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Literatura

O lirismo banto no livro “Kalunga: poemas de um mar sem fim”, de Lande Onawale!

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CAPA KALUNGA

O livro de poesia, Kalunga: poemas de um mar sem fim (2011), do poeta baiano, Lande Onawale, possui, em seus 21 poemas que o compõe, o que posso chamar de lirismo banto, uma força, afã sentimental quimbundo e um pensamento e lembrança banzo-quicongo. Digo isso porque traço a análise de alguns poemas seguindo o rastro da origem das palavras africanas que não são somente signos linguísticos, são energia, ritmo/ritual tambórico, ancestralidade, ato e sentimento negro que vem rasurando a língua portuguesa e a literatura produzida durante todos esses séculos nesse território suspenso, o Brasil.

Já no título do livro, denominado de Kalunga: poemas de um mar sem fim pode-se ver isso, visto que a palavra Kalunga, ou como aparece no Novo dicionário banto no Brasil (2006) de Nei Lopes , Calunga, possui muitos significados, trago apenas dois  que está no dicionário e  que também comungam com o sentido semântico e poético que o poeta traz em seu livro, que são: Kalunga significando (Deus) e (Mar). São dimensões amplificadas dessa palavra, na verdade a própria palavra é a amplidão, como se pode observar nessas duas estrofes do poema épico com o tom de uma elegia negra, que tem a nomeação de Kalunga:

A memória do mar me atravessa

está cravada em mim

como os ferros da grande árvore inesquecível,

são meus  poros,

são as voltas da muzenza contornando os cemitérios

– e, é claro, são mistérios.

(ONAWALE, 2011, p. 47)

O tom banzeiro vai ao longo do poema ganhando mais intensidade, beleza, e uma memória angustiante, aquática, elégica, da tragédia transatlântica que descamba potente nesta outra estrofe:

Balança o mar… balança num jinga interminável

das florestas de Matamba ao serrado do Brasil.

Balança o mar… balança numa dança incansável com o futuro

(exercício da destreza necessária).

Balança o mar… balança…

É o colo de Kayala que me embala,

são os braços da Kyanda

– onde entrego minhas forças para sair tão renovado!

(ONAWALE, 2011, p. 49)

lande_onawale

Foto: André Frutuoso

O lirismo banto é força poética, banzo que vai se espraiando como uma vaga poderosa, uma onda de batuques, gritos, cantos nos versos e prossegue compondo a forma dos poemas, com a beleza poética dos vocábulos bantos, como se nota no trecho do poema KWE ZULU:

quando fecho os meso

uma escuridão me ilumina

e vem do congo, moxicongo

a força que me anima

é por dentro o barravento das palavras

indaka que não se cala

ingoma soando em mim

… vem no vento, sibilando, cada sílaba…

eu, poeta, uma espécie de vodunsi

(olhos de Zambi)

boca de tudo

nada vejo

calo e me curvo de surran pra inspiração (…)

(ONAWALE, 2011, p. 33)

 

Lande Onawale que já carrega no nome a potência simbólica de sua ancestralidade e africanidade, de sua restauração espiritual, que também é semiótica nessa diáspora, no trecho do poema intitulado Letra, explicita já a forma como compõe (a sua Profissão de fé) a qual venho chamando de lirismo banto:

a minha letra dorme em esteira

e como a própria noite

é povoada de ancestres

o sol emerge dos teus murmúrios

contritos

e esta letra incansável

(que come com as mãos)

brilha, brilha, brilha

absurdamente

por dentro de todo cinza

numa perpétua consagração das cores e da natureza.

(ONAWALE, 2011, p. 35)

 

O lirismo banto do poeta Lande Onawale em Kalunga: poemas de um mar sem fim – livro escrito em português e inglês – conflui todos os tempos, é Kitembu. Sopro de inquice que compõe ventos e melodias, pois é ancestre e contemporâneo, denuncia o horror do genocídio e racismo em que vivemos, como demonstra a negrice, o poder, a beleza diversa, encrespada que comporta e consola, nessa diáspora de desespero e banzo,o povo negro.

ONAWALE, Lande. Kalunga: poemas de um mar sem fim. Salvador: Edição do autor, 2011.

LOPES, Nei. Novo Dicionário Banto no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.

 

Davi Nunes

 

 

Texto de Davi Nunes –  Colaborador do Portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil. Confira outros textos do autor aqui. 

Literatura

Larissa Reis lança livro “Dançando com as Estações”

Jamile Menezes

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Além de escritora, Larissa é também uma poeta, pedagoga antirracista,

A escritora soteropolitana, Larissa Reis lançou sua mais recente obra, “Dançando com as Estações: diário poético de um corpo-morada pulsante”, publicado pela editora Ascensão.

A obra narra os momentos poéticos de um corpo feminino negro que dançou ao ritmo das estações, do outono de 2021 ao verão de 2022. Como um escudo de resiliência, autocuidado e autoamor diante do isolamento imposto pela pandemia da Covid-19, Larissa conta aos leitores como enfrentou os longos dias de tristeza e ansiedade através da dança e da poesia, explorando movimentos, sons, cores, ritmos e sentimentos durante as estações vivenciadas.

Além de escritora, Larissa é também uma poeta, pedagoga antirracista, contadora de histórias afro-brasileiras, pesquisadora e doutora em Educação e Contemporaneidade pela UNEB.

“Na obra narro os momentos poéticos do meu processo de dança durante as 4 estações vivenciadas na pandemia ocasionada pela Covid-19, considerando o outono de 2021 ao verão de 2022. Como um escudo de resiliência, autocuidado e autoamor diante do isolamento imposto pela pandemia, eu expresso como foram os meus longos dias de tristeza e ansiedade através da dança e da poesia, explorando movimentos, sons, cores, ritmos e sentimentos durante as estações vivenciadas. Esse livro representa um espelho pra mim. Um mantra. Um registro de que tudo passa e que é importante buscarmos armamentos de resiliência. Na arte da poesia e dança eu encontrei remédio para a minha alma. Como essa obra revela o meu diário poético sobre esses dias vividos, xs leitorxs encontrarão a Larissa como ela é: uma mulher negra intensa, romântica, esperançosa, estrategista e que possui muita fé. Com isso, falo também sobre a ancestralidade que me ampara e me ensina a cada dia que eu não ando só”, diz a autora. 

Sobre ela

Larissa Reis é uma escritora negra, poeta, pedagoga antirracista, contadora de histórias afro-brasileiras, pesquisadora e doutora em Educação e Contemporaneidade pela UNEB. Com uma paixão pela linguagem e pela cultura, ela busca constantemente empoderar e inspirar outros através de suas palavras.

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Literatura

Circuito Letras Pretinhas leva literatura pro Subúrbio

Jamile Menezes

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O Circuito Letras Pretinhas conta com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição.

O Circuito Letras Pretinhas realiza uma programação cultural que envolve  arte e literatura, entre os dias 15 e 30 de maio, que percorrerá bibliotecas comunitárias e escolas públicas do Subúrbio Ferroviário de Salvador. A iniciativa é realizada pelo projeto Calu Brincante (@calubrincante), que conta com coordenação da atriz, escritora e diretora Cássia Valle.

A programação acontece a partir de uma imersão literária na poética da literatura preta infantojuvenil, tomando como base três livros de autoria de Cássia Valle: “Calu, uma menina cheia de histórias”, vencedor do prêmio APCA como melhor livro infantil em 2017, “Aziza, a preciosa contadora de sonhos” e “Felipa, Maria Felipa”. Serão realizadas contações de histórias, leitura dramática, apresentações teatrais e oficinas de escrita criativa e musicalização, sempre integrando os jovens.

O Circuito Letras Pretinhas conta com recursos de acessibilidade em Libras e audiodescrição. A circulação acontece em uma das regiões majoritariamente negras de Salvador e abrange quatro bairros do Subúrbio. O encerramento do projeto contará com uma apresentação do espetáculo “Sarauzinho da Calu”, gratuito e aberto para toda a comunidade local.

“Nossas crianças precisam ter acesso a suas raízes ancestrais, ver representações positivas de sua imagem através de diferentes narrativas. A arte e literatura são grandes ferramentas de transformação neste sentido. De forma lúdica e leve destacamos a beleza da cultura afro-brasileira ao mesmo tempo que usamos uma educação antirracista”, destaca a escritora Cássia Valle, coordenadora do Circuito Letras Pretinhas.

PROGRAMAÇÃO

13/05 (segunda – 9h às 11h ) BIBLIOTECA PAULO FREIRE – ITACARANHA

– Oficina Musicalização

– ⁠Oficina Escrita Criativa

– ⁠Leitura Dramática

16/05 (quinta – 14h às 16h) ESC. COMUNITÁRIA STO. ANTÔNIO – PERIPERI

– Oficina Musicalização

– ⁠Oficina Escrita Criativa

– ⁠Bailinho da Aziza (mini espetáculo teatral)

20/05 (segunda – 9h às 11h ) – ACERVO DA LAJE – ACERVINHO – PLATAFORMA

– Oficina Musicalização

– ⁠Oficina Escrita Criativa

– ⁠Leitura Dramática

23/05 (quinta – 14h às 16h) – CRECHE E ESCOLA MÃE NILDETE – VISTA ALEGRE 

– Oficina Musicalização

– ⁠Oficina Escrita Criativa

– ⁠Mini Recital Maria Felipa

Foto Anderson Moreira

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Literatura

Festa Literária da Praia do Forte trará herança africana na programação

Jamile Menezes

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Festa Literária da Praia do Forte trará herança africana na programação

 

No dia 16 de maio (quinta-feira), começa a 5ª Festa Literária da Praia do Forte, com uma mesa de abertura preta e potente: “Do mar que nos separa à ponte que nos une”. Será às 19 horas, com a participação da cantora e compositora Luedji Luna (BA/SP), da doutora em crítica literária e cultural, Denise Carrascosa (BA) e mediação da doutora em letras e pesquisadoras de autorias negras na literatura, Fernanda Miranda.

A abertura aborda a travessia da cultura brasileira pelo Atlântico, por onde chegaram centenas de escravizados, formando a Bahia e todo o país. A mesa convoca as convidadas para uma conversa sobre a herança africana, expressa na música, na dança, na literatura e também no pensamento crítico brasileiro, formando uma ponte imaginária entre continentes.

Com duração até 19 de maio (domingo), a Festa Literária da Praia do Forte parte do tema Dentro do mar tem rio – narrativas e memórias percorridas pelas águas.  O acesso a toda a programação é gratuito.

Confira aqui: https://www.flipf.com.br/

A FLIPF recebe autores baianos, brasileiros e estrangeiros, que vão se desdobrar em diversas atividades: Mesas literárias, bate papos, lançamentos de livros, oficinas, performances e apresentações artísticas. São dezenas de autores consagrados e iniciantes, de todas as idades.

Vai ter ainda Lívia Natália (BA), Amanda Julieta, Pau de Cabinda (angolano), Ana Fátima e Jorge Augusto, com curadoria também de Anderson Shon.

A partir do tema proposto, “as Mesas irão tratar dessa influência das águas em várias perspectivas desde a compreensão dos oceanos como fronteiras e locais de travessias que constituíram o país até as águas na cosmologia africana e para a astrologia”, explica a curadora do espaço, a jornalista e Doutora em Literatura Edma de Góis.

O Multiverso FLIPF, com curadoria do escritor e poeta Anderson Shon, tem programação dedicada aos jovens, com a realização de bate-papos, lançamentos,  oficinas e Slam, “tornando o espaço um local para o diverso existir… o Multiverso apresentará autores Lgbt’s, Pcd, trans, indígenas, negros, negras, negres,  jovens… a pluralidade também está em seus gêneros, pois passearemos pela poesia, pelo horror, por quadrinhos, games, orixás, origamis… e o bom é que tudo isso cabe no nosso universo, afinal ele é múltiplo, é o Multiverso”, explica Shon.

Passam pelo espaço escritores, ilustradores e artistas como Sued Hosaná, Lorena Ribeiro, Luciene Nascimento, Sofia Oliveira, Ester de Oxum, Ian Fraser, Michelle Oliveira, Dyo, João Mendes, Etiennette Bosetto, Daniel Cesart, além do palestrante Paulo Rogério (único baiano na lista dos 100 futuristas mais importantes de origem africana no mundo), e o escritor angolano Pau de Cabinda, fundador do Afrobooks. O Sarau da Onça também marca presença na 5ª Flipf.

SERVIÇO

5ª FLIPF – Festa Literária Internacional da Praia do Forte

Data: de 16 a 19 de maio (quinta a domingo)

Programação gratuita e espalhada pela vila de pescadores

Site: https://www.flipf.com.br/

Instagram: @flipfoficial

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