Connect with us

Artigos

#Opinião – A festa acabou, mas qual é seu balanço do Carnaval? – Por Mirtes Santa Rosa

Mirtes Santa Rosa

Publicado

on

Carnaval acabou! Alguns dirão que o ano vai começar agora, outros já desejam que o ano acabe. Essa perspectiva de começo de ano, apesar de ser cultural, reflete muito nossa desigualdade social. E, se tem carnaval nessa cidade, a luta por democracia e reparação não fica de fora e nem espera a próxima segunda para refletirmos sobre ela. A cidade é dinâmica, assim como a maior festa de rua do país.

Findada a festa de Momo, na quarta-feira de Cinzas, surgem os balanços de como a festa foi grandiosa e deu certo. Que no próximo ano será ainda maior. Que o circuito do Campo Grande não morreu. Se tiver atrações, as pessoas vão. Essas notícias dividem espaço no noticiário com a Igreja Católica que nos lembra que começou a Campanha da Fraternidade e que nosso irmão precisa de cuidado e atenção, pois a fome não espera. A fome não espera e é no carnaval que vimos muita fome e discrepância de realidade. Vocês viram o valor do cachê de Gisele Bündchen e o valor da diária pago para a mulher de serviços gerais no mesmo camarote na Sapucaí? Aqui em Salvador deve acontecer a mesma coisa.

Muitas celebridades tiktoker estavam curtindo Salvador. Qual deve ter sido o cachê dessas pessoas que nada sabem de um carnaval raiz nessa cidade cheia de suingue, molejo e cor? Que ficaram dentro do camarote mais caro da cidade onde as pessoas saem escoltadas para entrarem em suas vans e irem para suas casas ou hotéis? Concordo com esse balanço que os órgãos oficiais realizam, mesmo algumas vezes duvidando dos números da violência. Em tempos em que o celular foi item indispensável nas pochetes coloridas do folião, quando chegamos em casa após um dia de festa e entramos em nossos perfis nas redes sociais percebemos que não vimos muita coisa, enquanto pulávamos atrás do trio.

E é graças a esse monitoramento não oficial que acontece, pois em qualquer momento podemos estar sendo gravados, que  na quarta-feira pós carnaval falamos sobre violência contra a mulher nas redes socais com inúmeras análises sobre esse tema e depredação do bem público. Esses assuntos, pelo que me lembre, nunca foram tão comentados como este ano, após o carnaval. Os foliões do bloco As Muquiranas com suas ações sem limites por dois dias seguidos nos trouxeram mais uma vez a necessidade de reflexão sobre se no carnaval tudo pode. Acredito que no carnaval nem tudo pode.

A lei deve ser cumprida e os órgãos públicos têm obrigação de tentar identificar os elementos que causaram prejuízos, principalmente os danos emocionais para aquela mulher que se viu gravada em um momento de terror e medo em vídeos nas redes sociais da violência que sofreu. Não é novidade que muitos foliões acham que as mulheres que estão no carnaval não devem ser respeitadas, que o bloco As Muquiranas todos os anos é pauta com esse assunto da violência. Mas a pergunta que não quer calar é: neste novo ano que muitos acham que começa hoje pós quarta de cinzas, o que vamos fazer para proteger as mulheres que ousam ir para o carnaval?

E os balanços da festa serão resumidos aos números da polícia sobre violência? Como cidadã desejo novas análises sociais, culturais e econômicas sobre a festa. Quero saber sobre a economia do trabalho que acontece nesses dias de festa. Quero saber sobre a revolta dos cordeiros e, se, realmente, estamos protegendo esses trabalhadores. Quero saber qual foi a quantidade real das latinhas que foram catadas e qual o valor pago para esse trabalhadores nos pontos de reciclagem? Quero, desde já, saber por que a mobilidade nessa cidade não encontra solução mínima e respeitosa no carnaval? Qual foi o real valor de investimento das grandes marcas na festa? Qual o valor de ISS arrecadado nesse período? Quero saber qual o valor investido em atrações nos circuitos alternativos da cidade. Quero saber até quando vamos tratar os blocos afro sem destaque no resumo do carnaval? Salvador não é a capital afro? Vi essa frase estampada até no Curuzu, mas depois não vi o Curuzu no resumo do carnaval das TVs comerciais.

E já que muitos que fazem a festa vão descansar para começarem o ano na próxima segunda, e nas suas resenhas o importante é que Anitta falou que o prefeito é desejável (existem controvérsias sobre o gosto de Anitta em muitos grupos de zap). Eu que já comecei meu novo ano faz tempo, deixo aqui de forma simples essas minhas indagações e reflexões sociais, inclusivas e democráticas para o carnaval 2024. E se você leitor é dos que não acreditam que no carnaval devemos avaliar questões sociais, econômicas, inclusivas e democráticas penso que tá na hora de estudar um pouco mais sobre as festas da Bahia neste novo ano que começa pra você. Essa pode ser um meta interessante para alcançar em 2023.

Mirtes Santa Rosa é publicitária e especialista em Comunicação e Gerenciamento de Marcas também trabalha com planejamento estratégico comunicacional de projetos culturais, no qual pode mesclar suas duas maiores habilidades profissionais: gestão e comunicação. É umas das idealizadoras e apresentadoras do Umbu Podcast. Confira aqui outros artigos de Mirtes.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Artigos

#Opinião – O poder transformador de um mentor: minha gratidão ao professor Helio Santos

Avatar

Publicado

on

Há momentos na vida em que nos deparamos com pessoas que se tornam faróis em nosso caminho, iluminando nossas trajetórias e transformando nossa jornada de maneiras inimagináveis. Para mim, uma dessas figuras é o Professor Helio Santos. Permita-me compartilhar como sua presença impactante moldou minha vida, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Conheci o Professor Helio através do Instituto Cultural Steve Biko, no âmbito do projeto Portas e Mentes Abertas (POMPA). Desde o primeiro encontro, seu comprometimento com a mudança e sua crença no potencial das pessoas, independentemente de suas origens, foram palpáveis. Para alguém como eu, cuja história se originou na Saramandaia, bairro popular de Salvador e sem perspectivas de desenvolvimento e crescimento econômico, suas palavras foram como uma brisa fresca de esperança.

O impacto de Helio na minha experiência pessoal é inestimável. Ele foi um dos primeiros a enxergar além das circunstâncias habituais, acreditando firmemente que eu poderia transcender expectativas e moldar meu próprio destino. Sua mentoria foi um farol em momentos de escuridão, um guia que me ajudou a superar desafios e a abraçar meu potencial.

Entretanto, seu papel transcende o acadêmico. Durante minha jornada acadêmica, do curso de graduação ao mestrado, Helio Santos não foi apenas um educador. Enquanto um mentor ativo, ele continuou desafiando-me a pensar de forma crítica, influenciando meus valores e impulsionando meu desenvolvimento enquanto um ser pensante comprometido com outras convicções e habilidades.

Para alguém como eu, sem uma rede sólida de apoio, sua contribuição foi e é o alicerce que faz toda a diferença. Helio não apenas moldou minha formação acadêmica, sendo um dos meus principais intelectuais do campo econômico. Ele contribuiu significativamente para meu crescimento pessoal. Sua orientação foi a chave que moldou parte da pessoa que sou hoje.

Estamos a menos de uma semana da entrega do título de doutor Honoris Causa ao mesmo, pela Universidade Federal da Bahia. Trata-se de uma honraria concedida a personalidades que se destacaram singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à Humanidade. Sob essa ótica, refletir sobre suas realizações notáveis é um exercício inspirador.

Sua habilidade de caminhar ao lado de mulheres que desafiam e questionam, sem se sentir ameaçado, é admirável e rara. Ele é um verdadeiro exemplo de como transformar força e diversidade feminina em vantagem e elemento que as impulsionam e não que deprecia, feito que admiro profundamente.

Expressar minha gratidão ao Professor Helio Santos é um privilégio. Sua orientação foi fundamental para esculpir um futuro além das expectativas limitadas impostas a uma jovem de Saramandaia, sem redes de suporte. Sou eternamente grata por sua presença em minha jornada, por abrir portas e expandir horizontes.

Neste momento, enquanto expresso minha profunda gratidão, desejo ao Professor Helio Santos sucesso contínuo em todas as suas empreitadas. Sua dedicação incansável à luta pela igualdade e sua influência inspiradora nas vidas daqueles que cruzam seu caminho são uma bússola para um mundo mais justo e inclusivo.

A vida nos presenteia com mentores que nos desafiam e nos capacitam a ser mais do que jamais imaginamos. Helio Santos é um desses presentes em minha vida, e por isso, meu agradecimento é eterno diante desta honraria tão emblemática.

Obrigada por tudo, Professor Helio Santos. Suas contribuições vão além do que palavras podem expressar.

Luciane Reis é publicitária, especialista em educação digital pela Faculdade de Educação da UFBA e mestra pela Faculdade de Administração da UFBA. Teve no professor Helio Santos, a partir do POMPA, um aliado em suas diferentes caminhadas.

Continue Reading

Artigos

#Opinião – De onde vem e para onde vão os corpos negros executados na Bahia? – Por Aline Lisbôa

Avatar

Publicado

on

No Brasil, o racismo aniquila vidas de forma sistemática todos os dias, ou pior, todas as horas. Desde que esse território foi invadido e se tornou Brasil, exterminar gente preta faz parte dessa história. Na Bahia, os altos índices de assassinatos – cerca de 97,9% dos casos são de vítimas negras – tem um significado ainda mais profundo se consideradas as teorias de marginalização da raça, difundidas por Raimundo Nina Rodrigues, de quem o Instituto Médico Legal (IML) herdou o nome.

Além de todo o processo histórico de colonização e escravização de pessoas negras no Brasil, contextualizado pelo conceito de raça e teorias etnocêntricas da branquitude, aqui na Bahia, no século XIX, difundiu-se também o racismo científico, que teoriza, sem nenhum fundamento comprobatório, a marginalização e inferioridade da raça negra e até mesmo destacava, através da medicina legal, que as diferentes raças deveriam ser um fator de responsabilidade penal.

Um dos principais percursores do racismo científico no Brasil, sobretudo na Bahia, foi Nina Rodrigues. Como membro da Escola Tropicalista Baiana, onde desenvolveu as suas conjecturas racistas, sem nenhum fundamento concludente, o médico maranhense, elaborou teorias antropológicas pautadas na inferioridade do negro.  Nina também acreditava na mestiçagem como um processo de degradação da sociedade em um futuro distante.

Entretanto, a mais violenta das suas teorias foi fundamentada através da medicina legal, caracterizando a raça supostamente inferior como imatura e violenta, estando assim, mais propícia à criminalidade e sugerindo que se as raças variam, o conceito de crime também se torna relativo.

Os corpos negros executados na Bahia vem deste racismo científico, que alimentou o racismo estrutural no Brasil.

Mesmo sem fundamento algum, os escritos do médico racista eram de bastante prestígio aqui no Brasil, lastreando esse conhecido racismo estrutural que no nosso dia a dia marginaliza a população negra nas ruas da Bahia e de todo o país.  Esse racismo científico do século XIX reflete na estrutura da sociedade atual, que cotidianamente expõe negros e negras a atos vexatórios, através de acusações, falsas suspeitas, abordagens violentas e desproporcionais, tirando-nos, por fim, o direito de ir e vir e à própria vida, matando violentamente negros todos os dias.

A teoria assusta, mas a prática de extermínio da população negra nos becos e vielas do estado é naturalizada a ponto de o Instituto Médico Legal, para onde serão levados esses copos, animalizados, com raízes na teoria de Nina Rodrigues, carregar o seu nome.

Em 2022, a Defensoria Pública do Estado, contra o racismo estrutural, pediu mudança do nome do Instituto, um espaço a serviço da população baiana, que carrega o nome de um indivíduo autodeclarado racista pela suas produções anti-intelectuais de grande impacto negativo à comunidade negra. Aguardamos respostas.

CONTRA O RACISMO ESTRUTURAL QUE TOMBA OS NOSSOS, NENHUM PASSO ATRÁS!

Aline Lisbôa, mulher negra, mãe solo, defensora das possibilidades acadêmicas de mães negras, graduanda em Pedagogia- UNEB, pesquisadora em Racismo Estrutural, Educação e Relacões Étnico Raciais e Letramento Racial.

 

 

Continue Reading

Artigos

#Opinião – Nós, LGBTQIAPN+, existimos! – Por Laina Crisóstosmo

Avatar

Publicado

on

Ser LGBTQIAPN+ nunca foi seguro, mas nos últimos tempos tem sido ainda mais assustador perceber e sentir o ódio e a vontade que eles tem de nos exterminar. Falam de religião, Bíblia, Deus, amor, mas pregam “cura” para o que não é doença, ou naturalizam nossas violência e morte .

Nossos direitos ainda são muito recentes e é possível listar cada um deles:

1. Retirada do CID que nossa orientação sexual como doença (homossexualismo) da Classificação Internacional de Doenças pela OMS em 1990
2. Tentativa de aprovação do Projeto de Lei 122/2006 que visava criminalizar a LGBTfobia, proposta por Iara Bernardi (PT-SP),
3. Proposta de casamento homoafetivo por Clodovil com o PL 580 em 2007
4. Conquista da União estável 2011 pelo STF
5. Casamento civil equiparado ao casamento previsto no Código Civil em 2013 também pelo STF
6. Conquista do direito ao uso do Nome social em 2016
7. Tipificação do crime de estupro corretivo, crime patricado especialmente contra mulheres lésbicas e pessoas trans como forma de “cura” em 2018 com a Lei de Importunação Sexual
8. Aprovação da Lei de Criminalização da LGBTfobia em 2019 no STF mais uma vez colocando o crime dentro da Lei 7716/89, Lei CAÓ (lei que prevê o crime de racismo)
9. Direito a Doação de sangue por pessoas LGBTQIAPN+ em 2021 em especial para homens gays e pessoas trans e travestis

Parece muito, mas ainda lutamos todos os dias para provar que não só existimos, resistimos, mas que precisamos de políticas públicas, direitos e acessos. Nessa semana estive em Brasília e foi assustador perceber o quanto os fundamentalistas e facistas nos odeiam, sentir isso na pele, nos olhares, nas falas, ver a deputada federal lésbica Daiana Santos adoecer após ataques e precisar fazer uma cirurgia de urgência foi entender o que nos espera mesmo com a derrota de Bolsonaro. A politica dele ainda está extremamente presente em todas as casas legislativas do Brasil e em especial no Congresso Nacional.

A comissão da previdência, assistência social, infância, adolescência e família decidiu derrubar o direito ao casamento LGBTQIAPN+ e isso tem nos movido para algo que é ou deveria ser óbvio: NENHUM DIREITO A MENOS! Imagine desde 2011 nossas famílias podem ser oficializadas e desde então somos mais de 80 mil famílias em todo o Brasil (dados de 2021), de acordo com pesquisas mais de 51% da população brasileira concorda com o casamento civil homoafetivo.

Mas no último dia 19 de setembro o que vimos foi um show de horrores, transfobia, LGBTfobia, violência, ameaças, deboche, desdém com direito ao uso da Bíblia para dizer o que é família, utilização de falas sobre sexo biológico, violação da lei que criminaliza LGBTfobia desde 2019. Estar lá me fez ter medo, ter crise de ansiedade, ter angústia, mas também ter certeza de que nós existimos e TUDO QUE NÓS TEM É NÓS!

Conseguimos suspender a votação, garantimos que no próximo dia 26 de setembro haverá uma audiência pública sobre o tema e no dia 27 de setembro provavelmente será votado. Certamente perderemos, temos poucos dos nossos, mas que são fundamentais para saber quem está do nosso lado e entender que o #OAmorVence, tem vencido e seguirá vencendo!

Passará pela comissão, depois precisa ir ao plenário da Câmara Federal, depois Senado e se passar por tudo isso com aprovação ainda tem a possibilidade do veto de Lula, então nossas famílias vencerão e seguirão a existir, é preciso ter esperança e união entre nós!

O amor vencerá e nós seguiremos lutando na coletividade!

Laina Crisóstomo
Mulher negra, lésbica, gorda, filiada ao PSOL, mãe, candomblecista, antiproibicionista, advogada feminista e popular, fundadora da ONG TamoJuntas, co vereadora na Mandata Coletiva Pretas Por Salvador e procuradora parlamentar da Mulher da Câmara Municipal de Salvador.

Continue Reading
Advertisement
Vídeo Sem Som

EM ALTA