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#Opinião – De onde vem e para onde vão os corpos negros executados na Bahia? – Por Aline Lisbôa

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No Brasil, o racismo aniquila vidas de forma sistemática todos os dias, ou pior, todas as horas. Desde que esse território foi invadido e se tornou Brasil, exterminar gente preta faz parte dessa história. Na Bahia, os altos índices de assassinatos – cerca de 97,9% dos casos são de vítimas negras – tem um significado ainda mais profundo se consideradas as teorias de marginalização da raça, difundidas por Raimundo Nina Rodrigues, de quem o Instituto Médico Legal (IML) herdou o nome.

Além de todo o processo histórico de colonização e escravização de pessoas negras no Brasil, contextualizado pelo conceito de raça e teorias etnocêntricas da branquitude, aqui na Bahia, no século XIX, difundiu-se também o racismo científico, que teoriza, sem nenhum fundamento comprobatório, a marginalização e inferioridade da raça negra e até mesmo destacava, através da medicina legal, que as diferentes raças deveriam ser um fator de responsabilidade penal.

Um dos principais percursores do racismo científico no Brasil, sobretudo na Bahia, foi Nina Rodrigues. Como membro da Escola Tropicalista Baiana, onde desenvolveu as suas conjecturas racistas, sem nenhum fundamento concludente, o médico maranhense, elaborou teorias antropológicas pautadas na inferioridade do negro.  Nina também acreditava na mestiçagem como um processo de degradação da sociedade em um futuro distante.

Entretanto, a mais violenta das suas teorias foi fundamentada através da medicina legal, caracterizando a raça supostamente inferior como imatura e violenta, estando assim, mais propícia à criminalidade e sugerindo que se as raças variam, o conceito de crime também se torna relativo.

Os corpos negros executados na Bahia vem deste racismo científico, que alimentou o racismo estrutural no Brasil.

Mesmo sem fundamento algum, os escritos do médico racista eram de bastante prestígio aqui no Brasil, lastreando esse conhecido racismo estrutural que no nosso dia a dia marginaliza a população negra nas ruas da Bahia e de todo o país.  Esse racismo científico do século XIX reflete na estrutura da sociedade atual, que cotidianamente expõe negros e negras a atos vexatórios, através de acusações, falsas suspeitas, abordagens violentas e desproporcionais, tirando-nos, por fim, o direito de ir e vir e à própria vida, matando violentamente negros todos os dias.

A teoria assusta, mas a prática de extermínio da população negra nos becos e vielas do estado é naturalizada a ponto de o Instituto Médico Legal, para onde serão levados esses copos, animalizados, com raízes na teoria de Nina Rodrigues, carregar o seu nome.

Em 2022, a Defensoria Pública do Estado, contra o racismo estrutural, pediu mudança do nome do Instituto, um espaço a serviço da população baiana, que carrega o nome de um indivíduo autodeclarado racista pela suas produções anti-intelectuais de grande impacto negativo à comunidade negra. Aguardamos respostas.

CONTRA O RACISMO ESTRUTURAL QUE TOMBA OS NOSSOS, NENHUM PASSO ATRÁS!

Aline Lisbôa, mulher negra, mãe solo, defensora das possibilidades acadêmicas de mães negras, graduanda em Pedagogia- UNEB, pesquisadora em Racismo Estrutural, Educação e Relacões Étnico Raciais e Letramento Racial.

 

 

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#Opinião – O poder transformador de um mentor: minha gratidão ao professor Helio Santos

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Há momentos na vida em que nos deparamos com pessoas que se tornam faróis em nosso caminho, iluminando nossas trajetórias e transformando nossa jornada de maneiras inimagináveis. Para mim, uma dessas figuras é o Professor Helio Santos. Permita-me compartilhar como sua presença impactante moldou minha vida, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Conheci o Professor Helio através do Instituto Cultural Steve Biko, no âmbito do projeto Portas e Mentes Abertas (POMPA). Desde o primeiro encontro, seu comprometimento com a mudança e sua crença no potencial das pessoas, independentemente de suas origens, foram palpáveis. Para alguém como eu, cuja história se originou na Saramandaia, bairro popular de Salvador e sem perspectivas de desenvolvimento e crescimento econômico, suas palavras foram como uma brisa fresca de esperança.

O impacto de Helio na minha experiência pessoal é inestimável. Ele foi um dos primeiros a enxergar além das circunstâncias habituais, acreditando firmemente que eu poderia transcender expectativas e moldar meu próprio destino. Sua mentoria foi um farol em momentos de escuridão, um guia que me ajudou a superar desafios e a abraçar meu potencial.

Entretanto, seu papel transcende o acadêmico. Durante minha jornada acadêmica, do curso de graduação ao mestrado, Helio Santos não foi apenas um educador. Enquanto um mentor ativo, ele continuou desafiando-me a pensar de forma crítica, influenciando meus valores e impulsionando meu desenvolvimento enquanto um ser pensante comprometido com outras convicções e habilidades.

Para alguém como eu, sem uma rede sólida de apoio, sua contribuição foi e é o alicerce que faz toda a diferença. Helio não apenas moldou minha formação acadêmica, sendo um dos meus principais intelectuais do campo econômico. Ele contribuiu significativamente para meu crescimento pessoal. Sua orientação foi a chave que moldou parte da pessoa que sou hoje.

Estamos a menos de uma semana da entrega do título de doutor Honoris Causa ao mesmo, pela Universidade Federal da Bahia. Trata-se de uma honraria concedida a personalidades que se destacaram singularmente por sua contribuição à cultura, à educação ou à Humanidade. Sob essa ótica, refletir sobre suas realizações notáveis é um exercício inspirador.

Sua habilidade de caminhar ao lado de mulheres que desafiam e questionam, sem se sentir ameaçado, é admirável e rara. Ele é um verdadeiro exemplo de como transformar força e diversidade feminina em vantagem e elemento que as impulsionam e não que deprecia, feito que admiro profundamente.

Expressar minha gratidão ao Professor Helio Santos é um privilégio. Sua orientação foi fundamental para esculpir um futuro além das expectativas limitadas impostas a uma jovem de Saramandaia, sem redes de suporte. Sou eternamente grata por sua presença em minha jornada, por abrir portas e expandir horizontes.

Neste momento, enquanto expresso minha profunda gratidão, desejo ao Professor Helio Santos sucesso contínuo em todas as suas empreitadas. Sua dedicação incansável à luta pela igualdade e sua influência inspiradora nas vidas daqueles que cruzam seu caminho são uma bússola para um mundo mais justo e inclusivo.

A vida nos presenteia com mentores que nos desafiam e nos capacitam a ser mais do que jamais imaginamos. Helio Santos é um desses presentes em minha vida, e por isso, meu agradecimento é eterno diante desta honraria tão emblemática.

Obrigada por tudo, Professor Helio Santos. Suas contribuições vão além do que palavras podem expressar.

Luciane Reis é publicitária, especialista em educação digital pela Faculdade de Educação da UFBA e mestra pela Faculdade de Administração da UFBA. Teve no professor Helio Santos, a partir do POMPA, um aliado em suas diferentes caminhadas.

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#Opinião – Nós, LGBTQIAPN+, existimos! – Por Laina Crisóstosmo

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Ser LGBTQIAPN+ nunca foi seguro, mas nos últimos tempos tem sido ainda mais assustador perceber e sentir o ódio e a vontade que eles tem de nos exterminar. Falam de religião, Bíblia, Deus, amor, mas pregam “cura” para o que não é doença, ou naturalizam nossas violência e morte .

Nossos direitos ainda são muito recentes e é possível listar cada um deles:

1. Retirada do CID que nossa orientação sexual como doença (homossexualismo) da Classificação Internacional de Doenças pela OMS em 1990
2. Tentativa de aprovação do Projeto de Lei 122/2006 que visava criminalizar a LGBTfobia, proposta por Iara Bernardi (PT-SP),
3. Proposta de casamento homoafetivo por Clodovil com o PL 580 em 2007
4. Conquista da União estável 2011 pelo STF
5. Casamento civil equiparado ao casamento previsto no Código Civil em 2013 também pelo STF
6. Conquista do direito ao uso do Nome social em 2016
7. Tipificação do crime de estupro corretivo, crime patricado especialmente contra mulheres lésbicas e pessoas trans como forma de “cura” em 2018 com a Lei de Importunação Sexual
8. Aprovação da Lei de Criminalização da LGBTfobia em 2019 no STF mais uma vez colocando o crime dentro da Lei 7716/89, Lei CAÓ (lei que prevê o crime de racismo)
9. Direito a Doação de sangue por pessoas LGBTQIAPN+ em 2021 em especial para homens gays e pessoas trans e travestis

Parece muito, mas ainda lutamos todos os dias para provar que não só existimos, resistimos, mas que precisamos de políticas públicas, direitos e acessos. Nessa semana estive em Brasília e foi assustador perceber o quanto os fundamentalistas e facistas nos odeiam, sentir isso na pele, nos olhares, nas falas, ver a deputada federal lésbica Daiana Santos adoecer após ataques e precisar fazer uma cirurgia de urgência foi entender o que nos espera mesmo com a derrota de Bolsonaro. A politica dele ainda está extremamente presente em todas as casas legislativas do Brasil e em especial no Congresso Nacional.

A comissão da previdência, assistência social, infância, adolescência e família decidiu derrubar o direito ao casamento LGBTQIAPN+ e isso tem nos movido para algo que é ou deveria ser óbvio: NENHUM DIREITO A MENOS! Imagine desde 2011 nossas famílias podem ser oficializadas e desde então somos mais de 80 mil famílias em todo o Brasil (dados de 2021), de acordo com pesquisas mais de 51% da população brasileira concorda com o casamento civil homoafetivo.

Mas no último dia 19 de setembro o que vimos foi um show de horrores, transfobia, LGBTfobia, violência, ameaças, deboche, desdém com direito ao uso da Bíblia para dizer o que é família, utilização de falas sobre sexo biológico, violação da lei que criminaliza LGBTfobia desde 2019. Estar lá me fez ter medo, ter crise de ansiedade, ter angústia, mas também ter certeza de que nós existimos e TUDO QUE NÓS TEM É NÓS!

Conseguimos suspender a votação, garantimos que no próximo dia 26 de setembro haverá uma audiência pública sobre o tema e no dia 27 de setembro provavelmente será votado. Certamente perderemos, temos poucos dos nossos, mas que são fundamentais para saber quem está do nosso lado e entender que o #OAmorVence, tem vencido e seguirá vencendo!

Passará pela comissão, depois precisa ir ao plenário da Câmara Federal, depois Senado e se passar por tudo isso com aprovação ainda tem a possibilidade do veto de Lula, então nossas famílias vencerão e seguirão a existir, é preciso ter esperança e união entre nós!

O amor vencerá e nós seguiremos lutando na coletividade!

Laina Crisóstomo
Mulher negra, lésbica, gorda, filiada ao PSOL, mãe, candomblecista, antiproibicionista, advogada feminista e popular, fundadora da ONG TamoJuntas, co vereadora na Mandata Coletiva Pretas Por Salvador e procuradora parlamentar da Mulher da Câmara Municipal de Salvador.

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#Opinião – Vamos Falar Sobre Masculinidades? – Por Sérgio Barreto

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Nos dias 01 e 02 de Setembro deste ano recebemos aqui em Salvador o evento “Uma Jornada Com Três Homens Pretos – Trauma, Ritual & a Promessa do Monstruoso”. Os 3 homens pretos, o professor e filósofo, Bayo Akomolafe, o mestre em pensamento sistêmico, Orland Bishop, e o escritor e terapeuta, Resmaa Menaken, objetivaram no encontro refletir com outras pessoas negras, questões como ancestralidade, cura e o futuro da população negra. Participei do primeiro dia, que foi voltado exclusivamente para homens negros, quando se trouxe, de forma visceral, o tema masculinidade para o debate.

Mas do que se trata o termo masculinidade?

Não temos como pensar masculinidade sem pensar nos estudos feministas sobre gênero. É importante desses estudos entendermos que a questão das desigualdades entre homens e mulheres não ocorrem a nível biológico, mas sim como resultado de processos socioculturais nos quais se determina os comportamentos associados à feminilidade ou à masculinidade.

Então o gênero é construído através de mecanismos e práticas culturais que reforçam o que determinados comportamentos são esperados por homens e outros por mulheres, ao mesmo tempo se invalida o que não diz respeito a essa construção. Isso constrói uma rede de privilégios aos homens, gerando dominação masculina. (VALÉRIO; CASTRO; FLORÊNCIO, 2022).

Então a masculinidade pode ser entendida como uma série de comportamentos, ideias, símbolos e sentimentos que constroem o caminho de categorização do indivíduo de acordo com o gênero.

Se constrói a partir de uma relação de poder construída na desigualdade de gênero (sexismo), mas também em relações de desigualdade de raça, etnicidade, sexualidade e geração, por exemplo. Sendo assim, essa masculinidade hegemônica padrão diz respeito a essas práticas que designam o que é esperado.

Connell (2013) sintetiza que o ideal esperado pra esse homem (a partir de uma visão eurocêntrica) é que seja heterossexual, cisgênero, branco, forte, rico, tenha sucesso e poder, esteja sempre no controle das situações, conquiste diversas mulheres, não demonstre muito as emoções e eu complemento: ser cristão, dentre outros atributos. Por aí já vemos um grande problema. E quem não se encaixa nesse perfil?

Gays, homens trans, negros e indígenas, que Kimmel (1998) chamou de masculinidades subalternas, não estariam incluídos na dita masculinidade hegemônica, sendo encarados como uma categoria inferior. Percebamos que o perfil citado reforça o poder de um grupo sobre as outras possibilidades de masculinidades.

Essa construção no imaginário coletivo sobre o que é ser um homem me faz pensar: e homem negro nessa sociedade marcada, construída pela colonização, escravidão, Cristianismo e patriarcado, como se configura?

Não temos como deixar de refletir principalmente no que o processo de sequestro e escravização fez ao povo africano. Destituídos de sua liberdade, cultura, crença e povo ficaram à mercê dos colonizadores.

O processo da diáspora e a sociedade escravagista determinou o lugar do negro usando como referência o branco colonizador. Seu lugar, o lugar da sua cor negra é o da inferioridade.

Frantz Fanon (1952), psiquiatra e ativista, afirmou que “O homem negro não é um homem”. A escravidão tirou do povo africano sua humanidade, colocando-o numa posição de animalização. Os corpos negros masculinos, assim como os femininos, foram objetificados no sentido de servir como força de trabalho, mas também servir sexualmente.

Teriam somente algum valor a partir de determinados padrões, que para o homem negro se resume, na maioria das vezes, ao tamanho do pênis e sua performance sexual.

Para se sentirem pertencentes, homens negros, indígenas, trans e outros corpos masculinos dissidentes buscam se aproximar dessa masculinidade ideal que é baseada no machismo. No entanto, ao tentar reivindicar esse espaço de proximidade, esbarram justamente na estrutura social que privilegia determinado grupo (brancos) e deslegitima o que vem de outros.

Julgamos, por exemplo, que fenômenos como o índice mais alto de homicídios de homens negros, maior número de suicídio de jovens negros do sexo masculino, de falta de comprometimento em assumir a paternidade, seriam por questões do negro ser menos comprometido afetivamente, mais violentos, vagabundos, marginais, irresponsáveis, quando devem ser lidos por um viés interseccional, principalmente pelo aspecto da classe.

Sobre os esforços que os negros fazem para “ser gente”, Neusa Santos (1982) no livro Torna-se Negro afirma que:

“Foi com a disposição básica de ser gente que o negro organizou-se para a ascensão, o que equivale a dizer: foi com a principal determinação de assemelhar-se ao branco – ainda que tendo que deixar de ser negro – que o negro buscou, via ascensão social, tornar-se gente”.

A psiquiatra Neusa Santos traz essa profunda reflexão sobre umas das estratégias que os negros tentam usar para se legitimarem. Porém, percebe-se que mesmo que ascendamos social e culturalmente nunca somos completamente aceitos pela sociedade patriarcal, racista, branca.

No encontro que citei no início do texto, dialogamos que é de extrema importância nos reconectarmos com nossa ancestralidade, com a história de nosso povo. Quando percebemos essa potencialidade, o poder de nossa história desde África; que não precisamos do machismo para nos legitimar; que as mulheres não precisam ser coagidas ou dominadas; que existem várias expressões dessa masculinidade e todas tem seu valor poderemos deixar de nos colocarmos a tentar nos legitimar usando o modelo da branquitude. A viagem não é de volta pra África mas sim para dentro de nós.

Se wo were fi na wosan kofa a yenki – Não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu.

Provérbio Africano.

Sérgio Barreto é psicólogo, negro, gay e macumbeiro. Apaixonado por seres humanos.|sergio_psy@hotmail.com|@sergiobarreto_psicologo

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