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Literatura

Flipeba celebra ancestralidade e literatura em outubro

Ana Paula Nobre

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Festa Literária de Boipeba
Foto: Acervo Flipeba

A 3ª edição da Festa Literária de Boipeba (Flipeba) acontece entre os dias 9 e 12 de outubro, na ilha de Boipeba, localizada no município de Cairu, região do Baixo Sul da Bahia. O evento reúne escritores, artistas, estudantes e professores da rede municipal e estadual de ensino, além de moradores e turistas que visitam o local. Com o tema “Histórias Ancestrais: a literatura como ponte entre passado, presente e futuro”, a Festa terá mais de 30 atividades, entre oficinas educativas, contações de histórias, mesas literárias, mostra de cinema, lançamentos literários, performances, apresentações musicais e exposições. O evento é totalmente aberto, gratuito e conta com o apoio da Lei Paulo Gustavo através da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).

“Essa edição da Flipeba é a consolidação do trabalho de três anos que articulou a comunidade local, instituições públicas, a escola, artistas de diferentes áreas, o turismo e o comércio. É uma enorme alegria e um momento de celebração colocar a Festa na rua, mobilizando uma enorme rede na ilha em prol da educação e da cultura”, destaca Gilvan Reis, um dos coordenadores do evento.

Entre os nomes já anunciados para a atividade estão o da escritora e atriz Cássia Vale, da multiartista Kauê Guajajara, do roteirista Fil Braz, do poeta Lucas de Matos, do DJ e produtor musical Eric Terena, da escritora e idealizadora do Slam das Minas, Nega Fyah, do jornalista Uran Rodrigues, além dos artistas locais e da região, como rapper Yago Chefe, Jenice e o grupo Raízes do Mangue, Fredinho O Louco. Nessa edição também ocorrerá o lançamento do livro de poesias dos estudantes da Escola Cândido Meireles – Anexo Boipeba, além do videoclipe “Moreré Amor É”, de Paulinho Lima e Vinícius Santana.

Poeta Lucas de Matos | Foto: Acervo Flipeba

Oficina de Grafite e parceria com Amazônia de Pé 

Como parte das ações continuadas, a Flipeba promoveu, no começo de setembro, em parceria com o projeto Amazônia de Pé, a Virada Cultural. O objetivo foi participar da mobilização nacional em defesa da floresta, reconhecendo os saberes de comunidades tradicionais na proteção da natureza. Essa foi a segunda ação realizada pela Flipeba neste segundo semestre. Na última semana de agosto, aconteceu a oficina de grafite na Biblioteca Eu Acredito do Centro Cultural comandada pelo artista grafiteiro Gutemberg Sollys, com a participação de 50 estudantes do ensino médio da Escola Estadual Cândido Meireles (Anexo Boipeba).

O tema escolhido para o mural foi “Mulheres da Independência”, uma homenagem às heroínas baianas que lutaram na Independência da Bahia. “Desenvolver a educação continuada e plural é um dever social e a Flipeba tem trilhado esse caminho tão importante para todas as gerações, mas, especialmente, com os nossos alunos e os jovens aqui da ilha”, afirmou a professora Cátia Suzete, uma das coordenadoras do evento. A programação completa e informações sobre o evento como transporte, hospedagem, dicas de lazer e turismo na ilha podem ser conferidas no Instagram @flipeba.

SERVIÇO

O quê: Festa Literária de Boipeba (Flipeba)
Quando: De 9 a 12 de outubro
Onde: Ilha de Boipeba, Cairu-BA
Quanto: Gratuito

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Literatura

Amanda Braga lança livro infantil sobre ancestralidade negra

Kelly Bouéres

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Amanda Braga

Com o objetivo de fortalecer a autoestima e o senso de identidade de crianças negras, a ilustradora e escritora baiana Amanda Braga apresenta o livro infantil “De onde veio o vovô?”, obra que será lançada nesta quarta-feira (8), às 9h, no Centro Educacional Santo Antônio (CESA), em Simões Filho (BA). Para participar, é necessário confirmar a presença, de forma gratuita, por meio do e-mail braga.amandda@gmail.com

O livro narra a história de Lu, uma criança que recebe uma tarefa especial da escola: criar uma árvore genealógica da família e contar a história de seus antepassados. É a partir disso que ela embarca em conversas com a mãe, que guarda várias memórias da infância, e com o pai, que por ter tido uma criação difícil, reluta em relembrar esse período, mas depois se permite conhecer mais sobre a riqueza de seus antecessores. 

 

A narrativa é inspirada no avô paterno da autora, cuja ascendência remonta aos negros escravizados que viveram na cidade de São Félix (BA) nos séculos 19 e 20.

Além dessa motivação pessoal, o trabalho foi impulsionado pelas necessidades sociais de discutir esse tema, considerando o acesso limitado que ainda se tem às origens de antepassados vindos da África, em contraste com a maior facilidade de acesso às histórias de antepassados oriundos da Europa”, diz Amanda. 

 

PROGRAMAÇÃO

No evento, cerca de 50 alunos poderão acompanhar atividades que dialogam com o universo da história. Haverá a contação do livro feita por Niní Kemba Náyò, ao lado do intérprete de Libras Atanael Weber, além de duas oficinas criativas: a de bonecas Abayomi, conduzida por Niní, e a de aquarela, facilitada por Carla Juliana.

 

LIVROS GRATUITOS PARA PROFESSORES

Como parte do objetivo de disseminar histórias representativas entre as crianças baianas, exemplares do livro “De onde veio o vovô?” também serão distribuídos de forma gratuita para professores da rede pública de ensino da Bahia. A chamada aberta para o recebimento será divulgada em breve, mas os interessados já podem fazer reservas pelo e-mail braga.amandda@gmail.com.

SERVIÇO

Lançamento do livro infantil “De onde vem o vovô”, de Amanda Braga

Quando: 8 de julho, às 9h

Onde: Centro Educacional Santo Antônio (CESA)  – Av. Eng. Valter Aragão, 182-258 – Alto da Boa Vista, Simões Filho (BA)

Entrada gratuita mediante confirmação por meio do e-mail braga.amandda@gmail.com

SOBRE A AUTORA

Amanda Braga é formada em design pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua nas áreas de design editorial e de comunicação focado na construção de narrativas visuais, com um olhar sensível para questões sociais e culturais. Busca explorar temas como identidade, ancestralidade e cultura brasileira, sempre aliando conceito, estética e clareza na comunicação.

Instagram: @mandarts_

Site: www.mandarts.com.br

Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado. 

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Literatura

Carla Pita estreia na literatura com ‘O abraço da víbora-do-Gabão’

Kelly Bouéres

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Carla Pita
Roberto Ribeiro

No dia 24 de julho (sexta-feira), às 19h, a Casa do Olodum será palco de um lançamento literário duplamente festivo. A conselheira da instituição, pedagoga afrocentrada e contadora de histórias, Carla Pita, celebra seus 50 anos estreando na literatura com ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’. Ilustrada pelo  escritor e ilustrador carioca Edson Souza, a obra marca o nascimento da Editora Irê Afropedagogia e abre as portas da Trilogia Ndoki.

Tecido na encruzilhada entre a literatura mágico-encantada, a ancestralidade africana e a tradição oral dos terreiros, o livro é um manifesto de literatura de cura. As histórias são baseadas nas vivências de Carla Pita em Angola e em comunidades tradicionais de terreiro na Bahia. “Trabalhei e vivi na Angola profunda, de Cabinda ao Cunene, durante muitos anos; um reencontro ancestral que se tornou o grande divisor de águas da minha vida”, destaca. 

Mas, essa imersão também trouxe dor e impotência à autora, que testemunhou graves violações de direitos contra crianças, mulheres e anciãos acusados de feitiçaria. “As violências e a consequente exclusão social crescem em toda a África Subsaariana. Suas raízes são truculentas, plantadas pelo colonialismo europeu e alimentadas hoje pela expansão de igrejas neopentecostais, cujos discursos incendiários de seus líderes associam a pobreza e a doença a ‘espíritos malignos’, marginalizando curandeiros, kimbandeiros, sobas e terapeutas tradicionais”, conta.

Escrever foi a resposta a essa realidade. No livro, o leitor será conduzido pela sabedoria ancestral africana, através de elementos afrofuturistas, e provocado a olhar o mundo por outra perspectiva, no qual a harmonia do corpo, da mente e da comunidade depende do respeito, da escuta e do vínculo inquebrantável com os nossos antepassados.

SERVIÇO:

  • O que: Lançamento do livro ‘O abraço da Víbora-do-Gabão e outros sete contos mágico-encantados’ (Editora Irê, 63 páginas), de Carla Pita, com ilustrações de Edson Souza

  • Quando: 24 de julho de 2026 (sexta-feira), às 19h

  • Onde: Casa do Olodum, Rua Gregório de Matos, 22, Pelourinho, Salvador 

  • Público-alvo: Jovens, adultos, educadores e público geral

  • Quanto: Entrada gratuita Livro: R$ 70,00

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Literatura

#Entrevista com Bia Barreto – Afrobeto e o avanço do Afroletramento

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Bia Barreto Afrobeto

Ler o mundo sem esquecer quem se é..

Com mais de 10 mil livretos distribuídos e alcance em cerca de 20 municípios baianos, o projeto de afroletramento “Afrobeto” consolida-se como uma das principais tecnologias educacionais voltadas à alfabetização antirracista na Bahia. Idealizado pela educadora Bianca Barreto do Nascimento, conhecida como Bia Barreto ou Afroprof, o projeto nasceu para que crianças negras possam crescer valorizando sua história e construindo sua identidade desde os primeiros passos da alfabetização.

Eu não criei o Afrobeto para ensinar apenas o alfabeto. Criei para alfabetizar o olhar da sociedade sobre a população negra e garantir que nossas crianças aprendam a ler o mundo sem desaprender quem são.

Quem é Bia Barreto?

Soteropolitana com trajetória marcada pela pluralidade, é graduada em Educação Física e em Engenharia de Produção, técnica em Refrigeração Industrial, mestra em Educação e doutoranda em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde pesquisa cultura negra, ancestralidade e saberes populares.

Na educação básica, leciona na Escola Municipal da Cidade Nova (Salvador) e no Centro Educacional Joaquim Alves Cruz Rios (São Francisco do Conde). No ensino superior, atua como monitora da disciplina sobre educação e comunidades de terreiro na UFBA. Além das salas de aula, trabalha com formação continuada de professores, ministra palestras e presta consultorias corporativas sobre afroletramento, trabalho que a levou a ser finalista estadual do Prêmio Sebrae Educador Transformador 2024 e palestrante no III ESG Fórum Salvador.

Contexto e a Lei 10.639/03

A iniciativa ganha projeção no momento em que a efetivação da Lei 10.639/03 retorna ao centro do debate público, impulsionada por recentes conflitos pedagógicos em escolas do país e por dados da PNAD Contínua do IBGE, que apontam que a taxa de analfabetismo entre a população preta ou parda (6,5%) ainda é mais que o dobro da registrada entre brancos (2,8%).

Somado à desigualdade nos números, o primeiro semestre de 2026 expôs o tamanho da resistência que os educadores enfrentam no dia a dia. Recentemente, repercutiu em todo o país o caso da EMEI Antônio Bento, em São Paulo, onde policiais militares armados entraram na unidade de educação infantil após um pai questionar uma atividade de leitura e desenho inspirada na orixá Iansã. O episódio, que terminou com o indiciamento do pai por intolerância religiosa, evidenciou como debates pedagógicos têm sido atravessados pelo racismo religioso.

“Para o ministro Flávio Dino, essa notícia serve para demonstrar que a dureza, a contundência, incisiva da declaração se justifica quando, repito, não por fato isolado. Doze policiais militares armados, um deles com metralhadora, circularam pela escola após denúncia feita pelo pai de um aluno. Segundo esse pai, a escola estaria obrigando a criança ter aula de religião africana por conta de um desenho com nome “Iansã”. O ministro ressalta, “ do continente africano nós estudamos só o Egito, no ensino médio, sem lembrar que fica na África…da África subsaariana para baixo de onde se forma o Brasil, não se estuda nada, até os dias de hoje…””

Esse não é um caso isolado. O período também foi marcado com a condenação de um responsável em Itapema (Santa Catarina) por injúria e racismo após atacar uma professora por ministrar conteúdos afrorreferenciados.

Para Bia Barreto, situações assim só mostram que o trabalho antirracista precisa ser estrutural e diário, começando logo nos primeiros passos da vida escolar. “Educação antirracista não começa na denúncia. Começa na alfabetização. É por isso que o Afrobeto existe.”

Metodologia integrada

Mais do que um material didático, o Afrobeto reúne formação continuada para educadores, oficinas e acompanhamento pedagógico alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O projeto já circulou por Salvador, Guanambi, Caetité, Candeias, além de registrar experiências em João Pessoa e Minas Gerais.

Bia defende que o afroletramento integre as políticas públicas de forma permanente: “O desafio atual não é criar novas leis, mas garantir a efetiva implementação da Lei 10.639/03 em todas as etapas da educação básica”.

ENTREVISTA

O que é afroletramento?

Bia Barreto: É um processo educativo que alfabetiza e forma sujeitos a partir de referências negras, africanas e afro-brasileiras. Mais do que ensinar letras e palavras, promove identidade, memória, ancestralidade e combate ao racismo, criando caminhos para que todas as crianças possam aprender vendo a população negra representada de forma positiva.

 Como o Afrobeto atua na alfabetização e na educação antirracista?

Bia Barreto: O Afrobeto alfabetiza a partir de um universo visual, simbólico e cultural afrorreferenciado. O projeto trabalha a leitura, a escrita, a oralidade e a coordenação motora ao mesmo tempo em que apresenta personalidades negras e saberes ancestrais, permitindo que os próprios alunos se tornem coautores do material.

Sob o lema “Para cada letra do alfabeto, diversos elementos afrorreferenciados!”, a iniciativa conta com materiais divididos nas frentes Linha Afrobetos e Linha Afrogoods, além do Afrobeto em Braille, desenvolvido para incluir crianças cegas ou com baixa visão. São tecnologias de baixo custo que contribuem diretamente para a aplicação das Leis 10.639/03 e 11.645/08 no cotidiano escolar.

 Como o projeto prepara os educadores para aplicar o afroletramento?

Bia Barreto: Articulamos recursos didáticos, formação continuada e acompanhamento. Muitos professores desejam desenvolver práticas antirracistas, mas não tiveram essa formação na graduação; o Afrobeto preenche essa lacuna. Nosso objetivo é que o professor deixe de enxergar a pauta como uma ação pontual de novembro e passe a compreendê-la como parte do fazer pedagógico diário.

 O projeto já alcançou mais de 100 escolas. Como está essa expansão?

Bia Barreto: A maior parte acontece nas redes públicas municipais e estaduais, mas notamos um crescimento expressivo no interesse da rede privada. Escolas particulares têm nos buscado diante da compreensão de que a educação antirracista é um compromisso de toda a sociedade.

 Existe alguma história marcante vivida por uma criança ao conhecer o Afrobeto? Bia Barreto: Existem muitas cenas, mas uma delas resume bem o projeto. Durante uma atividade, uma criança negra folheava o material, levantou os olhos, sorriu e disse que o livro parecia com ela. Pode parecer uma frase simples, mas carrega uma dimensão histórica enorme. Por muito tempo, crianças negras abriram livros e não encontraram seus traços, seus cabelos ou suas referências de maneira positiva. É o que chamo de encantamento: quando a criança se reconhece no currículo, ela compreende que pertence à escola.

 Qual é o futuro do Afrobeto?

Bia Barreto: Meu desejo é que ele se consolide como uma política pública de educação. Quando falamos em afroletramento, não estamos beneficiando apenas crianças negras, mas formando cidadãos mais conscientes e preparados para construir uma sociedade mais democrática.

 

Texto de Wal Melo (DRT 0006980/BA) – Jornalista 

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