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Opinião

#OpiniãoPreta – A multiplicidade discursiva da Flica 2017! – Por Manuela Barreto

Jamile Menezes

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Convidada pelo amigo e pesquisador, Marielson Carvalho, fui à Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira. Encontrei um espaço de diversidade cultural de tal riqueza que abarcava até mesmo os corpos artísticos extraoficiais, aqueles que não são esperados, mas que, como comunidades que se aglomeram em organismos próprios, identitários, afirmam-se na qualidade de movimentos da cultura.

E o que é cultura? Do latim, cultus, ato, efeito ou modo de cultivar. Neste festival, plantando-se, tudo dá, e é por esse caminho que transito por alguns espaços que cultivam outras culturas, as quais não estão necessariamente no repertório temático oficial da Flica.

Aconteceu sua sétima edição,embora não tenha dito, não tive o privilégio de estar nas edições anteriores, tive o de presenciar uma revolução na ordem do discurso hegemônico, patriarcalista, etnocêntrico da cultura, pois mulheres negras predominaram nos atos enunciativos do dia 07/10/17, sábado, na cidade de Cachoeira-Ba, sem deixar de dar licença às outras vozes.

No entanto, seguirei o roteiro de minha própria viagem pela Cachoeira Cultural. Na chegada, beijo o chão de Cachoeira, e vou direto ao encontro de“Residências artísticas: o impacto criativo na vida dos artistas da palavra”, com escritores selecionados nos editais de residência artística para escritores no Instituto Sacatar nos anos de 2014, 2015 e 2016.

Depoimentos sobre a experiência de produção artística no Instituto Sacatar, com residência na Ilha de Itaparica-Ba, deixam-me com a sensibilidade aguçada, artistas que estiveram ali, experimentando o fazer artístico de corpo e alma, desafiando as próprias fronteiras de ser artistas e residir, durante três meses, num espaço de encontro entre sujeitos com uma mesma meta e percursos peculiares, o projeto de intercâmbio cultural num espaço baiano é de extrema produtividade e interação.

De primeira, perscruto as vivências de Marielson Carvalho na Ilha, em que surge, além de uma obra publicada sobre Dorival Caymmi e Xavier Marques, uma personagem nativa, Marieta, que relata sobre suas experiências com o mundo de lá do outro lado da ilha. E o que dizer da escritora sacatarinense, Luciany Aparecida, que, através de performances diárias, do cotidiano, viveu esse fazer artístico até suas últimas consequências, atuando em cada espaço imaginário por ela inventado.

Por sua vez, Deisiane Barbosa, em busca de suas Teresas, encontrou a acolhedora Tesesa Ilha, uma maré poética!  E demais artistas, que se tornam sacatarianos, Bruce Odland, Sam Auinger, GlebSkubachevski, Joseph Cavalieri, Mauricio Adinolfi, Pedro Lemes, Tom Correia.

Despeço-me do Sacatar com a sensação de que produzir cultura através das artes tem seus espaços de acolhimento e licença para o fazer artístico, em plena Bahia.

Após almoçar uma típica maniçoba, no restaurante Pai Thomas, cuja senha do wi-fi – não deixo de atentar para esse fato – é o vocábulo literatura, e o próprio nome é inspirado no romance de Harriet Beecher Stowe – que trata da questão do negro, do ser humano como propriedade do outro – saboreio um bolinho de maniçoba típico da região de cultura de matriz, essencialmente, africana.

Transito entre as praças de Cachoeira, onde acontecem recitais poéticos, coletivos de poesia, e todo tipo de ação livre voltada para cultura e arte popular. Encontro com o Coletivo Atuar e outros coletivos, poetas da praça, do fazer literário em centros de cultura e formações identitárias nômades.Eis o outro lado da Flica, menos formal, pouco patrocinado e resistente, visto que as culturas renascem da própria cultura.

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Palmas! Mas o espetáculo ainda não terminou, direciono-me à mesa temática Escrita de Resistência Contra os que Desejam Sufocar a Nossa Voz, de extrema importância para conferir visibilidade ao debate sobre a condição do negro e da mulher no Brasil atual.

Fim de tarde. Deparo-me com uma dissonante música eletrônica, espanto-me diante de todo aquele cenário, é o Street dance, é o EX13 Dança de Rua, formado por, aproximadamente, 30 jovens do município de Cachoeira–Ba, estudantes da rede pública, de ensino fundamental e médio, e da universidade pública. Ouço alguém dizer‘aqui é festa literária e não de cultura eletrônica’. Pensei comigo mesma, a literatura de resistência do Festival em Cachoeira-Ba ainda irá abarcar territórios mais vastos, hip-hop, rap, slams, a cultura da periferia e demais potências criativas ainda pouco legitimadas.

Texto de Manuela Barreto

Email: manuela_barreto@live.com

Artigos

Parentalidades negras: Dói Gerar? – Por Aline Lisbôa

Jamile Menezes

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Aline Lisbôa

Aos 20 anos, ganhei minha primeira filha. Lembro que o meu maior desespero, naquele momento, não foi a maternidade em si, mas o medo de me tornar mais uma “guerreira”. Essa palavra, tantas vezes usada como elogio, sempre me soou como uma armadilha. “Guerreira” era o nome dado às mulheres negras que eu via à minha volta — sempre fortes, resilientes, mas quase nunca acolhidas. Mulheres que aprendiam cedo a engolir o cansaço e a transformar dor em sobrevivência.

Gerar uma menina preta, portanto, foi uma experiência marcada por aflições e esperança. Eu já tinha letramento racial suficiente para compreender que amar, dentro de um contexto desigual, iria me doer. Não porque o amor fosse escasso, mas porque amar uma criança negra em um país racista é um ato político — e, como todo ato político, carrega resistência e feridas.

Chorei e senti medo por longos nove meses. Idealizei a infância da minha filha e, inevitavelmente, revisitei as dores da minha. Cada contração parecia carregar também o peso das minhas histórias e de todas as meninas pretas que tiveram sua doçura interrompida cedo demais.

Mas a maternidade também me devolveu à criança viva que ainda existia dentro de mim. Quando minha filha sofreu seu primeiro episódio de violência racial, senti algo que nunca havia sentido antes: uma força ancestral que me empurrava a reagir. Era como se, naquele instante, eu fizesse as pazes com o silêncio imposto à menina que eu fui. Pela primeira vez, não calei. Escrevi, falei, denunciei. A maternidade, para mim, tornou-se um espaço de elaboração e cura coletiva.

A partir daí, passei a acreditar mais profundamente na potência transformadora do letramento racial nas famílias negras. É por meio dele que compreendemos o funcionamento do racismo estrutural e as relações desiguais entre pessoas negras e brancas — um sistema que atravessa as infâncias, molda oportunidades e define afetos. Educar uma criança negra sem esse entendimento é deixá-la vulnerável a uma violência que, muitas vezes, começa na escola, nas telas, ou no olhar do outro.

O letramento racial, portanto, não é um luxo intelectual: é uma ferramenta de sobrevivência e dignidade. Ele nos ajuda a nomear as dores, a identificar o racismo, e a responder a ele com consciência e estratégia — não mais com silêncio e culpa.

Lembro-me da matriarca da minha família, minha bisavó Celina. Mulher preta, sem estudos formais, mas dona de uma sabedoria que hoje reconheço como ancestral. Ela entendia, à sua maneira, o funcionamento do mundo e sabia como proteger seus filhos, netos e bisnetos. Sua forma de amor era também resistência. Celina não falava de “letramento racial”, mas vivia a prática da reexistência todos os dias — ensinando-nos a caminhar com dignidade mesmo quando o caminho era de pedras.

Hoje, quando olho para minha filha, percebo que gerar uma criança preta foi, acima de tudo, um ato revolucionário. Porque gerar, nesse corpo e nesse tempo, é também desafiar o projeto histórico que tentou nos apagar. E ser mãe/pai negros, com consciência racial, é transformar o medo em força, o silêncio em palavra, e o amor em luta.

Aline Lisbôa é mulher, negra, nordestina, mãe, educadora antirracista, consultora de diversidade, equidade e inclusão, pedagoga, psicopedagoga e pesquisadora, além de articulista e escritora. Seu livro “Quantos sim cabem em um não” está disponível AQUI. 

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Opinião

Trançar é trabalho: o reconhecimento oficial é vitória, mas a luta continua

Iasmim Moreira

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Trançar

Em junho de 2025, o Brasil deu um passo histórico: a profissão de trancista foi oficialmente reconhecida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5193-15. Isso significa que o Estado, através do Ministério do Trabalho e Emprego, reconhece, de forma tardia, que trançar cabelos é ofício, é arte, é cuidado, é economia viva. E mais do que tudo isso: é trabalho.

O reconhecimento representa uma conquista fundamental para milhares de mulheres, em sua maioria negras, que sustentam suas casas e comunidades com as mãos, os fios e os saberes ancestrais que atravessam gerações. Trata-se de uma reparação simbólica e política, que marca o início de uma nova etapa para essas profissionais: a da reivindicação por direitos reais.

Mas é preciso deixar claro: esse reconhecimento, apesar de histórico, não resolve os problemas estruturais enfrentados pelas trancistas no cotidiano. A informalidade ainda é massiva. A precariedade também.

Trançar é estar horas seguidas em pé, muitas vezes sem pausas, sem ergonomia adequada, sem alimentação garantida. É adoecer com dores musculares, tendinites, varizes e não ter acesso a atendimento médico regular ou benefícios trabalhistas. É trabalhar em casa, dividindo o espaço com filhos pequenos, improvisando berços ao lado da cadeira de trança. É ser artista, psicóloga, educadora — tudo isso num ambiente que raramente é chamado de “profissional”.

Além do desgaste físico e emocional, existe o estigma. Por muito tempo, a atividade foi vista como “bico”, “coisa de quem não tem estudo”, ou “trabalho informal de periferia”. Esse racismo estrutural que desvaloriza o fazer preto, que silencia os saberes afrocentrados, também se manifesta nas ausências do Estado: não há linhas de financiamento específicas para esses negócios, nem políticas de formação técnica acessíveis, nem políticas de saúde do trabalho voltadas à realidade dessas mulheres.

O reconhecimento na CBO precisa ser mais que um selo burocrático. Ele deve abrir caminhos para políticas públicas efetivas: acesso facilitado à formalização, capacitação profissional gratuita, inclusão previdenciária, incentivos para empreendedoras da beleza negra, cuidados com a saúde física e mental dessas profissionais. Precisa ser prioridade nos planos municipais e estaduais de economia criativa, de cultura e de geração de renda.

Também é hora de rever o que se entende por “profissão”. O saber que vem da oralidade, da prática cotidiana e da vivência comunitária precisa ser valorizado tanto quanto aquele que vem da academia. Os saberes se der trancista são ensinados de mãe pra filha, de amiga pra amiga, nas vielas, nos quintais e nos salões. E isso é educação também. Isso é conhecimento.

Reconhecer as trancistas é reconhecer o valor da cultura afro-brasileira, a potência das periferias e a força das mulheres negras que movem o país com suas mãos. É legitimar que fazer trança é mais que estética — é identidade, resistência e construção de futuro.

Hoje, o nome das trancistas está, enfim, no papel. Mas a dignidade do trabalho vai além da formalidade. Exige investimento, cuidado e respeito. Porque trançar é trabalho. E como todo trabalho, merece ser protegido, valorizado e vivido com dignidade.

 

Por Iasmim Moreira

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Opinião

CONAPIR 2025: É hora de romper a narrativa que autoriza a morte de pessoas negras – Por Luciane Reis

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CONAPIR

A Conferência Nacional de Igualdade Racial precisa confrontar o discurso oficial de segurança pública que desumaniza e extermina corpos negros no Brasil.

Enquanto o Brasil se prepara para a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CONAPIR) de 2025, um tema precisa ocupar o centro do debate: como a narrativa oficial sobre segurança pública tem sustentado o genocídio da população negra, especialmente nas periferias urbanas.

Na Bahia, estado com a maior população negra do país, há mais de 30 anos se reforça um discurso de combate ao crime centrado em repressão e militarização. O resultado é conhecido: altíssimos índices de letalidade policial, sobretudo contra jovens negros. Mas o mais alarmante é que essa política vem acompanhada de uma comunicação que normaliza a violência estatal.

A linguagem da “guerra às drogas”, do “confronto” e do “bandido abatido” desumaniza as vítimas e esvazia o debate público. A sociedade é anestesiada por uma narrativa que transforma assassinatos em estatísticas e legitima a violência como forma de controle social.

O silêncio coletivo diante dessas mortes não é natural — ele é construído. É produto de uma comunicação estratégica que define quem deve ser temido, controlado ou eliminado. E os meios de comunicação, ao reproduzirem as versões oficiais sem questionamento, reforçam essa lógica.

A CONAPIR 2025 não pode ignorar esse pacto de silenciamento. Se pretende ser um marco real na promoção da igualdade racial, precisa enfrentar esse modelo de segurança e a forma como ele é comunicado. Isso significa:

  • Exigir uma comunicação pública antirracista, que enfrente os estigmas históricos contra a população negra;
  • Estabelecer protocolos responsáveis para a cobertura midiática de violência, que respeitem os direitos humanos;
  • Apoiar a mídia negra e periférica, que já produz contra-narrativas fundamentais;
  • Revisar as políticas de segurança com foco em cuidado, prevenção e reparação racial, e não em extermínio.

Segurança pública não é sinônimo de controle e morte. É direito à vida com dignidade, especialmente para aqueles que historicamente foram alvos do Estado.

Sem romper com essa narrativa que mata e silencia, não haverá igualdade possível.

A CONAPIR tem a chance de começar esse novo capítulo. Que não seja mais uma conferência de promessas — mas o início de uma reescrita coletiva da história, onde a vida negra não seja exceção, mas regra.

 

Luciane Reis é Comunicóloga, graduada em Publicidade e Propaganda pela UCSAL, especialista em Produção de Conteúdo para Educação e mestra em Desenvolvimento e Gestão pela UFBA e CEO Mercafro

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