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#Opinião – Minha preta/meu preto, a quantas anda seu racismo internalizado? – Por Sérgio Barreto

Jamile Menezes

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Falamos muito do racismo enquanto ideologia em uma sociedade que, de forma sistemática, discrimina os indivíduos de acordo com a raça. E a depender do grupo ao qual pertença estes podem obter desvantagens ou privilégios. Então, o racismo pode ser entendido como uma estrutura de dominação e poder que tem como base julgar, a partir do fenótipo, as caraterísticas psicológicas, físicas, intelectuais e culturais como inferiores em alguns grupos. Usando como referência o grupo dos brancos.

Mas será que nós, pessoas negras, internalizamos o racismo a ponto de fazer mal a nós e também aos nossos?

A resposta é sim!

Lembro que certa vez atendendo uma mulher preta em processo de crises de ansiedade e depressão, em determinado momento da sessão ela fala “Como é difícil estar dentro de mim!”. Talvez para alguns terapeutas isso seria analisado pelo prisma das psicopatologias que foi diagnosticada e medicada. No entanto, pensar numa clínica racializada é, dentre outras coisas, pensar aquela pessoa negra dentro de uma sociedade racista e como isso colabora para seu adoecimento mental.

Em 1952 Frantz Fanon, um dos primeiros pesquisadores pretos a observar o sofrimento mental da população negra, identificou que indivíduos dessa população oprimida desenvolviam uma assimilação do racismo, ao qual ele chamou de internalização ou epidermização da inferioridade. A esse processo chamamos atualmente de racismo internalizado. Diz respeito a um processo de aprendizagem de percepções distorcidas e inferiorizantes sobre o próprio indivíduo e seu grupo racial, cujo resultado é sofrimento psíquico. (ARAÚJO; XAVIER; SOUSA; VICHI, 2022).

Para compreender melhor temos que perceber que o racismo é estrutural em nossa sociedade e muitas vezes nos atravessa e estrutura nossa subjetividade.

Doutor Silvio Almeida (2021) no livro “Racismo Estrutural”, da coleção Feminismos Plurais, fala sobre esse racismo estrutural enquanto “… conjunto de práticas discriminatórias, institucionais, históricas, culturais dentro de uma sociedade que frequentemente privilegia algumas raças em detrimento de outras.”.

É o racismo que ultrapassa a relação social e que serve de base para estruturar uma sociedade onde historicamente se favorece determinado grupo racial (pessoas brancas), desfavorecendo negros e indígenas. A concepção de superioridade de uma raça em relação a outras foi, e ainda é, o pilar que sustenta o processo de hierarquização social em nossa sociedade.

Mas esse processo não começou da noite para o dia. A colonização e a escravidão possuem influência direta em tal construção.

Lembremos que desde a colonização os povos originários, e posteriormente os negros africanos, sofreram diversos tipos de violência pelos colonizadores. Nosso país invadido (não houve essa história de descobrimento) desde início se tornou um ambiente nocivo para minorias sociais. Pensamos muito na questão de colonização no sentido de controle de terras e corpos, mas isso foi além.

Digo que nossa subjetividade foi colonizada quando escravizaram os povos originários e sequestraram os africanos de sua terra; quando reprimiram e diminuíram nossas manifestações de cultura, história, linguagem, educação e crenças religiosas; quando nos impuseram uma estética física como sendo a ideal; quando nos tornamos objetos que poderiam ser vendidos, alugados, doados ou emprestados; quando fomos violentados física e emocionalmente de forma constante; quando a forma de nos conectar com nossas divindades foi considerada como bruxaria, feitiçaria e adoração ao diabo (lembrando que essa figura é uma construção do cristianismo).

Podemos ir além do que disse acima. Nossa subjetividade foi colonizada quando houve a dita “abolição” e nos foi negado o direito de ter posses, educação ou outro dispositivo que pudesse auxiliar no alavancar de nossas potencialidades; quando o governo estimulou a entrada de imigrantes como mão de obra especializada, dando terras e os fazendo ocupar os postos mais elevados da sociedade, além de tentar fazer o embranquecimento da população.

Quando ao longo do tempo leis foram criadas pra coibir manifestações como a capoeira e os cultos de matriz afro diaspórica e indígena, determinando como e o que deveria ser cultuado; quando até hoje temos menos acesso a educação e saúde de qualidade, a posições mais elevadas no mundo profissional e quando são nossos corpos que continuam sendo mortos.

Entendamos que toda essa história que vai passando de geração após geração culmina na ocorrência de pensamentos distorcidos sobre nós (meu cabelo é ruim; sou burro; nunca vou conseguir nada na vida; olha esse nariz; só podia ser coisa de gente preta; por exemplo) e crenças de desvalor (não tenho valor), desamparo (não consigo fazer nada direito) e desamor (nunca serei amada(o) ou para ser amada(o) tenho que parecer branca(o)).

Todo esse processo pode ser mudado. Obviamente que são necessárias ações macro e micro pra isso. Possibilidades de cuidados individuais e coletivos. Cito como exemplo uma política pública de saúde e educação mais efetiva para essa população socialmente desfavorecida; estímulo à criação de grupos e coletivos que estimulem a auto estima e o sentimento de pertença desses indivíduos.

Na psicoterapia, o manejo deve pode começar com a identificação das violências e micro violências que passamos e naturalizamos muitas vezes; com o estímulo e auxílio da construção de um novo olhar sobre si e sobre os seus, dentre outras intervenções.

É preciso repensar nossa existência de forma a entendermos o passado de dor, mas também a força dos quilombos; o resgate da força de nossa ancestralidade e história africana/indígena e todos os conhecimentos e conquistas que tiveram. Reafirmar a beleza que existe em nossos corpos diversos e mostrar o orgulho que temos em sermos sim diferentes e belos. E quem sabe assim poderemos ter no futuro uma sociedade com mais equidade.

Sérgio Barreto é psicólogo, negro, gay e macumbeiro. Apaixonado por seres humanos.|sergio_psy@hotmail.com|@sergiobarreto_psicologo

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#Opinião: Quem são as pombagiras?

Amanda Moreno

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Causou indignação certas declarações feitas por uma senhora há alguns dias. Utilizando as redes sociais para responsabilizar as religiões de matriz africana pelo fenômeno climático extremo no Rio Grande do Sul (RS), ela afirmou que Deus teria descarregado a Sua ira sobre aquele Estado, por este ter a maior quantidade de terreiros do Brasil. Além de desconhecer as previsões científicas, ela também parece ignorar a função das entidades cultuadas nos terreiros, entre elas, as Pombagiras. Laroyê!

Quase sempre associadas por religiões cristofascistas[3] à Magia Obscura, as Pombagiras foram mulheres que jamais se submeteram aos caprichos masculinos. Recentemente, a palestrante espírita Maira Rocha (1988-) descreveu as Pombagiras como mulheres para além da sensualidade simplória, que, mesmo tendo sido assassinadas brutalmente neste plano, baixam nos terreiros para ensinar a autoestima[4]. Em suas giras[5], encontramos ajuda para questões materiais, porém, As Corajosas Senhoras vão além: ensinam-nos a acreditar em nossa Vontade de Potência[6]. Na obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Sarraceni (1951-2015) menciona as Pombagiras como espíritos que despertam o desejo para muito além do sexo, porquanto desejar é Divino, se constitui em uma energia absorvida por todos os nossos chacras e está presente nas realizações humanas.

Portanto, as entidades cultuadas nos terreiros não têm qualquer relação com o ocorrido no RS. Pelo contrário, as Pombagiras são Seres de Luz que entram em nosso caminho para auxiliar, especialmente em situações desafiadoras. Qualquer definição que discrimina essas entidades é racismo religioso e se distancia dos ensinamentos do Mestre Jesus, que, em Sua Encarnação Crística, deixou a Mensagem Maior: amar a todas as pessoas sem qualquer distinção.

[1]Dedico esse artigo a Dona Maria de Padilha.

[2]Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).

[3]O conceito de Cristofascismo foi criado pela teóloga alemã Dorothee Sölle (1929-2003) e descreve a ideologia supremacista branca e cristã.

[4]O vídeo pode ser acessado no link: https://www.youtube.com/watch?v=EeQxtbm5vzQ

[5]Gira ou Jira é termo do quimbundo nijra e significa caminho. Se refere a reunião de espíritos de determinada categoria, manifestados pelo fenômeno da incorporação dos médiuns

[6]Vontade de Potência é termo criado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e indica a força maior presente nos humanos para atingir seus objetivos.

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – Pretas e Pretos-velhos: uma reflexão de Umbanda

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“Saravá, linha do Congo”. Com essa saudação, a Sagrada Umbanda presta reverência às pretas e pretos-velhos. Nesse 13 de maio, saudamos essas entidades espirituais, caracterizadas por sua imensa humildade e sabedoria. Aquele que escuta os Seus ensinamentos acessa a Evolução, deixando de lado a arrogância e abraçando a caridade.

Em sua obra As Sete Linhas de Umbanda: a religião dos mistérios, o sacerdote Rubens Saraceni (1951-2015) descreve os pretos-velhos como entidades atuantes no Setenário Sagrado, Essência Divina que chega até nós através das Sete Essências Sagradas: Cristalina, Mineral, Vegetal, Ígnea, Eólica, Telúrica e Aquática. Em termos simples, o Setenário se manifesta na terra, na água, no fogo, no ar, nos minerais, nos vegetais e nos cristais. Nada caminha para fora do Setenário Sagrado, porquanto Nele está a Manifestação de Deus que irradia para todo ser vivente.

Ainda conforme o autor, encontramos correlações entre o Setenário Sagrado e os Sete Sentidos da vida: Fé (Essência Cristalina), Amor (Essência Mineral), Conhecimento (Essência Vegetal), Justiça (Essência Ígnea), Lei (Essência Aérea), Razão (Essência Telúrica) e Geração (Essência Aquática). Contemplamos, assim, a vasta sabedoria desse Grau Manifestador do Mistério Divino, denominado preto-velho, haja vista Saraceni descrevê-los como entidades presentes nas Sete Linhas de Umbanda, colaborando para a Evolução Maior.

No entanto, nem sempre pretas e pretos-velhos são pretos ou velhos. Aprendemos com Saraceni que por terem atingido um elevado grau evolutivo, esses espíritos se manifestam em aparência como pretos que foram escravizados, para nos trazer o exemplo da humildade. Paz, tranquilidade, esperança, paciência e perseverança são ensinados por esses Sábios Espíritos, levando cada pessoa a refletir sobre a sua Casa Interna.

Os pretos-velhos estão entre nós para ensinar a fé e a coragem ante as experiências desafiadoras que vivemos. Independente de crença, os Seus conselhos são lições de vida que nos convidam à Sabedoria ante momentos cruciais. “Êpa preto, sinhá”.

 

Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
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#Opinião – E o teu feminismo, comunidade? É negro mesmo? – por Aline Lisboa

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Práticas de feminismos coloniais são estratégias de divisão para a nossa comunidade. A primeira onda do movimento feminista surge na Inglaterra no final do século XIX, buscando direitos que eram negados às mulheres e concedidos continuamente como forma de privilégio a homens.

O movimento se popularizou com a primeira luta que foi o direito ao voto. As sufragetes, como ficaram conhecidas, encheram as ruas de Londres, foram presas várias vezes, fizeram greve de fome e por fim após a morte de Emily Davison, que se atirou na frente do cavalo do rei, na corrida Derby, esse direito foi conquistado.

O feminismo chega ao Brasil e as sufragetes brasileiras dão início ao movimento em 1910. Assim, em 1932 é promulgado um novo código eleitoral brasileiro, por meio do qual se conquista o direito ao voto das mulheres brasileiras, entretanto mantém-se vetado o direito ao voto de mendigos e ANALFABETOS.

Considerando a primeira Lei da Educação, promulgada em 1837, que proibia negros e negras, ainda que livres, de frequentarem a escola, pode-se dizer que a conquista em 1932 não abarcavm a população de mulheres negras, assim como a de homens negros daquela época, que tinham os seus privilégios na organização social do convívio estrutural, mas com intersecções das relações que também são de raça.

Com a continuidade do movimento, vê-se que há muitas outras lutas com perspectivas que não abarcam as relações de raça e gênero. Urgiu-se, então, a necessidade de tratar dos direitos das mulheres negras, compreendendo as relações de domínio e poder, dentro e fora da comunidade de pessoas negras, pensando assim, as  perspectivas de um feminismo negro.

O feminismo, quando negro, dialoga com as espistemes decoloniais, já que a luta de mulheres brancas não conversa com os esmagamentos sofridos por mulheres negras, assim, como o privilégio de homens brancos são em números, de forma transparente, maiores que o de homens negros.

Tendo assim, nas camadas sociais, homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que trazem consigo lugares de fala, lutas e quando privilégios, diferentes.

Considerando os contextos acima, é importante pensar como o racismo pode atravessar a luta feminista negra, transfigurando-a em um contexto colonial, sendo um enorme fator de divisão na nossa comunidade.

Nós, mulheres negras, irmandade a qual sou pertencente, enfrentamos inúmeros esmagamentos silenciados na luta feminista colonial. Em números alarmantes, os baixos salários, a maternidade solo, o adoecimento físico e mental, a violência obstétrica, a violência sexual, o encarceramento, a marginalização, humilhação e silenciamento são absurdos.

É impossível escrever aqui sobre a necessidade de diálogos do nosso povo, sem dizer que o racismo e o sexismo, atuando juntos, são potentemente destrutivos às vidas de mulheres negras.

Contudo, considera-se importante pensar o atravessamento do racismo ao feminismo colonial, quando as lutas e colocações são atravessadas pelas imagens que controlam a figura de homens negros. A sociedade constrói estereótipos que vem matando aos pouquinhos homens negros todos os dias.

Já escrevi em outro artigo que como educadora, ao conviver com meninos negros, diariamente, os vejo sobrevivendo a um massacre com sorrisos desesperadores no rosto. Se a luta não considera os impactos do racismo ela não é negra, e para mim, nem é luta.

Se o movimento é sobre odiar, perseguir, expor, marginalizar e matar aos poucos os homens negros, esse movimento tem outro nome, é o racismo. A branquitude é firme em averiguar profundamente, perdoar e esquecer com facilidade falhas por vezes absurdas de homens brancos, enquanto relembra, ataca e marca em corpos de homens negros, falhas que por vezes não são nem verdadeiras, pois como já dizia o Ilê Ayiê, “Preto sempre é vilão, até meu bem, provar que não”.

A colonização é estratégica em dividir comunidades que juntas, dialogando, são poderosas no combate. Não podemos deixar que uma luta que nunca dialogou com o lugar das mulheres negras nos sirva para auxiliar a destruição do nosso semelhante.

Que o nosso feminismo seja negro. Defendendo o lugar de fala de mulheres negras, aniquilando qualquer perspectiva construída pelo racismo para qualquer um dos nossos semelhantes dentro da comunidade. O futuro, não está na colônia, o futuro é Sankofa!

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