Connect with us

Opinião

#Opinião – Celebração da Identidade Afro-Religiosa: Reflexões a partir do Olooja, Por Luciane Reis

Amanda Moreno

Publicado

on

A benção a todas as mais velhas e mais velhos que partejaram o meu nascimento no Axé,  e de tantos outros que estiveram presentes ao chamado de Exu na feira de São Joaquim. A  todas as mães e ancestrais que amparam nossa chegada ao mundo religioso, seja com conteúdos sagrados, valores éticos, estéticos e filosóficos, e que acima de tudo nos permitem caminhar por diversos pontos sem esquecer quem somos e de quem somos.

Ao profetizar o desejo de ver seus filhos “De anel no dedo e aos pés de Xangô”, Mãe Aninha nos pede que não esqueçamos que temos e devemos andar em lugares caros, sem esquecer os mais simples onde nosso povo se encontra. O orixá pode até usar roupas caras ao adentrar o barracão, mas ainda assim entra descalço, lembrando-nos que nossa ancestralidade não pode deixar de estar conectada com o nosso povo. Ouvi isso do babalorixá que me iniciou e nunca esqueci.

É claro que devemos viver com qualidade e frequentando os mais ricos espaços, mas pela justiça de Xangô não esqueçamos que nossa voz é para nos sustentar, mas também para ajudar quem se parece conosco e precisa.

Albino Apolinario, morador do centro histórico de Salvador e um dos primeiros donos de um bar voltado para o reggae, sempre me lembra da importância do nosso conhecimento fazer parte dos espaços onde os nossos menos favorecidos se encontram.

Adentrar e ter acesso a lugares mais sofisticados não pode ser o elemento que nos afasta das festas mais simples de nossa origem. Um exemplo belíssimo e que muito me encantou no fim de semana durante o Olooja, evento em celebração a Exu organizado pela Casa do Mensageiro em parceria com outros terreiros de Salvador, foi ver a dançarina Edilene Alves no palco do evento.

Mais do que profissionalismo, eu vi uma mulher negra lindíssima dançando para seu público com a mesma disposição e alegria que a vejo no carnaval, camarotes, e claro, gravação de clipe dos mais diversos artistas. Edilene, ao bailar no palco do Olooja, me lembrou dessa frase de Mãe Aninha e das diversas interpretações que ela nos oferece a partir das nossas áreas de atuação e possibilidades de ocupação de espaço.

Seu riso e prazer em estar naquele momento foram um verdadeiro presente de orixá. Da mesma forma, foi ver o Ilê Aiyê se apresentando no evento. Apesar da estrutura de palco e iluminação,  ver a entrega dos cantores e suas dançarinas deixou nítido por que 50 anos não são 50 dias.

Celebração da Identidade Afro-Religiosa: Reflexões a partir do Olooja

Celebração da Identidade Afro-Religiosa: Reflexões a partir do Olooja

Peço licença para dizer: Mãe Hilda, obrigada. Seu candomblé se mantém firme e forte, e seu legado matriarcal neste que consideramos o mais belo dos belos só demonstra o impacto do Ilê Aiyê para o povo de terreiro. Por que isso é importante? Porque o Ilê fez 50 anos rompendo paradigmas, conhece países importantes do mundo, toca em lugares considerados caros e da nata da sociedade, mas neste dia, entregou seu creme de la creme para sua comunidade em uma estrutura que, dentro dos diversos espaços que ele já esteve, era a mais simples em estrutura de show, mas rica e sofisticada em recepção e confirmação de que ele tem a força não só por ser o primeiro, mas sim um quilombo de negros de luz.

É óbvio que, como todo projeto nosso, ainda temos muito a melhorar. Mas o Ilê Aiyê que eu vi no Olooja só provou que se Exu é por nós, quem será contra nós? O Olooja levou para o palco, que obviamente nos próximos anos  reforço precisa dialogar com os órgãos públicos a disponibilidade de uma estrutura real, inclusive de iluminação, um Ilê Aiyê que me permitiu rever depois de muitos anos sua concepção de comunidade.

Graça e Jaoci não estavam cantando, eles deram um verdadeiro espetáculo e mostraram que o respeito com seu público podem estar nos grandes castelos e espaços que hoje se consideram anti-racistas e tocar com uma explosão de emoção para sua comunidade.

Ser parte do que movimenta nossa comunidade, é entender o que Vanda Machado chama de esforço para viver em conexão com o que nos é simbólico, sem deixar de materializar o que é importante ao bem comum. O Ilê Aiyê provou durante o Olooja porque ele não é uma banda comercial como tantas que existem, e que tem na cultura negra seu momento de fortalecimento econômico sem contrapartida social.

Em tempos de ESG, conscientização racial permanente e uso dos espaços sagrados como moeda de troca política e de ascensão social, entender o sentido da religião e convivência comunitária a partir do fortalecimento de sua cultura, é algo a ser valorizado e observado com muita atenção.

Quem é o Ilê Aiyê? O negrume da noite que não esqueceu quem te guia e esta é uma razão pela qual se faz necessário distinguir as peculiaridades dos afoxés e blocos afros de matriz africana como lugar de resistência política, proteção e cuidado com o outro enquanto baila e exalta suas histórias.

Afinal, da mesma forma que os orixás, os blocos afros e afoxés, a partir de sua música, nos levam de volta a histórias não contadas, esquecidas e invisibilizadas.

Exu é vida.

Laroye!!

Luciane Reis, Publicitária, Design Instrucional e Mestra em Desenvolvimento e Gestão Ciags- UFBA. Pesquisadora da História Econômica Negra

Opinião

#Opinião – Uma questão planetária – Por Armando Januário

Avatar

Publicado

on

Somos uma sociedade ainda distante do amor genuíno. Moramos em uma Casa onde o outro é a ameaça, o estranho, o inimigo. Essas fobias nos afastam do Deus que somos, porquanto “[…] o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme, não chegou à perfeição do amor” (1 João 4:18).

Enquanto escrevo, pessoas LGBTQIAPN[1]+ certamente sofreram alguma violência, sendo privadas de acessar cidadania e dignidade. Pessoas que a partir das suas identidades de gênero e/ou orientações sexuais nos convocam a aprender que somos espíritos encarnados, em experiências previamente planejadas, visando nossa evolução para além de visões extremistas.

Estamos em uma Transição Planetária[2] e é exatamente nesse pormenor que a população LGBTQIAPN+, desde A Revolta de Stonewall em 1969[3] – liderada pelas travestis Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera – nos convoca a repensar essa modelos de colonização psíquica, que, até o momento, servem apenas para aprisionar, muitos deles em nome de um Deus vingativo, sedento para castigar.

Somos chamados pelas pessoas LGBTQIAPN+ a conhecer o humano para além de critérios biomédicos, os quais embora úteis, são classificações limitadas, haja vista não se atentar para as subjetividades próprias da nossa espécie. Neste sentido, como Buscadores da Verdade, devemos amar, respeitar e acolher as pessoas LGBTQIAPN+ em sua tarefa espiritual de convocar a família humana para exercitar diariamente o amor sobre todas as coisas, tal qual o Mestre Jesus nos ensinou em João 15:17: “Isto vos mando: amai-vos uns aos outros”.

[1] A sigla se refere a lésbicas; gays; bissexuais; travestis e transexuais; queers[1]; intersexuais; assexuais, andróginos e agêneros; pansexuais e não-binários. O termo queer significa estranho e foi utilizado como ataque a população LGBTQIAPN+. Entretanto, a própria comunidade, em um movimento de luta pelos seus direitos, tomou esse termo para si, em uma referência às pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade, a imposição compulsória da heterossexualidade e da cisgeneridade.
[2] Transição Planetária é um termo que define o árduo processo de encerramento de um padrão de consciência atrasado, para o advento da fraternidade universal e da supremacia do Bem. Sugiro a leitura da obra Transição Planetária, psicografia de Divaldo Franco, ditada pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda e publicada em 2008.
[3] No ano de 1969, as batidas policiais em bares com clientela homossexual eram constantes em Manhattan, Nova York: agentes da segurança pública adentravam a esses espaços, espancando clientes e profissionais dos bares. Todavia, na madrugada de 28 de junho de 1969, durante uma operação policial no bar Stonewall Inn, os clientes reagiram, expulsando a polícia, em um conflito que se arrastou até o dia 03 de julho de 1969. Acontecia ali a Revolta de Stonewall, dando origem ao atual Movimento LGBTQIAPN+.
Armando Januário dos Santos é Trabalhador da Luz, Mestre em Psicologia, Psicólogo (CRP-03/20912) e Palestrante. Contato: (71) 98108-4943 (WhatsApp).
Continue Reading

Opinião

#Opinião – Por que racializar a terapia? – Por George Barbosa

Avatar

Publicado

on

Ainda há muitos questionamentos, principalmente entre não-negros, sobre o motivo pelo qual surgiu, dentro da Psicologia,  a necessidade em discutir, estudar e pesquisar sobre  a saúde mental da população negra. Acredita-se que a psiquê humana é uma só e que a ciência abarca a todos. No entanto, a ciência sempre foi e continua sendo utilizada como ferramenta do racismo.

A exemplo da frenologia que não muito obstante, defendia a ideia de que pessoas negras possuem traços neurológicos que o colocam em situação de submissão. Basicamente como se a era escravagista tivesse surgido por conta dessa “habilidade inata” das pessoas de cor.

As religiões também foram utilizadas na perseguição, extermínio e o “apagamento” de pessoas negras. A exemplo do catequismo feito aos povos indígenas que já tinham suas próprias crenças e divindades. Foram forçados a catequizar-se para serem aceitos por um Deus que em tese, eles nem conheciam.

Levando em consideração que a ciência engloba: educação, medicina, saúde, nutrição, política etc…É o suficiente para reconhecer que a formação mental de um sujeito que tenha suas possibilidades e estímulos afunilados por um contexto racista é adoecedora.

Em outras palavras, um indivíduo de cor, não tem nenhuma desvantagem cognitiva ou genética, mas encontra-se em desvantagem no mundo desde o processo do seu nascimento. Até porquê as maiores taxas de erro médico e violência obstétrica apontam que pessoas negras estão estatisticamente mais vulneráveis do que pessoas brancas. Em suma, quanto mais retinta for a sua melanina, maior será a sua exposição aos diversos tipos de violência e microviolência em nossa sociedade.

Logo… Não! A pessoa negra não tem a mesma formação de psiquê uma vez que o contexto modela o comportamento do sujeito. Se por um lado as pessoas brancas detêm possibilidades, heranças coloniais, sobrenomes invejáveis, a religião mais aceita, o saber científico mais utilizado no nosso processo educativo, dentre tá das outras vantagens e privilégios, então a psiquê da pessoa negra precisa de um cuidado ímpar.

E isso, apenas um profissional antirracista que compreenda essas estruturas e simbologias genocidas irá conseguir mapear, compreender para assim, melhor auxiliar seu analisado.

George Barbosa – Psicólogo Clínico e Fundador Projeto Terapia no Bairro

Continue Reading

Artigos

#Opinião – João: um sol místico na Judeia – Por Armando Januário

Avatar

Publicado

on

Entre os santos mais populares do Brasil, São João Batista é uma das figuras mais importantes na tradição judaico-cristã. Reverenciado pela cultura nordestina nas celebrações de junho, o Batizador de Jesus, desde os primórdios da sua existência, cultivou intimidade com os arcanos da Sabedoria Universal.

João foi educado nos preceitos judaicos e logo adentrou ao nazireado, costume típico do judaísmo, no qual algumas famílias destinavam seus filhos para uma vida ascética: os nazireus deixavam crescer a barba e os cabelos, se privavam de bebidas alcoólicas e uvas, e não tocavam em cadáveres. Essa moral era o caminho encontrado para a introdução em conhecimentos profundos sobre A Energia Criativa. O Batista afirmava que batizava em água, contudo, viria Aquele que batizaria em fogo, sendo maior que ele (Mateus 3:11). Essa passagem bíblica dá a entender que João já conhecia a iminente Manifestação Crística em Jesus de Nazaré. Com efeito, ele é o filho de Isabel, que ainda no ventre da sua mãe, pula de júbilo quando ela ouve a saudação de Maria, grávida de Jesus (Lucas 1:41-44). Esse momento indica que João e Jesus se conheciam de outras existências.

Antes de o imperador Justiniano, no Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 553, condenar a reencarnação, o cristianismo primitivo encarava a pluralidade das existências como realidade. Por isso, quando Jesus afirmou que João “[..] é Elias, que havia de vir” (Mateus 11:14), o Mestre alude a vida pregressa do Batista, algo que certamente não causou surpresa aos presentes. A própria encarnação de João, anunciada pelo anjo Gabriel confirma a existência pretérita de João como Elias: “[…] e [João] irá adiante dele com o espírito e a virtude de Elias, a fim de reconduzir os corações dos pais para os filhos” (Lucas 1:13).

João Batista é uma figura tão especial que os festejos em sua homenagem uniram certas tradições antigas[1], na qual a data está inserida no solstício de verão, quando o ângulo do sol se distancia ao máximo da Terra. Esse fenômeno ocorre apenas duas vezes por ano: em junho, no Hemisfério Norte e em dezembro, no Hemisfério Sul. Temos, portanto, dois sóis: João, o sol que vem para anunciar a chegada de outro sol, reluzente e soberano: Jesus, o Cristo Planetário.

[1] Os celtas comemoravam o solstício de verão em honra ao deus Sol, para o qual pediam proteção contra maus espíritos e pragas nas colheitas. As festas incluíam fogueiras e fartura, apontando para o desejo de prosperidade espiritual e física.

Continue Reading
Advertisement
Vídeo Sem Som

EM ALTA