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#Opinião – Sobre a força da mãe Preta que é Iemanjá. Odoyá! – Por Mirtes Santa Rosa

Mirtes Santa Rosa

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Foto Paula Fróes/GOVBA

 

Dois de fevereiro é dia de Iemanjá.

Hoje parece bem normal escutar essa frase saindo da boca de muitos soteropolitanos, mas faz pouco tempo que, na minha adolescência eu dizia “amanhã vou pra casa de minha avó, pois é dia de Iemanjá” e alguns de meus amigos não davam a mínima. Lembro que para alguns era inclusive festa de preto e pobre. Escutar isso mexia comigo, pois eu olhava pra eles e pra mim e via neles a mesma negritude que estava em mim. Hoje sei que morar em um bairro melhorzinho da cidade é só para os fortes. E minha mãe sempre foi forte.

O mundo podia acabar mas no dia 2 de fevereiro ela ia para a casa da mãe dela, vestida de branco, com os filhos debaixo do braço ensinando sobre ancestralidade, mesmo que não usasse essa palavra. Ela ensinou pelo exemplo e com muita certeza de que sempre fez o seu melhor. Essa data sempre foi um dia alegre, o sorriso desde cedo estava em sua cara. Mainha, que tantas vezes era dura e sem muita conversinha, nunca estava braba nesse dia. O seu lindo sorriso sempre estava estampado no rosto. Ela ia encontrar os seus, ia encontrar os seus que não tinham vergonha de ser quem são. E ela chegava no Buraco Doce cedo, com uma panela enorme de feijão que ela já tinha cozinhado na madrugada.

Sim, a comida chegava com ela. Ela é hoje a matriarca dessa família, mas teve um tempo que ela foi a irmã mais velha que fez Magistério e passou a ter uma vida um pouco melhor. Isso mesmo, estou falando de um lugar onde uma professora de magistério é a pessoa que pode fazer uma panela de 20 litros de feijão da qual muitas vezes uma rua inteira vai comer um pouco. Mainha sempre foi boa de contar histórias. Tomando uma, então, as melhores piadas surgem, o deboche e a ironia, começam a morar nela e é impossível não se divertir ao lado dela.

Foi em muitas festas de Iemanjá que eu aprendi na prática sobre o viver, sobre o respeito dos que vêm antes de nós. Muitas vezes, pra não dizer todas as vezes, pois minha memória pode estar falhando, nesse dia se falava de meu avô, o velho Armando, que morreu bêbado atravessando uma rua do Rio Vermelho quando eu tinha 1 ano. Todos falam que ele gostava do mar, alguns que ele pescava, outras que ele era apenas o amigo dos pescadores que faziam a festa, mas o que eu aprendi nesses dias é que Armando podia ser o que fosse, ele amava seus 13 filhos e, quando a pobreza e miséria não faziam morada em sua cabeça, impedindo seu raciocínio, devido à branquinha que ele tomava muitas, ele era um bom pai.

Foto Paula Fróes GOVBA

 

Mainha hoje diz assim quando fala do meu avó: “Hoje sabemos que o que pai tinha era uma doença. Naquele tempo era difícil não ser tomada pela raiva, mas diante de tanta dificuldade e pobreza ele foi nosso pai. Não podemos ter vergonha dos nossos. Não sabemos como era a vida íntima dele, nem a de mãe”. E quando ela fala íntima, ela quer dizer, de suas angústias, tristezas, desesperos e o que mais se passasse dentro deles, vivendo em um bairro que era considerado na cidade, bairro de veraneio. Onde na rua de cima morava Jorge Amado, mas nas de baixo não tinha saneamento básico.

Parece até piada quando alguém me diz de forma empolgada, “sua família é do Rio Vermelho”, quando estou no meio da conversa e sai o nome do bairro que mainha foi criada. O Rio Vermelho de mainha não foi nem de perto esse bairro que a galera society da cidade ama chamar de seu. Mainha foi criada no Rio Vermelho que sempre fez a festa de Iemanjá. Onde o coletivo das mulheres negras sempre foi o mais forte para que todos pudessem sobreviver e não passar fome.

Foi nessas festas que inúmeras vezes quando chegavamos bem cedo na casa de minha avó, o povo de santo ia buscar suas imagens novas que o talento de restauração de Dona Emília tinha feito mais uma vez brilhar os olhos de quem ia reverenciar a força da Rainha do Mar. Se esse texto estivesse sendo escrito por mainha, ela iria citar toda uma rua, toda sua árvore genealógica, pois apesar de não ter fotos, existe algo que acontece nas casas de preto assim como na festa de Iemanjá, a oralidade resiste.

As histórias são contadas para nunca esquecermos os aprendizados. Para nos dar coragem de viver, mesmo nos dias mais complexos. O exemplo desse orgulho arrasta e frutifica; escolhi essa frase, para dizer que, quando vou à festa de Iemanjá, o que eu vejo são os que vieram antes de mim, que iam pra festa de largo, sambar na areia da praia, depois pro candomblé do finado Álvaro na Canjira, que tinha um Terno da Sereia, na Vasco da Gama ou na festa da finada Luzia, que via seu candomblé na Waldemar Falcão, conhecido como Horto Florestal, varar a noite, sentindo a força da natureza entregando sua cabeça.

Vejo, especialmente, a que chegava com a comida debaixo do braço e ensinou a força da cultura popular resistindo, tendo orgulho de ser filha de lavadeira e de pai alcoólatra, que às vezes era pescador, e sempre entenderam e ensinaram sobre a força da mãe Preta que é Iemanjá. Odoyá!

Mirtes Santa Rosa é publicitária e especialista em Comunicação e Gerenciamento de Marcas também trabalha com planejamento estratégico comunicacional de projetos culturais, no qual pode mesclar suas duas maiores habilidades profissionais: gestão e comunicação. É umas das idealizadoras e apresentadoras do Umbu Podcast. Confira aqui outros artigos de Mirtes.
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#Opinião – O poder transformador de um mentor: minha gratidão ao professor Helio Santos

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Há momentos na vida em que nos deparamos com pessoas que se tornam faróis em nosso caminho, iluminando nossas trajetórias e transformando nossa jornada de maneiras inimagináveis. Para mim, uma dessas figuras é o Professor Helio Santos. Permita-me compartilhar como sua presença impactante moldou minha vida, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Conheci o Professor Helio através do Instituto Cultural Steve Biko, no âmbito do projeto Portas e Mentes Abertas (POMPA). Desde o primeiro encontro, seu comprometimento com a mudança e sua crença no potencial das pessoas, independentemente de suas origens, foram palpáveis. Para alguém como eu, cuja história se originou na Saramandaia, bairro popular de Salvador e sem perspectivas de desenvolvimento e crescimento econômico, suas palavras foram como uma brisa fresca de esperança.

O impacto de Helio na minha experiência pessoal é inestimável. Ele foi um dos primeiros a enxergar além das circunstâncias habituais, acreditando firmemente que eu poderia transcender expectativas e moldar meu próprio destino. Sua mentoria foi um farol em momentos de escuridão, um guia que me ajudou a superar desafios e a abraçar meu potencial.

Entretanto, seu papel transcende o acadêmico. Durante minha jornada acadêmica, do curso de graduação ao mestrado, Helio Santos não foi apenas um educador. Enquanto um mentor ativo, ele continuou desafiando-me a pensar de forma crítica, influenciando meus valores e impulsionando meu desenvolvimento enquanto um ser pensante comprometido com outras convicções e habilidades.

Para alguém como eu, sem uma rede sólida de apoio, sua contribuição foi e é o alicerce que faz toda a diferença. Helio não apenas moldou minha formação acadêmica, sendo um dos meus principais intelectuais do campo econômico. Ele contribuiu significativamente para meu crescimento pessoal. Sua orientação foi a chave que moldou parte da pessoa que sou hoje.

Estamos a menos de uma semana da entrega do título de doutor Honoris Causa ao mesmo, pela Universidade Federal da Bahia. Trata-se de uma honraria concedida a personalidades que se destacaram singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à Humanidade. Sob essa ótica, refletir sobre suas realizações notáveis é um exercício inspirador.

Sua habilidade de caminhar ao lado de mulheres que desafiam e questionam, sem se sentir ameaçado, é admirável e rara. Ele é um verdadeiro exemplo de como transformar força e diversidade feminina em vantagem e elemento que as impulsionam e não que deprecia, feito que admiro profundamente.

Expressar minha gratidão ao Professor Helio Santos é um privilégio. Sua orientação foi fundamental para esculpir um futuro além das expectativas limitadas impostas a uma jovem de Saramandaia, sem redes de suporte. Sou eternamente grata por sua presença em minha jornada, por abrir portas e expandir horizontes.

Neste momento, enquanto expresso minha profunda gratidão, desejo ao Professor Helio Santos sucesso contínuo em todas as suas empreitadas. Sua dedicação incansável à luta pela igualdade e sua influência inspiradora nas vidas daqueles que cruzam seu caminho são uma bússola para um mundo mais justo e inclusivo.

A vida nos presenteia com mentores que nos desafiam e nos capacitam a ser mais do que jamais imaginamos. Helio Santos é um desses presentes em minha vida, e por isso, meu agradecimento é eterno diante desta honraria tão emblemática.

Obrigada por tudo, Professor Helio Santos. Suas contribuições vão além do que palavras podem expressar.

Luciane Reis é publicitária, especialista em educação digital pela Faculdade de Educação da UFBA e mestra pela Faculdade de Administração da UFBA. Teve no professor Helio Santos, a partir do POMPA, um aliado em suas diferentes caminhadas.

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#Opinião – De onde vem e para onde vão os corpos negros executados na Bahia? – Por Aline Lisbôa

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No Brasil, o racismo aniquila vidas de forma sistemática todos os dias, ou pior, todas as horas. Desde que esse território foi invadido e se tornou Brasil, exterminar gente preta faz parte dessa história. Na Bahia, os altos índices de assassinatos – cerca de 97,9% dos casos são de vítimas negras – tem um significado ainda mais profundo se consideradas as teorias de marginalização da raça, difundidas por Raimundo Nina Rodrigues, de quem o Instituto Médico Legal (IML) herdou o nome.

Além de todo o processo histórico de colonização e escravização de pessoas negras no Brasil, contextualizado pelo conceito de raça e teorias etnocêntricas da branquitude, aqui na Bahia, no século XIX, difundiu-se também o racismo científico, que teoriza, sem nenhum fundamento comprobatório, a marginalização e inferioridade da raça negra e até mesmo destacava, através da medicina legal, que as diferentes raças deveriam ser um fator de responsabilidade penal.

Um dos principais percursores do racismo científico no Brasil, sobretudo na Bahia, foi Nina Rodrigues. Como membro da Escola Tropicalista Baiana, onde desenvolveu as suas conjecturas racistas, sem nenhum fundamento concludente, o médico maranhense, elaborou teorias antropológicas pautadas na inferioridade do negro.  Nina também acreditava na mestiçagem como um processo de degradação da sociedade em um futuro distante.

Entretanto, a mais violenta das suas teorias foi fundamentada através da medicina legal, caracterizando a raça supostamente inferior como imatura e violenta, estando assim, mais propícia à criminalidade e sugerindo que se as raças variam, o conceito de crime também se torna relativo.

Os corpos negros executados na Bahia vem deste racismo científico, que alimentou o racismo estrutural no Brasil.

Mesmo sem fundamento algum, os escritos do médico racista eram de bastante prestígio aqui no Brasil, lastreando esse conhecido racismo estrutural que no nosso dia a dia marginaliza a população negra nas ruas da Bahia e de todo o país.  Esse racismo científico do século XIX reflete na estrutura da sociedade atual, que cotidianamente expõe negros e negras a atos vexatórios, através de acusações, falsas suspeitas, abordagens violentas e desproporcionais, tirando-nos, por fim, o direito de ir e vir e à própria vida, matando violentamente negros todos os dias.

A teoria assusta, mas a prática de extermínio da população negra nos becos e vielas do estado é naturalizada a ponto de o Instituto Médico Legal, para onde serão levados esses copos, animalizados, com raízes na teoria de Nina Rodrigues, carregar o seu nome.

Em 2022, a Defensoria Pública do Estado, contra o racismo estrutural, pediu mudança do nome do Instituto, um espaço a serviço da população baiana, que carrega o nome de um indivíduo autodeclarado racista pela suas produções anti-intelectuais de grande impacto negativo à comunidade negra. Aguardamos respostas.

CONTRA O RACISMO ESTRUTURAL QUE TOMBA OS NOSSOS, NENHUM PASSO ATRÁS!

Aline Lisbôa, mulher negra, mãe solo, defensora das possibilidades acadêmicas de mães negras, graduanda em Pedagogia- UNEB, pesquisadora em Racismo Estrutural, Educação e Relacões Étnico Raciais e Letramento Racial.

 

 

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#Opinião – Nós, LGBTQIAPN+, existimos! – Por Laina Crisóstosmo

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Ser LGBTQIAPN+ nunca foi seguro, mas nos últimos tempos tem sido ainda mais assustador perceber e sentir o ódio e a vontade que eles tem de nos exterminar. Falam de religião, Bíblia, Deus, amor, mas pregam “cura” para o que não é doença, ou naturalizam nossas violência e morte .

Nossos direitos ainda são muito recentes e é possível listar cada um deles:

1. Retirada do CID que nossa orientação sexual como doença (homossexualismo) da Classificação Internacional de Doenças pela OMS em 1990
2. Tentativa de aprovação do Projeto de Lei 122/2006 que visava criminalizar a LGBTfobia, proposta por Iara Bernardi (PT-SP),
3. Proposta de casamento homoafetivo por Clodovil com o PL 580 em 2007
4. Conquista da União estável 2011 pelo STF
5. Casamento civil equiparado ao casamento previsto no Código Civil em 2013 também pelo STF
6. Conquista do direito ao uso do Nome social em 2016
7. Tipificação do crime de estupro corretivo, crime patricado especialmente contra mulheres lésbicas e pessoas trans como forma de “cura” em 2018 com a Lei de Importunação Sexual
8. Aprovação da Lei de Criminalização da LGBTfobia em 2019 no STF mais uma vez colocando o crime dentro da Lei 7716/89, Lei CAÓ (lei que prevê o crime de racismo)
9. Direito a Doação de sangue por pessoas LGBTQIAPN+ em 2021 em especial para homens gays e pessoas trans e travestis

Parece muito, mas ainda lutamos todos os dias para provar que não só existimos, resistimos, mas que precisamos de políticas públicas, direitos e acessos. Nessa semana estive em Brasília e foi assustador perceber o quanto os fundamentalistas e facistas nos odeiam, sentir isso na pele, nos olhares, nas falas, ver a deputada federal lésbica Daiana Santos adoecer após ataques e precisar fazer uma cirurgia de urgência foi entender o que nos espera mesmo com a derrota de Bolsonaro. A politica dele ainda está extremamente presente em todas as casas legislativas do Brasil e em especial no Congresso Nacional.

A comissão da previdência, assistência social, infância, adolescência e família decidiu derrubar o direito ao casamento LGBTQIAPN+ e isso tem nos movido para algo que é ou deveria ser óbvio: NENHUM DIREITO A MENOS! Imagine desde 2011 nossas famílias podem ser oficializadas e desde então somos mais de 80 mil famílias em todo o Brasil (dados de 2021), de acordo com pesquisas mais de 51% da população brasileira concorda com o casamento civil homoafetivo.

Mas no último dia 19 de setembro o que vimos foi um show de horrores, transfobia, LGBTfobia, violência, ameaças, deboche, desdém com direito ao uso da Bíblia para dizer o que é família, utilização de falas sobre sexo biológico, violação da lei que criminaliza LGBTfobia desde 2019. Estar lá me fez ter medo, ter crise de ansiedade, ter angústia, mas também ter certeza de que nós existimos e TUDO QUE NÓS TEM É NÓS!

Conseguimos suspender a votação, garantimos que no próximo dia 26 de setembro haverá uma audiência pública sobre o tema e no dia 27 de setembro provavelmente será votado. Certamente perderemos, temos poucos dos nossos, mas que são fundamentais para saber quem está do nosso lado e entender que o #OAmorVence, tem vencido e seguirá vencendo!

Passará pela comissão, depois precisa ir ao plenário da Câmara Federal, depois Senado e se passar por tudo isso com aprovação ainda tem a possibilidade do veto de Lula, então nossas famílias vencerão e seguirão a existir, é preciso ter esperança e união entre nós!

O amor vencerá e nós seguiremos lutando na coletividade!

Laina Crisóstomo
Mulher negra, lésbica, gorda, filiada ao PSOL, mãe, candomblecista, antiproibicionista, advogada feminista e popular, fundadora da ONG TamoJuntas, co vereadora na Mandata Coletiva Pretas Por Salvador e procuradora parlamentar da Mulher da Câmara Municipal de Salvador.

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