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Opinião

#Opinião – Quem é criativa pra você? – Por Mirtes Santa Rosa

Mirtes Santa Rosa

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O que você faz com sua criatividade? Sim, como você usa sua criatividade no seu dia a dia para sua vida ser mais plena, divertida, inusitada, disruptiva e ousada? Acredite, essa pergunta é para você, mas também para mim. Sempre que me encontro em situações inusitadas entendo que a solução está em novos olhares e isso é ser criativo e inovador. Essa resposta no fundo (sem trocadilhos) é bem rasa, mas responde e é de fácil entendimento para uma boa parte das pessoas.

A verdade é que eu só percebi minha criatividade já adulta e após estar formada em Publicidade. Sim, eu já estava formada pelo entendimento do MEC. Como a maioria dos mortais, sempre associei criatividade às pessoas que são artistas, ou àqueles homens – sim, homens – da criação das grandes agências de publicidade. Quando estudei Comunicação, entrei na Ucsal no ano de 2000 D.C, todas as referências de pessoas criativas e legais eram de homens baianos que saíram de Salvador.

Lembrem-se que nesses tempos vivíamos na série Mad Men na publicidade brasileira – ou será que ainda vivemos? – e foram desbravar a Paulicéia desvairada, Sampa, Terra da Garoa (cada um vai chamar São Paulo de uma forma, vai depender de suas referências culturais sobre essa grande metrópole) e retornaram para sua Bahia utópica cheio de histórias maravilhosas, onde a jornada do herói se mistura com um bom roteiro de storytelling que deve ter sido escrito por alguma estagiária ou assistente de atendimento ou produção, que nunca vai conseguir se manifestar por medo de perder a oportunidade de crescimento na empresa.

Espero que tenha valido a pena a não manifestação dessas irmãs de luta e de pertencimento para com a comunicação 20 anos depois. Quem nunca passou por isso, que atire a primeira pedra. Todos, digo todos pelos anos 2000, queriam ser da criação, pois existe um eterno glamour em ser dessa área. São eles que são chamados para resolver os problemas criativos das campanhas e depois serão eles os lembrados no Olimpo do Rio Vermelho, nas associações cuecas que defendem a comunicação em seu clubes criativos e quem sabe em uma boa mesa de algum bar muquifo, caso a empresa tenha algum programa real de diversidade e inclusão.

Eu gosto de ter esperança que o FIES continua fazendo milagres e ajudando meus pares a conhecerem o Subúrbio, a saberem o número do ônibus que pode pegar pra fazer a baldeação e chegar no nosso lindo metrô. Eu tive muitos colegas na faculdade que me perguntavam que ônibus podiam pegar para ir em algum lugar. Eu já era criativa naqueles tempos mas nem me tocava, pois era natural dizer qual ônibus ia fazer o trajeto mais rápido. Sempre fui boa em resolver questões de tempo.

A cultura do homem classe média, branco, cis, normativo fodão daquela sala cheia de criatividade e que apenas alguns podem entrar ainda existe. Eu também já quis ser desse Olimpo, mesmo que fosse apenas em momentos de raiva (eu também já quis ser aceita), pelo não reconhecimento de minha criatividade em administrar o cliente que estava chateado pelo não cumprimento do prazo que algum ser fodão disse na reunião sem ter noção nenhuma real da criação e execução de uma campanha, sem falar na noção de verba (atualmente o termo bonito para ser aceito na rodinha é budget).

Nem faz muito tempo, aconteceu a premiação de uma campanha que participei e só quem foi lembrado na hora dos agradecimentos foram os cuecas. Lembro que no zap zap foi um daqueles dias em que nossas figurinhas falaram por todas nós publiças. Amo a semiótica quando utilizada a favor da ironia e contra o machismo estrutural.

Amo também saber que, quando amadurecemos entendemos que a criatividade existe em todas as pessoas e que esse desejo de validação sobre ser criativo ou criativa pode ser tratado na terapia ou até mesmo com bons xingamentos e pensamentos impróprios sobre como Narciso acha feio o que não é espelho. Somos seres criativos e ponto final, mas essa afirmação eu só consigo fazer sem titubear tem apenas uns 10 anos. Como gosto de negócio, planejamento, gerenciamento, produção, de um brainstorm cheio de risadas e referências que fujam ao meu umbigo e narcisismo, em tempos de discussão sobre o que é sapiossexual, eu preciso de sapioscommunicare pra ganhar tempo na vida, essas características, ou como diz o linkedin, esses interesses transversais da comunicação não são associadas a pessoas criativas.

Como não, produção? Mas, se pergunte como essas características, interesses, competências ou como você queira chamar não são de pessoas criativas? Como podemos ainda ter empresas de comunicação que acham que mulheres não são boas para estarem em todas as áreas dos negócios, para serem lembradas e citadas na hora das premiações. Criatividade é ação, coragem de mudança, de aprender novos formatos, é a capacidade de apresentar ao mundo novas formas de viver e de ser feliz.

Por esse entendimento do que é ser criativa, sempre que alguém me pergunta porque o Umbu Podcast se chama Umbu, eu respondo: Porque eu quis. Se uma das marcas considerada mais inovadora e com valor no planeta Terra pode se chamar maçã, porque eu junto com minha sócia jornalista, produtora cultural e criativíssima, Camilla França, não podemos enaltecer uma das frutas mais gostosas que existem nesta terra chamada Bahia?

Se chama Umbu porque somos ousadas e ao decidirmos empreender na comunicação baiana a nossa habilidade de fazer jambrar o tempo, o trabalho e as risadas precisa de muita criatividade, inovação e principalmente a liberdade de sermos únicas. Alguns podem ao ler esse texto e me dizer que muitas empresas de comunicação possuem mulheres no comando, e para essas pessoas eu faço a seguinte pergunta: quantas dessas mulheres você enxerga como criativa?

 

Mirtes Santa Rosa é publicitária e especialista em Comunicação e Gerenciamento de Marcas também trabalha com planejamento estratégico comunicacional de projetos culturais, no qual pode mesclar suas duas maiores habilidades profissionais: gestão e comunicação. É umas das idealizadoras e apresentadoras do Umbu Podcast.
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#Opinião: Quem são as pombagiras?

Amanda Moreno

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Causou indignação certas declarações feitas por uma senhora há alguns dias. Utilizando as redes sociais para responsabilizar as religiões de matriz africana pelo fenômeno climático extremo no Rio Grande do Sul (RS), ela afirmou que Deus teria descarregado a Sua ira sobre aquele Estado, por este ter a maior quantidade de terreiros do Brasil. Além de desconhecer as previsões científicas, ela também parece ignorar a função das entidades cultuadas nos terreiros, entre elas, as Pombagiras. Laroyê!

Quase sempre associadas por religiões cristofascistas[3] à Magia Obscura, as Pombagiras foram mulheres que jamais se submeteram aos caprichos masculinos. Recentemente, a palestrante espírita Maira Rocha (1988-) descreveu as Pombagiras como mulheres para além da sensualidade simplória, que, mesmo tendo sido assassinadas brutalmente neste plano, baixam nos terreiros para ensinar a autoestima[4]. Em suas giras[5], encontramos ajuda para questões materiais, porém, As Corajosas Senhoras vão além: ensinam-nos a acreditar em nossa Vontade de Potência[6]. Na obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Sarraceni (1951-2015) menciona as Pombagiras como espíritos que despertam o desejo para muito além do sexo, porquanto desejar é Divino, se constitui em uma energia absorvida por todos os nossos chacras e está presente nas realizações humanas.

Portanto, as entidades cultuadas nos terreiros não têm qualquer relação com o ocorrido no RS. Pelo contrário, as Pombagiras são Seres de Luz que entram em nosso caminho para auxiliar, especialmente em situações desafiadoras. Qualquer definição que discrimina essas entidades é racismo religioso e se distancia dos ensinamentos do Mestre Jesus, que, em Sua Encarnação Crística, deixou a Mensagem Maior: amar a todas as pessoas sem qualquer distinção.

[1]Dedico esse artigo a Dona Maria de Padilha.

[2]Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).

[3]O conceito de Cristofascismo foi criado pela teóloga alemã Dorothee Sölle (1929-2003) e descreve a ideologia supremacista branca e cristã.

[4]O vídeo pode ser acessado no link: https://www.youtube.com/watch?v=EeQxtbm5vzQ

[5]Gira ou Jira é termo do quimbundo nijra e significa caminho. Se refere a reunião de espíritos de determinada categoria, manifestados pelo fenômeno da incorporação dos médiuns

[6]Vontade de Potência é termo criado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e indica a força maior presente nos humanos para atingir seus objetivos.

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – Pretas e Pretos-velhos: uma reflexão de Umbanda

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“Saravá, linha do Congo”. Com essa saudação, a Sagrada Umbanda presta reverência às pretas e pretos-velhos. Nesse 13 de maio, saudamos essas entidades espirituais, caracterizadas por sua imensa humildade e sabedoria. Aquele que escuta os Seus ensinamentos acessa a Evolução, deixando de lado a arrogância e abraçando a caridade.

Em sua obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Saraceni (1951-2015) descreve os pretos-velhos como entidades atuantes no Setenário Sagrado, Essência Divina que chega até nós através das Sete Essências Sagradas: Cristalina, Mineral, Vegetal, Ígnea, Eólica, Telúrica e Aquática. Em termos simples, o Setenário se manifesta na terra, na água, no fogo, no ar, nos minerais, nos vegetais e nos cristais. Nada caminha para fora do Setenário Sagrado, porquanto Nele está a Manifestação de Deus que irradia para todo ser vivente.

Ainda conforme o autor, encontramos correlações entre o Setenário Sagrado e os Sete Sentidos da vida: Fé (Essência Cristalina), Amor (Essência Mineral), Conhecimento (Essência Vegetal), Justiça (Essência Ígnea), Lei (Essência Aérea), Razão (Essência Telúrica) e Geração (Essência Aquática). Contemplamos, assim, a vasta sabedoria desse Grau Manifestador do Mistério Divino, denominado preto-velho, haja vista Saraceni descrevê-los como entidades presentes nas Sete Linhas de Umbanda, colaborando para a Evolução Maior.

No entanto, nem sempre pretas e pretos-velhos são pretos ou velhos. Aprendemos com Saraceni que por terem atingido um elevado grau evolutivo, esses espíritos se manifestam em aparência como pretos que foram escravizados, para nos trazer o exemplo da humildade. Paz, tranquilidade, esperança, paciência e perseverança são ensinados por esses Sábios Espíritos, levando cada pessoa a refletir sobre a sua Casa Interna.

Os pretos-velhos estão entre nós para ensinar a fé e a coragem ante as experiências desafiadoras que vivemos. Independente de crença, os Seus conselhos são lições de vida que nos convidam à Sabedoria ante momentos cruciais. “Êpa preto, sinhá”.

 

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – E o teu feminismo, comunidade? É negro mesmo? – por Aline Lisboa

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Práticas de feminismos coloniais são estratégias de divisão para a nossa comunidade. A primeira onda do movimento feminista surge na Inglaterra no final do século XIX, buscando direitos que eram negados às mulheres e concedidos continuamente como forma de privilégio a homens.

O movimento se popularizou com a primeira luta que foi o direito ao voto. As sufragetes, como ficaram conhecidas, encheram as ruas de Londres, foram presas várias vezes, fizeram greve de fome e por fim após a morte de Emily Davison, que se atirou na frente do cavalo do rei, na corrida Derby, esse direito foi conquistado.

O feminismo chega ao Brasil e as sufragetes brasileiras dão início ao movimento em 1910. Assim, em 1932 é promulgado um novo código eleitoral brasileiro, por meio do qual se conquista o direito ao voto das mulheres brasileiras, entretanto mantém-se vetado o direito ao voto de mendigos e ANALFABETOS.

Considerando a primeira Lei da Educação, promulgada em 1837, que proibia negros e negras, ainda que livres, de frequentarem a escola, pode-se dizer que a conquista em 1932 não abarcavm a população de mulheres negras, assim como a de homens negros daquela época, que tinham os seus privilégios na organização social do convívio estrutural, mas com intersecções das relações que também são de raça.

Com a continuidade do movimento, vê-se que há muitas outras lutas com perspectivas que não abarcam as relações de raça e gênero. Urgiu-se, então, a necessidade de tratar dos direitos das mulheres negras, compreendendo as relações de domínio e poder, dentro e fora da comunidade de pessoas negras, pensando assim, as  perspectivas de um feminismo negro.

O feminismo, quando negro, dialoga com as espistemes decoloniais, já que a luta de mulheres brancas não conversa com os esmagamentos sofridos por mulheres negras, assim, como o privilégio de homens brancos são em números, de forma transparente, maiores que o de homens negros.

Tendo assim, nas camadas sociais, homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que trazem consigo lugares de fala, lutas e quando privilégios, diferentes.

Considerando os contextos acima, é importante pensar como o racismo pode atravessar a luta feminista negra, transfigurando-a em um contexto colonial, sendo um enorme fator de divisão na nossa comunidade.

Nós, mulheres negras, irmandade a qual sou pertencente, enfrentamos inúmeros esmagamentos silenciados na luta feminista colonial. Em números alarmantes, os baixos salários, a maternidade solo, o adoecimento físico e mental, a violência obstétrica, a violência sexual, o encarceramento, a marginalização, humilhação e silenciamento são absurdos.

É impossível escrever aqui sobre a necessidade de diálogos do nosso povo, sem dizer que o racismo e o sexismo, atuando juntos, são potentemente destrutivos às vidas de mulheres negras.

Contudo, considera-se importante pensar o atravessamento do racismo ao feminismo colonial, quando as lutas e colocações são atravessadas pelas imagens que controlam a figura de homens negros. A sociedade constrói estereótipos que vem matando aos pouquinhos homens negros todos os dias.

Já escrevi em outro artigo que como educadora, ao conviver com meninos negros, diariamente, os vejo sobrevivendo a um massacre com sorrisos desesperadores no rosto. Se a luta não considera os impactos do racismo ela não é negra, e para mim, nem é luta.

Se o movimento é sobre odiar, perseguir, expor, marginalizar e matar aos poucos os homens negros, esse movimento tem outro nome, é o racismo. A branquitude é firme em averiguar profundamente, perdoar e esquecer com facilidade falhas por vezes absurdas de homens brancos, enquanto relembra, ataca e marca em corpos de homens negros, falhas que por vezes não são nem verdadeiras, pois como já dizia o Ilê Ayiê, “Preto sempre é vilão, até meu bem, provar que não”.

A colonização é estratégica em dividir comunidades que juntas, dialogando, são poderosas no combate. Não podemos deixar que uma luta que nunca dialogou com o lugar das mulheres negras nos sirva para auxiliar a destruição do nosso semelhante.

Que o nosso feminismo seja negro. Defendendo o lugar de fala de mulheres negras, aniquilando qualquer perspectiva construída pelo racismo para qualquer um dos nossos semelhantes dentro da comunidade. O futuro, não está na colônia, o futuro é Sankofa!

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