Rick Wakeman, Roberto Menescal, Ivan Lins e Ronaldo Bastos.

Destaque na segunda edição do programa The Voice Brasil, Anaadi é o que podemos considerar multi. Como produtora, idealizou o documentário “Arte das Musas?”, cujo destaque são as mulheres na Música. Sua atuação enquanto artista caminha ainda por composições para o documentário “Madrepérola”, que fala sobre  mulheres gordas, beleza e autoestima.

Portal Soteropreta – Como exatamente sua carreira se iniciou?

ANAADI – Minha carreira iniciou compondo canções, e mostrando pros amigos na escola e no cursinho pré-vestibular. Foi assim que fui descobrindo o potencial que tinha, de tocar as pessoas de alguma forma através da Música. Isso foi pelos 16 ou 17 anos, época que  comecei a dar canjas em bares de Jazz da minha cidade.Me formei em Psicologia em 2010, com essas experiências, eu aprendi o poder incrível de contar a própria história, e o quanto isso pode ser transformador tanto pra quem conta, como pra quem escuta. A vontade de fazer documentários veio muito daí. Da minha convivência com pessoas, da música. Sou apaixonada por autobiografias, por ouvir as histórias das pessoas no dia-a-dia, e quando consegui criar a oportunidade de ouvir tantas mulheres que vivem de música e para a música, fiz tudo para que essas histórias ganhassem espaço e chegassem a mais pessoas. Assim nasceu o “Arte das Musas?”. Participar do “Madrepérola” também foi incrível, e é até hoje. O que nos levou a  ganhar um prêmio de juri popular num festival de cinema em Chicago.

Portal Soteropreta – Você lembra quando sua trajetória a levou para produções que exaltam a beleza negra ou combate padrões vigentes?

ANAADI – Lembro sim. Foi em 2011, quando compus a música Sexyantagonista, que busca valorizar outros tipos de beleza, pra além do corpo e dos padrões físicos e comportamentais vigentes. Ela questiona o que é ser sexy. A partir dela, descobri que conseguia levantar essas questões através da minha música, então aos poucos fui compondo outras canções e investindo em outras produções que pudessem colaborar para a desconstrução de conceitos violentos contra as mulheres, por exemplo. O termo “Musa” é um conceito que a gente tenta desconstruir no meu filme “Arte das Musas?”. A gente tenta mostrar que as artistas da Música não têm vidas perfeitas nem nascem com um talento perfeito.

#NegrasRepresentam – Ilka Danusa, mulher de negócios, comunidades e sustentabilidade!

Tenho me unido com muitas mulheres negras que também se descobriram há pouco, e tem sido fantástico finalmente poder me ver no espelho através de outras mulheres, e admira-las, ama-las, chorar com elas, rir com elas. Acredito  que tem rolado um despertar coletivo, sabe? O Brasil parece estar vivendo um momento de despertar da população negra para a sua identidade, o seu valor e a possibilidade de trocas, aprendizados e crescimento juntos.

Portal Soteropreta – Como foi transitar por áreas diferentes das artes? Como você percebe esse impacto na sua atuação social?

ANAADI – Hoje a gente vive num mundo que pensa em rede, não pensa mais em linha. Consideramos muitas possibilidades ao mesmo tempo, e isso é interessante e libertador inclusive socialmente. A questão de ser uma mulher negra é cada vez mais importante no meu caminho artístico e na minha identidade, mas é uma descoberta recente, sabe? Eu não sabia que eu era uma “mulher negra” até 2016. Eu sabia que era uma mulher, e eu sabia que era negra. Ponto. Mas eu nunca tinha me dado conta de que eu vivo essas duas realidades ao mesmo tempo, inseparavelmente. Ou seja, que eu sou da única classe que sofre pelo machismo e pelo racismo ao mesmo tempo, e que pertenço a um grupo de mulheres que sofrem das mesmas aflições e compartilham tantas coisas que implica estar fora de uma rede de privilégios e ser destituído dos seus direitos.

#NegrasRepresentam – Renata Dias, preparada para repensar a Cultura!

 Enfim, a gente considera muitas possibilidades ao mesmo tempo, e todas existem dentro de seus contextos. Essa multiplicidade nos liberta de um padrão de pensamento muito limitante que dizia que tudo era A ou B.  Portando  unir diferentes formas de arte amplia os canais de discussão e dar mais visibilidade pras questões importantes pra a gente. Sendo múltiplo, transitando por mundos diferentes,  vamos encontrando novos jeitos de falar sobre o que precisamos falar.  Eu escolhi a música  e o cinema, outros escolhem a academia o que importa é que estamos falando.

 

 

 

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Entrevistas

#NegrasRepresentam – Luana Soares, feminista, militante e incentivadora!

Jamile Menezes

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Por meio de perfis, a campanha #NegrasRepresentam tem o objetivo de apresentar os pensamentos de mulheres negras em diversas esferas sociais e como suas ações vem propondo mudanças na realidade racial do país. Conheça Luana Soares:

Luana Soares é graduada em História pela Universidade Católica do Salvador e Especialista em Gestão de Políticas Públicas pela UNICAMP. Militante feminista e anti-racista, integra a Marcha Mundial de Mulheres e a Coordenação Nacional de Entidades Negras. Atualmente, compõe a equipe da Coordenação de Políticas para a Juventude, órgão do Governo do Estado da Bahia. Luana é uma destas mulheres que podemos considerar incentivadora e fiel a quem ela considera. Sempre se inspirando em mulheres que resistiram a modelos hostis e violentos, ela vem construindo uma trajetória de força e solidariedade.

Portal Soteropreta – Você é reconhecida por sua atuação na luta pelo direito das mulheres negras, em especial quando se trata de auto cuidado. O que lhe fez optar por esse caminho?

Luana Soares – Venho de uma família de mulheres muito fortes. Do tipo que resolve problemas de todo mundo, mas que dedica pouquíssimo tempo para si. Essa é uma realidade que é delas, uma realidade que é minha e de muitas mulheres negras e que Bell Hooks fala em Vivendo de Amor, a nossa forma de amar, a forma de amar das nossas mães é garantindo a sobrevivência. Somos ensinadas desde cedo que o nosso papel é cuidar, manter a vida girando, a dos filhos, a da comunidade, a dos homens. Então, parar pra cuidar de si, seja física ou psicologicamente e/ou espiritualmente é um ato de muita resistência. Foi observando essas mulheres e a mim que percebi que não nos cuidamos, não porque não queremos, mas porque nosso tempo é massacrado por um divisão sexual do trabalho que é cruel e marcada pelo racismo e machismo.

Portal Soteropreta – Comente um pouco das contribuições que você percebe sobre o sobre o pensamento feminista negro, esse campo de estudo e militância?
Luana Soares – Desnaturalizar violências. Harriet Tubman em seu discurso histórico, na verdade está falando sobre as mulheres a quem o cuidado (mesmo um cuidado de bases machistas) era destinado às outras para quem a violência era destinada e naturalizada. Então, me erguer contra essas violências, falar sobre elas, gritar, sair do papel de “Grand Mama” que a sociedade racista tenta imprimir as mulheres negras, é a principal contribuição do feminismo negro na minha vida. E certamente, a solidariedade. Veja, apenas acredito em uma sororidade não-branca, não-colonizada, então prefiro utilizar o termo Solidariedade de mulher preta pra mulher preta é um negócio surreal. É tangível, é prático, se insere na roda da solidariedade da classe operária e não tem nada a ver com gostar ou não da outra. Sai do romantismo e vai para o gás q acaba e a outra ajuda, é ficar com o filho pra outra poder trabalhar, é amparar na hora do aborto, feito sozinha, é o cabelo que precisa ser trançado pra trabalhar na casa dos brancos. É uma prática ancestral.

 

O que eu gostaria de deixar de questionamento é: as mesmas condições são oferecidas a nós e as mulheres brancas? Ou aos homens brancos e negros? A minha experiência pessoal diz que não. Então acho que temos combatido o silenciamento, estamos ocupando os espaços, mas me preocupa sob quais condições estamos adentrando.

#NegrasRepresentam – Campanha homenageia mulheres no Novembro Negro

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#PoesiaSoteroPreta – A poesia problemática de Geilson de Andrade!

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Poesia marginal e problemática é como o poeta Geilson de Andrade define sua produção artística, que inclui, ainda, peças de teatro e contos. Mas é na escrita e na récita que ele se encontra, se entrega.

De corpo e alma, em busca de atingir o psicológico de quem lhe ouve, ele faz um bombardeio de rimas, expressões corporais e faciais. É impossível vê-lo em atividade e não arrepiar, não sentir os olhos apertarem e o coração se angustiar. A verdade dói! Os primeiros versos tratavam de amor, questões existenciais e sobrenaturais, conflito entre vida e morte, durante a infância e adolescência, lá pelos 13 e os 15 anos de idade. Em 2010, já pesquisador de História, o veio de protesto e afirmação lhe tomou.

Os textos passam a expressar esta identidade que lhe acompanha desde então. Questões sócio raciais e referentes à opressão institucional assomam sua produção textual, toda escrita na tela de um computador. “Não lembro a última vez que usei papel e caneta”, assume Geilson.

Para além de válvula de escape, a poesia é, para Geilson de Andrade, “uma forma de conscientizar as pessoas, uma espécie de mecanismo educacional que desperte o pensamento e o sentimento das pessoas”. E complementa: “A poesia para mim é um veículo pedagógico e de resistência, utilizo o contexto histórico para situar o sujeito psicologicamente enquanto pessoa importante dentro da sua própria existência e resgate de valores”.

A fonte de inspiração é a família, tanto a biológica, normativa, mas, também, aquela que acolhe e abriga no seio da comunidade, seja a vizinhança ou a comunidade dos saraus, dos slams de poesia, os que pensam e defendem os direitos humanos. Este é o poeta, humano, Geilson Andrade.

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Sistema Nazista

Perdeu-se o brilho daquela esteira de estrelas

Que se estendia a caminhar tranquilamente sobre o asfalto

Os brotos morreram, as flores murcharam

Vidas foram ceifadas a flor da idade

Pela foice que corta, na frieza da morte

Por displicência da carne

Foi-se a juventude da alma

E perdeu-se o brilho e ofuscaram o asfalto

Mancharam de sangue coração dilaceraram

Caminhos tortuosos e destinos cruéis

Em meio a frágeis e poderosos

Injustiças entre vítimas e réus

Tenho que parar

Tenho que parar porque não cabe no poema

Esse triste cenário pobre miserável

De mentes estúpidas e corações insensatos

Me tirem desse sistema nazista

Sem perspectiva otimista

Sem que me tirem a vida

Sem que massacrem minhas crianças

Sem que prostituam as minhas meninas

Me tirem desse sistema tão ego

Me tirem desse sistema tão ísta

Por favor, favela

Me tirem desse sistema nazista

 

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